domingo, 4 de outubro de 2015

Uma família com três meninas

Pedro, hoje não é necessário o telefone. E agora que todos já dormem, apetece-me escrever-te. 
Quando me contaste que a família que vinha tinha três meninas pequeninas, eu chorei. De tantas combinações possíveis, quais as probabilidades de ser a mesma que a tua? Todas. Seria a minha resposta agora. O universo dá umas respostas que nos desarmam, outras simplesmente nos fazem sorrir (ou chorar de alegria). 
O casal Ali e Nada e as suas três meninas não sabem falar português, mas sabem a palavra PORTUGAL, porque na sua terra portukal significa laranja. Fiquei feliz ao saber isso. Se fechar os olhos e pensar em laranjas sorrio: ocorre-me a cor linda e vibrante, e ainda antes o cheiro satisfeito da casca rugosa e até mais ainda, o doce sabor sumarento. Não é magnífico pensar que uma palavra que para mim é positiva noutra língua se diz como portugal? 
Ali é alfaiate. Venderam todos os seus bens, transformaram-nos em dinheiro e fugiram não do país que amam, mas de um destino que sabiam ser fatal. Já preparavam a saída da Síria quando souberam que, durante um ataque, o pai do Ali faleceu. Mais força tiveram para apertar as três meninas nos braços e fugirem. Agora em terra com nome de laranjas doces, a Nada soube que a mãe tinha falecido num outro ataque. Ainda assim, o olhar baixo e comedido, que tem é tenaz. A forma de cuidar das suas meninas é tão maternal como a minha ou a sua. O futuro são elas, o que ficou para trás, sabiam, estava perdido. 
Pedro, ouviste quando o Ali, ali em Belém disse um sentir que o arrepiava? Percebeu-se isso nos gestos, no olhar, na forma de apontar, e o tradutor explicou o que ele dizia: o Ali apontava para o céu e abraçava o seu próprio corpo e olhava para o céu de novo atemorizado. 

Como podemos entender o sentir de um sírio, nós que somos do povo de brandos costumes? O Ali falava que escutar o som dos aviões no céu o deixava em pânico. Claro. Lá de onde vem, lá de onde fugiu, um avião no céu é sempre para se despenhar, para espalhar o mal, é a morte do pai, é a vontade de pegar na família e numa mão cheia de quase nada e desaparecer. Tu Pedro, no teu tom muito sereno disseste-lhe em inglês 'next year' asseguraste-lhe que depois do próximo ano, viria um outro próximo ano, que depois viria um outro e que aí esqueceria o som dos aviões. Mas os teus olhos a encherem-se de lágrimas atraiçoaram a tua vontade de apagar esse mal que fizeram a esta gente. Oxalá um dia consigam esquecer, e se não conseguirem, que seja o som das gargalhadas das filhas que os faça sorrir.
Em Belém hoje ouviu-se muito o riso simples dos cachopos. Um esplendor de bolas de sabão no relvado e todas as emoções à solta quando um arco-íris redondinho nos rebentava na cara, refrescando até o sorriso dos adultos.


 As tuas três meninas, Pedro, e as três meninas do Ali e da Nada a esta hora dormem confortáveis e serenas, como todas as crianças do mundo deveriam poder dormir.
Tu Pedro, esta semana fizeste-me crescer. O que me relataste nos nossos telefonemas e como percepcionei o que estava a acontecer a cada momento, era com tamanha dádiva e amor pelo próximo que me fizeste sentir... Aiii, nem sei como alguma vez te poderei explicar como te estou grata. És uma pessoa muito linda, Pedro Lapa!!
E o que tu Pedro e todos vocês fizeram esta semana foi muito mais do que oito mil quilómetros e ajudar quem ajudaram. Falo de outra coisa, e não, nem vou referir como nos desassossegaram o coração. O que todos vocês fizeram foi demonstrar a quem quiser ter a largueza de alma para o assimilar, que cada um de nós pode mexer as peças deste imenso xadrez, cada um de nós pode fazer a diferença, cada um de nós pode e deve sonhar, mas mais além pode fazer acontecer, e quando muitos querem e fazem o mesmo... o mundo pula e avança, e o resto já o sabemos: como uma simples bola de sabão arco-íris nas mãos de muitas das nossas crianças.



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