sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Pintar Autismo com Chocolate

Este é (mais) um projecto da Paula Cascais que eu apoio e gosto de colaborar. A filosofia é simplista. Juntar na mesma frase crianças, chocolate, pintar e brincadeira é garantia de sorrisos e sucesso. Sobre uma bolacha gigantesca três qualidades de chocolate de excelente qualidade: branco, preto e de leite. e ainda o colorido dos mini smarties. Pintar com as mãos é o mote. Venha daí com os seus filhos pequenos e graúdos, todos gostam (gostamos) de meter a mão no chocolate!


reservas para bem-me-quer@kanguru.pt ou por telefone 218476678

FINALMENTE chegou o primeiro do ano!
 Pintar com chocolate  para crianças e pais divertidos! Basta trazer roupa para sujar, vontade de comer chocolate e máquina fotográfica. No coração de Lisboa, no Bem Me Quer, Av. Almirante Reis, 152 das 16 às 18h e o valor por "desenho" 7 € (1 criança e 1 adulto)




Pedro e eu fotografados por Isa Silva


Mas o que mais me toca são as edições especiais para crianças e jovens com autismo. Porque sendo tudo tão sensitivo, o inebriante cheiro e sabor do chocolate quente, adoro observar a repulsa inicial à ideia de meter a mão no chocolate e a surpresa ao perceberem ser chocolate, o provar, primeiro a medo, depois lambuzado, e depois... os desenhos. Tenho várias fotografias que colocarei num slide abaixo tiradas pelos meus queridos amigos Isa Silva e Joel Canavilhas, algumas tiradas pela Paula Cascais e por mim, mas o que a todos nos encantou foi a simplicidade com que estes jovens encararam e se encantaram com o pintar com chocolate. A repetir, sempre. Amanhã estou lá no Bem Me Quer com o meu filho Pedro.



terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Vou fazer sopa!

Todas as terças-feira a palavra de ordem no Bem Me Quer é SOPA!, para ajudar os sem-abrigo da Almirante Reis em parceria com a associação CASA, o Centro de Apoio aos Sem Abrigo

Av. Almirante Reis nº152 loja 1000-052 Lisboa Telf- 218476678

Quer ser solidário? Ajudar? Mesmo sem ser na época do Natal? É simples. A partir das 18:30h apareça no restaurante Bem Me Quer para descascar. Isso mesmo, a sopa não nasce da panela! Se quiser leve ingredientes, é uma forma de contribuir. Mas apareça que há uma faca ou descascador que espera por si. O pesado contentor de sopa (sim, aquilo não é tamanho de panela vulgar)  é levado por voluntários para o Campo das  Cebolas e para o largo em frente à  Igreja de S. Jorge de Arroios onde a sopa é distribuída aos sem-abrigos que já a esperam. Hoje a noite de Lisboa fica menos fria. Bem haja Paula Cascais com esta sua iniciativa!
Já sabe. Todas as terças-feiras, na Almirante Reis 152 a partir das 18:30h ajude a fazer sopa.


Votar com autismo

O Pedro votou. Tranquilo. Já sem o desassossego e novidade da primeira vez que o fez com receio que não o deixassem sem ter de fazer 'cara de não autista' para poder votar.  O Pedro tem 21 anos. É autista até à quinta casa!, é e continuará a ser, uma vez que autismo não tem cura. Mas algo de muito importante mudou. O Pedro é hoje um adulto.


Ao reler o meu próprio relato do que aconteceu no dia que votou pela primeira vez, sorrio, com um sorriso ainda que triste, sabendo que me mantive firme e o Pedro continua sem ter o telemóvel dele.


para ler o post original
de 30 Setembro 2009

Mirrors – Sally Oldfield



Não é segredo.
O meu filho Pedro é um jovem de 20 anos com autismo.
Dos muitos sonhos que tem para uma normalidade perdida, o de votar era apenas mais um.
Hoje concretizou-o.

A imagem é bonita captada por uma mãe orgulhosa? Sim.
Mas nem todos os frames do nosso dia são partilháveis ou passíveis de o querer fazer. Reflecti se queria contar-vos este momento só nosso antes de o escrever. Sendo tão paradigmático, acaba por ser elucidativo desta estranha forma de viver «com autismo» e «com o autismo».
Cedo, mesmo antes dos 18 anos sabia o que queria: «Ser Natural», dizia com uma rara beleza. Aquela com que uma pessoa com autismo pode utilizar o mesmo léxico que todos nós temos à disposição, apenas acrescenta uma pitada de magia, de poesia que nunca nos cansa, nos deixa perplexos, por vezes comovidos, a nós, os a quem o «Ser Normal» nos chega como adquirido, sem sequer o questionarmos.

Apesar de saber o que queria, exactamente por o querer há tanto tempo, fica na sua mente um novelo muito complicado no modo de gerir as emoções.
Numa cabeça não-autista como a nossa, certificar-nos que saberia exactamente o significado de votar, ou se executava o acto com naturalidade, seria o básico.
Não para um autista.
À partida, não votam porque não entendem conceitos subjectivos. Convenhamos, muita da população dita normal não sabe porque vota, ou não o faz de uma forma tão consciente com que eu assisti a meu filho Pedro da responsabilidade todo o acto.
É uma realidade que o Pedro entende, há muito, conceitos e noções difíceis de serem entendidos por uma cabeça autista. Não sei explicar como, mas consegue. Tem opinião própria, argumentos válidos, e eu prometi-lhe nas últimas eleições que o iria ajudar a provar que poderia votar. O faz de conta de entrar na minha cabine e deixá-lo votar no meu boletim, na minha cruzinha, já não lhe chegava, até porque «a mãe vota errado»  sim, ele tem opinião.

O Pedro na sua essência
Todo o procedimento foi simples.
Deixei-o ir sozinho, ficando a observar da porta: com o número de eleitor fotografado no telemóvel, retirado do link da net, de B.I. e caneta na mão, sorriu-me confiante. Eu retribui num calado: “esvoaça, eu estou aqui atrás.”
Todo o procedimento seguiu tão alinhado e correcto, a dificuldade suprema de olhar firme nos olhos das pessoas na mesa de voto, mas saber dar a identificação, agradecer o boletim e piscar-me os olhos, num sorriso só nosso, antes de entrar na cabine de voto. Mas eis que já no finalzinho uma dúvida o atormenta e lhe desfaz o jogo do faz-de-conta-que-não-sou-autista (uma dúvida pertinente e de simples resolução, uma vez compreendida): dobrar duas vezes o boletim de voto ou dobrar em quatro? Ouviu as duas maneiras de dizer o mesmo, baralhou-o em quantas dobras havia de fazer e saiu da cabine meio acabrunhado de boletim dobrado ao meio para proteger a sua privacidade – “sim!, o voto, esse é secreto e o meu, ninguém vê” – e a uma simples frase da senhora que detinha o B.I. dele “dobra outra vez, Pedro” ele cumpriu na perfeição o seu serviço cívico, exerceu o seu direito ao voto. Não resisti a fotografar mais que mentalmente  o momento kodak mais que perfeito e só nessa altura uma das senhoras da mesa olhou para mim enternecida e, momentaneamente, não sei se foi só uma troca de olhares entres mães babadas que se reconhecem, se de condescendência bacoca pelo jovem deficiente que até veio votar. Preferi escolher a primeira hipótese, a gastar energia com outra, e sorri-lhe em sinal de cumplicidade.
Em conversa com a Mina, mãe de um jovem com Asperger, que também hoje foi votar pela primeira vez, a percepção uma situação diferente. Ficamo-nos com o ponto de intersecção de ambos não saberem o mais fácil, num mero olhar distraído: dobrar um boletim de voto.

A cada esquina da minha vida de mãe vem aquela palavrinha – DESCONCERTANTE  – com que escolhi definir o autismo. Não é, nunca vai ser fácil ajudá-lo a gerir a montanha russa constante de emoções que o assaltam e me avassalam por arrasto.
Pensar que num dia bom o iria fazer? Não. Mas o que é um dia bom? Pensei que o poderia fazer? Não nesse momento. Não me ocorreu. Teria impedido, teria evitado, teria…? Pois. Uma bola de cristal também não ajudaria. E se a minha avózinha não tivesse morrido, então… Ahhh! A imprevisibilidade faz parte da minha vida de mãe.
Atirou o telemóvel dele pela janela do 3º andar. Antes que pudesse reagir já o ouvia escaqueirar-se no chão da rua.
Verdade que vejo sempre o lado positivo. “Podia ter sido ele.” O que é um telemóvel? Um objecto, apenas. O Pedro desde sempre que ameaça que se atira pela janela. Este é um facto terrível com que vivo todos os dias da minha vida. Se sendo mãe, fiquei no ganho? Com certeza.
Quem não conhece o autismo tem uma pergunta enorme a brotar: Porquê? É simples. Autismo é um distúrbio de comportamento. Não sabem gerir as suas emoções, não da forma que nós consideramos normalizada. É um facto que ter sabido que poderia ir votar o lançou num turbilhão de sentimentos que não sabe onde os arrumar ou como os conduzir. Ser violento para com um objecto que adora, podendo ser esse os óculos de necessita, um telemóvel que quer ou a mãe que ama, é exactamente igual. É a forma momentânea de se libertar do excesso de stress que não sabe lidar. São «os malucos na cabeça» como com a sua liberdade poética tenta descrever e, acto contínuo, «a cabeça já está calma.»
Que fica muito oneroso repor os objectos? Sem dúvida. Neste caso específico, a minha resposta como mãe e educadora – porque tem capacidade de entendimento – não vou repor, não vai voltar a ter telemóvel. É elementar. Se o objecto ainda não caiu e ele já chora a sua perda, ele sabe, não o castigo – isso não resulta, antes o preço que terá de pagar pelo seu acto: não vai voltar a ter outro.
Acreditei sempre que a meu filho autista tenho de dar a mesma educação que daria se fosse… natural. Vinte anos depois não me digam que estava, estou errada.
Sendo este o lado negro, aquele que não se fala, se esconde, se esquece, há todo o lado bonito e compostinho. Ai que lindo!, o menino conseguiu votar…? Conseguiu sim. Mas quantas conversas tive com ele? As vezes que vimos telejornais juntos, o ouvi expressar-se em casos quentes nas notícias que dia após dia avançavam pela nossa casa dentro sem pedir licença e o vi formular a sua opinião, independente da minha – quantas vezes divergente e saudavelmente a discutíamos? Tempo perdido? Não. Tempo investido. Um autista tem este lado encantador que fomenta o mito urbano de que são seres iluminados e perfeitos. Não são. Como todas as pessoas, não existe só um lado bom ou só um lado mau. Num autista só se torna absolutamente desconcertante constatar que pode ter capacidades de saber fazer algo que uma pessoa “não-autista” nem atinge, mas a caminhar de mão dada com essa capacidade EXTRAORDINÁRIA estão as inapetências de algo tão linear e diverso como apertar sapatos, sorrir, olhar nos olhos do interlocutor ou a estranheza de não saber guardar a distância física considerada socialmente adequada entre pessoas.
Gosto de o ver crescer, de o saber capaz de momentos de naturalidade que o ajudo a valorar (que eu própria sorrio emocionada ao o ver atingir), para que entenda que «o ser normal» vai acontecendo dentro das capacidades e possibilidades de cada um. Mostro-lhe as falhas dos ditos normais, mostro-lhe os feitos dos seus pares. Recorro a exemplos simples (tenho uma lesão numa perna há 6 meses que me faz coxear com mais frequência que desejaria – não está nas minhas mãos o ficar bem – não posso correr, por vezes mal posso andar) e ele entende. Ao compreender, está a crescer. Não é mais o meu bebé, nem o meu menino. Tempo de o deixar ir. Voar, mesmo de asas presas. É um jovem adulto de 20 anos que vai sempre precisar de apoio para ser mais, mas para ser Pedro. E um Pedro feliz. Seja lá o que isso signifique.

Actualização

E, duas semanas depois, o meu filho Pedro votou sem qualquer tipo de impedimento ou problema, como se fosse algo que faz todos os dias.  Novamente em consciência e com um sorriso pleno de alegria. Não o fotografei desta feita. Só mentalmente. Este sorriso já é só meu. Mereço-o.


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

E depois?

Perguntam-me com frequência se vou escrever mais sobre autismo. A resposta é sim.
O livro Autista, quem...? Eu? foi sempre pensado dentro de uma trilogia, mas passiveis de serem lidos separadamente. No segundo romance aparecem-vos as mesma personagens cinco anos depois. O Xico terá 18 anos e à semelhança do que fiz com o Mal Me Quero, irei publicar um cheirinho para os leitores que sei mais curiosos. Desta feita não será um making of mas apenas um cheirinho...

Vou ser-le crescido! Quase que estou a fazer-le 18 anos. Vou logo à escola de condução e pumba!, já tenho carro e carta. Já sei conduzir porque vejo sempre os crescidos como fazem e eu vou fazer-le igual, igual. Depois vou casar e ter-le filhos. E depois, nunca que não vou à escola. Melhor dia! 

Tela pintada por Pedro Lapeira

um abraço do tamanho do mundo para chegar aí desse lado do atlântico, Aninha! Obrigada querida por todo o inesgotável e insano trabalho na elaboração deste renovado site em menos de um fósforo e por todo o seu grafismo que se mantém inevitavelmente de ganga vestido!


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Inícios. Escrever. Sempre!

Nasceu de uma brincadeira tola no Twitter – advogar por um amigo (que em abono da verdade, nem precisava dessa ajuda). Mas a resposta perfeita à provocação que lhe faziam, eu tinha-a escrita e guardada.
Nesse momento apeteceu-me partilhar e à pergunta “Onde posso publicar para lerem?” uma outra voz disse:

“Faz um Blog!”


E até me ajudou durante aquela tarde a construí-lo. Eu nunca quis escrever num Blog, ter um Blog menos ainda! Inicialmente de nome «Blog para que te quero» anunciava-se o meu voltar costas, mas fui mordida pelo bichinho e aterrei no século XXI antes de ter tempo para decidir se realmente o queria fazer. Hoje não volto costas e no dia 14 de Fevereiro, já não sendo Blog, mas tendo crescido a Site – anamartins.com – dou a cara e o nome. Assim mesmo, de ganga vestido.


Porquê dia 14 de Fevereiro?
Não deixa de ser irónico, festejar o aniversário deste meu espaço logo em data que abomino – o dia dos namorados. Mas foi exactamente por isso (a meu ver, namorar, namora-se todos os dias) e tendo um texto jocoso escrito, que veio posteriormente a ser publicado no livro MAL ME QUERO, nasceu nesse mesmo dia o Blog para publicação desse conto inicial. Hoje republico-o, com uma música que gosto escolhida para acompanhar esta leitura.

Cupid – Amy Winehouse



Dia dos Namorados

(ou o Dia-Oficial-do-Manel-levar-a-Maria-à-rua)


Irene já se tinha esquecido: há muito tempo prometera a si própria que nunca mais sairia à noite num dia de namorados. Mas aconteceu. Com amigas, alheadas da comemoração, na sua nova “solteirice”, combinaram ir todas ao Japonês.
Ao entrarem no restaurante habitual depararam-se com um invulgar burburinho – infernal!, nem conseguiam avistar o dono! Todas as mesas estavam preenchidas apenas com casalinhos, até ao redor da zona Teppan-yaki – coisa que pretendiam – estava ocupada por parzinhos, claro!, “restaurammm” da moda e caíam lá todos que nem tordos na noite de saída!
“Socorro! Saímos no Dia-Oficial-do-Manel-levar-a-Maria-à-rua!!!!” – Brincou. Alguém sugeriu mudar de restaurante, mas não adiantaria àquela hora, sem marcação, estariam todos a transbordar de Manéis&Marias.
Antes, imagina-os:
Olhou à volta. Irene não tinha nada a opor ao amor ou a sua celebração, apenas o que chamava de “Dia Oficial”, uma representação patética do que deveria ser, por definição, celebrado todos-os-dias-e-todas-as-noites-das-nossas-vidas.
O Manel pespega uma beijoca à sua Maria logo pela manhã antes de sair para o trabalho – ela falou tanto nisso na véspera, entre o intervalo do futebol e o creme de noite que ele teve pesadelos do mês sem sexo que sabia, ela imporia, se ele ousasse esquecer…
A Maria, nesse dia sorri feliz, usa roupa nova, vai ao cabeleireiro – muita laca, muito caracol – compra um postal cor-de-rosa já preenchido, tipo-basta-assinar e uma prendinha bem fofinha para o seu Manel pôr no carro – coisa que ele jamais usará ao lado do galhardete do seu clube do coração…
O Manel, mais pragmático, compra o que ela discretamente lhe pediu durante a última semana toda, incluindo, a seguir à beijoca matinal sem sumo.
A Maria papagueia com as suas colegas de trabalho onde poderá ser levada mais logo a jantar. Todas graciosamente fazem crer umas às outras que não sabem o local e/ou a prenda.
O Manel, à tardinha, entre bejecas e tremoços, ri com os amigos que, este dia dos paleios cor-de-rosa, até foi uma coisa bem inventada: é uma noite que seguramente elas não irão passar a ferro até tarde, lhes doerá a cabeça ou terão o período…
A Maria já passou em casa da Mãe, depositando os filhos com um bem disposto: “Até amanhã!”
O Manel foi à florista.
A Maria chegou a casa mais cedo, tomou uma chuveirada e rapou os pêlos.
O Manel passou horas na fila da florista, rosnando.
A Maria passa o gloss mais uma vez pelos lábios ainda bonitos e com pouca procura.
O Manel chega a casa com um previsível ramo de rosas vermelhas, reclama por lhe ter custado 50 euros e, claro, «a» prenda.
Ouve-se na casa do Manel e da Maria uma palavra inusitada: Amo-te
Saem para a rua. Está tanto trânsito como de dia. Vão a um restaurante com folhas de papel branco por toalha.
O Manel pensa: “A TV desligada, que má sorte a minha, espero que alguém repare… se digo alguma coisa, lá se vai a queca.”
A Maria suspira: “Ele vestiu a camisa mais velha, logo hoje… qualquer dia rasgo-a e faço panos para os vidros.”
Irene respirou fundo e olhou em volta enquanto ainda esperavam mesa. Sentiu um ambiente dengoso nas mesas. Não se distinguia a música do ruído. Contrastava a elegância dos pratos deste espaço usualmente relaxante, seguro pela perplexidade serena dos empregados com o frenesim de tão inusitados clientes que até pediam, imagine-se… karaoke.
Irene lembrou-se daquela outra noite, não há tantos anos em que ficara inoculada da noite dos namorados. Presa num extraordinário trânsito para aquela hora tardia, olhou à sua volta: Estupefacta, viu o Manel ao volante com a Maria ao lado em todos os carros! Havia a versão casados-há-muitos-anos visivelmente enfadados pela demora e os namoradinhos que ainda disfarçam hostilidades cortesmente. Olhara para o João, o seu marido, para o seu olhar vazio esperando que o trânsito fluísse. Sentiu um arrepio: era apenas mais um Manel, o que, lamentavelmente, fazia dela mais uma Maria.
Decidida a que o Manel e a Maria não lhe estragariam mais nenhuma noite, olhou de novo à volta, desta vez com a sua firmeza acutilante.
O frete.
Estavam todos a fazer frete! Tinham saído à rua somente porque tinham de fazê-lo!… Todos sorriam complacentemente enquanto gramavam polidamente a estopada.
Todos não.
De indicador em riste anunciou, peremptoriamente, às suas amigas cansadas de estar em pé:
“O único casal a sério nesta sala, é aquele ali do canto.”
“Como sabes?” Perguntara a Bárbara.
“Sei. Sinto. São os únicos que estão a conversar.” Argumentou encolhendo os ombros.
Contrapuseram, estando num restaurante repleto de sons estridentes, com outros pares que tagarelavam demasiado alto.
“Estão apenas a falar. Reparem no olhar, estão apenas a falar, não estão a conversar.”
“Na mesa mesmo atrás de nós estão os piores espécimes de Manéis&Marias – sussurrou rindo a Maria Clara enquanto se sentavam – os broncos!
Olhavam causticamente para trás. Versão cromanhon-namoradinhos, diziam à socapa. Tinham de estar dois pares
à mesa! Claro!… aos pares, se não, com quem é que eles haveriam de conversar???
Sem estranheza, Irene ouviu um dos rapazes protestar bem alto, com os pauzinhos em riste, pedindo talheres de gente, o outro palerma reclamar do peixe estar mal passado, uma das Marias dizer que o gengibre eram «pétalas de flores comestíveis», que «tinha lido numa revista» até ao momento hilário em que um comeu de uma só vez o “pistachio”, urrou que nem um urso que o tinham enganado… sem mencionar a boa parte da noite a ouvi-los contar anedotas pouco edificantes sobre mulheres… que apropriado! – pensou – mas o melhor ainda estava para vir. Quando entrou uma figura típica da noite, empunhando a habitual braçada de rosas, uma daquelas Marias deu uma valente murraça na mesa afiançando ferozmente:
“Eu hoje vou querer uma rosa!!!”
Até os outros Manéis&Marias das demais mesas tiveram dificuldade de suster o riso… Resta acrescentar o que já todos sabíamos, se calhar, até ela: não a teve.
A pouco e pouco todos os Maneis e Marias foram saindo. Era noite de festa lá em casa ou no banco traseiro do carro! Há casais que são abusivos durante todo o ano, seja verbal, física ou psicologicamente, mas Deus os livre de não festejarem o dia dos namorados!
Ficaram embrenhadas na conversa boa e no último sake gelado, depois do ritual de sabores nipónicos numa refeição memorável onde, como manda a tradição, nem um único bago de arroz foi desperdiçado, quando o tema de início de conversa, voltou à baila: As únicas mesas ainda ocupadas, agora sim, naquele tranquilo e prazenteiro restaurante, eram apenas a das amigas e a do tal casal do canto.
Ficaram a reparar e comentar ostensivamente nos detalhes sem que nunca sequer dessem conta. Era a mulher que estava virada na direcção delas. Tal como as amigas, não tinha estreado roupa nova, não tinha ido ao cabeleireiro, não havia nenhuma rosa vermelha do ké-frô na mesa.
Era particularmente bonita, como só uma mulher segura de si consegue pôr um lápis a segurar-lhe o cabelo, vestir uma qualquer t-shirt branca com jeans e… estar bem.
Irene entretanto contava uma situação que ouvira num supermercado na véspera. Estava no corredor dos desodorizantes quando tomou atenção numa frase: “Olha, não tenho ideia nenhuma, pode ser já isto? Ficava já despachada para amanhã.” Irene sorrira ao se aperceber que falavam da prenda para o Dia Oficial. Que romantismo!, claramente uma Maria! Continuando as suas compras, ficou com atenção ao diálogo: “…ou então, pode ser este perfume…?, é que nem sequer é caro!”
O grito masculino ecoou pelos corredores:
“N-Ã-Ã-Ã-O!!!!”
As pessoas, às compras, entreolharam-se, mas ninguém se pronunciou quando a discussão estalou. Num casamento, quem vai meter a colher? Irene também olhou por cima do ombro. Pensou que fossem mais velhos, mas era um casal muito novo, reconheceu a vergonha só no tremor do queixo daquela rapariga que continuava a dizer tontices com ar subserviente enquanto ele lhe virava as costas e a deixava a falar para as prateleiras.
Respeito. A ligeira diferenciação entre um casal e um Manel&Maria.
Quando saíram do restaurante, o casal da mesa do canto continuava a conversar. Nunca deram pelas outras pessoas que tanto os observaram.
Irene deu um último relance ao casal antes de sair.
Apeteceu-lhe, por um momento, que soubessem que eram o seu prémio casal da noite, afinal fizeram-na acreditar que não eram apenas os Manéis e as Marias que saltavam para fora de casa nesta noite… mas, sempre soube que casais como este, não celebra o seu Amor apenas porque algum grupo de comerciantes resolveu importar uma moda que nem é nossa para aumentar um pouco mais as vendas – criaram portanto este pomposo evento a comemorar – leia-se a comprar.
Sorriu ao casal da mesa do canto e pensou, apesar de ter escolhido o divórcio para si, viver a dois, vale realmente a pena – quando vale a pena, respirou fundo e imaginou todos os casais que sabem: alimentar o amor é uma tarefa diária, construtiva, constante… todos-os-dias-e-todas-as-noites-das-nossas-vidas.
Podia estar sozinha nessa noite, poderia continuar sozinha na vida, mas Irene sorriu. Enquanto esperavam para pagar, abriu o seu Moleskine e escreveu: “Há, é uma forma diferente de ver e viver a vida, o que nos torna loucos aos olhos dos que levam uma vidinha triste e sem sabor. A nossa, sabe a morangos com chocolate, até, quem sabe, sake e wasabi, se e quando deixamos a parte picante entrar na nossa vida.”


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...