sexta-feira, 20 de março de 2015

Livro Autista 2 - o recomeço

Espicaçando(-me) na retoma de um romance que me vi impossibilitada de escrever por tantos anos, o que os meus leitores continuam a pedir, a esperar pacientemente que o faça, entendendo contudo as minhas motivações (absolutamente pessoais) para o ter interrompido por tantas vezes, tantos recomeços falhados, é uma decisão corajosa, eu sei e sinto-a feroz.
Está-lhes prometido e sei que algum dia o retomarei, seja com mais ou menos distanciamento da minha difícil vida de mãe de autista para me entregar nos braços da ficção sem real ligação à vida que continuará a correr no processo.

Sei o que quero escrever, sei da veemente pressão que tenho no lado real para conseguir deixar espaço à escritora para pensar. O livro em si - de resto a trilogia diria antes - está pensada há anos, desde o primeiro livro AUTISTA, QUEM...? EU? Se prova alguma coisa? Não. Uma coisa é ele estar todinho na minha cabeça, outra, estar no disco rígido. Pode ser um processo real de 15 dias como foi o primeiro, ou como este, que tem demorado anos a sair e estavam igualmente prontos, escritos cá dentro.
Decidir assim, em vésperas de mais um período de férias da Páscoa, faz-me sorrir e pensar que sou completamente doida, mas doidinha estou eu por não escrever. O formigueiro na ponta dos dedos asfixia-me a alma, sufoca-me a garganta num grito calado e preciso, simplesmente recomeçar, retomar uma paixão que tenho deixada afónica, não esquecida, nem adormecida, mas dormente em mim. 
Outro dia numa apresentação falava como me é fácil escrever. É verdade. Sempre foi. Talvez a minha estúpida coerência que não se foi embora com a idade, antes a agudizou, não me deixou prosseguir nos dois temas/livros que tenho igualmente escritos na minha perturbadora mente que não se cala a gritar-me: primeiro este! Poderia ter-me liberto e escrito qualquer um dos outros, qualquer um outro, mas não. Tem de ser a continuação do Autista. Porque tem de ser. Tem de sair de mim. Sei que vou rir e chorar e mais provavelmente vomitar muito até chegar ao bonitinho cenário da mesa de autógrafos que todos anseiam. Este processo visceral é só meu - vá, desejo muito não atacar a cozinha e engordar 10 kgs neste tempo que continuará real, nem posso chamar de "preguiça" um estar que não retomo por envolver tantas emoções contraditórias e violentadas em mim. 
Quem sabe? Gritar por uma ajuda concreta não consigo fazê-lo mais. É um canso, como diz o Pedro. Provoca um desgaste no plano real que me paralisa o criativo. E disso também me canso. O formigueiro. Quem sabe escrevendo vem a libertação. Que os fantasmas assassinam-se na catarse do papel. 
O meu cadeirão lindo chegou - obrigada querido amigo!! - é fruto de uma troca bem gira (das muitas que faço na vida real para viver neste mundo desprovido de dinheiro). Neste caso escolhi um cadeirão colonial em 2ª mão que namoro há séculos e no qual tantas vezes sonhei sentar-me confortavelmente de portátil no colo e simplesmente escrever. Não é mais um anseio. Já o posso chamar de meu. Já o posso fazer, até porque, desta vez, e tendo de novo um outro novo velho computador que espero que o Pedro não parta (e sim, aprendi a (res)guardá-los aos fins-de-semana, feriados e férias escolares quando o meu filho está comigo em casa) - obrigada a outro querido amigo que me telefonou dizendo: estás em casa? Já conseguiste computador? então desce em 10 minutos que passo aí - quero sentar-me no meu cadeirão novo com o meu portátil e retomar o projecto parado em mim. 
E por fim, o clique. Também espicaçada pelo começo de um novo equinócio abençoado por um derriçoso eclipse de Sol e Lua, parece(-me) bem fascinante, até para uma alma preguiçante, se permitir a gana de voltar a escrever.


quarta-feira, 18 de março de 2015

Comboio para onde?

Andar de carro detém-nos a atenção em contraponto com o uso de transportes públicos que nos liberta todos os sentidos na mais despudorada cusquice dos gestos, particularidades e vidas de quem à nossa frente se senta ou ao lado consulta as redes sociais. 
Quedei-me outro dia a observar uns espécimes (que seriam no meu tempo de menina de Alvalade) os "gandulos", cujo linguarejar divergia do meu idioma, em acordo ou profundo desacordo ortográfico. Um deles forçava a entrada nas barreiras para o comboio e deixou aberta a passagem ao grupinho de miúdos que naquele horário estariam muito certamente a faltar a aulas. Virei-me e fiquei os largos minutos que faltavam para a chegada do transporte a olhá-los directamente ao ponto de os incomodar. 
As miúdas. Eram três e todas diferentes. Havia a mais encorpada (mais maquilhada que eu), que dizia amén a todos os grunhos que os moços soltavam, havia outra tão neutra que nem dei mais que dois segundos da minha atenção e a terceira, essa sim, em que me foquei. Seria de todos a mais novinha, seguramente todos repetentes e aquela caídinha de pára-quedas naquela turma. Não deveria ter mais de 10 anos, pensei, o que os colocaria a todos no 5º ano. 
Passaram alegremente na cancela, menos essa menina de quem troçavam e diziam amiúde: Anda lá!! Por fim atravessou a cancela aberta ainda a murmurar: Mas eu tenho o bilhete pago... mas passou sem o validar e toda a sua linguagem corporal estava a dizer vou voltar atrás e fazer o certo, mas a matilha ria e batia palmas pelo seu primeiro acto heróico. De pés metidos para dentro e cabisbaixa avançou murmurando um opá... 
Foi um ápice, levantou os olhos, certificando-se que ao redor não conheceria alguém, quando me viu. Encarou o meu olhar que lhe tentava transmitir a segurança que não tinha para ir validar o bilhete, ainda estava a tempo de agir correctamente, mas eu sabia que não iria contra o grupo uma vez deste lado da cancela. Não sei se percebeu a minha intenção, mas ficou de mãos nas alças da pesada mochila entre o olhar para mim e o olhar para trás para a passagem que ainda estava aberta. 
Depois entrou outra pessoa e a cancela fechou, o puto já não a estava a segurar, antes se sentou por cima dos apoios tendo uma posição de destaque em relação aos outros, debitando alarvidades que iam do congratular-se pelas 10 negativas até ao conseguir fazer Sintra-Oriente sem ser apanhado, e a miúda, essa, continuava incomodada a verificar que os observava. Creio que foi quem chamou a atenção do grupo sobre mim e demorei mais que o habitual nano-segundo a entender que quando falavam "dama" se estavam a referir a mim... É verdade que os observava acintosamente, a tentar decifrar o idioma de fauna 'icêdezanoviana', e assim permaneci sem pejo até chegar o comboio.
Talvez porque a minha realidade maternal foi tão ao lado, me fez aterrar na terra dos cotas sem me dar conta do gap geracional que tanto se fala. Ou talvez não. O meu filho sabe quem são os Beatles, trauteia Freddie Mercury ou canta Sérgio Godinho. Já eu não sabia que One Direction era música nem faço ideia qual é a cara da Violetta, se é loira, morena ou tem cabelo púrpura.
Penso eu, se calhar de forma totalmente naïf, que cada um de nós educa, educou os seus filhos da melhor forma que sabe, soube. Nas minhas voltas pelo mundo assombroso do voluntariado aprendi que há pessoas que têm de ser ensinadas a saberem dar banho aos filhos, a limpar-lhes as orelhinhas, a saberem conjugar o verbo cuidar, manter, amar. Foi estranho para mim, olhando fotos do meu bebé cheirosinho, bem tratado com roupinhas Prénatal, apre(e)nder que há quem nunca tenha sido educado e por isso, não sabe como o reproduzir, como fazer. Na realidade 'icêdezanoviana', há muita criança que cresceu com pais a saírem demasiado cedo para o trabalho e a chegarem demasiado tarde a casa. Que não tiveram um bolo caseiro quentinho acabado de fazer para o lanche, nem estantes com livros em casa, nem o hábito enraizado de comer uma maçã enquanto lê... E esta realidade paga factura. Bem mais cara que um bilhete de comboio Sintra-Oriente.


quinta-feira, 12 de março de 2015

Escrever é como respirar alto

Fui hoje a escritora convidada no curso de escrita criativa dirigido pelo jornalista e escritor José Couto Nogueira no Âmbito Cultural do Corte Inglés. 
José Couto Nogueira dando uma aula
O Zé, digo-o sempre sem pejo, foi um dos professores que mais me marcou, meu querido Mestre com quem tanto aprendi. Ficámos amigos de uma forma muito natural, é um conversador admirável, ensina-nos a sério brincando, o som da sua gargalhada é uma imagem doce que nos entra na alma e mesmo depois de acabarem as aulas, permanece. Até mais, acompanha-nos no momento de escrevermos alguma das maroteiras que habilmente nos ensinou como fazer. 
Quando me convidou, senti-me muito honrada. Estar no mesmo painel de escritores de nomeada que muito respeito como Pedro Paixão, Mário Carvalho, Lídia Jorge, Miguel Real ou Tiago Salazar... nem queria acreditar!! 
Pediu-me simplesmente para falar da vida e obra. 
Para mim escrever sempre foi uma coisa natural, sempre o fiz, acho que sempre o farei. 
No liceu tive como professora a carismática Marina Pestana que vaticinou: "um dia esta menina escreve" 
alguns dos simpáticos alunos do José Couto Nogueira 
E se escrever me é tão fácil, já o acto de publicar são literalmente outros cinco tostões e falei na aula deste tema de uma forma irreverente. 
Acredito que o mundo editorial tal como o conhecemos faleceu já há muito e os velhos do Restelo ou os barões da coisa, como lhes queiram chamar, não ocupam lugar onde comodamente sento o respeito. O escritor - a essência desta industria toda - é tão mal tratado que considero um ultraje continuarmos todos nós - as alegres cigarras que fazem magia com a ponta dos dedos num qualquer teclado ou simplesmente com papel e lápis - a prestar vassalagem a uns senhores que se dizem donos disto tudo. Eu disse Basta! há já uns anos e tornei-me uma escritora independente, uma outsider do sistema e quis, perante uma sala atenta, abrir o jogo e explicar como o fiz, o faço. 
Sim é irreverente e sim resulta.
E quanto mais de nós alegres cigarras o fizermos, mais força ganharemos. 
Falar dos meus livros é sempre tão bom... Escrever é como respirar alto. 
Obrigada Zé, pelo teu gentil convite que tanto me enterneceu. 
Que pena que nos esquecemos, no afã do momento, de tirarmos uma foto juntos! 

TwitEntrevista Alive foi um formato que inventei em 2009 de entrevistas para e no Twitter a pessoas twitteiras que eu considerei interessantes. Fiz apenas uma temporada, porque sou escritora, não jornalista!, porque foi giro fazê-lo, mas não seria tão giro continuá-lo. 
As regras eram simples: Em 140 caracteres PERGUNTA em 140 caracteres RESPOSTA. Sempre com a hashtag #TwEnt

O Zé Couto Nogueira foi o meu entrevistado nº4 aqui fica o registo que fui repescar aos meus arquivos (onde, de resto, consta toda a temporada de entrevistas twiteiras guardadas, caso se interesse pode lê-las, pode fazê-lo seguindo este link http://anamartinscom.blogspot.pt/p/ler.html)
Honra seja feita às minhas originais entrevistas, causavam o caos no Twitter à hora marcada de tanta gente a lê-las em directo, e devido à afluência do público, o pico de audiência que conseguíamos era tal que a plataforma em si ia abaixo e aparecia a imagem irritante da baleia a mandar-nos esperar...

Querido Zé, já passaram 6 anos e tu estás cada vez melhor!!! Um abraço!

TwitEntrevista Alive #4
Em 140 caracteres PERGUNTA em 140 caracteres RESPOSTA.
Sempre com a hashtag #TwEnt


TwitEntrevista Alive – Volta esta semana com novo convidado especial:


TwitEntrevista Alive com José Couto Nogueira

Timeline Twitter | dia 11 | às 15h

@josecnogueira

Escritor, Jornalista, Blogger,

Professor de Escrita Criativa

José Couto Nogueira foi meu professor no seu curso de Escrita Criativa, um querido amigo e é o único responsável por eu ter entrado no Twitter – o ter ficado já foi por conta própria.

TwitEntrevista Alive #4 @josecnogueira a 11 Agosto 2009 – Timeline Twitter

josecnogueira: #TwEnt @annamartins estou aqui

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Boa Tarde Zé, querido Mestre. Obrigada por teres vindo a meu encontro. Conta-nos como tem sido tua experiência no i.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Tem sido muito satisfatória. Acho o jornal muito bonito, é quase como uma revista diária

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Isso do Mestre… Só se for na boa vida, mas não me lembro de te ter ensinado nada

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Conta aos leitores Twitter o que escreves especificamente no jornal i ?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Faço uma página de tv todos os dias e uma coluna sobre ética aos sábados, a “Coluna Vertical”

josecnogueira: #TwEnt @annamartins E ultimamente tenho feito algumas peças avulsas, dois quiz e comentários a certas coisas

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Mestre? Não da malandragem, de Escrita mesmo! És um excelente professor, mesmo fora de aulas! Descreves o curso?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins É um curso para convencer as pessoas de que podem escrever, desde que saibam português. Motivá-las.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Para ti, por exemplo, não serviu de nada, uma vez que já tinhas os requisitos e estavas motivada.

josecnogueira: #TwEnt @josecnogueira O Zé, caros leitores, é um charmoso que dá uma gargalhada na sua máxima plenitude, ri com o corpo todo. Viver é como?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Se me continuas a atirar flores acaba a entrevista… Viver é óptimo — é a única consciência que temos, não é verdade?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Um dia descobrimos que estamos vivos, depois aprendemos a viver, e um dia já não estamos vivos — e nem sabemos.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Quero dizer, não se sabe que se morreu, não é verdade?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Um ideia pirante, mas completamente filosófica, já que não tem nenhuma aplicação prática.

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Ao volante de um Taxi em NY é coisa para escrever um livro. Em 140 batidas qual o sumo dessa experiência na tua vida?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Para Nova York não é preciso 140 toques: NYC é o melhor sítio do mundo.

annamartins: #TwEnt @josecnogueira És um batoteiro de primeira apanha! São apenas 140 caracteres para cada resposta!

josecnogueira: #TwEnt @annamartins A explicação é mais longa: não é porque seja paradisíaco, ou só tenha gente boa. É precisamente pelo contrário.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Tem de tudo, seja o que for. À distância de um olhar — ou de um braço

annamartins: #TwEnt @josecnogueira O meu poder de síntese também é terrivelmente posto à prova a cada pergunta. Tenta responder só com um tweet, por favor

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Paris também podia ser assim, mas tem os parisienses a estragar tudo.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins E Londres também podia, mas faltam-lhe centros. Aliás, tem centros demais, em todos os bairros, que nunca se tocam

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Mesmo para um romântico incurável como tu? É o sotaque que atrapalha os parisienses? A teu ver o que lhes falta?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins O Chauvin era parisiense. São de uma arrogância incontrolável

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Nessa linha de pensamento, o “Pesquisa Sentimental” teria de ser em Lisboa?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Teria de ser em Portugal, definitivamente

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Os sentimentos são os mesmos no mundo inteiro, mas exprimem-se de maneiras diferentes conforme as culturas

josecnogueira: #TwEnt @annamartins E também os temperamentos individuais, claro. É 50% cultura, 50% feitio.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins O tipo de problemas sentimentais da Pesquisa e o modo de os resolver, só por cá!

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Consegues escolher entre os teus livros “Taxi”, “Vista da Praia” e “Pesquisa Sentimental” o *tal*?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Bem, o último é sempre o melhor, é o que qualquer escritor acha!

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Há um aperfeiçoamento de livro para livro, ou então não vale a pena escrever mais

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Confesso a minha preferência pelo “O Vista da Praia” – época muito carismática e a tua visão… perfeita (sem flores)!

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Como tem sido a reacção do público masculino à personagem Alex do “Pesquisa Sentimental”?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Francamente, não sei. Quer dizer, falei com alguns amigos e poucos desconhecidos, não dá para avaliar

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Será porque de uma forma muito Lusa *um homem não chora*, logo os teus leitores não vão jamais comentar contigo?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins É muito difícil avaliar a reacção do público a um livro, porque só sabemos dos conhecidos e de quem gosta

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Acho que qualquer autor tem a sensação que o seu livro está a ser um sucesso, pelo agito em volta

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Um livro, hoje (saindo das mãos do escritor), é tratado como uma mera peça de marketing. Sentes-te um *não-alinhado*?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Pois, isso tem pano para mangas. O marketing é irritante, mas é absolutamente necessário.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Se um livro não tiver marketing não existe, mesmo que seja a maior obra-prima de todos os tempos

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Por outro lado há livros que são deploráveis e que vendem bem no engano do marketing

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Claro que o tempo é que mostra quais são os bons livros, os que perduram, mesmo que não tenham feito sucesso na altura

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Qual a vertente profissional que escolherias Escritor ou Jornalista ou são a simbiose perfeita em ti?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Não, não são nada simbióticas. Geralmente os jornalistas não dão bons escritores

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Acho que há um lado factual no jornalista (o quê, quando, como, com quem) que vicia e estraga a poesia na ficção

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Eu preferia que me considerassem um escritor, mas creio que sou mais um jornalista

josecnogueira: #TwEnt @annamartins E tudo, como é que te vês?

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Eu, como assim..?

annamartins: #TwEnt @josecnogueira O Álvaro de Campos via-me: “Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!” in Tabacaria

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Deixa-te de filosofias e diz-me lá terra a terra, vá!

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Ora! Eu sou terra a terra! Mas meu caro Mestre eu nem jornalista sou, nem pretensão. Escrever sim, é grande paixão

josecnogueira: #TwEnt @annamartins E tens escrito muito, ultimamente?

annamartins: @josecnogueira Mas tu subvertes todas as regras da #TwEnt !!! Agora perguntas tu, é…? E eu respondo!? Humm, escrevo sempre, Zé e muito.

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Há sempre outros projectos paralelos à paixão da escrita. Acordei no séc.XXI abri um Blog que hoje mesmo passa a Site.

annamartins: #TwEnt @josecnogueira E tu querido Zé, depois do sucesso do “Pesquisa Sentimental” já está pensado/escrito o teu próximo romance?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Mas um blogue só é um projecto a sério se tiver um objectivo e for actualizado amiúde

annamartins: #TwEnt @josecnogueira .oO (A baleia vai boicotar esta #TwitEntrevista) Oo.

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Tem um propósito. Agora que passa a Site o www.anamartins.com tem uma razão de ser: O espaço da escritora Ana Martins.

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Mas deixa-me perguntar (se a malandra da baleia nos deixar prosseguir) sobre o teu Blog com mais carisma: o PERPLEXO

josecnogueira: #TwEnt @annamartins É um blogue que eu fiz para descarregar as frustrações que a situação me coloca

annamartins: #TwEnt @josecnogueira .oO (Os directos têm destes imprevistos e o Twitter em vez da mira-técnica tem uma baleia) Oo.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Mas a certa altura passei da perplexidade e achei que já não valia a pena dizer mais nada

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Mudei para falar de questões de media — as mudanças na comunicação social, mas acontece pouca coisa

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Portanto está paradote…

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Há sempre algo mais a dizer, Zé, por vezes canalizado de forma diferente como o movimento que iniciaste em Lisboa.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Pois, há sempre coisas a dizer, mas com o i e mais outros trabalhos, e o twitter e a vida…

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Há que estabelecer prioridades e o Perplexo não é uma delas, neste momento

josecnogueira: #TwEnt @annamartins E tu, o que vais fazer com o teu blogue?

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Ora, Zé, digo-te – sem flores – tu tens a energia que muitos jovens de 20 não vão ter nunca! E continuas com perguntas??

annamartins: #TwEnt @josecnogueira O meu Blog ao ser Site alarga o âmbito e fica tudo arrumadinho por departamentos. Muitas surpresas, espero que boas
josecnogueira: #TwEnt @annamartins Não queres adiantar nada?

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Zé queria agradecer a tua disponibilidade no meio do caos que poderá ser o de um pai de férias a responder-me

annamartins: RT Convido-te para o TwitBeberete de lançamento do http://www.anamartins.com/ @josecnogueira: #TwEnt @annamartins Não queres adiantar nada?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Eu é que gostei muito desta forma de entrevistar! É sempre divertido falar contigo. Adeus a todos.

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Obrigada, querido Zé, por tudo quanto me continuas a ensinar depois das aulas terminarem e agora sim… flores http://ipt.olhares.com/data/big/201/2011264.jpg

annamartins: #TwEnt @josecnogueira São para ti, Querido Mestre. Um abraço 


domingo, 8 de março de 2015

Todas as Marias são antes de tudo Mulheres

Este dia é uma homenagem a mulheres que lutaram pelo nosso direito à igualdade, não ao direito de, por um dia, poder jantar fora com amigas e não ter de fazer o jantar para o marido... esta noção é tão 'redutorazinha' que me irrita profundamente (num dos meus livros escrevi sobre isso e mais abaixo reproduzo esse texto). 
Em Nova Iorque a 8 de Março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos fizeram greve. Ocuparam a fábrica pedindo melhores condições de trabalho, redução horário diário de 16 para 10 horas, salários iguais aos homens e dignidade no tratamento. A manifestação foi reprimida à força: as mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada, e 130 tecelãs morreram carbonizadas. Em 1910, numa conferência na Dinamarca, ficou decido que 8 de Março seria o "Dia Internacional da Mulher", em homenagem às tecelãs de 1857, mas só em 1975 a ONU oficializou esta data.

Entristece-me que chegados ao século XXI continuemos a ter de clamar pelo direito à igualdade. Patricia Arquette não usou só o seu glorioso momento de fama, que todo o mundo reproduziu, para o fazer. Continua fazendo, mesmo quando há menos holofotes, acredito que mesmo quando não há holofotes.
É o que fazemos, cada uma à sua maneira, sem as luzes das câmaras on, sem os microfones apontados, e por favor, sem jantares patéticos, em que o expoente máximo é nesse dia não fazer nada em casa e no tal restaurante, aparecerem uns empregados jeitosos. 


Ao passar mais um dia 8 de Março, 
publico aqui um trecho do meu livro MAL ME QUERO. 
ou então uma outra forma de dizer que o(a) último(a) a rir... 

(ou o Dia-Oficial-da-Maria-sair-com-as-outras Marias)

Maria já tinha deixado preparado o jantar dos filhos sem esquecer o pack de cerveja fresca no frigorífico. Sorte, ser dia do jogo com o Benfica, espero que ganhe, pensa, assim nem chateia quando chegar. Mas, este ano, estava decidida. Ia ao jantar que as colegas faziam todos os 8 de Março, também era mulher e tinha esse direito: divertir-se, afinal, é só uma vez no ano!, pensou, justificando-se. 
O Manel vociferava no snack-bar com os companheiros de balcão, agora, desde que passavam as jantaradas do Dia da Mulher na televisão, todas achavam que tinham o direito de se exporem ao ridículo, era vê-las a todas, vermelhas de bêbedas, todas a acharem-se muito engraçadas e soltas por uma noite. Como se fosse igual a uma noite de copos com os amigos, como lhe dissera a Maria. Mas quando ele ia para os copos com os amigos e chegava a casa, tinha o jantar pronto, tudo arrumado, na ordem de Deus. Nesse dia, quem trataria dos putos e da casa? A Maria não podia deixar os filhos com a mãe, ela própria saía com as colegas da hidroginástica e, entusiasta, contara-lhe que, regra geral nestas saídas, convidavam os treinadores, sim, porque elas eram mais velhas que um trapo, sabiam-no, por isso se exercitavam, mas ainda não eram, com a graça de Deus, ceguinhas! Os moços eram todos antigos nadadores de competição, tinham uns corpos lindos, uns doces de rapazes, tratavam-nas carinhosamente por avó antes do nome próprio e levavam-nas sempre a casa. A Maria não achava cómico a mãe, com aquela idade toda, só pensar em laurear, quando dizia que, em especial um deles, havia de ter metido conversa com ela uns 50 anos antes... Maria até se benzera! Credo, Jesus! 
O Manel sempre achara a sogra uma beata metediça, mas agora piorara, pois então!, Apanhou-se viúva, deu em galdéria, nem queria saber dos netos e ainda puxava a filha para a doideirice. Esta ideia agora de ir com a velharia a jantarinhos comemorativos de serem gajas... Logo a sua Maria que sempre tivera tanto juízo, ia dar noutra como a mãe, era o que era! Mas quem discutia com a senhora sua sogra? 
Isto de terem perdido a casa para o banco e terem de ir viver para a vivenda do raio da velha, fora um rude golpe e agora não havia quem a calasse a dar palpites e a comandar a vida deles. A Maria só sabia dizer ámen à velha e ele sentia-se agarrado. Maldito ano de desemprego que o pôs na mó de baixo! Recuperar não estava fácil, já ter este emprego temporário na fábrica tinha sido uma sorte. 
A Maria comprara uma fatiota nova, toda brilhante, bem baratinha na loja dos chineses, parecida com uma que andava a namorar na loja das senhoras ricas. Não era a mesma coisa, mas com o barulho das luzes, passava, a diferença de preço, então... Sapatos, ia levar os dos casamentos, claro que num saquinho de plástico, levava as chancas para trocar, quem aguenta aqueles saltos uma noite inteira, depois de trabalhar todo o santo dia, agora que era ela quem pegara a dianteira e arcava com as despesas da família? Isso é para as tias das revistas! A mãe é que dizia saber por uma colega que, para além dos dias de não fazerem mais nada, senão cuidar de si mesmas ou simplesmente ficarem demasiado exaustas de ver tanto povo nas lojas (coitadas, nem compras podiam fazer em paz!), ao saírem das festas, ao carro patrocinado por uma qualquer marca, levavam a previamente combinada caixa plástica dos croquetes, entradas e afins e aí sim, discretamente, já sem o paparazzi em cima, trocavam o salto altíssimo para a chinelinha de dedo. 
O Manel ia para casa com a ideia no futebol, dia de Benfica! Agora nem pensava em arranjar uma coisa fixa, ia andando aos biscates e parava mais tempo no snack-bar. A Maria ainda passou no cabeleireiro e pediu à maricure para tentar dar um jeito nos trambolhos que costumava chamar de mãos. Sentiu-se bonita aos ver-se de cabelo armado ao espelho. Há quanto tempo não gostava de se ver no espelho? Pondo de outro modo, há quanto tempo não se olhava ao espelho? 
O Benfica fez um jogo miserável... seria possível tanto azar? Cambada de coxos! Deitou-se no sofá a ver televisão. Praguejou quando foi buscar a última cerveja, a Maria não tinha deixado o frigorífico prevenido como ele gostaria naquela noite! 
Já a Maria também bebeu mais que a conta e dançou todo o serão com outras Marias igualmente eufóricas. Gritavam histericamente à chegada dos empregados, do animador do restaurante, de todos os espécimes, género masculino, que simplesmente passavam naquela zona para meramente irem ao WC. Sentiam-se livres por uma noite: “Toca a aproveitar que, depois, só pr’ó ano!” Gritava, completamente embriagada, a Glórinha. 
Manel passava os canais com ar enfastiado. Se tivesse a Maria em casa já estaria a roncar no sofá, não hoje!, ia ficar bem alerta para a hora que ela necessitasse de ajuda. Ai não que não ia...! 

“Algum homem ressabiado!” Dissera a Glórinha, “... Ainda bem que não ando com o volante nas mãos, havia de ser bonito! Estou bêbeda que nem um cacho!” 
A Maria pensara por um momento e não quis acreditar, mas ao constatar a quantidade de carros mandados encostar à berma, de mulheres a apresentar documentação e a fazerem testes de alcoolemia... pensara no Tóino, o amigo polícia do Manel, havia de as safar à multa. Tanto homem bêbado todos os dias ao volante, e fazerem um auto-stop, logo neste dia, só para mandar parar mulheres, era uma vergonha!, uma verdadeira caça às senhoras de família que só podem sair nessa noite... a família, está sempre em primeiro lugar, e só nesse dia - até no trabalho - tiveram direito a uma flor que o chefe trouxe para todas lá na repartição e esta novidade de poder sair à noite… Tirando este dia da Mulher, há quantos anos o seu Manel não a levava a sair, sabendo ele o que ela se desunhava para dar um pezinho de dança? Um carinho, um abraço… nada! Desde que ficara desempregado e sem a casa, o seu Manel andava descorçoado e até o entendia e tentava dar apoio, mas e quem lhe dava o apoio que tanto necessitava a ela, quando a cabeça lhe estoirava com enxaqueca?, quando pensava nas seus serviços todos encaixotados?, nas suas roupas de casa ensacados num recanto na garagem da mãe? Quem lhe dava apoio? A Mãe? Ela preferia que tivesse sido sempre o seu Manel e ele onde? No snack-bar, pois está claro! 
Ele perdera o emprego, mas a Maria também ficou sem a sua casa e estava como uma menina sob o olhar vigilante da mãe de novo, como se fosse catraia. 
O seu olhar ficou ofuscado com a luz fortíssima nos olhos, abismada, com um microfone na frente da cara, sim!, era um carro de reportagem de televisão! Não era nada combinado, não senhor... sentiu-se tonta sem saber o que dizer, só imaginava todos quanto as conheciam a vê-las na reportagem, com os copos, a apanharem multa por excesso de álcool no sangue. Estes gajos fizeram de propósito só para nos deixarem passar vergonha! Depois peço ao Manel que fale com o Tóino. 
Manel desligou o telemóvel e endireitou-se no sofá. Mudou de canal a tempo de ver a triste figura da sua Maria em directo. Sinceramente! Ainda tinha sido melhor que poderia ter imaginado. Televisão e tudo! Quando chegasse apetecia-lhe mesmo deixá-la bazanada. 
Maria entrou cabisbaixa. 
“Linda figura para a mãe dos meus filhos aparecer na televisão!” Rugiu. “Sempre quero ver o que te dizem amanhã no teu emprego, o que vai dizer a tua mãezinha, incluído a vizinhança inteira e na escola dos teus filhos!”
Maria tirou o casaco e suspirou profundamente soerguendo as costas. A Glórinha tinha razão. Ali havia coisa. Custou-lhe a acreditar quando reparou quem estava a falar com o repórter, o bom do Tóino, que de Tóino não tinha nada, não senhor… bem dizia a Glórinha: essa, mesmo pinguça era esperta que nem um alho! Agora, chegada a casa confirmara!, com um Manel tão acordado a essa hora tardia e pelo canal desabitual na sua televisão. O Manel vira. O Tóino avisara-o. A Glórinha tinha razão... se não fosse o Manel o ressabiado que tinha magicado semelhante plano, ia pagar por qualquer outro filho da mãe. Sorriu. Apeteceu-lhe surpreendê-lo como nos filmes da televisão. Com o seu melhor ar contristado, entrou na sala cabisbaixa. As seis garrafas vazias estavam em linha e caídas pela mesa da sala. O Manel fizera menção de continuar a insultar a sua inteligência, mas hoje, apesar de tecnicamente já ter acabado o dia, ainda estava sob a bênção do dia em que as mulheres celebram a sua libertação. 
Libertação. 
Era a sua cartada. 
Aproximou-se das garrafas vazias de cerveja e, agarrando uma pelo gargalo, partiu-a na esquina da mesa de vidro. Antes que o Manel pudesse reagir, já tinha o gargalo aguçado junto do pescoço dele e com a outra mão agarrava-o pelas abas do pijama riscado. 
“Piadinha linda, não foi? Pedires ao teu amigo para se prestar ao papelinho de chibo... Pois bem meu caro, o teu reinado acabou aqui e agora. Manuel Fernando, ainda esta noite sem apelo nem agravo, vais enfiar as tuas coisinhas num saco de plástico, daqueles bem grandes do lixo, bem podes ir bater à porta do teu amiguinho para ficares no sofá dele. Debaixo das telhas que a minha mãe paga, não ficas nem só mais um momento! Ouviste bem?, Manuel Fernando? Hoje, agora, sem um pio, juro-te que se abres essa bocarra te enfio este gargalo boca abaixo! Juro-te!, pela saúde dos nossos filhos, que hoje foi o último dia da tua vida que achaste que és uma pessoa superior a mim!”




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