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quarta-feira, 13 de maio de 2015

AO, o irrevogável

Ocorre-me a ideia, no dia em que o malfadado e desacreditado acordo entra (entrará?) em vigor, chamar a que se aproxime aquela nossa palavra estragada - o irrevogável -  para que cumpra na plenitude a sua tão reclamada função, já que sustentando o irrevogavelmente irrevogável, o AO agora será finalmente irrevogavelmente revogado. 
Vá lá, é o que a malta quer, o que a malta pede, o que a malta luta, desde que esta aberração nos foi enfiada goela abaixo. É que já chega! Ó irrevogável, chega aqui para acabarem de vez com o AO! 
Para começo de conversa, aborreço-me ler as notícias matutinas e constatar que a data de hoje já foi revogada. Há destas coisas giras, movimentações palacianas em vésperas de eleições que me fazem sempre relembrar o conceito de sarcasmo, o tal que somos tão bem familiarizados... então a data foi 'irrevogadamente irrevogada' e de 13 de Maio foi chutada para canto, lá para Setembro, no dia do meu aniversário, ainda para mais??? Aiiii, não me estraguem o dia!
(podem ler a notícia na integra aqui) 
Na verdade, eu estou-me positivamente nas tintas se o AO for revogado, agora, amanhã ou depois, só quero que aconteça. Só isso. Limpem a porcaria que fizeram. Não quero mais falar deste assunto, insurgir-me, assinar petições, assinar de cruz o que diz o bzinho João Pedro Graça. Chega de escrever artigos destes e deixar de utilizar esta frase no final de cada um dos meus posts ou livros, só porque sim. 
Recuso-me ostensiva e olimpicamente! 
É mau? É. Se tem sido terrivelmente mau para os miúdos que desaprenderam e vão ter de ser ensinados a escrever português de novo? Pois. Quanto mais tempo demorarem, nem quero pensar nas consequências principalmente para quem está a iniciar a sua jornada e a aprender a escrever errado.
Anne Frank escreveu: 

"O que é feito não pode ser desfeito, 
mas podemos prevenir que aconteça novamente." 

Revoguem o erro e dêem de vez com coragem um passo em frente, sem compadrios e interesses debaixo do pano que todos sabemos que existem. 
Chega!  
Apetece-me dizer em bom português, mandem o AO cagar à horta e limpar o cú às urtigas. 



quinta-feira, 2 de abril de 2015

Consciencializar 365 dias ao ano

Ontem, na correria do meu dia-a-dia e distraída com os meus pensamentos, ao assomar uma entrada para um MB, percepcionei pela visão lateral - porque na verdade nem quis olhar de frente - um casal, em que um dos homens estava encostado à parede, e o outro debruçado sobre ele, o abraçava e beijava. Foi uma escolha momentânea, eu sei: entrei e não quis olhar para não parecer preconceito da minha parte (até porque assim não sou, nem me considero) e, na verdade, fui-o em grande escala. 
Não tendo tido sorte de usar o multibanco dentro de portas por ser exclusivo para os clientes com caderneta, dirigi-me ao fora de portas onde tinha acabado de passar pelo casal. Fiquei sem reacção: assim que saí uma querida amiga minha e companheira de muitos anos nesta nossa atribulada vida de mães de autistas cumprimenta-me: "Olá Ana!" Continuei sem reacção sem querer acreditar no que todos os meus sentidos já me gritavam e gelei por me sentir tão estupidamente horrorizada com o meu anterior pensamento. 
No momento seguinte estava rodeada pelo seu marido e o filho autista, também já adulto, como o meu, que me deu um carinhoso beijo bem babado. 
Eram pai e filho encostados, ali naquela parede, em que os julguei precipitada e preconceituosa! 
Consegui esboçar as palavras habituais num ritual de cumprimento, mas percebi a estranheza da minha pouco habitual efusividade no olhar inquisitivo da minha amiga, mas eu estava ainda naquele torpor perturbador do que acabara de sentir e estava tão indignada por ter feito o que critico, que simplesmente fiquei queda, sem acção. Pouco habitual em mim, é certo. Tanto a quietude no abraço e sorriso fraterno quanto a estupefacção do sentir-me preconceituosa. 
Sai daquele breve encontro perturbada. O filho dos meus amigos está um homem de 1,70 e muitos de altura, tal como o meu filho. Num primeiro olhar são tão "normais" e como momentaneamente não parecem aos olhos de quem os não conhece, ou desconhece o significado ampliado da palavra autismo, causam estranheza. 
O meu filho abraça-me, amassa-me, beija-me na boca na rua, ou então mesmo em público mexo-lhe amiudamente na braguilha para o compor (sempre com fecho abertos!) e sei que o olhar que têm para connosco é idêntico ao que eu mesma fiz com os meus amigos. Convivo com isso e respondo pondo as pessoas no sítio apenas com um olhar. 
Simples, habituei-me. Mas não me conformei. Não me vou conformar nunca! 
A falta de informação sobre esta população e as suas famílias é gritante, sim. Eu sou a que quase agarro as pessoas pelo braço e pergunto, está a olhar? Não sabe o que é uma pessoa com autismo? Venha cá!, que eu explico. 
Da próxima vez que se deparar com outra pessoa com autismo, pelo menos questione-se antes de julgar e vai entender as reacções que não são habituais ver, as frases proferidas em voz alto ou fora de contexto, todo um mundo que lhe parece estranho, é  apenas porque o desconhece. Venha cá, que eu explico! 
E sim, explico, tranquilamente. 
Faço muitas acções de sensibilização muitos dias após ou antes o 2 de Abril, e sei que o farei a vida toda. 
Consciencializar, consciencializar, sempre! 365 dias ao ano. 
Em algum momento chegamos lá. 
É uma certeza em mim. Em muitos de nós. 
Ao casal dos meus queridos amigos que se vão reconhecer quando lerem este texto, peço-vos perdão. É que - já viram? - eu não fiz o que peço ao mundo: que olhem com atenção reconheçam as reacções inusitadas de uma pessoa com autismo, antes de as julgarem. 


domingo, 8 de março de 2015

Todas as Marias são antes de tudo Mulheres

Este dia é uma homenagem a mulheres que lutaram pelo nosso direito à igualdade, não ao direito de, por um dia, poder jantar fora com amigas e não ter de fazer o jantar para o marido... esta noção é tão 'redutorazinha' que me irrita profundamente (num dos meus livros escrevi sobre isso e mais abaixo reproduzo esse texto). 
Em Nova Iorque a 8 de Março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos fizeram greve. Ocuparam a fábrica pedindo melhores condições de trabalho, redução horário diário de 16 para 10 horas, salários iguais aos homens e dignidade no tratamento. A manifestação foi reprimida à força: as mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada, e 130 tecelãs morreram carbonizadas. Em 1910, numa conferência na Dinamarca, ficou decido que 8 de Março seria o "Dia Internacional da Mulher", em homenagem às tecelãs de 1857, mas só em 1975 a ONU oficializou esta data.

Entristece-me que chegados ao século XXI continuemos a ter de clamar pelo direito à igualdade. Patricia Arquette não usou só o seu glorioso momento de fama, que todo o mundo reproduziu, para o fazer. Continua fazendo, mesmo quando há menos holofotes, acredito que mesmo quando não há holofotes.
É o que fazemos, cada uma à sua maneira, sem as luzes das câmaras on, sem os microfones apontados, e por favor, sem jantares patéticos, em que o expoente máximo é nesse dia não fazer nada em casa e no tal restaurante, aparecerem uns empregados jeitosos. 


Ao passar mais um dia 8 de Março, 
publico aqui um trecho do meu livro MAL ME QUERO. 
ou então uma outra forma de dizer que o(a) último(a) a rir... 

(ou o Dia-Oficial-da-Maria-sair-com-as-outras Marias)

Maria já tinha deixado preparado o jantar dos filhos sem esquecer o pack de cerveja fresca no frigorífico. Sorte, ser dia do jogo com o Benfica, espero que ganhe, pensa, assim nem chateia quando chegar. Mas, este ano, estava decidida. Ia ao jantar que as colegas faziam todos os 8 de Março, também era mulher e tinha esse direito: divertir-se, afinal, é só uma vez no ano!, pensou, justificando-se. 
O Manel vociferava no snack-bar com os companheiros de balcão, agora, desde que passavam as jantaradas do Dia da Mulher na televisão, todas achavam que tinham o direito de se exporem ao ridículo, era vê-las a todas, vermelhas de bêbedas, todas a acharem-se muito engraçadas e soltas por uma noite. Como se fosse igual a uma noite de copos com os amigos, como lhe dissera a Maria. Mas quando ele ia para os copos com os amigos e chegava a casa, tinha o jantar pronto, tudo arrumado, na ordem de Deus. Nesse dia, quem trataria dos putos e da casa? A Maria não podia deixar os filhos com a mãe, ela própria saía com as colegas da hidroginástica e, entusiasta, contara-lhe que, regra geral nestas saídas, convidavam os treinadores, sim, porque elas eram mais velhas que um trapo, sabiam-no, por isso se exercitavam, mas ainda não eram, com a graça de Deus, ceguinhas! Os moços eram todos antigos nadadores de competição, tinham uns corpos lindos, uns doces de rapazes, tratavam-nas carinhosamente por avó antes do nome próprio e levavam-nas sempre a casa. A Maria não achava cómico a mãe, com aquela idade toda, só pensar em laurear, quando dizia que, em especial um deles, havia de ter metido conversa com ela uns 50 anos antes... Maria até se benzera! Credo, Jesus! 
O Manel sempre achara a sogra uma beata metediça, mas agora piorara, pois então!, Apanhou-se viúva, deu em galdéria, nem queria saber dos netos e ainda puxava a filha para a doideirice. Esta ideia agora de ir com a velharia a jantarinhos comemorativos de serem gajas... Logo a sua Maria que sempre tivera tanto juízo, ia dar noutra como a mãe, era o que era! Mas quem discutia com a senhora sua sogra? 
Isto de terem perdido a casa para o banco e terem de ir viver para a vivenda do raio da velha, fora um rude golpe e agora não havia quem a calasse a dar palpites e a comandar a vida deles. A Maria só sabia dizer ámen à velha e ele sentia-se agarrado. Maldito ano de desemprego que o pôs na mó de baixo! Recuperar não estava fácil, já ter este emprego temporário na fábrica tinha sido uma sorte. 
A Maria comprara uma fatiota nova, toda brilhante, bem baratinha na loja dos chineses, parecida com uma que andava a namorar na loja das senhoras ricas. Não era a mesma coisa, mas com o barulho das luzes, passava, a diferença de preço, então... Sapatos, ia levar os dos casamentos, claro que num saquinho de plástico, levava as chancas para trocar, quem aguenta aqueles saltos uma noite inteira, depois de trabalhar todo o santo dia, agora que era ela quem pegara a dianteira e arcava com as despesas da família? Isso é para as tias das revistas! A mãe é que dizia saber por uma colega que, para além dos dias de não fazerem mais nada, senão cuidar de si mesmas ou simplesmente ficarem demasiado exaustas de ver tanto povo nas lojas (coitadas, nem compras podiam fazer em paz!), ao saírem das festas, ao carro patrocinado por uma qualquer marca, levavam a previamente combinada caixa plástica dos croquetes, entradas e afins e aí sim, discretamente, já sem o paparazzi em cima, trocavam o salto altíssimo para a chinelinha de dedo. 
O Manel ia para casa com a ideia no futebol, dia de Benfica! Agora nem pensava em arranjar uma coisa fixa, ia andando aos biscates e parava mais tempo no snack-bar. A Maria ainda passou no cabeleireiro e pediu à maricure para tentar dar um jeito nos trambolhos que costumava chamar de mãos. Sentiu-se bonita aos ver-se de cabelo armado ao espelho. Há quanto tempo não gostava de se ver no espelho? Pondo de outro modo, há quanto tempo não se olhava ao espelho? 
O Benfica fez um jogo miserável... seria possível tanto azar? Cambada de coxos! Deitou-se no sofá a ver televisão. Praguejou quando foi buscar a última cerveja, a Maria não tinha deixado o frigorífico prevenido como ele gostaria naquela noite! 
Já a Maria também bebeu mais que a conta e dançou todo o serão com outras Marias igualmente eufóricas. Gritavam histericamente à chegada dos empregados, do animador do restaurante, de todos os espécimes, género masculino, que simplesmente passavam naquela zona para meramente irem ao WC. Sentiam-se livres por uma noite: “Toca a aproveitar que, depois, só pr’ó ano!” Gritava, completamente embriagada, a Glórinha. 
Manel passava os canais com ar enfastiado. Se tivesse a Maria em casa já estaria a roncar no sofá, não hoje!, ia ficar bem alerta para a hora que ela necessitasse de ajuda. Ai não que não ia...! 

“Algum homem ressabiado!” Dissera a Glórinha, “... Ainda bem que não ando com o volante nas mãos, havia de ser bonito! Estou bêbeda que nem um cacho!” 
A Maria pensara por um momento e não quis acreditar, mas ao constatar a quantidade de carros mandados encostar à berma, de mulheres a apresentar documentação e a fazerem testes de alcoolemia... pensara no Tóino, o amigo polícia do Manel, havia de as safar à multa. Tanto homem bêbado todos os dias ao volante, e fazerem um auto-stop, logo neste dia, só para mandar parar mulheres, era uma vergonha!, uma verdadeira caça às senhoras de família que só podem sair nessa noite... a família, está sempre em primeiro lugar, e só nesse dia - até no trabalho - tiveram direito a uma flor que o chefe trouxe para todas lá na repartição e esta novidade de poder sair à noite… Tirando este dia da Mulher, há quantos anos o seu Manel não a levava a sair, sabendo ele o que ela se desunhava para dar um pezinho de dança? Um carinho, um abraço… nada! Desde que ficara desempregado e sem a casa, o seu Manel andava descorçoado e até o entendia e tentava dar apoio, mas e quem lhe dava o apoio que tanto necessitava a ela, quando a cabeça lhe estoirava com enxaqueca?, quando pensava nas seus serviços todos encaixotados?, nas suas roupas de casa ensacados num recanto na garagem da mãe? Quem lhe dava apoio? A Mãe? Ela preferia que tivesse sido sempre o seu Manel e ele onde? No snack-bar, pois está claro! 
Ele perdera o emprego, mas a Maria também ficou sem a sua casa e estava como uma menina sob o olhar vigilante da mãe de novo, como se fosse catraia. 
O seu olhar ficou ofuscado com a luz fortíssima nos olhos, abismada, com um microfone na frente da cara, sim!, era um carro de reportagem de televisão! Não era nada combinado, não senhor... sentiu-se tonta sem saber o que dizer, só imaginava todos quanto as conheciam a vê-las na reportagem, com os copos, a apanharem multa por excesso de álcool no sangue. Estes gajos fizeram de propósito só para nos deixarem passar vergonha! Depois peço ao Manel que fale com o Tóino. 
Manel desligou o telemóvel e endireitou-se no sofá. Mudou de canal a tempo de ver a triste figura da sua Maria em directo. Sinceramente! Ainda tinha sido melhor que poderia ter imaginado. Televisão e tudo! Quando chegasse apetecia-lhe mesmo deixá-la bazanada. 
Maria entrou cabisbaixa. 
“Linda figura para a mãe dos meus filhos aparecer na televisão!” Rugiu. “Sempre quero ver o que te dizem amanhã no teu emprego, o que vai dizer a tua mãezinha, incluído a vizinhança inteira e na escola dos teus filhos!”
Maria tirou o casaco e suspirou profundamente soerguendo as costas. A Glórinha tinha razão. Ali havia coisa. Custou-lhe a acreditar quando reparou quem estava a falar com o repórter, o bom do Tóino, que de Tóino não tinha nada, não senhor… bem dizia a Glórinha: essa, mesmo pinguça era esperta que nem um alho! Agora, chegada a casa confirmara!, com um Manel tão acordado a essa hora tardia e pelo canal desabitual na sua televisão. O Manel vira. O Tóino avisara-o. A Glórinha tinha razão... se não fosse o Manel o ressabiado que tinha magicado semelhante plano, ia pagar por qualquer outro filho da mãe. Sorriu. Apeteceu-lhe surpreendê-lo como nos filmes da televisão. Com o seu melhor ar contristado, entrou na sala cabisbaixa. As seis garrafas vazias estavam em linha e caídas pela mesa da sala. O Manel fizera menção de continuar a insultar a sua inteligência, mas hoje, apesar de tecnicamente já ter acabado o dia, ainda estava sob a bênção do dia em que as mulheres celebram a sua libertação. 
Libertação. 
Era a sua cartada. 
Aproximou-se das garrafas vazias de cerveja e, agarrando uma pelo gargalo, partiu-a na esquina da mesa de vidro. Antes que o Manel pudesse reagir, já tinha o gargalo aguçado junto do pescoço dele e com a outra mão agarrava-o pelas abas do pijama riscado. 
“Piadinha linda, não foi? Pedires ao teu amigo para se prestar ao papelinho de chibo... Pois bem meu caro, o teu reinado acabou aqui e agora. Manuel Fernando, ainda esta noite sem apelo nem agravo, vais enfiar as tuas coisinhas num saco de plástico, daqueles bem grandes do lixo, bem podes ir bater à porta do teu amiguinho para ficares no sofá dele. Debaixo das telhas que a minha mãe paga, não ficas nem só mais um momento! Ouviste bem?, Manuel Fernando? Hoje, agora, sem um pio, juro-te que se abres essa bocarra te enfio este gargalo boca abaixo! Juro-te!, pela saúde dos nossos filhos, que hoje foi o último dia da tua vida que achaste que és uma pessoa superior a mim!”




domingo, 20 de abril de 2014

A ausência é um estar em mim

As datas especiais têm um peso social tão marcante que se revela insuportavelmente doloroso na monoparentalidade. 
(ilustração de Margarida Mendonça)
Nesta Sexta-feira Santa, planeava fazer as refeições confeccionando peixe, não por motivação religiosa inerente à data, mas por me fazer sentir a familiaridade da minha querida avó. Quando era criança e adolescente seria impensável pensar em carne nessa sexta-feira e, irreverente como era, ao comer fiambre no pão logo pela manhã, sendo que o meu reino se queda pelos queijos, era a minha desadequada forma aparvalhada naquela idade de subverter as regras da casa. Hoje sorrio ao recordar a tontice e, sem pesar, penso as refeições deste dia com peixe. 

Um vizinho ter feito uma pescaria na noite anterior, foi o meu mote. Os carapaus estavam tão frescos que do saco só emanava uma brisa de maresia e, gulosa, já os casava fritinhos, com o malandro do arroz de tomate aromatizado com pimento e coentros. 
Mas o dia correu todo ao contrário. O meu filho Pedro esteve sempre na eminência de se tornar violento e após arranjar os carapaus, nem sequer consegui chegar perto, muito menos fritar, acto que leva tempo e dedicação e tenho má memória da minha cabeça partida estando ao fogão na confecção de alguma refeição elaborada e tentando neutralizar uma crise. Sou uma lírica, pois não se consegue fazer tudo, e dessa vez uma malga de barro voadora atingiu-me. Pensei que morria nesse dia. Cinco pontos. Agora a minha atenção fica toda na tentativa de neutralizar cada crise e nada mais. E até sou bem sucedida, digo eu com os meus botões. 
A crise arrastou-se pelo dia fora, entrou pelo sábado adentro sem dormir até ao limite de me parecer psicótica - sim, é assustador - e para nos alimentar só consegui aquecer restinhos que tinha no frigorífico, e curiosamente nada tinha de peixe confeccionado. Em 50 anos foi a minha primeira sexta-feira santa corrida a carne. Incomodou-me. Principalmente a quantidade de vezes que me recordei do momento em que no tribunal explicava à juíza como a situação estava mais calma e controlada comparativamente com o terrível mês de Agosto passado, e de como me sorrira e com calma me fez compreender que não tenho nada controlado... Incomoda-me que esteja tão habituadinha a esta vida que nem me apercebo de como é ridícula a minha vã tentativa de me convencer que sair das férias da Páscoa apenas com um pontapé e um murro no ventre seja algo de bom. Incomoda-me que já no final da manhã de sábado aproveitando uma soneca do Pedro, tenha conseguido entre a exaustão e o desconsolo, ter finalmente encontrado meia hora de paz para me entregar à culinária. Incomodou-me ter almoçado sozinha, não ter podido partilhar como estavam bons os carapauzinhos. 
Não tem nada de errado, afinal a maioria das minhas refeições é a solo e não me incomodo, mas em todo o nosso redor, há essa pressão nestes dias supostamente de festa. Nos descontos de supermercado especiais de época, nos ovos de chocolate, nas amêndoas, nos amigos que vão para a terra, tudo em nosso redor nos remete para uma realidade que não tenho, o meu filho não tem, mas sinto que a anseia. Incomoda-me, mas não posso fazer nada, ou até posso, pois que acabando de publicar este post, vou semear a casa com bilhetinhos para uma alegre e matutina caça ao tesouro onde o meu Pedro acabará por dar uns passos, até chegar ao coelho de chocolate. Prevejo umas piadolas que o forte sentido de humor que o meu filho tem, perceberá o fraco trocadilho. Por maior que seja a falta ou ausência de todas as figuras que deveriam estar na sua vida, eu, Mãe, não desisto de preencher a sua vida com momentos bons a dois, tento dar-lhe continuamente uma boa base, ainda que a solo.
Mas eis que encontro forma de me sentir feliz: Uma querida amiga telefona-me entretanto. Vai para fora mais tarde, mas ainda passa por minha casa a trazer um carrinho para o Pedro. Como era cedo, pergunto-lhe se já teria almoçado e desligo já contentinha a preparar-lhe o farnel surpresa, num saco os frescos: as primeiras nêsperas desta primavera tardia e uma caixinha com salada, e num outro saco, arroupadas num pano de cozinha, duas caixas: uma com os carapaus ainda quentes e outra com o arroz já enxuto de malandrices, mas ainda corado de sabores.


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Violação no masculino

Hoje aqui temos um post do Blog BULE VOADOR.
É um texto avassalador, um tema que entra no universo sombrio a que chamo de 'verdade calada'. E porque devemos dar voz a estas realidades sofridas, descalças no repúdio silencioso de vidas arruinadas, republico-o na íntegra, não me atrevendo a acrescentar uma vírgula.


O estupro de homens

Autor: Will Storr
Fonte: The Guardian
Tradução: Luiz Henrique Coletto
Violência sexual é uma das mais terríveis armas de guerra, um instrumento de terror utilizado contra mulheres. Contudo, grandes quantidades de homens também são vítimas. Neste relato pungente, Will Storr viaja para Uganda para se encontrar com sobreviventes traumatizados e revela como o estupro de homens é endêmico em muitos outros conflitos do mundo.
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Morrendo pela vergonha: uma vítima de estupro do Congo, atualmente vivendo em Uganda. A esposa deste homem o abandonou, pois ela não podia aceitar o que havia acontecido. Ele tentou cometer suicídio no final do ano passado, 2010. Foto: Will Storr for the Observer.

De todos os segredos de guerra, há um que é tão bem guardado que existe sobretudo como um rumor. É frequentemente negado pelo criminoso e sua vítima. Governos, agências humanitárias e ativistas de direitos humanos das Nações Unidas  mal reconhecem sua possibilidade. Ainda assim, de vez em quando alguém reúne coragem para falar sobre isso. Foi isso que aconteceu numa tarde comum no escritório de uma gentil e cuidadosa conselheira em Kampala, Uganda. Eunice Owiny foi empregada pelo Projeto Legal de Refugiados (RLP) da Universidade de Markerere [maior instituição acadêmica de Uganda] para auxiliar pessoas desalojadas por toda a África a lidarem com seus traumas. Este caso em particular, entretanto, era um enigma. Uma cliente mulher estava com problemas maritais. “Meu marido não pode fazer sexo“, ela se queixava. “Ele se sente muito mal com isso. Estou certa de que há algo que ele está escondendo de mim.“
Owiny convidou o marido para entrar. Por algum tempo, eles não chegaram a lugar nenhum. Então Owiny pediu para que a esposa saísse da sala. O homem então murmurou misteriosamente: “Aconteceu comigo.” Owiny franziu a testa. Ele colocou a mão no bolso e tirou de lá uma espécie de velho absorvente. “Eunice“, ele falou, “Estou sentindo dor. Eu tenho que usar isso.“
Deixando aquele absorvente coberto de pus na mesa à sua frente, ele contou seu segredo. Durando sua fuga da guerra civil no vizinho Congo, ele foi separado de sua esposa e capturado por rebeldes. Seus captores o estupraram, três vezes por dia, todos os dias, durante três anos. E ele não foi o único. Ele assistiu a homem após homem serem pegos e estuprados. Os ferimentos de um deles eram tão graves que ele morreu numa cela em frente à dele.
“Aquilo foi muito difícil de lidar para mim,” Owiny me conta hoje. “Há certas coisas que você simplesmente não acredita que possam acontecer a um homem, você entende? Mas agora eu sei que violência sexual contra homens é um grande problema. Todos ouviram as histórias das mulheres. Mas ninguém ouviu as dos homens.“
Não é apenas no Oeste da África que essas histórias permanecem desconhecidas. Uma das poucas pesquisadoras que lidou com o tema com alguma profundidade é Lara Stemple, do Projeto Legal em Saúde e Direitos Humanos da Universidade da Califórnia. O estudo dela chamado Male Rape and Human Rights [Estupro Masculino e Direitos Humanos, em tradução livre] observa incidentes de violência sexual com homens como uma arma em períodos de guerra ou de agressão política em países como Chile, Grécia, Croácia, Irã, Kuwait, a antiga União Soviética e a antiga Iugoslávia. Vinte e um por cento de homens do Sri Lanka que foram atendidos num centro de tratamento para torturados, em Londres, relataram abuso sexual enquanto estiveram presos. Em El Salvador, 76% dos prisioneiros políticos entrevistados nos anos 1980 descreveram pelo menos um incidente de tortura sexual. Um estudo com 6.000 detentos de um campo de concentração em Saravejo [capital da Bósnia] descobriu que 80% dos homens relataram terem sido estuprados.
Vim a Kampala para ouvir as histórias dos poucos homens corajosos que concordaram em falar comigo: uma rara oportunidade de apurar sobre um controverso e profundo tabu. Em Uganda, sobreviventes correm o risco de serem presos pela polícia, uma vez que estão mais suscetíveis a assumirem [os policiais] que estes homens são gays – um crime em Uganda e em outras 38 das 53 nações africanas. Eles provavelmente serão ostracizados pelos amigos, rejeitados pela família e ignorados pelas Nações Unidas e pela miríade de organizações não governamentais (ONGs) internacionais que estão equipadas, treinadas e prontas para ajudar mulheres. Esses homens estão feridos, isolados e em perigo. Nas palavras de Owiny: “Eles foram desprezados.“
Entretanto, eles estão dispostos a falar, em grande parte graças ao diretor britânico do RLP, Dr. Chris Dolan. Dolan ouviu falar pela primeira vez em violência sexual contra homens em períodos de guerra no final dos anos 1990 enquanto pesquisava para sua tese de doutorado no norte de Uganda, e ele percebeu que o problema poderia estar dramaticamente subestimado. Interessado em ter uma compreensão mais ampla da profundidade e natureza do problema, ele colocou alguns cartazes por toda Kampala em junho de 2009 anunciado um “workshop” sobre o assunto numa escola local. No dia marcado, 150 homens apareceram. Numa explosão de sinceridade, um dos homens admitiu: “Isso aconteceu com todos nós aqui.” Logo se tornou de conhecimento dos 200.000 refugiados ugandenses que o RLP estava ajudando homens que haviam sido estuprados durante conflitos. Lentamente, mais vítimas começaram a aparecer.
Encontrei Jean Paul no quente e empoeirado telhado do edifício do RLP em Old Kampala [região da capital]. Ele vestia uma camisa de botões vermelha e mantinha-se segurando o pescoço para baixo, seus olhos fixos no chão, como numa espécie de desculpas por sua impressionante altura. Ele tem o lábio superior mais proeminente que treme de forma contínua – uma condição nervosa que o faz parecer à beira das lágrimas.
Jean Paul estava na universidade no Congo, estudando engenharia eletrônica, quando seu pai – um empresário rico – foi acusado pelo exército de estar ajudando o inimigo e morto a tiros. Jean Paul fugiu em janeiro de 2009, para logo ser raptado por rebeldes. Junto de outros seis homens e seis mulheres, ele foi levado para uma floresta no Parque Nacional Virunga.
Mais tarde naquele dia, os rebeldes e seus prisioneiros encontraram-se com seus comparsas que estavam acampados na mata. Pequenas fogueiras podiam ser vistas aqui e ali entre as sombrias fileiras de árvores. Enquanto as mulheres foram colocadas para fora para preparar comida e café, 12 combatentes armados cercaram os homens. De seu lugar no chão, Jean Paul olhou para cima para ver o comandante inclinando-se entre eles. Com seus 50 anos, era careca, gordo e usava uniforme militar. Vestia uma bandana vermelha ao redor do pescoço e tinha pedaços de arbustos amarrados ao redor dos cotovelos.
“Vocês são todos espiões,” disse o comandante. “Vou mostrar a vocês como punimos os espiões.” Ele apontou para Jean Paul. “Tire suas roupas e fique posicionado como um homem muçulmano.“
Jean Paul pensou que ele estivesse brincando. Ele balançou a cabeça e disse: “Eu não posso fazer essas coisas.“
O comandante chamou um rebelde. Jean Paul podia ver que ele tinha apenas nove anos de idade. Foi dito ao menino, “Bata neste homem e tire as roupas dele.” O garoto atacou Jean Paul com a coronha da arma. Finalmente, Jean Paul implorou: “Ok, ok. Eu tiro minhas roupas.” Uma vez nu, dois rebeldes o seguraram numa posição ajoelhada com sua cabeça empurrada contra o chão.
Naquele momento, Jean Paul interrompeu o relato. A tremedeira em seu lábio superior era mais evidente do que nunca, ele baixou a cabeça um pouco e disse: “Sinto muito pelas coisas que vou dizer agora.” O comandante colocou a mão esquerda na nuca de Jean Paul e usou a mão direita para bater em sua bunda “como num cavalo”. Entoando uma canção de feiticeiro, e com todos assistindo, ele começou. No momento em que ele começou a estuprá-lo, Jean Paul vomitou.
Onze rebeldes aguardavam numa fila e estupraram Jean Paul. Quando ele estava muito exausto para se manter [naquela posição], o próximo agressor envolvia o braço ao redor do quadril de Jean Paul e o levantava pelo estômago. Ele sangrava sem parar: “Muito, muito, muito sangramento,” ele diz, “Eu podia sentir como se fosse água.” Cada um dos homens prisioneiros foi estuprado 11 vezes aquela noite e em todas as noites que se seguiram.
No nono dia, eles estavam procurando por lenha quando Jean Paul viu uma enorme árvore com raízes que formavam uma pequena gruta. Agarrando aquele momento único, ele rastejou para dentro dela e ficou assistindo, trêmulo, aos rebeldes procurando por ele. Depois de cinco horas observando as pegadas dos soldados enquanto eles o procuravam, Jean Paul ouviu o plano deles: eles iriam disparar um rajada de tiros e dizer ao comandante que Jean havia sido morto. Finalmente ele saiu do esconderijo, fraco após seu calvário e pela dieta de apenas duas bananas por dia durante sua captura. Vestido apenas de cueca, ele rastejou pelo matagal “lenta, lenta, lenta, lentamente, como uma cobra” até a cidade.

"As organizações trabalhando com violência sexual não falam sobre isso. Chris Dolan, diretor do Projeto Legal de Refugiados. Foto: Will Storr for the Observer.
Hoje, apesar do tratamento hospitalar, Jean Paul ainda sangra quando caminha. Como muitas vítimas, seus ferimentos são tão graves que ele deveria restringir sua dieta a alimentos leves como bananas, as quais são caras, e Jean Paul pode pagar apenas por milho e painço [tipo de cereal]. Seu irmão seguidamente pergunta o que há de errado com ele. “Não quero contar a ele,” diz Jean Paul. “Temo que ele vá dizer: ‘Agora meu irmão não é um homem.‘”
É por esta razão que tanto agressor quanto vítima entram numa conspiração de silêncio e o motivo por que homens sobreviventes frequentemente descobrem, uma vez que suas histórias são descobertas, que perderam o apoio e o conforto daqueles que os cercam. Nas sociedades patriarcais que existem em muitos países em desenvolvimento, papéis de gênero estão rigidamente definidos.
“Na África, a nenhum homem é permitido ser vulnerável,” diz a funcionária do RLP que lida com questões de gênero, Salome Atim. “Você tem que ser masculino, forte. Você nunca deve desmoronar ou chorar. Um homem deve ser um líder e provedor para a família toda. Quando ele falha em alcançar este padrão, a sociedade entende que há algo errado.“
Às vezes, afirma ela, esposas que descobrem que seus maridos foram estuprados decidem abandoná-los. “Elas me perguntam: ‘Agora como que vou viver com ele? Como o quê? Isso ainda é um marido? É uma esposa?’ Elas perguntam, ‘Se ele pode ser estuprado, quem está me protegendo?’ Há uma família com a qual estou lidando de perto em que o marido foi estuprado duas vezes. Quando a esposa descobriu, ela foi para casa, embrulhou suas coisas, pegou as crianças e foi embora. Claro que aquilo destruiu com os sentimentos daquele homem.“
De volta ao prédio do RLP, fico sabendo sobre as outras formas de sofrimento infligidas àqueles homens. Eles não são apenas estuprados, são forçados a penetrar buracos em bananeiras em que corre seiva ácida, a sentar com seus genitais numa fogueira, a arrastar pedras amarradas a seus pênis, a fazer sexo oral a filas de soldados, à penetração com chaves de fenda e pedaços de pau. Atim já viu tantos sobreviventes que, com frequência, ela pode apontá-los no momento em que se sentam. “Eles tendem a se inclinar para a frente e geralmente vão sentar sobre uma das nádegas,” ela me relata. “Quando tossem, eles seguram suas partes inferiores. Algumas vezes, haverá sangue na cadeira quando eles se levantarem. E com frequência eles têm um odor característico.“
Porque há tão pouca pesquisa sobre estupro masculino em períodos de guerra, não é possível afirmar com alguma certeza por que isso ocorre ou mesmo quão frequente é – ainda que uma rara pesquisa de 2010, publicada no Journal of American Medical Association, tenha encontrado que 22% dos homens e 30% das mulheres no leste do Congo relataram violência sexual decorrente de conflitos. Conforme afirma Atim: “Nosso pessoal está sobrecarregado com os casos que temos, mas em termos de números reais? Esta é a ponta do iceberg.“
Mais tarde conversei com a Dr. Angella Ntinda, que lida com encaminhamentos do RLP. Ela me diz: “Oito de dez pacientes do RLP vão falar sobre algum tipo de abuso sexual.“
“Oito em cada dez homens?“, esclareço.
“Não. Homens e mulheres,” ela diz.
“E quanto aos homens?“
“Creio que todos eles.“
Eu estou horrorizada.
“Todos eles?” eu pergunto.
“Sim,” ela afirma. “Todos eles.“
A pesquisa de Lara Stemple na Universidade da Califórnia não mostra apenas que a violência sexual contra homens é um componente das guerras pelo mundo todo, ela também sugere que as organizações humanitárias internacionais estão falhando com vítimas do sexo masculino. O estudo dela cita uma revisão de 4.076 ONGs que lidaram com violência sexual em períodos de guerra. Apenas 3% delas mencionaram as experiências dos homens em sua literatura. “Tipicamente,” Stemple afirma, “com uma passagem curta de referência.“

Foi dito a um homem: 'Temos um programa para mulheres vulneráveis, mas não para homens': uma vítima de estupro do Congo. Foto: Will Storr for the Observer.
Na minha última noite, fui à casa de Chris Dolan. Estávamos no topo de uma montanha, vendo o sol se pôr nas redondezas de Salama Road e Luwafu, com o lago Victoria ao longe. À medida que o céu foi passando do azul para o lilás e para o preto, uma miríade confusa de luzes brancas, verdes e laranjas cintilavam; pontinhos de luz de um acidente distante no vale apareciam. Um burburinho magnífico vinha disso tudo. Bebês chorando, crianças jogando, cigarras, galinhas, pássaros, vacas, televisores e, sobressaindo-se sobre tudo isso, um chamado para orar numa mesquita distante.
As descobertas de Stemple sobre o fracasso das agências humanitárias não é surpresa para Dolan. “As organizações trabalhando com violência sexual e de gênero não falam sobre isso“, ele afirma. “É sistematicamente silenciado. Se você for muito, muito sortudo eles darão a isso uma menção tangencial no final do relatório. Você deve conseguir cinco segundos de: ‘Ah, e homens também podem ser vítimas de violência sexual.’ Mas não há quaisquer dados, nenhuma discussão.“
Como parte de um esforço em corrigir isso, o RLP produziu um documentário, em 2010, chamado Gender Against Men [O Gênero Contra os Homens, em tradução livre]. Quando ele foi exibido, Dolan disse que tentativas de impedi-lo foram feitas. “Essas tentativas foram feitas por pessoas bem conhecidas, agências humanitárias internacionais?” eu questiono.
“Sim,” ele responde. “Há um temor entre eles de que este é um jogo de soma-zero; de que há um bolo pré-definido e se você começar a falar sobre homens, você irá de algum modo comer um naco deste bolo que eles levaram bastante tempo para assar.” Dolan comenta sobre um relatório de 2006 das Nações Unidas que se seguiu a uma conferência internacional sobre violência sexual nesta área do leste africano.
“Eu sei de fato que as pessoas por trás do relatório insistiram para que a definição de estupro fosse restrita a mulheres,” ele afirma, completando que um dos doadores do RLP, Dutch Oxfam, recusou-se a fornecer qualquer outra doação a menos que ele [Dolan] prometesse que 70% dos clientes fossem mulheres. Ele também se recorda de homem cujo caso era “particularmente grave” e que foi designado para a agência de refugiados da ONU, a UNHCR. “Eles o disseram: ‘Nós temos um programa para mulheres vulneráveis, mas não para homens.’“
Isso me lembra de uma cena descrita por Eunice Owiny: “Há um casal“, ela conta, “O homem foi estuprado, a mulher foi estuprada. A divulgação é fácil para a mulher. Ela recebe o tratamento médico, ganha atenção, é apoiada por diversas organizações. Mas o homem está isolado, morrendo.“
“Em resumo, é exatamente isso que ocorre,” Dolan confirma. “Parte do ativismo em torno dos direitos das mulheres é: ‘Vamos provar que mulheres são tão boas quanto os homens.’ Mas o outro lado disso é que você deveria olhar para o fato de que homens podem ser fracos e vulneráveis.“
Margot Wallström, a representante especial para violência sexual em conflitos do Secretário-Geral da ONU, insiste em uma declaração que a UNHCR estende seus serviços para refugiados de ambos os gêneros. Mas ela reconhece que o “grande estigma” que homens enfrentam indica que o número real de sobreviventes é maior do que o reportado. Wallström diz que o foco permanece nas mulheres porque elas são “a esmagadora maioria” das vítimas. Ainda assim, ela complementa, “nós de fato sabemos de muitos casos de homens e meninos sendo estuprados.“
Mas quando contato Stemple por e-mail, ela relata “uma constante tecla batida em que mulheres são as vítimas de estupro“ e um ambiente em que homens são tratados como uma “classe agressora monolítica”.”
“Leis internacionais de direitos humanos deixam os homens de lado em praticamente todos os instrumentos elaborados para tratar de violência sexual“, ela prossegue. “A Resolução 1.325 do Conselho de Segurança da ONU, em 2000, trata violência sexual em tempos de guerra como algo que impacta apenas mulheres e meninas… A Secretária de Estado Hillary Clinton recentemente anunciou 44 milhões de dólares para implementar esta resolução. Por causa de seu foco inteiramente em vítimas mulheres, parece improvável que qualquer parte destes fundos vá atingir os milhares de homens e meninos que sofrem deste tipo de abuso. Ignorar o estupro masculino não só negligencia os homens, também fere as mulheres ao reforçar um ponto de vista que iguala ‘mulher’ com ‘vítima’, assim dificultando nossa capacidade de ver mulheres como fortes e empoderadas. Num mesmo sentido, o silêncio sobre vítimas homens reforça expectativas deletérias sobre homens e sua suposta invulnerabilidade.”
Considerando-se  a conclusão de Dolan de que “o estupro de mulheres é significativamente sub-reportado e que o de homens quase nunca é reportado“, eu pergunto a Stemple se, baseando-se em sua pesquisa, ela acredita que isso seja uma parte até agora inimaginável de todas as guerras. “Ninguém sabe, mas eu realmente acho que é seguro dizer que é provável que isso tenha sido parte de muitas guerras ao longo da história e o tabu tenha desempenhado uma parte neste silêncio.“
Enquanto deixo Uganda, há um detalhe de uma história que não consigo esquecer. Antes de receber ajuda do RLP, um homem foi ver seu médico local. Ele contou ao médico que foi estuprado quatro vezes, que estava ferido e depressivo e que sua mulher havia ameaçado deixá-lo. O médico deu a ele Paracetamol.
Os nomes dos sobreviventes foram modificados e suas identidades ocultados para a proteção deles. O Projeto Legal de Refugiados (RLP) é uma organização parceira da Christian Aid (christianaid.org.uk)





sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Autismo em Agosto

Autismo em Agosto? Mas não existe o ano todo? 

Claro que sim, o ano todo, a vida toda. Não faz pausa para férias nem para um cafézinho. Autismo existe nas nossas vidas de pais, não desde o diagnóstico, mas desde que nascem - sim, a comunidade científica ainda não sabe o que causa, mas sabe-se que é genético -, vem para ficar e nós, pais, aprendemos esta nova realidade. 


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Então o que acontece em Agosto? Bom, em Portugal brincamos, dizendo que o país pára, vai de férias, chama-se até de forma levezinha de silly season,
mas para quem tem uma (ou mais) pessoas portadoras de autismo no seio da família, silly (tola), é a paragem abrupta das rotinas criada pela falta de resposta adequada enquanto os apoios escolas, centros e instituições fecham para férias. São merecidas, nem ponho em questão!, as pessoas que lidam diariamente com os nossos filhos precisam da sua sanidade mental - tal como nós pais - para continuarem o bom trabalho que fazem.


O meu filho Pedro e eu - é sabido - temos um relacionamento muito umbilical. Já o escrevi e disse repetidas vezes, que no afã de um parto difícil se esqueceram de o cortar, e que, ao longo da vida, eu, nunca tive nem o instrumento ou a vontade.
Desde cedo a minha luta com o Autismo foi olho no olho, como dizer: - Ai é assim? não me roubas o meu bebé, estou aqui pronta para tudo, subo à lua atrás de ti se necessário for!, vou aprender tudo sobre ti, estou a entender-te, autismo, 'tou na tua, 'tás a ouvir-me?, vou procurar norte e sul, todo o mapa mundo, - Vai Ana! - porque quero mais, porque quero tanto, o que é demais, o que é espanto! Anseio entender o meu filho, corro o céu e vou atrás de ti ao som dos teus passos, escutando o silêncio do meu filho, desço a ladeira, sacudo a poeira na busca incessante de cada fio condutor que me deslinde o intrincado enrodilhado de sensações, sentires e necessidades que, devido à teia em que o enleias, eu não consigo decifrá-lo naturalmente no seu olhar tão doce, quantas vezes ausentado desta minha realidade a que costumam chamar de normalidade. Mas eu apanho-te na curva, ó autismo!, 'tou na tua!, e em algum momento entendo-te, acompanho a fórmula de cada instante que, como magia, faz o meu filho olhar-me fugazmente mesmo nos olhos e dizer-me com aquele sorriso que às vezes vislumbro: "Ei!! Mãe, tu 'tás na minha!"
É uma luta para a vida. O meu filho faz 24 anos na próxima semana, tenho na nossa história de vida tantas pequenas vitórias ganhas, batalhas diárias e muito insistidas, tantas outras perdidas, algumas inteligentemente desistidas - como atar sapatos: se existe o velcro, para quê batalhar em algo deveras difícil? Autismo é uma guerra de muitas batalhas e em cada batalha, muitas frentes. Desistir é um verbo que não sei conjugar.
Chamam-me corajosa, mas se inicialmente me espantei com esta força que não sabia existir em mim, hoje sei que todos os pais que têm esta realidade para a vida, arranjam os seus mecanismos internos de luta - até os de fuga - para buscar a essência. Com os anos, sei que se preocupam menos com o peso da palavra AUTISMO e se focam mais no SIMPLES: a relação com a sua criança.

Se sou corajosa? Não sei, se no começo a cada fragmento que me faltava o pé eu avançava dizendo mentalmente: "faz de conta, Ana!, vá... faz de conta que aguentas isto que ninguém vai notar a diferença!", agora acho que lhe apanhei o jeito e já 'me minto' naturalmente - ser corajosa é a maior mentira instituída da minha vida. Mas preciso dela, a cada passada que vão sempre sendo maiores que as minhas pernas podem alcançar, a cada decisão que me dói ter de tomar, porque o chorar-me guardo para um possível depois onde me posso por fim desabotoar desta vida que não escolhi para mim, mas de que não desisto de enfrentar e lutar por dias de maior dignidade. Estamos aqui. Agosto está a terminar. Este  em particular é de alma demasiado ferida e triste para o pôr em palavras.
Setembro sim, é o meu mês. Tempo de arregaçar as mangas, de voltar a sorrir


N. B. - todas as fotos que utilizei do ELI são da autoria de seu pai, o fotógrafo Timothy Archibald. Nesta fantástica reportagem fotográfica o pai retrata Eli exactamente como ele é, ao contrário do que acontece com tantos pais, que esperam o 'momento kodak', o tal sorriso perfeito ou as situações mais giras dos seus putos. Segundo o fotógrafo, nenhuma das imagens foi planeada e todas foram fruto de um momento irrepetível, já que Eli rapidamente se satura do que está a fazer, procurando outra ocupação em questão de minutos. Esta colectânea foi publicada no livro Echolilia: Sometimes I Wonder, que podem consultar nos links que indico. 

A música que escolho para ser escutada neste post é do CD Devagar da autoria de Luiz Caracol, (à venda e no TOP da FNAC) é o tema TAVA NA TUA em dueto com Sara Tavares (que tb escreveu a letra) e eu 'brinco' de mesclar as minhas palavras com as destes dois grandes cantautores da nossa praça, envolvendo-as na sonoridade e na beleza das fotos do pai de Eli que quis partilhar convosco. 

terça-feira, 2 de abril de 2013

Posso falar?

Recordo sempre com carinho um leitor que me escreveu a contar que a filha de 11 anos quis ler o meu livro “Autista… quem? Eu?”. Ele permitiu, e como no final a menina dizia coisas que nos escapam a nós adultos (nessa família não há pessoas com autismo é apenas a reflexão da menina de 11 anos).
Dizia ela: “o Xico tem a minha idade e não consigo parar de pensar no que não pode fazer e eu posso.”
Aquilo que damos como garantido,  aos olhos de uma leitora que se identificou pela faixa etária com a personagem, fascinou-me e comoveu-me tal a sensibilidade da pequena. E contava o pai que durante vários dias o Xico esteve bastante presente no pensamento, discurso e acções da menina que enumerava com frequência momentos que eu, autora, jamais esqueci: dizia à mesa – “o Xico não comeria assim”. dizia a andar de bicicleta - “o Xico gostaria do vento na cara, de certeza!, mas se calhar não saberia pedalar”. Estava demasiado siderada com o que a diferença faz na vida de uma pessoa. 
Isso é consciencialização.


Continuo a afirmar que a consciencialização é necessária, deveria ser obrigatória (por exemplo) nas forças de autoridade. A cada momento acontece alguma situação que nos deixa desconcertados e o que faz a polícia, os bombeiros, a protecção civil? Pois. Explicamos (sim, nós, os pais!) primeiro o que é autismo, para depois nos poderem responder - lamento, não podemos ajudar. Como se não o soubéssemos. E que tal formação para esta gente que pode efectivamente ajudar? Que deveria fazê-lo (e fá-lo-ia) se soubesse como? 
Falar de temas - seja qual for - a datas precisas irrita-me profundamente, é sabido. Porque quem precisa, precisa sempre. Acredito que a consciencialização se faz o ano todo, 365 dias ao ano. Porque o autismo vive connosco 365 dias ao ano. Não apenas a 2 de Abril.

Luiz Caracol - Samba do Bairro

As datas são importantes para dar um empurrão e fazer lembrar que algo existe, que precisa ser valorizado. O que me irrita nas datas comemorativas é o facto de as pessoas só se lembrarem nesse dia. 
No caso de dia 2 de Abril, não é data comemorativa, é o dia mundial para a consciencialização do autismo. Caramba ainda estamos na guerra do básico, do pão com manteiga da coisa - é absolutamente necessário que se saiba, aquele saber que está debaixo da pele, entranhado pelas pessoas que nos rodeiam, para que de uma vez parem de olhar para a nossa população com autismo como uma coisa do outro mundo, não são excêntricos, nem malcriados, são autistas! São diferentes, são especiais? Chamem como quiserem, mas - utilizando uma expressão popular - dêem o nome certo aos bois, chamem-lhe AUTISMO!
Cansa-me profundamente explicar o meu filho a cada situação embaraçosa. Cansa-me justificar comportamentos e acções em torno da ideia do meu filho necessitar do ter um tubo de mm's mini na mão (sim, dá-lhe segurança, paz, faz com que "a cabeça não fique maluca" e se essa tranquilidade é um tubo, porque não compreender o que nos pede sem nos olhar?), cansa-me de explicar ad nauseaum que lhe é tão essencial como um pulmão e agradeço mil vezes aos meus amigos de S. Paulo, Brasil que me enviam caixas de tubos m&m's mini, uma vez que o produto foi descontinuado e só se encontra à venda em S. Paulo. Pergunto: têm noção do tamanho da ternura contida em cada uma dessas caixas que me chega pelos correios? Porque eu encaro isso como um acto de amor incondicional pelo meu filho e por mim um acto de Amizade que não esquecerei nunca! 
Ahhhh sim, e isso, também é consciencialização.
Cansa-me o olhar cansado de pais mais novos ao desabafarem comigo como foi uma consulta de um médico afamado e que sai de lá com um rol de improváveis patologias, mas que garante uns bons dois a três anos de terapias bem dispendiosas que se vêm a revelar inúteis, cansa-me a desunião que o autismo provoca no seio de uma família apenas porque está lá, cansa-me o olhar de comiseração do coitadinho. Cansa-me tanto que ensinei ao meu filho - como ensinei cada frase correcta como resposta adequada a cada momento e situação da vida (chamo a isso ter-lhe fornecido "um banco frases" - dados que ele usa como respostas para as mais diversas situações na vida, e na grande maioria das vezes usa adequadamente, apesar de baixinho me perguntar para validar: "disse bem?") Então, como me cansa o olhar comiserativo e todo o conceito pejorativo do  "coitadinho" também ensinei ao meu filho ter respostas prontas (a roçar o malcriadas, sim), e adequadas a ataques desses, na realidade a saber defender-se na mesma linguagem e ele, lindo menino diz com um ar bem pispineta: "Coitadinho...? Coitadinho é corno!"






Vem aí outro dia 2 de Abril. Este ano não me apetece apenas lutar para conseguir o Cristo-Rei de Azul no dia 2. Ficou lindo nos anos passados, tenho o maior orgulho de me ter empenhado e de ter conseguido, mas este ano, sei lá, quero mais! Quero 250 grs. de PAZ.

(já o peço há vários anos, mas não me canso e continuarei 
até conseguir... isso mesmo - consciencializar)
Dístico de lugar de estacionamento obrigatório à porta de casa de cada família onde habite uma pessoa com autismo - bem sei, não me calo com um detalhe que é tão simples de ser votado na Assembleia da República e ou pelos governantes deste nosso país - porque as rotinas são importantes para estas pessoas e saber que o familiar que os conduz estaciona sempre o carro no mesmo sítio, lhes dá paz.
Bem sei que o pedi directamente ao antigo primeiro ministro Sócrates que me respondeu - a ser como eu dizia, haveria muito a fazer. Pois. Continua a haver muito a fazer, lamentavelmente o sr eng José Sócrates nada fez. Agora tenho um novo pedido. Posso?

Encontro Presencial LX Factory 20 Bloguers com o Secretário Geral do P.S. José Sócrates
Moderador jornalista e bloguer Paulo Querido Uma ideia original do Deputado Jorge Seguro

Formação obrigatória para as nossas forças de autoridade. É necessário e premente que saibam o que é Autismo. Não são mongolóides, não são como o tonto lá da aldeia, não são malucos - e sim!, oiço isto das nossas forças de autoridade a cada vez que me confronto com estas situações. As famílias precisam deste tipo de ajuda? Por favor.... FORMAÇÃO e OBRIGATÓRIA. Vão-me ouvir enquanto não o conseguir!!!
Nem que seja só as 250 grs. de paz para esta população e suas famílias... para mim já chega, já me faria sorrir, nesta minha luta 365 dias ao ano de mostrar que o autismo existe e temos de lidar com ela a cada um dos dias e noites das nossas vidas. 


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