quinta-feira, 23 de julho de 2026

Opinião – o errado no pré-escolar

Tenho 38 anos de mãe – contabilizo o tempo de gravidez! 

Sempre fui observante, indagativa, fiz-me muito interventiva, por conta desta minha sede de saber e consequentemente perceber tudo – até mesmo ainda antes de parir, na minha gravidez de alto risco – e por conta de toda a novidade da raridade que acontecia ao meu redor, grávida, já Mãe, de primeira  viagem. 

Hoje, com estes 38 anos de igual adjectivação, afirmo assertiva e sem pruridos, a minha convicta ideia de como todo o formato do pré-escolar, de respeitar e ensinar crianças desde tenra idade, está doente, profundamente errado. 

Deforma-se cada ser único que, quase mal nasce, os confiantes pais entregam a um sistema que os unifica e comprime a uma "normalidade" que muito me assusta! 

 Almada: aponto o dedo – não à funcionária – que até estava a usar o seu próprio carro com vidros escuros (logo, os transeuntes não poderiam ver uma criança lá dentro), a senhora não conduzia um qualquer identificada carrinha da instituição! –, e por escrever este artigo de opinião que tanto me toca, peço sim, o vosso foco, a vossa atenção, virada à operacionalidade da instituição que, aqui sim!, as generalizo, já que se regem pela mesma batuta. 

 TODOS FALHARAM! 

 Perguntei-me, logo que escutei a triste notícia, qual a razão de a senhora ter estacionado do outro lado da instituição?, avento que talvez algum superior hierárquico tenha telefonado ou enviado mensagem à funcionária que lembro, conduzia o seu próprio carro, transportando uma menina de ano e meio, já entregue pelos pais, ao cuidado da instituição, e imaginem  – tenham solicitado à funcionária em questão que desse só um pulinho, para um qualquer recado extra, era só para lá passar num instantinho. 

 Tem de haver um motivo para a senhora ter deixado o carro do outro lado! 

 Considero que este esquecimento foi muito além do que o da funcionária que conduzia o seu carro. Foram muitos e enumero-os com segurança, já que a menina foi entregue à instituição naquela manhã: • no bom dia matinal?, a menina esteve ausente, 

 • no reforço a meio da manhã? 

 • na actividade?, faltou o desenho da Sofia, 

 • no lugar vazio à mesa de almoço, 

 • no prato a mais que ninguém tocou, 

 • na fralda marcada com S que não foi trocada, 

 • no catre onde não fez a sesta, 

 • no lanche (pela hora do sucedido… será que houve lanche?) 

de novo, o gritante lugar vazio durante horas a fio com a menina por um fio… 

e depois o caos. 

 Pergunto-me: será que todos puseram a mão na consciência – num mea culpa de "podia ter sido eu" – em mais um dia tão corrido, onde tanto se falou no calor demais e nunca da menina a menos? 

Fizeram o seu mea-culpa?, qualquer uma, até a directora, podiam ter perguntado à educadora responsável da sala, porque faltara a Sofia, podiam ter telefonado aos pais. 

 Pergunto-me: quantos destes pequenos alertas pode conter um só dia de trabalho, onde se é responsável por filhos de outros e se pode (pode?) olhar para fora da formatada normalização, questionarem-se sobre a ausência, da criança que está ao cuidado da instituição. 

 É sabido. (É?) Dentro de portas, onde muita vez nem é permitido aos pais entrarem para observarem como evoluem e reagem, longe da acostumada família ou, porque não?, repararem como são tratados os seus filhos. 

 Não é sabido (é?) como os funcionários, num todo, têm de lidar com uma superior e rígida direcção que invariavelmente têm nos seus quadros ou contratados pessoas a menos para tanta criança (mais ainda estando nós em meses de férias!), exigindo-lhes, com uma precisa batuta, demasiadas tarefas simultâneas – estão sempre com um olho no burro outro no cigano –, com crianças, especialmente à vontade (à vontadinha?) com as que ainda não contam nada em casa!, ao invés do seu bem superior ser assegurado, de ser amada e protegida, tal como os pais anseiam e por tal pagam, a criança é tratada como produto em série: 

deitada, 

calada, 

fraldada, 

levantada, 

alimentada, 

deitada, 

calada, 

dormecida. 

A criança aprende sim!, a ser rápida a satisfazer o que lhe é imposto; a comer sem barafustar (há muitos para tratar!), quantas vezes a rude insistência até à náusea, a alguma criança, de ingerir o que lhe repugna (sem pensarem em espaço ou tempo para falar posteriormente com os pais, entender o porquê, e combinarem a transição – resolver algo que pode ser tão simples), muitas as vezes em que "isso" é relevado – vai aprender a comer como os outros! – porque nunca há tempo, porque seria mais um relatório a fazer na plataforma, porque seria um incómodo, vá. 

Entretanto as crianças vão aprendendo como é mais fácil encarneirar para não terem "consequências", isto aprendem muito cedo e muito rápido: quando chega a idade de poderem denunciar, estão já formatadas e o que conhecem nas suas cabeças é o normalizado. 

Bem hajam as outras crianças, as que cedo demonstram terem o seu carácter, nada "encarneirável"! 

 Óbvio que existem instituições e funcionários diferenciados, a que numa próxima vez já dedico algumas - muitas – palavras dignas do meu apreço. Alongo-me, contudo, nestas duas próximas acções, sim!, são duas das que mais me indignam, sem retirar o desmérito a todas outras atitudes antes sinalizadas: 

• a imposição do bacio antes de tempo e sua inconsequente retirada precoce da fralda, incluo neste meu asco, a retirada ou ausência de chucha e da vil proibição de trazerem um brinquedo de casa; tudo tem o seu tempo, todo o ser é uno, em que o enfoque deveria estar na maturidade tanto física como emocional de cada criança. 

O que acontece?, é um corredor de bacios com crianças em pranto conjunto, pelo incómodo, pela pressa que lhes é exigida: palminhas, elogios e sorrisos a quem consegue!, as crianças que não estão, nem estarão ainda no seu momento?, saltam as alcunhas, as piadolas! 

É que existem! 

A extirpada auto-estima tão tenrinha? 

A criança não conta em casa, porque lhe ensinaram a calar e porque é uma vergonha! 

O certo é que o medo é-lhes suscitado a cada guloseima que não ganham! 

A rápida e bem consolidada selecção pelos bonitinhos, bons, rápidos, fáceis (e brancos?), deixou-me sempre, deixa-me ainda, completamente desconcertada e revoltada! 

• a sesta cronometrada (sem ser pelo relógio biológico infantil). 

Quando o soninho bom lhes é retirado demasiado cedo (e é um direito básico da criança que lhes traz consequências para a vida. (

Os incautos pais continuaram a pagar pensando fazer o seu melhor, incutindo aos queixosos filhos que é assim, é o normal! 

E os catres urinados durante a sesta? 

Na verdade geram em tenra idade desatenção, dificuldades cognitivas e de aprendizagem. 

A (des)regulação do comportamento não começa com os smarphones, e sim, na pré-existente privação de sono. 

Poderia ainda falar dos adversos efeitos como hipertensão arterial, maior prevalência em quedas por acidente, a ansiedade e a impulsividade que trará mais tarde por arrasto a obesidade. 

Começam onde os pais e futuros psicólogos não sabem nem sonham… (sabem?, imaginam?… consentem??) 

Um olhar atento para o pré-escolar e percurso escolar diferenciado (nem me estou a referir ao chamado "inclusivo" porque só verdadeiramente assim o consigo conceber!, olho para uma estrutura mais orgânica, onde se pratica a escuta activa, se cultiva o respeito mútuo, prevalece o diálogo, em que o sol do dia é o sorriso, o contacto físico, a aprendizagem de valores e princípios básicos; em que têm uma real horta cultivada pelas pequenas mãos e, quiçá galinhas, para aprenderem cedo que os douradinhos não nascem nos supermercados!, ovos frescos para substituir produtos embalados e processados! 

Escolas em que é oferecida a uma criança uma folha em branco e jamais a castradora fotocópia infantilizada na memória afectiva da educadora… deixai as crianças serem crianças, cultivem a criatividade em cada uma em vez de a cedo deceparem! 

Salvem-nos de tudo e tanto que efectivamente acontece hoje em dia repetidamente!, a lei dos afectos, entre funcionárias e crianças. Há felizmente excelentes educadores, auxiliares e empregados de limpeza que quantas vezes correm para um abraço ou dão um olhinho quando se tem de ir ali – uma vez mais, insisto: pessoal a menos e aceitam a inscrição de crianças a mais para o que realmente seria um bom trabalho. Os pais sabem bem quantos olhos são precisos só para o seu filho pequeno… o que será numa sala cheia só com dois adultos? 

A ponte que se forma entre os bons profissionais (que felizmente muitos há) com os pais – não há outra forma de ajudar uma criança a crescer!, é o amor supremo a cada criança em que a sua profissão e vocação sempre ganha! Quiçá excelentes directoras, as que sabem gerir a instituição sem ser pelo medo e sobranceria – sem passar pelo respeito e admiração – que tendo os seus funcionários tensos, em controlada rédea curta, repetidamente repreendidos, completamente exaustos e financeiramente mal recompensados, isto sim!, facilita o dia de São Disparate. 

 Não escrevo só de uma menina. 

 Doze crianças entre os dois meses de idade e os oito anos, em França, soluçaram até serem encontradas amontoadas numa carrinha na garagem escura numa creche ilegal e mais duas gémeas esquecidas no carro dos pais (já presos entretanto) sucumbiram, tudo só nesta triste semana. 

 Este conselho prático – o aparelho – no vídeo na minha story e link abaixo que vos deixo, deveria ser obrigatório adicionar por decreto-lei (ou bom senso) em todas as cadeiras para viaturas que transportem crianças, seja de instituições ou pessoais. Sinto-a a piorar a cada ideia de Jerico!, como arquitectarem a "Creche Feliz" em que as instituições auferem, por parte do Estado – Segurança Social – para que bebés de apenas quatro frágeis meses se apartem do seio famíliar a tempo inteiro e entrem na creche mais cedo do que era antes habitual – é que vai perder o lugar! 

Esta urgência de inventar o molde perfeito nas crianças, a mim, Mãe, que por diferentes motivos estive alheia a essa premência, porque estive três benditos anos com o meu filho Pedro, desarmam-me desconsolada. 

Três anos é toda uma fundação de diferente história, o que julgo saberem.

Se esse dinheiro para as creches/infantários fosse revertido num qualquer outro nome pomposo, em que os bebés ficassem os meses que são roubados à família, mãe e pai pudessem estar de licença mais meses pagos transferindo esse subsídio da creche dita feliz para os pais, ganharíamos todos enquanto humanidade, sim? (nem me falem em quebra de produtividade, quando as pessoas em licença são substituídos por quem nem trabalha, que acabam por ser absorvidos no sistema, mudando a matemática das estatísticas do desemprego!) 

Se não formos todos nós, enquanto sociedade, que somos também família, a construir um melhor e mais intenso olhar sobre a forma como vemos sendo o respeito, a empatia, a bondade… os ditos valores de superior interesse da criança de que tanto se fala e o vemos defraudado logo na educação básica das nossas crianças, estão a fazê-lo aos nossos filhos?, aos nossos netos?... e nós permitimos?

 Tenho idade para ser avó e ainda arregaço as mangas e faço toda a questão de fazer parte da mudança! Temos o presente e o futuro da humanidade nas nossas mãos… e sim, é uma escolha!, podemos ser inteligentes e actuar – diferente de compactuar com o "é assim!" – ou podemos continuar a passar rapidamente o indicador no ecrã de um smartphone. 




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

De quantos costados, mesmo? (parte I)

Sou nascida e criada em Lisboa, alfacinha de gema, sem contudo ser dos quatro costados: os meus pais também – lisboetas, contudo, os meus quatro avós que lá fizeram toda a sua vida, migraram muito jovens para a capital. 
Nós, os netos, temos três sólidas costelas beirãs – das rosas de Santa Teresinha e das filhoses – e uma pispineta costela da zona Oeste – da pêra-rocha e da quase extinta maçã riscadinha – que em muito nos moldaram para que nunca fossemos betos. 

Em tempo de escola havia uma certa brincadeira entre os colegas – hoje talvez lhe chamassem bullying – pelo facto de, na Páscoa e Verão, eu não ir passar férias à terra. 
Sendo lisboeta, "não tenho terra", como os meus colegas de escola que iam passar esses dias a casa dos avós em alhures. 
 Os nossos pais, também os avós (até os bisavós num último período) e nós, os três miúdos, vivíamos todos juntos na mesma casa, com a família à frente, na mesma rua. Já vos conto.

Lisboa é composta de muitos bairros típicos e a cada um é-lhe atribuído um certo estar, um comportamento diferente.  
Ou assim era. Sobre este tema escrevo em outra  publicação. 

Em Alvalade? 
Bom, na vida escolar vi-me entre "betos", sendo eu da Avenida da Igreja, com um pé no Campo Grande. 
Jamais almejei ser mais uma beta de um premonitório rebanho! 

Sendo uma rebelde maria-rapaz, vi-me sempre como uma atrevida e desafiadora papoila que nasce por entre a calçada, fruto de esmerada educação, de perene memória olfactiva a rosas de Santa Teresinha, nêsperas e maçã riscadinha. 

Nascida no Hospital de Santa Maria, vivi desde a infância até ao casamento em Alvalade. 
Vivi na discreta parte da Avenida da Igreja (que cruza com a Avenida de Roma, a maior agregadora da "betaria" lisboeta): começando do topo, com a icónica Igreja, é a parte mais comercial e beta da avenida, dando a volta na Praça de Alvalade, do altaneiro Santo António que a todos abençoa, descemos para o cenário que ficou na minha mente e a que ainda me cheira a casa, a que chamo a minha parte da avenida; sem comércio, só habitação e escolas. 
Descer a melhor parte da avenida no fim das aulas no liceu sorria instantaneamente com a sensação imensa de felicidade ao escutar os passarinhos, na hora de ver o sol a aflorar o cume das árvores – o Campo Grande –, ter o maior jardim de Lisboa por moldura ao longo da minha cálida avenida, banhada pela quente, silenciosa e dourada luz de final da tarde. 
As crianças do bairro adoravam lá brincar com pais e os avós, alguns outros, sentados nos ripados e curvilíneos bancos verdes do jardim, apreciavam as mini-saias: verdade!, foi segredado pelo minha quase centenária bisavó Piedade, à sua nora, minha avó Rosa, na nossa presença infantil, pensando que não compreenderíamos. Recordo vividamente, com toda a minha inocente incompreensão infantil, a falta de sentido daquele apiedado desabafo:

"O Joaquim  vai de tarde sentar-se no jardim ver as pernas de mini-saia e à noite quem as paga sou eu!"

Alvalade, na parte superior da Avenida da Igreja, têm vasos ao redor da porta de cada loja e onde os condutores dos carros param respeitosamente a cada passadeira de peões. 
(algo que vim a reparar que acontece também em Aveiro, e que é muito do meu agrado) 

Memórias boas! 
De Alvalade? 

Saudades da feliz memória dos aviões a passarem e os vidros a abanarem!, das escolas, todas ali em redor!, vinda da primária só de meninas, o misto marcante com o 25 de Abril na Eugénio dos Santos (preparatória), as tardes de sábado no cinema mesmo em frente, os gelados da Itália, os bolos de vinte e cinco tostões da Nova Relíquia (sem comparação aos da Suíça que o avô Xico trazia, a cada dia, do Rossio, no autocarro de dois andares verde, o 21). Liceu no Dona Leonor. 
Os amigos que por fim fazia na rua, no bairro, nas escolas, sem contar com os fins-de-semana e Verão, estes de sempre, e ainda dos muitos pen-friends com quem amiúde me correspondia. 
Sempre escrevi. 

Do jardim do Campo Grande? 

Na infância aprendi a remar não sei se com o meu pai ou meu avô, no enorme lago onde alugam botes. 
Tantos passeios e brincadeiras no jardim com mãe, pai, avós, manos!, e depois, na adolescência, a consolidar os dotes de nadadora no Sporting (SCP), na modesta primeira piscina também no mesmo jardim. Ahhh!, os longos e inesquecíveis quatro meses de férias na praia aprimoraram-me a propensão! Para quem tanto nadava no mar, era tão fácil a piscina, tão baixinha que a água era! 

Da casa? 
O amor. 
Disse que vos contava! 
O facto dos nossos pais terem namorado à janela muito cedo (desde os onze e doze anos), porque os avós paternos e maternos viviam frente a frente (nº 9 – 1º dto e nº 10 – 1º esq), numa rua sem saída, emoldurada pelas árvores, assim que tiveram idade casaram e passaram a viver com os pais do meu pai. Para nós, os três miúdos, criaram o entorno maravilha: vivemos sempre com avós e pais na mesma casa, tendo logo no outro lado da rua, na nossa frente os avós maternos, e seguindo-lhes os  o exemplo, também tios e subsequentes primos.  

No meu imaginário de infância a ideia de casa e uma família imediata tão próxima, só fez aumentar a sólida sensação, única e indescritível, de infância muito, mesmo muito feliz. 

A meus olhos, aconteceu magia com a romântica história de amor dos meus pais de que fomos testemunhas (também a dos meus avós paternos, já agora; foram dois casais felizes a cuidarem de nós). Os meus pais namoram à janela e casaram, até que a morte os separou (separou...?) 

Depois cresci. 
As fortes raízes – beirã e da zona Oeste – desta minha imagem de infância, penso, deu-me a base sólida para suportar tudo o que veio a seguir. 

Posso afirmar-vos que escrever me salvou. 

E perdoem-me, se mudo de tema. 

A verdade é que sendo uma menina de Alvalade, jamais me identifiquei no meu modo de ser e estar, enquanto beta. 
Fui muito traquina, rebelde, o diabo!, sei que não seria tão boa pessoa sem as duas enormes colheres de pau que a avó Rosa me partiu no lombo. 
Quatro adultos a educar com os outros avós e tio em frente, deu espaço para muito mimo. E digo: a minha sábia avó Rosa é ainda hoje a minha pessoa. 

Menina de Alvalade!

É como uma sombra que me segue até hoje – a brincadeirinha que nunca me soou a bullying – ainda em Lisboa em ambientes de trabalho, por ser de Alvalade, mais tarde por ter escolhido viver em Aveiro sendo tão lisboeta, em detrimento da Lisbon em que tristemente se transformou. Não o encaro com sobranceria – as minhas vivências foram simplesmente diferentes das de outras pessoas, só não me chamem beta!

Estou em Aveiro, que amo! 
E não é que reaprendi a remar...? 

Volto sempre a Lisboa. 
De visita. 
Agora já posso dizer que... vou à terra! 



segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Pés na terra & cabeça sonhadora

Hoje de manhã um amigo enviou-me esta mensagem: 
"Ia para o trabalho, ouvi esta música na m80 e lembrei-me de ti" 
Fiquei obviamente curiosa e cliquei no link para ver qual a música. 
Imediatamente o sorriso nasceu em mim antes de a escutar, ao ler o título e o grupo!, risonha, já desci para a minha caminhada matinal a dançaricar pelos degraus, a cantarolá-la na minha mente, sem conseguir descolar do meu rosto um alargado e malandro sorriso. 
É que amanhecia o meu mês de Setembro de modo tão, tão meu! 
Explico.
Sei que o meu amigo tem razão ao pensar em mim com esta canção: reconheço como tão bem me compreende ao longo destas décadas todas. De igual modo, o estilo e as palavras da cantautora escocesa Sadenia Reader, lêem-me na perfeição! 
Sim, "Perfect" (e clarooo que não é a música de Ed Sheeran! Atentem os mais jovens que amam descobrir os anos '80), foi o primeiro single dos Fairground Attraction (grupo já extinto), que quando saiu, se tornou #NumberOne numa época em que tínhamos e valorizávamos um top musical. 
Isto aconteceu transversalmente a 1988/1989, aquando do tempo conturbado&mágico da minha gravidez de alto risco, com o tempo de ser mãe, pelo que, estando por imperativa advertência médica, de cama durante oito bonitos meses da gestação do meu Pedro, escutava esta música amiúdea bombar na rádio! 
Ia ter mais cuidado do que todos os médicos me recomendavam! 
Foi uma gravidez muito rara e, por isso, bastante vigiada. 
E, sim!, ia ser perfeito!! 
Todo este texto contém link para uma música após outra, de modo que tem muita informação complementar nas letras de cada canção; as minhas palavras casam com as suas letras, pelo que pode fazer uma leitura apenas pelo texto ou deixar-se inebriar pela banda sonora destes meu pensar: é que a música é essencial à vida! 
Já depois da caminhada, tive de interromper o normal curso do meu dia, absorta e até comovida com os pensamentos que me ocorreram à mente; vim decidida e sentar-me a escrever. 
Escrever salva-me sempre! 
A memória que guarda os bons e os menos bons momentos da nossa vida, é plena na bondade: faz-nos empurrar para um canto mais escuro, o que nem é para lembrar. Não esquecemos: apenas o apagamos da nossa vivência quotidiana, como o som de uma vagarosa vassoura em segundo plano, numa música de Neil Young

Perfeito! 

Era como eu queria que fosse o meu casamento, tal como foi o dos meus pais e dos meus avós! 
Vivi rodeada de dois casais tão coesos, porém exposta (em frente, literalmente!) a outros dois tão tóxicos, que nem sei bem porque retive só o perfeito: bom... até sei! Sou da última geração em que as meninas foram educadas para casar. O efeito Cinderela rodeava-me e era bem palpável para mim, demasiado observadora, reparava em cada gesto, palavra, toque ou sorriso cúmplice: tive uma infância mesmo muito feliz, rodeada de amor! Perfeita! E nem a Disney tinha ainda entrado na equação das princesas: estávamos no tempo do rato Mickey e do pato Donald, as belas tardes no cinema Alvalade. 
Perfeito não foi o meu casamento, é facto. Divorciei-me quando o marido disse: "Eu não posso ter um filho deficiente!" Ao que muito bem respondi: "E eu não posso ter um marido parvo!" 

Perfeito! 

Não foi o que aconteceu nos anos seguintes. Na verdade, nem teria de ser, eu é que ainda não tinha aprendido essa lição na vida (as expectativas), e, como sou teimosa, foram necessárias mesmo muitas mais, para que capitulasse. 
Tal como se sugere na música do meu amigo (obrigada!), ainda que devidamente divorciada, mo meu íntimo sempre continuei a acreditar na instituição casamento; num compromisso a sério, na tríade AMOR-CONFIANÇA-RESPEITO.. Acredito, ainda hoje, que só assim vale a pena viver a dois: quando vale a pena! 
Viver só, é uma escolha, e feita há mais tempo do que quero lembrar. Se namorisquei?, é certo, não fiz voto de freira!, mas algo sério...? Bastava-me observar o modo como os pretendentes a pretendentes me olhavam ao início e logo de esguelha para o meu filho, que, coitados!, já estavam de patins em linha no Estoril!, ainda a pensarem ter quaisquer hipóteses de entrarem na minha/nossa vida...!
Quis muito, de começo, o voltar a casar, o construir uma família, o dar irmãos ao meu filho. 
Um dia um médico disse-me de deveria TER mais filhos, para um dia cuidarem do Pedro. Quedei-me horrorizada! Isso era tudo o que não aconteceria na minha ideia de perfeito!! Casar com qualquer um e encher-me de filhos...? Na minha mente, coloquei esse conceito de porca parideira num desses recantos escuros e lamacentos. Hoje entendo o conceito perfeitamente, contudo, não voltei a amar.  
Todo este modo de ser, tal como está na música matinal... sou eu! 
Sou oito ou oitenta. 
Branco ou preto. 
Tudo ou nada! 
(Ainda hoje o serei...?, tenho dias, momentos, em que duvido.)

Sempre assim fui, desde menina, com o carácter e personalidade bem vincados, tal como o meu pai, orgulhosamente, tanto me gabava, a quem quisesse escutá-lo. 
Tive e tenho a coragem e a determinação acirrada de enfrentar, a solo, mais de um salto sem rede, para o qual a minha infância feliz não me preparou - digo melhor -,  tantos anos tão feliz, de um perfeito que ansiava repetir. 
Todo esse amor que me envolveu preparou-me, sim, para o desconcertante embate que é o de ter um filho que baralha a noção pré-construída que qualquer grávida tem de perfeito, e, ainda assim, ter a tenacidade de logo arregaçar as mangas: fazer de conta que era muito corajosa (apesar de me sentir brutalmente aterrorizada), porque ninguém iria notar a diferença, e seguir em frente, defendendo-o de todas as frentes frias, das leves brisas às mais ferozes tormentas! Ainda o faço, sempre o farei. Venha quem vier! 
Continuo em algum recanto ensolarado de mim a ser a brava e feliz menina da foto, com nove anos, a dos quatro meses de férias na praia, a atrevida, pispineta e desafiadora, a saltar sem precisar de rede! 
(É sim, uma das fotografia captada pelo meu papá, uma das muitas minhas preferidas. Esta cristalizo-a com a legenda das palavras, que acima referi, de meu pai). Mas questiono-me: ainda sou tudo isso...?

Recordei, uma outra música: The Whole of the Moon, a que me agarrei com a urgência inata de uma grande lapa: se antes do Pedro nascer estava aterrada com o que os médicos foram dizendo ao longo da gravidez de alto risco e pelos 10 meses subsequentes até fecharem o diagnóstico, comecei um gritante e calado diálogo interno na minha cabeça, entre a Ana, a organizada e bem assente na terra e a Ana, a eterna sonhadora e artista dos pés à cabeça: 

"I saw the rain dirty valley 
You saw Brigadoon 
I saw the crescent 
You saw the whole of the moon"

E ainda que eu o soubesse desde a infância, em algum recanto luminoso em mim, continuei a crer de que Brigadoon não existe só na música, no filme ou na imaginação colectiva: existe mesmo!, 
Ahhh!,para mim, o perfeito nunca chegou. 
E sim, eu sei que existe e consigo ver o todo da Lua, tal como tenho a Dona Dor comigo (é claro que tem nome e ocupa o seu espaço!) nas outras minhas  fases lunares. 
Perfeito, não é, aprendi a acomodar e a pintar com outras cores o vale sujo e lamacento. 
Muitas as vezes que apenas o empurro para debaixo do tapete. 
Muitas mais, as que sei que consegui um intento que tinha desde os trinta anos, quando via outras mães com mais idade do que eu (bem mais novas do que sou agora), que também atravessaram a mesma Porta da Dor (como há décadas lhe chamei num livro); as Mães que eu via com os filhos na rua, nas salas de espera, e, lhes lia nos olhos a profunda e desesperançada tristeza, a que nunca se esmaece, muitas tombadas na amargura.

"Eu não vou ser assim quando for grande!", foi um Mantra que me manteve de pé, a fazer de conta de que era muito corajosa, enquanto continuei a sorrir à vida, a educar a solo o meu querido e lindo filho que nunca foi nada dos tenebrosos diagnósticos que prognosticaram antes do jogo. 
Chamavam-lhe a "estrelinha da companhia", por ter superado todas as expectativas. Foi desde pequenino o meu maior companheiro e amigo, nos momentos muito bons e nos nem tanto assim. 
Continuamos unidos pelo cordão umbilical que, no afã de uma cirurgia complicada, o experiente chefe de equipe se esqueceu de cortar, e eu, ao longo destes trinta e sete anos (contabilizo o da gravidez!), nunca tive o instrumento ou a vontade de usar a tal tesoura. 

E apesar de, durante anos, esta música me acompanhar - me salvar, literalmente! -, no frémito da voz fininha da Max Edie, que, na minha cabeça, era eu de novo com nove anos, só que agora na beira de um infinito vórtice, sem rede, a cada "nana nana na na naaaaah" que eu repetia incessantemente a percorrer o rodapé da minha mente em loop para calar a Dona Dor, a cada gesto do meu dia, num cantarolar tão profundamente calado.

Esta minha constante tortura de escolher viver a vida a sorrir e logo, artisticamente, na minha mente saltar para os carris onde passa o filme cómico da exacta mesma situação (sinto que corre ali encostado, paralelo à vida), tal como no genial filme dos Monthy Phyton "Life of Brian", eu posso dizer que consegui! Eu consegui!! Com o imenso, o interminável, incondicionalmente profundo AMOR que o meu filho e eu nutrimos um pelo outro... cheguei a este início de provecta idade e, nos meus olhos, só lêem amor!, nunca passei pelo sentimento de amargura, desespero sim, porém, sempre acreditei que olhando sempre além do horizonte, se não no amanhã, nem do depois de amanhã, um dia de paz chegaria! 
Paz e sim, amor! 
Pelo Pedro, pelo milagre da VIDA de que não desisto!, por este mundo que quero tanto seja feito de Paz! Sei que posso saltar para o outro par de carris a imaginá-lo...!, e se assim fosse, não seria maravilhoso?  

Alarguei o ângulo de visão, mais adiante na vida, e por comparação, aprendi de que mais do que as Mães e Pais do Autismo, tantas outras pessoas num doloroso momento, em profundo pânico, também atravessaram a Porta da Dor. Diferente, contudo... compreendemo-nos, num nível de intensidade que sei ficar a léguas - e ainda bem que simmm! - de quem nunca a atravessou. 
Bem hajam!, quem nunca passou pelo que nós sabemos! Precisamos de gente sã ao nosso redor, para termos essa perspectiva e expectativa nas nossas vidas! 

E há a Esperança, porque nunca se vai embora!, e há a alegria!, eu continuo a acreditar, e a sorrir! A sorrir!!  Nunca a amargura que via nas outras mães, conseguiu derrubar a minha alegria de viver, por muito que force esse muro mais concreto que o de Berlim. 

Há muitos anos escrevi num dos meus livros: 
"Há é uma forma diferente de ver e viver a vida, o que nos torna loucos aos olhos dos que levam uma vidinha triste e sem sabor. A nossa, sabe a morangos com chocolate, até, quem sabe, sake e wasabi, se e quando deixamos a parte picante entrar na nossa vida." 
                                              in "Mal Me Quero", 2010

Hoje teria de pensar diferente do tudo ou nada, oito ou oitenta, ou não teria crescido tanto, a cada encontrão que a vida teve para me oferecer; e se ser mãe do Pedro fez de mim melhor pessoa, a idade trouxe-me um aveludado sabor adocicado, que se foi espreguiçando pela longa estrada que já percorri. O que observei em outras vidas (com escolhas diferentes ou parecidas), sinto a apaziguadora sensação de que teria feito igual, porque sei que, a cada encruzilhada, decidi o melhor que consegui fazer (certa ou errada), e logo eu que me dei toda! Se bem que, para me enlear na sanidade, trauteasse mentalmente o aconchegante: "nana nana na na naaaaah". 

Sou rainha no overthinking, mas sabem que mais?, que se lixe!, não me moam com o título, porque já não o quero! Passei muito? Passei. Passado!
Eu vivo o presente. Sem pressas ou expectativas para com o futuro.
Há dias contava a meu pai e irmãos o tanto que já fiz na vida académica, só para fechar essa porta e porque a família não sabe o que faço com a minha vida - até me esqueci de mencionar o curso de espanhol! 
Não sou de pancadinhas nas costas, nem sequer competitiva, foi um desabafo que percebi logo depois: olha, fechei mais outra porta do passado! 

E para encerrar este texto, esta outra parte de mim de que abri mão, não a dançariquei, não a vivi: 

houve uma fase em que só escutava em loop Prefap Sprout. Talvez por tanto que me ajudaram, considero uma das minha bandas favoritas (é impossível escolher!), ainda assim, desta banda, se é que consigo seleccionar uma só música favorita teria de ser esta, com que vos deixo. 
E, como costumo autografar no meu livro Azul e branco às riscas: porque eu acredito

"We’re building our home upon love and respect 
And when we’ve built it we’ll call it Andromeda Heights

Folks in the valley will look up and say
'You've finally built it, can we come and stay?' 
And cynics will marvel and say, 
'we confess, there were times when we thought it was just an address.' 
But now that we've seen it, we know it's Andromeda Heights" 

                                         Andromeda Heights - Prefab Sprout







 













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