domingo, 14 de fevereiro de 2021

A primeira vez

Hoje é o aniversário deste site. 
Nasceu de uma brincadeira tola no Twitter, em 2009, quando perguntei “Onde posso publicar um texto para lerem?” uma voz disse: 

“Faz um Blog!”

Se eu não queria escrever num Blog, ter um Blog menos ainda! 
Encantei-me com o contacto directo que obtive com os meus leitores! 
Já não é apenas Blog, cresceu a Site – dou a cara e o nome. 
Assim mesmo, de ganga vestido. 
Porquê dia 14 de Fevereiro? 
Não deixa de ser irónico, festejar o aniversário deste meu espaço logo numa data que não tenho grande respeito (porque, a meu ver, namorar, namora-se todos os dias) o blog nasceu com este conto 
veio posteriormente a ser publicado no livro MAL ME QUERO

Hoje ofereço este conto de novo aos meus leitores 


Irene já se tinha esquecido: há muito tempo prometera a si própria que nunca mais sairia à noite num dia de namorados. Mas aconteceu. Com amigas, alheadas da comemoração, na sua nova “solteirice”, combinaram ir todas ao Japonês.
Ao entrarem no restaurante habitual depararam-se com um invulgar burburinho – infernal!, nem conseguiam avistar o dono! Todas as mesas estavam preenchidas apenas com casalinhos, até ao redor da zona Teppan-yaki – coisa que pretendiam – estava ocupada por parzinhos, claro!, restaurante da moda e caíam lá todos que nem tordos na noite de saída!
“Socorro! Saímos no Dia-Oficial-do-Manel-levar-a-Maria-à-rua!!!!” – Brincou. Alguém sugeriu mudar de restaurante, mas não adiantaria àquela hora, sem marcação, estariam todos a transbordar de Manéis&Marias.
Antes, imagina-os:
Olhou à volta. Irene não tinha nada a opor ao amor ou a sua celebração, apenas o que chamava de “Dia Oficial”, uma representação patética do que deveria ser, por definição, celebrado todos-os-dias-e-todas-as-noites-das-nossas-vidas.
O Manel pespega uma beijoca à sua Maria logo pela manhã antes de sair para o trabalho – ela falou tanto nisso na véspera, entre o intervalo do futebol e o creme de noite que ele teve pesadelos do mês sem sexo que sabia, ela imporia, se ele ousasse esquecer…
A Maria, nesse dia sorri feliz, usa roupa nova, vai ao cabeleireiro – muita laca, muito caracol – compra um postal cor-de-rosa já preenchido, tipo-basta-assinar e uma prendinha bem fofinha para o seu Manel pôr no carro – coisa que ele jamais usará ao lado do galhardete do seu clube do coração…
O Manel, mais pragmático, compra o que ela discretamente lhe pediu durante a última semana toda, incluindo, a seguir à beijoca matinal sem sumo.
A Maria papagueia com as suas colegas de trabalho onde poderá ser levada mais logo a jantar. Todas graciosamente fazem crer umas às outras que não sabem o local e/ou a prenda.
O Manel, à tardinha, entre bejecas e tremoços, ri com os amigos que, este dia dos paleios cor-de-rosa, até foi uma coisa bem inventada: é uma noite que seguramente elas não irão passar a ferro até tarde, lhes doerá a cabeça ou terão o período…
A Maria já passou em casa da Mãe, depositando os filhos com um bem disposto: “Até amanhã!”
O Manel foi à florista.
A Maria chegou a casa mais cedo, tomou uma chuveirada e rapou os pêlos.
O Manel passou horas na fila da florista, rosnando.
A Maria passa o gloss mais uma vez pelos lábios ainda bonitos e com pouca procura.
O Manel chega a casa com um previsível ramo de rosas vermelhas, reclama por lhe ter custado 50 euros e, claro, «a» prenda.
Ouve-se na casa do Manel e da Maria uma palavra inusitada: Amo-te
Saem para a rua. Está tanto trânsito como de dia. Vão a um restaurante com folhas de papel branco por toalha.
O Manel pensa: “A TV desligada, que má sorte a minha, espero que alguém repare… se digo alguma coisa, lá se vai a queca.”
A Maria suspira: “Ele vestiu a camisa mais velha, logo hoje… qualquer dia rasgo-a e faço panos para os vidros.”
Irene respirou fundo e olhou em volta enquanto ainda esperavam mesa. Sentiu um ambiente dengoso nas mesas. Não se distinguia a música do ruído. Contrastava a elegância dos pratos deste espaço usualmente relaxante, seguro pela perplexidade serena dos empregados com o frenesim de tão inusitados clientes que até pediam, imagine-se… karaoke.
Irene lembrou-se daquela outra noite, não há tantos anos em que ficara inoculada da noite dos namorados. Presa num extraordinário trânsito para aquela hora tardia, olhou à sua volta: Estupefacta, viu o Manel ao volante com a Maria ao lado em todos os carros! Havia a versão casados-há-muitos-anos visivelmente enfadados pela demora e os namoradinhos que ainda disfarçam hostilidades cortesmente. Olhara para o João, o seu marido, para o seu olhar vazio esperando que o trânsito fluísse. Sentiu um arrepio: era apenas mais um Manel, o que, lamentavelmente, fazia dela mais uma Maria.
Decidida a que o Manel e a Maria não lhe estragariam mais nenhuma noite, olhou de novo à volta, desta vez com a sua firmeza acutilante.
O frete.
Estavam todos a fazer frete! Tinham saído à rua somente porque tinham de fazê-lo!… Todos sorriam complacentemente enquanto gramavam polidamente a estopada.
Todos não.
De indicador em riste anunciou, peremptoriamente, às suas amigas cansadas de estar em pé:
“O único casal a sério nesta sala, é aquele ali do canto.”
“Como sabes?” Perguntara a Bárbara.
“Sei. Sinto. São os únicos que estão a conversar.” Argumentou encolhendo os ombros.
Contrapuseram, estando num restaurante repleto de sons estridentes, com outros pares que tagarelavam demasiado alto.
“Estão apenas a falar. Reparem no olhar, estão apenas a falar, não estão a conversar.”
“Na mesa mesmo atrás de nós estão os piores espécimes de Manéis&Marias – sussurrou rindo a Maria Clara enquanto se sentavam – os broncos!
Olhavam causticamente para trás. Versão cromanhon-namoradinhos, diziam à socapa. Tinham de estar dois pares
à mesa! Claro!… aos pares, se não, com quem é que eles haveriam de conversar???
Sem estranheza, Irene ouviu um dos rapazes protestar bem alto, com os pauzinhos em riste, pedindo talheres de gente, o outro palerma reclamar do peixe estar mal passado, uma das Marias dizer que o gengibre eram «pétalas de flores comestíveis», que «tinha lido numa revista» até ao momento hilário em que um comeu de uma só vez o “pistachio”, urrou que nem um urso que o tinham enganado… sem mencionar a boa parte da noite a ouvi-los contar anedotas pouco edificantes sobre mulheres… que apropriado! – pensou – mas o melhor ainda estava para vir. Quando entrou uma figura típica da noite, empunhando a habitual braçada de rosas, uma daquelas Marias deu uma valente murraça na mesa afiançando ferozmente:
“Eu hoje vou querer uma rosa!!!”
Até os outros Manéis&Marias das demais mesas tiveram dificuldade de suster o riso… Resta acrescentar o que já todos sabíamos, se calhar, até ela: não a teve.
A pouco e pouco todos os Maneis e Marias foram saindo. Era noite de festa lá em casa ou no banco traseiro do carro! Há casais que são abusivos durante todo o ano, seja verbal, física ou psicologicamente, mas Deus os livre de não festejarem o dia dos namorados!
Ficaram embrenhadas na conversa boa e no último sake gelado, depois do ritual de sabores nipónicos numa refeição memorável onde, como manda a tradição, nem um único bago de arroz foi desperdiçado, quando o tema de início de conversa, voltou à baila: As únicas mesas ainda ocupadas, agora sim, naquele tranquilo e prazenteiro restaurante, eram apenas a das amigas e a do tal casal do canto.
Ficaram a reparar e comentar ostensivamente nos detalhes sem que nunca sequer dessem conta. Era a mulher que estava virada na direcção delas. Tal como as amigas, não tinha estreado roupa nova, não tinha ido ao cabeleireiro, não havia nenhuma rosa vermelha do ké-frô na mesa.
Era particularmente bonita, como só uma mulher segura de si consegue pôr um lápis a segurar-lhe o cabelo, vestir uma qualquer t-shirt branca com jeans e… estar bem.
Irene entretanto contava uma situação que ouvira num supermercado na véspera. Estava no corredor dos desodorizantes quando tomou atenção numa frase: “Olha, não tenho ideia nenhuma, pode ser já isto? Ficava já despachada para amanhã.” Irene sorrira ao se aperceber que falavam da prenda para o Dia Oficial. Que romantismo!, claramente uma Maria! Continuando as suas compras, ficou com atenção ao diálogo: “…ou então, pode ser este perfume…?, é que nem sequer é caro!”
O grito masculino ecoou pelos corredores:
“N-Ã-Ã-Ã-O!!!!”
As pessoas, às compras, entreolharam-se, mas ninguém se pronunciou quando a discussão estalou. Num casamento, quem vai meter a colher? Irene também olhou por cima do ombro. Pensou que fossem mais velhos, mas era um casal muito novo, reconheceu a vergonha só no tremor do queixo daquela rapariga que continuava a dizer tontices com ar subserviente enquanto ele lhe virava as costas e a deixava a falar para as prateleiras.
Respeito. A ligeira diferenciação entre um casal e um Manel&Maria.
Quando saíram do restaurante, o casal da mesa do canto continuava a conversar. Nunca deram pelas outras pessoas que tanto os observaram.
Irene deu um último relance ao casal antes de sair.
Apeteceu-lhe, por um momento, que soubessem que eram o seu prémio casal da noite, afinal fizeram-na acreditar que não eram apenas os Manéis e as Marias que saltavam para fora de casa nesta noite… mas, sempre soube que casais como este, não celebra o seu Amor apenas porque algum grupo de comerciantes resolveu importar uma moda que nem é nossa para aumentar um pouco mais as vendas – criaram portanto este pomposo evento a comemorar – leia-se a comprar.
Sorriu ao casal da mesa do canto e pensou, apesar de ter escolhido o divórcio para si, viver a dois, vale realmente a pena – quando vale a pena, respirou fundo e imaginou todos os casais que sabem: alimentar o amor é uma tarefa diária, construtiva, constante… todos-os-dias-e-todas-as-noites-das-nossas-vidas.
Podia estar sozinha nessa noite, poderia continuar sozinha na vida, mas Irene sorriu. Enquanto esperavam para pagar, abriu o seu Moleskine e escreveu: 

“Há, é uma forma diferente de ver e viver a vida, o que nos torna loucos aos olhos dos que levam uma vidinha triste e sem sabor. A nossa, sabe a morangos com chocolate, até, quem sabe, sake e wasabi, se e quando deixamos a parte picante entrar na nossa vida.”


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Rosa

Pressa. 
Distracção. 
Páro no maior parque de estacionamento da cidade, arrumo o carro e saio disparada para a marcação que tinha ao meio-dia. Sou pontual e detesto chegar atrasada. 
Quando regresso, bate-me: não memorizei onde deixei o carro… fila por fila, percorro todo o estacionamento, ando para cá e para lá e a certa altura, porque ia de phones ao telemóvel, comento: está aqui uma senhora ao mesmo, não deve saber onde deixou o carro… 
A senhora ouve-me e encetamos um diálogo, é verdade, também não sabe. 
Gracejo: Vai ver, estão ao lado um do outro! Vamos continuando a procurar e eu continuo na minha conversa telefónica e de repente oiço: achei! Dirijo-me ao som da sua voz respondendo: onde está? Porque o meu deve estar perto!! Rimos e quando chego à beira da senhora com pronúncia do Porto (que eu adoro), responde-me: Que marca é o seu? Eu ajudo-a! 
Tanta querideza, penso e respondo-lhe: Ohhh... tão querida!, não é preciso… 
Mas já me interrompe, deixei a minha filha na universidade e vou ficar a fazer tempo, a sério que carro é o seu? Eu digo-lhe a marca e modelo e descrevo o exacto tom de meu – é de um azul celeste cor de dia de trovoada. Agradeço-lhe e começamos à procura. 
 Já adivinharam… estavam lado a lado, com um carro apenas pelo meio! 
 Que momento mágico! Despedimo-nos meio a rir meio emocionadas e lembro-me de me apresentar: qual é o seu nome? Eu sou Ana. 
E a magia continua… diz: eu sou Rosa. 
Não resisto e partilho com ela: Rosa?!?... Rosa era o nome da minha avó favorita! 
Desejamos um bom ano e cada uma segue a sua vida. Nunca mais a irei ver, nem reconhecer – ambas de máscara, como convém em tempos covidianos – a não ser que o acaso queira que a Rosa seja uma das minhas queridas leitoras desta maravilhosa cidade que tão bem me acolhe há 5 anos. 
Mas venho para casa a conduzir feliz num dia tão frio, mas com imenso sol na hora de almoço e na alma quando escrevo este texto. 
Quanta magia pode andar no ar, se estivermos atentos, se nos dermos de coração e nos entregarmos a cada momento. 
Eu sou de dar-me, e nunca me arrependo. Sou de amar e de ser amada. 
Obrigada Rosa. Que tenhas uma vida feliz!





quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Ou ele ou eu

25 de Novembro é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. 
Um conto meu do livro "Mal Me Quero", porque este romance escrito há tantos anos,  ainda é tão actual. 

Mais do que o Manel que bate na Maria, fixei-me nos casos de que ninguém fala, os que não fazem queixa à polícia, os que não contam nem à própria sombra, os que chamei "os números calados". 
De toda a pesquisa que fiz, não contei uma história verdadeira. São todas ficção, porém as personagens vão parecer-lhes familiares. Uma tia-avó? A vizinha do 2º esq.? O irmão mais velho? Aquele colega de trabalho?
Sim.
A violência doméstica acontece mesmo debaixo do nosso nariz, aproveita-se do silêncio, vence no medo que a vítima vai tendo de enfrentar ou contrariar a tendência crescente do agressor ou agressora, medra ao mesmo tempo que a inércia, não se compadece de pedidos de perdão e-ai-que-nunca-mais-vou-fazer que só servem para os abusadores ganharem tempo e terreno, porque acreditem - fazem de novo e outras tantas vezes mais sem que a saciedade lhes chegue. Acontece debaixo de telhas bem perto de nós, onde não suspeitamos ou, até mesmo sabendo, não nos metemos porque entre marido e mulher não há quem queira meter a colher. 
Toda esta pesquisa ensinou-me a meter a colher. 
Desde 2010, a reacção a este livro é curiosamente calada. As pessoas não dizem publicamente que o leram, antes contam-me à boca pequena, no silêncio de um longo email como gostaram, aproveitam para contar a sua própria história, a passada e também muitas vezes a presente. Há pessoas que compreenderam que são vítimas ao ler uma história em que se revêem, há pessoas em que pressinto a mensagem verdadeira quando me confessam que não conseguiram ler tudo até ao final e aplicam um determinado motivo para o explicar.
Eu compreendo e aceito-o em silêncio. Evito dar conselhos (quem sou eu...?) na verdade para os meus leitores não tenho mais palavras a dizer para além das que escrevi neste livro. 
Mas acreditem, aprendi a comportar-me como cidadã e a perguntar a cada situação que veja na rua com voz bem firme: 
- Precisa de ajuda?

Fico muito grata a meus leitores por me continuarem a ler.




Conto "Ou ele ou eu" in Mal Me Quero 


De repente ficou desorientada, como se tivesse tomado consciência do que tinha acabado de fazer. Nunca lhe passara pela cabeça, nem nas ocasiões mais perversas que, um dia, pudesse chegar a este ponto. Mas esse dia era hoje.
E agora? Não era alívio o que sentia, tão pouco culpa... como explicar o que não concebia?, uma grande confusão de sentimentos contraditórios. Estaria em choque? Se estivesse, pensava, não seria tão consciente de todos os seus movimentos, pois não? Os que tinha acabado de fazer, os passos que teria forçosamente de executar de seguida, a falta de motivação e o poder irresistível de, por o ter feito, ter mudado todo o curso da sua vida. Arrependimento? Nem sabia. Fora um impulso, a oportunidade surgiu e nem pensou noutra coisa senão... morrer ou matar.



Não tinha visto toda a sua vida em flash-back como dizem nos livros. Agora sim, as imagens sucediam a uma velocidade vertiginosa: sabia que não tinha pretendido fazê-lo, mas, num momento de loucura, como fora este, teria realmente, por algum segundo, pensado em acabar com todo o seu martírio, ao pegar naquele horrível martelo dos bifes? Outro pesadelo estaria agora a começar, sabia-o bem. A cristalina consciência da sua situação era tão evidente quanto veloz: não parava de pensar que, provavelmente, estaria em estado de choque.
Olhou para o vaso derrubado com petúnias que tinha comprado para o jardim, havia terra por todo o lado. Se num primeiro impulso pensou em levantar a planta e limpar a terra, no seguinte, recordou os filmes da TV, em que não se devia mexer no local do crime. Crime...? Cometera um crime, sim! Ela perpetrara o mais terrível delito: matara uma pessoa, a mesma a quem prometera amar, respeitar, estar ao lado na saúde e na doença, até que a morte os separasse...
Seria presa, certamente. Quem iria acreditar na sua palavra se alegasse legítima defesa? Ninguém nunca iria crer que, logo eles os dois, tinham um casamento onde imperava o medo, o cinismo, a dissimulação. 
E sim, a cobardia. 
A dele, por a atingir a cada olhar, a cada ameaça, a cada murro. A sua, por o esconder, o encobrir e o perdoar.
Ainda a limpar as mãos na toalha da cozinha, cuidou que o tinha visto respirar. O peito parecia que subia e descia! Aproximou-se a medo. Lembrou-se quando, em pequena, viu um morto num acidente de viação, também o peito dele subia e descia e nem estava no estado que o marido estava... Impossível estar vivo com a cara naquele estado! Deu-lhe um pontapé no pé. Morto. Só podia ser algum reflexo involuntário, alucinação sua, uma brincadeira de mau gosto da sua mente. 
Seria presa, decididamente. Fugir não era opção. Só foge quem quer escapar de algo que fez de errado. Teria sido assim tão errado matá-lo? Ele ia matá-la, senão desta vez, da próxima, ou na seguinte. Sabia, havia muito tempo, que eventualmente morreria às suas mãos. Seria tão errado não querer para si esse fim? Seria assim tão errado querer viver?, fugir desse filme de terror em que se transformara o lindo romance de amor que deveria ser o seu casamento?, se não vivessem todas sempre à espera do príncipe e do cavalo branco, pensava, talvez as expectativas não fossem tão altas, quiçá, tendo fechado o canal cor-de-rosa, pudessem avistar um calhorda na roupagem alva logo à distância!
Devagar, tacteou a cara. Conseguia ver as suas próprias bochechas, devia estar jeitosa... a toalha húmida soube-lhe bem no rosto dorido. 
Porque é que permitiu tanto? Porque é que perdoou tanto? Podia ter acabado as coisas antes do casamento. Sim, naquele longínquo dia, devia ter percebido que não se iria meter em coisa boa, mas já tinham comprado a casa, os convites já tinham sido enviados e os sofás eram tão bonitos... hoje parecia-lhe uma futilidade de motivos, mas percebia agora, claramente, que já era o medo a nidificar em todos os poros do seu ser, serenamente, sem permissão, sem deixar sinal, a impossibilitá-la de pensar no assunto, de reagir. Podia ter sido no dia do casamento, quando o seu antigo namorado telefonou e lhe pediu para não o fazer, podia ter sido no primeiro dia em que a desancou sem motivo, podia ter sido... ontem!, mas nunca conseguiu verdadeiramente pressionar o botão agir... Mas, seria preciso matá-lo? Seria. Mil vezes, seria! Jamais teve ou teria coragem de mexer-se! Jamais respondeu empregando semelhante tom, nunca virou ou viraria as costas, nem tentou ou tentaria argumentar, fugir então...
Aproximou-se. Mortinho da silva! Agora não a atingiria. Aproximou-se mais um pouco. Tentou decifrar o significado da expressão intacta no lado direito do rosto desfigurado. Estranheza? Pasmo? Estupefacção? Não. Não era isso. Era... sim, era medo! 
Ele tinha sentido, no último momento da sua vida, medo dela. Ele tinha tido medo! A primeira sensação foi sentir-se vingada, mas não era bem um gosto a vitória, sabia a amargo. Veio a tristeza. Ele tinha uma cara tão bonita, a mãezinha dele, sua sogra querida, nunca a perdoaria... 
A euforia. Precisava de ajuda... não sabia como ou o que fazer, para onde ir ou ligar, mas... ele estava ali, no chão, caído, ela matara-o, mortinho, matado!
Era tão frágil a vida humana, um gesto, num ápice e ceifa-se uma vida. A poça de sangue escuro nauseava-a. Limpava continuadamente as mãos ao pano. Nunca pensara deveras quão precária pode ser a existência do ser humano. Num ápice azarado, podemos apanhar com o vaso do inquilino do segundo esquerdo que, sem se dar conta, sacode despreocupadamente um tapete, ou inocentemente atravessar uma estrada no momento errado, em que um condutor zeloso, para se afastar da clássica situação, a criancinha que corre atrás da bola, vira repentinamente e, ao escolher a direcção contrária, atinge-nos sem sentido, ou então, pode simplesmente acontecer, como hoje, quando a nossa cara-metade nos faz a cara em metade. 
Tão forte que ele era, pensa, tão fácil que foi. Acabou. Mal, ele não lhe faz mais! Acabou. Respira profundamente. Passa as mãos pelo cabelo, afastando-o do rosto dorido. Está horrorizada com o formato inócuo e desresponsabilizado que todo o seu ser parece adoptar em relação ao que acabou de causar, a facilidade com que o fez, a displicência de quem não tem nada a fazer ali, contudo, no mesmíssimo segundo, sabe e sente a culpabilidade, aguarda a punição, a espera: foi um acto que não tem desculpa possível, nem sequer a do instinto de sobrevivência, de ter estado a lutar para salvar a sua própria vida. Nunca deveria ter permitido que o rumo dos acontecimentos tomassem o leme na sua existência, devia ter feito... poderia ter feito tanto! 
Pensou na mãe, na sua mãe, no que sentiria quando lhe dessem a notícia, como reagiria quando a soubesse presa? No emprego, certamente iriam preencher o seu lugar quando a soubessem uma assassina! Os amigos, os vizinhos, o que iriam dizer? 
Foi até à janela e ficou a olhar as gotas de chuva que escorriam pela vidraça. Amanhecera. Caía uma chuvada valente de pingos grossos. Abriu a janela para escutá-la melhor. Sorriu ao cheiro bom de terra molhada. Aspirou-o profundamente, como que a degustar o seu novo momento. Paz...? Estranhamente, não tinha vontade de chorar, como, achava, seria normal acontecer. Engoliu em seco, doeu-lhe a garganta. Veio-lhe à lembrança as mãos bojudas em torno do seu pescoço, a correria pela casa... olhou em volta – parecia o cenário de uma guerra. Não era o que tinha sido? Desta vez tinha lutado firmemente, não se resignara em apanhar umas biqueiradas placidamente, como se a reacção tivesse sido mandada de folga, desta vez reagiu! O seu marido tinha ficado atónito com a primeira caçarolada na cara, nunca o havia feito e apanhou-o desprevenido. Acto contínuo, como seria bom de ver, ficou mais violento, bateu-lhe com as duas mãos bem abertas, como tão bem fazia, mas, desta vez esqueceu a precaução de não a marcar no rosto e bateu até a ver com a cara num bolo. Devagar, tacteou de novo a cara. Incomodava-a o inchaço, poder ver as próprias bochechas... 
Recordou esse instante... Sim, claro!, ela não tinha tido a intenção de o matar! Fechou a janela e voltou a olhar para aquele corpo inerte. Chegou bem perto e afastou-lhe a franja no lado intacto da cara. Amava-o apesar dos pesares... Ele parara de bater, olhou-a no rosto e viu o que tinha feito: ela achou que tinha terminado a investida do dia. Já suspirava de alívio quando sentiu que ele abrira a gaveta dos talheres e, enquanto remexia, ameaçava: “Achas bem a colher de pau, querida? Já estão fora de moda! Hoje vou usar uma faca, ou preferes um martelo, não deve ser giro?” 
Não fora nada giro. Inicialmente apenas fugira, quando encurralada, ela ainda achara que não a iria matar, apenas a queria intimidar, era o costume, este era apenas um novo instrumento, mas um brilho novo no seu olhar que, momentânea e estupidamente, a fez lembrar o capitão Gancho, assustou-a. Era desta! O seu inferno ia ter um fim. Gritou. Gritou muito alto. Ele tapou-lhe a boca. Ela nunca gritava, e os vizinhos?! 
Fora aquele o instante. O martelo deposto ali ao lado... nunca mais... nunca mais... nunca mais... nunca mais me tocas... nunca mais me bates. – Murmurara a cada investida. 
O céu estava carregado. Ia ser outro dia de chuva forte, tinham dado trovoada. 
- ‘Tá lá? É do 112? Olhe, desculpe, mas eu matei o meu marido. 



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