sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

De quantos costados, mesmo? (parte I)

Sou nascida e criada em Lisboa, alfacinha de gema, sem contudo ser dos quatro costados: os meus pais também – lisboetas, contudo, os meus quatro avós que lá fizeram toda a sua vida, migraram muito jovens para a capital. 
Nós, os netos, temos três sólidas costelas beirãs – das rosas de Santa Teresinha e das filhoses – e uma pispineta costela da zona Oeste – da pêra-rocha e da quase extinta maçã riscadinha – que em muito nos moldaram para que nunca fossemos betos. 

Em tempo de escola havia uma certa brincadeira entre os colegas – hoje talvez lhe chamassem bullying – pelo facto de, na Páscoa e Verão, eu não ir passar férias à terra. 
Sendo lisboeta, "não tenho terra", como os meus colegas de escola que iam passar esses dias a casa dos avós em alhures. 
 Os nossos pais, também os avós (até os bisavós num último período) e nós, os três miúdos, vivíamos todos juntos na mesma casa, com a família à frente, na mesma rua. Já vos conto.

Lisboa é composta de muitos bairros típicos e a cada um é-lhe atribuído um certo estar, um comportamento diferente.  
Ou assim era. Sobre este tema escrevo em outra  publicação. 

Em Alvalade? 
Bom, na vida escolar vi-me entre "betos", sendo eu da Avenida da Igreja, com um pé no Campo Grande. 
Jamais almejei ser mais uma beta de um premonitório rebanho! 

Sendo uma rebelde maria-rapaz, vi-me sempre como uma atrevida e desafiadora papoila que nasce por entre a calçada, fruto de esmerada educação, de perene memória olfactiva a rosas de Santa Teresinha, nêsperas e maçã riscadinha. 

Nascida no Hospital de Santa Maria, vivi desde a infância até ao casamento em Alvalade. 
Vivi na discreta parte da Avenida da Igreja (que cruza com a Avenida de Roma, a maior agregadora da "betaria" lisboeta): começando do topo, com a icónica Igreja, é a parte mais comercial e beta da avenida, dando a volta na Praça de Alvalade, do altaneiro Santo António que a todos abençoa, descemos para o cenário que ficou na minha mente e a que ainda me cheira a casa, a que chamo a minha parte da avenida; sem comércio, só habitação e escolas. 
Descer a melhor parte da avenida no fim das aulas no liceu sorria instantaneamente com a sensação imensa de felicidade ao escutar os passarinhos, na hora de ver o sol a aflorar o cume das árvores – o Campo Grande –, ter o maior jardim de Lisboa por moldura ao longo da minha cálida avenida, banhada pela quente, silenciosa e dourada luz de final da tarde. 
As crianças do bairro adoravam lá brincar com pais e os avós, alguns outros, sentados nos ripados e curvilíneos bancos verdes do jardim, apreciavam as mini-saias: verdade!, foi segredado pelo minha quase centenária bisavó Piedade, à sua nora, minha avó Rosa, na nossa presença infantil, pensando que não compreenderíamos. Recordo vividamente, com toda a minha inocente incompreensão infantil, a falta de sentido daquele apiedado desabafo:

"O Joaquim  vai de tarde sentar-se no jardim ver as pernas de mini-saia e à noite quem as paga sou eu!"

Alvalade, na parte superior da Avenida da Igreja, têm vasos ao redor da porta de cada loja e onde os condutores dos carros param respeitosamente a cada passadeira de peões. 
(algo que vim a reparar que acontece também em Aveiro, e que é muito do meu agrado) 

Memórias boas! 
De Alvalade? 

Saudades da feliz memória dos aviões a passarem e os vidros a abanarem!, das escolas, todas ali em redor!, vinda da primária só de meninas, o misto marcante com o 25 de Abril na Eugénio dos Santos (preparatória), as tardes de sábado no cinema mesmo em frente, os gelados da Itália, os bolos de vinte e cinco tostões da Nova Relíquia (sem comparação aos da Suíça que o avô Xico trazia, a cada dia, do Rossio, no autocarro de dois andares verde, o 21). Liceu no Dona Leonor. 
Os amigos que por fim fazia na rua, no bairro, nas escolas, sem contar com os fins-de-semana e Verão, estes de sempre, e ainda dos muitos pen-friends com quem amiúde me correspondia. 
Sempre escrevi. 

Do jardim do Campo Grande? 

Na infância aprendi a remar não sei se com o meu pai ou meu avô, no enorme lago onde alugam botes. 
Tantos passeios e brincadeiras no jardim com mãe, pai, avós, manos!, e depois, na adolescência, a consolidar os dotes de nadadora no Sporting (SCP), na modesta primeira piscina também no mesmo jardim. Ahhh!, os longos e inesquecíveis quatro meses de férias na praia aprimoraram-me a propensão! Para quem tanto nadava no mar, era tão fácil a piscina, tão baixinha que a água era! 

Da casa? 
O amor. 
Disse que vos contava! 
O facto dos nossos pais terem namorado à janela muito cedo (desde os onze e doze anos), porque os avós paternos e maternos viviam frente a frente (nº 9 – 1º dto e nº 10 – 1º esq), numa rua sem saída, emoldurada pelas árvores, assim que tiveram idade casaram e passaram a viver com os pais do meu pai. Para nós, os três miúdos, criaram o entorno maravilha: vivemos sempre com avós e pais na mesma casa, tendo logo no outro lado da rua, na nossa frente os avós maternos, e seguindo-lhes os  o exemplo, também tios e subsequentes primos.  

No meu imaginário de infância a ideia de casa e uma família imediata tão próxima, só fez aumentar a sólida sensação, única e indescritível, de infância muito, mesmo muito feliz. 

A meus olhos, aconteceu magia com a romântica história de amor dos meus pais de que fomos testemunhas (também a dos meus avós paternos, já agora; foram dois casais felizes a cuidarem de nós). Os meus pais namoram à janela e casaram, até que a morte os separou (separou...?) 

Depois cresci. 
As fortes raízes – beirã e da zona Oeste – desta minha imagem de infância, penso, deu-me a base sólida para suportar tudo o que veio a seguir. 

Posso afirmar-vos que escrever me salvou. 

E perdoem-me, se mudo de tema. 

A verdade é que sendo uma menina de Alvalade, jamais me identifiquei no meu modo de ser e estar, enquanto beta. 
Fui muito traquina, rebelde, o diabo!, sei que não seria tão boa pessoa sem as duas enormes colheres de pau que a avó Rosa me partiu no lombo. 
Quatro adultos a educar com os outros avós e tio em frente, deu espaço para muito mimo. E digo: a minha sábia avó Rosa é ainda hoje a minha pessoa. 

Menina de Alvalade!

É como uma sombra que me segue até hoje – a brincadeirinha que nunca me soou a bullying – ainda em Lisboa em ambientes de trabalho, por ser de Alvalade, mais tarde por ter escolhido viver em Aveiro sendo tão lisboeta, em detrimento da Lisbon em que tristemente se transformou. Não o encaro com sobranceria – as minhas vivências foram simplesmente diferentes das de outras pessoas, só não me chamem beta!

Estou em Aveiro, que amo! 
E não é que reaprendi a remar...? 

Volto sempre a Lisboa. 
De visita. 
Agora já posso dizer que... vou à terra! 



segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Pés na terra & cabeça sonhadora

Hoje de manhã um amigo enviou-me esta mensagem: 
"Ia para o trabalho, ouvi esta música na m80 e lembrei-me de ti" 
Fiquei obviamente curiosa e cliquei no link para ver qual a música. 
Imediatamente o sorriso nasceu em mim antes de a escutar, ao ler o título e o grupo!, risonha, já desci para a minha caminhada matinal a dançaricar pelos degraus, a cantarolá-la na minha mente, sem conseguir descolar do meu rosto um alargado e malandro sorriso. 
É que amanhecia o meu mês de Setembro de modo tão, tão meu! 
Explico.
Sei que o meu amigo tem razão ao pensar em mim com esta canção: reconheço como tão bem me compreende ao longo destas décadas todas. De igual modo, o estilo e as palavras da cantautora escocesa Sadenia Reader, lêem-me na perfeição! 
Sim, "Perfect" (e clarooo que não é a música de Ed Sheeran! Atentem os mais jovens que amam descobrir os anos '80), foi o primeiro single dos Fairground Attraction (grupo já extinto), que quando saiu, se tornou #NumberOne numa época em que tínhamos e valorizávamos um top musical. 
Isto aconteceu transversalmente a 1988/1989, aquando do tempo conturbado&mágico da minha gravidez de alto risco, com o tempo de ser mãe, pelo que, estando por imperativa advertência médica, de cama durante oito bonitos meses da gestação do meu Pedro, escutava esta música amiúdea bombar na rádio! 
Ia ter mais cuidado do que todos os médicos me recomendavam! 
Foi uma gravidez muito rara e, por isso, bastante vigiada. 
E, sim!, ia ser perfeito!! 
Todo este texto contém link para uma música após outra, de modo que tem muita informação complementar nas letras de cada canção; as minhas palavras casam com as suas letras, pelo que pode fazer uma leitura apenas pelo texto ou deixar-se inebriar pela banda sonora destes meu pensar: é que a música é essencial à vida! 
Já depois da caminhada, tive de interromper o normal curso do meu dia, absorta e até comovida com os pensamentos que me ocorreram à mente; vim decidida e sentar-me a escrever. 
Escrever salva-me sempre! 
A memória que guarda os bons e os menos bons momentos da nossa vida, é plena na bondade: faz-nos empurrar para um canto mais escuro, o que nem é para lembrar. Não esquecemos: apenas o apagamos da nossa vivência quotidiana, como o som de uma vagarosa vassoura em segundo plano, numa música de Neil Young

Perfeito! 

Era como eu queria que fosse o meu casamento, tal como foi o dos meus pais e dos meus avós! 
Vivi rodeada de dois casais tão coesos, porém exposta (em frente, literalmente!) a outros dois tão tóxicos, que nem sei bem porque retive só o perfeito: bom... até sei! Sou da última geração em que as meninas foram educadas para casar. O efeito Cinderela rodeava-me e era bem palpável para mim, demasiado observadora, reparava em cada gesto, palavra, toque ou sorriso cúmplice: tive uma infância mesmo muito feliz, rodeada de amor! Perfeita! E nem a Disney tinha ainda entrado na equação das princesas: estávamos no tempo do rato Mickey e do pato Donald, as belas tardes no cinema Alvalade. 
Perfeito não foi o meu casamento, é facto. Divorciei-me quando o marido disse: "Eu não posso ter um filho deficiente!" Ao que muito bem respondi: "E eu não posso ter um marido parvo!" 

Perfeito! 

Não foi o que aconteceu nos anos seguintes. Na verdade, nem teria de ser, eu é que ainda não tinha aprendido essa lição na vida (as expectativas), e, como sou teimosa, foram necessárias mesmo muitas mais, para que capitulasse. 
Tal como se sugere na música do meu amigo (obrigada!), ainda que devidamente divorciada, mo meu íntimo sempre continuei a acreditar na instituição casamento; num compromisso a sério, na tríade AMOR-CONFIANÇA-RESPEITO.. Acredito, ainda hoje, que só assim vale a pena viver a dois: quando vale a pena! 
Viver só, é uma escolha, e feita há mais tempo do que quero lembrar. Se namorisquei?, é certo, não fiz voto de freira!, mas algo sério...? Bastava-me observar o modo como os pretendentes a pretendentes me olhavam ao início e logo de esguelha para o meu filho, que, coitados!, já estavam de patins em linha no Estoril!, ainda a pensarem ter quaisquer hipóteses de entrarem na minha/nossa vida...!
Quis muito, de começo, o voltar a casar, o construir uma família, o dar irmãos ao meu filho. 
Um dia um médico disse-me de deveria TER mais filhos, para um dia cuidarem do Pedro. Quedei-me horrorizada! Isso era tudo o que não aconteceria na minha ideia de perfeito!! Casar com qualquer um e encher-me de filhos...? Na minha mente, coloquei esse conceito de porca parideira num desses recantos escuros e lamacentos. Hoje entendo o conceito perfeitamente, contudo, não voltei a amar.  
Todo este modo de ser, tal como está na música matinal... sou eu! 
Sou oito ou oitenta. 
Branco ou preto. 
Tudo ou nada! 
(Ainda hoje o serei...?, tenho dias, momentos, em que duvido.)

Sempre assim fui, desde menina, com o carácter e personalidade bem vincados, tal como o meu pai, orgulhosamente, tanto me gabava, a quem quisesse escutá-lo. 
Tive e tenho a coragem e a determinação acirrada de enfrentar, a solo, mais de um salto sem rede, para o qual a minha infância feliz não me preparou - digo melhor -,  tantos anos tão feliz, de um perfeito que ansiava repetir. 
Todo esse amor que me envolveu preparou-me, sim, para o desconcertante embate que é o de ter um filho que baralha a noção pré-construída que qualquer grávida tem de perfeito, e, ainda assim, ter a tenacidade de logo arregaçar as mangas: fazer de conta que era muito corajosa (apesar de me sentir brutalmente aterrorizada), porque ninguém iria notar a diferença, e seguir em frente, defendendo-o de todas as frentes frias, das leves brisas às mais ferozes tormentas! Ainda o faço, sempre o farei. Venha quem vier! 
Continuo em algum recanto ensolarado de mim a ser a brava e feliz menina da foto, com nove anos, a dos quatro meses de férias na praia, a atrevida, pispineta e desafiadora, a saltar sem precisar de rede! 
(É sim, uma das fotografia captada pelo meu papá, uma das muitas minhas preferidas. Esta cristalizo-a com a legenda das palavras, que acima referi, de meu pai). Mas questiono-me: ainda sou tudo isso...?

Recordei, uma outra música: The Whole of the Moon, a que me agarrei com a urgência inata de uma grande lapa: se antes do Pedro nascer estava aterrada com o que os médicos foram dizendo ao longo da gravidez de alto risco e pelos 10 meses subsequentes até fecharem o diagnóstico, comecei um gritante e calado diálogo interno na minha cabeça, entre a Ana, a organizada e bem assente na terra e a Ana, a eterna sonhadora e artista dos pés à cabeça: 

"I saw the rain dirty valley 
You saw Brigadoon 
I saw the crescent 
You saw the whole of the moon"

E ainda que eu o soubesse desde a infância, em algum recanto luminoso em mim, continuei a crer de que Brigadoon não existe só na música, no filme ou na imaginação colectiva: existe mesmo!, 
Ahhh!,para mim, o perfeito nunca chegou. 
E sim, eu sei que existe e consigo ver o todo da Lua, tal como tenho a Dona Dor comigo (é claro que tem nome e ocupa o seu espaço!) nas outras minhas  fases lunares. 
Perfeito, não é, aprendi a acomodar e a pintar com outras cores o vale sujo e lamacento. 
Muitas as vezes que apenas o empurro para debaixo do tapete. 
Muitas mais, as que sei que consegui um intento que tinha desde os trinta anos, quando via outras mães com mais idade do que eu (bem mais novas do que sou agora), que também atravessaram a mesma Porta da Dor (como há décadas lhe chamei num livro); as Mães que eu via com os filhos na rua, nas salas de espera, e, lhes lia nos olhos a profunda e desesperançada tristeza, a que nunca se esmaece, muitas tombadas na amargura.

"Eu não vou ser assim quando for grande!", foi um Mantra que me manteve de pé, a fazer de conta de que era muito corajosa, enquanto continuei a sorrir à vida, a educar a solo o meu querido e lindo filho que nunca foi nada dos tenebrosos diagnósticos que prognosticaram antes do jogo. 
Chamavam-lhe a "estrelinha da companhia", por ter superado todas as expectativas. Foi desde pequenino o meu maior companheiro e amigo, nos momentos muito bons e nos nem tanto assim. 
Continuamos unidos pelo cordão umbilical que, no afã de uma cirurgia complicada, o experiente chefe de equipe se esqueceu de cortar, e eu, ao longo destes trinta e sete anos (contabilizo o da gravidez!), nunca tive o instrumento ou a vontade de usar a tal tesoura. 

E apesar de, durante anos, esta música me acompanhar - me salvar, literalmente! -, no frémito da voz fininha da Max Edie, que, na minha cabeça, era eu de novo com nove anos, só que agora na beira de um infinito vórtice, sem rede, a cada "nana nana na na naaaaah" que eu repetia incessantemente a percorrer o rodapé da minha mente em loop para calar a Dona Dor, a cada gesto do meu dia, num cantarolar tão profundamente calado.

Esta minha constante tortura de escolher viver a vida a sorrir e logo, artisticamente, na minha mente saltar para os carris onde passa o filme cómico da exacta mesma situação (sinto que corre ali encostado, paralelo à vida), tal como no genial filme dos Monthy Phyton "Life of Brian", eu posso dizer que consegui! Eu consegui!! Com o imenso, o interminável, incondicionalmente profundo AMOR que o meu filho e eu nutrimos um pelo outro... cheguei a este início de provecta idade e, nos meus olhos, só lêem amor!, nunca passei pelo sentimento de amargura, desespero sim, porém, sempre acreditei que olhando sempre além do horizonte, se não no amanhã, nem do depois de amanhã, um dia de paz chegaria! 
Paz e sim, amor! 
Pelo Pedro, pelo milagre da VIDA de que não desisto!, por este mundo que quero tanto seja feito de Paz! Sei que posso saltar para o outro par de carris a imaginá-lo...!, e se assim fosse, não seria maravilhoso?  

Alarguei o ângulo de visão, mais adiante na vida, e por comparação, aprendi de que mais do que as Mães e Pais do Autismo, tantas outras pessoas num doloroso momento, em profundo pânico, também atravessaram a Porta da Dor. Diferente, contudo... compreendemo-nos, num nível de intensidade que sei ficar a léguas - e ainda bem que simmm! - de quem nunca a atravessou. 
Bem hajam!, quem nunca passou pelo que nós sabemos! Precisamos de gente sã ao nosso redor, para termos essa perspectiva e expectativa nas nossas vidas! 

E há a Esperança, porque nunca se vai embora!, e há a alegria!, eu continuo a acreditar, e a sorrir! A sorrir!!  Nunca a amargura que via nas outras mães, conseguiu derrubar a minha alegria de viver, por muito que force esse muro mais concreto que o de Berlim. 

Há muitos anos escrevi num dos meus livros: 
"Há é uma forma diferente de ver e viver a vida, o que nos torna loucos aos olhos dos que levam uma vidinha triste e sem sabor. A nossa, sabe a morangos com chocolate, até, quem sabe, sake e wasabi, se e quando deixamos a parte picante entrar na nossa vida." 
                                              in "Mal Me Quero", 2010

Hoje teria de pensar diferente do tudo ou nada, oito ou oitenta, ou não teria crescido tanto, a cada encontrão que a vida teve para me oferecer; e se ser mãe do Pedro fez de mim melhor pessoa, a idade trouxe-me um aveludado sabor adocicado, que se foi espreguiçando pela longa estrada que já percorri. O que observei em outras vidas (com escolhas diferentes ou parecidas), sinto a apaziguadora sensação de que teria feito igual, porque sei que, a cada encruzilhada, decidi o melhor que consegui fazer (certa ou errada), e logo eu que me dei toda! Se bem que, para me enlear na sanidade, trauteasse mentalmente o aconchegante: "nana nana na na naaaaah". 

Sou rainha no overthinking, mas sabem que mais?, que se lixe!, não me moam com o título, porque já não o quero! Passei muito? Passei. Passado!
Eu vivo o presente. Sem pressas ou expectativas para com o futuro.
Há dias contava a meu pai e irmãos o tanto que já fiz na vida académica, só para fechar essa porta e porque a família não sabe o que faço com a minha vida - até me esqueci de mencionar o curso de espanhol! 
Não sou de pancadinhas nas costas, nem sequer competitiva, foi um desabafo que percebi logo depois: olha, fechei mais outra porta do passado! 

E para encerrar este texto, esta outra parte de mim de que abri mão, não a dançariquei, não a vivi: 

houve uma fase em que só escutava em loop Prefap Sprout. Talvez por tanto que me ajudaram, considero uma das minha bandas favoritas (é impossível escolher!), ainda assim, desta banda, se é que consigo seleccionar uma só música favorita teria de ser esta, com que vos deixo. 
E, como costumo autografar no meu livro Azul e branco às riscas: porque eu acredito

"We’re building our home upon love and respect 
And when we’ve built it we’ll call it Andromeda Heights

Folks in the valley will look up and say
'You've finally built it, can we come and stay?' 
And cynics will marvel and say, 
'we confess, there were times when we thought it was just an address.' 
But now that we've seen it, we know it's Andromeda Heights" 

                                         Andromeda Heights - Prefab Sprout







 













terça-feira, 19 de março de 2024

O dia que me foi oferecido

O Pedro e eu somos família monoparental.
Hoje, logo hoje, quero contar-vos sobre um bonito momento nosso:

Habituei-me à narrativa de que, nesse fim de Agosto, no afã de uma gravidez complicada e num parto quase mortal para ambos, o cirurgião chefe (que nos salvou), no afã da confusão que foi aquela complexa cirurgia, se esqueceu de cortar a cordão umbilical, e eu, ao longo destes quase 35 anos, nunca tive em mãos o instrumento nem a vontade.  
com cinco anos
Sempre proibi ferozmente, desde tenra idade, a quem quer que fosse, de proferir palavras menos elogiosas acerca do progenitor, estando o Pedro presente. 
Não é correcto, não há necessidade e não acho justo para com uma criança. 




A vida encarregar-se-ia, com o tempo e a maturidade que viesse a adquirir, de poder formar a sua opinião. 

Num dia 19 de Março, teria o Pedro oito ou nove anos, depois de trabalhar, fui buscá-lo ao ATL. Trazia um presente na mão que insistiu em dar-me. 
Estavam dois homens, pais supus, à espera dos seus rebentos. 
com nove anos
Senti o olhar, aquele de esguelha, o que de tanto nos mirarem, nunca nos iremos habituar enquanto vivermos. 
O Pedro insistia em dar-me o presente, e eu, estupidamente, senti-me julgada por aqueles dois homens. Acto-contínuo, começo a justificar o meu filho em automático, perante aquele olhar (e se eu já sabia rosnar...), pondo-me a explicar ao Pedro que era dia do Pai, que o dia da Mâe... 
Nesse momento, o Pedro interrompe-me, com um tom de voz agastado, até algo irónico: "Bem sei!, primeiro domingo de Maio, blá, blá, blá..." 
"Ouve-me", disse.
Puxou-me pelas abas do meu casaco, forçando-me a baixar até à altura dele e me poder olhar bem nos olhos. 
Sim, algo atípico. 
Ganhou, como queria, todo o meu tempo.
"Quero que me oiças com atenção."
Beijou-me na bochecha: "Deste lado és Mãe," 
Beijou do outro lado: "Deste lado és Pai! Eu quero que este presente seja mesmo para ti e não fique guardado num gaveta até ao meu aniversário ou ao Natal." 
com 16 anos

Abracei-o, num dos nossos abraços infinitos. 

Notei num breve relance, sobre o ombro do meu filho e vi os olhares emocionados dos outros pais. 



É. 
O Pedro ofereceu-me o Dia do Pai. 



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