Sou nascida e criada em Lisboa, alfacinha de gema, sem ser dos quatro costados: os meus pais sim, lisboetas, porém os meus quatro avós migraram muito jovens para a capital, onde fizeram a sua vida, tendo nós – os netos – três costelas beirãs (das rosas de Santa Teresinha e das filhoses) e uma costela da zona Oeste (da pêra-rocha e da quase extinta maçã riscadinha).
Em tempo de escola havia uma certa brincadeira – hoje talvez lhe chamassem bullying – pelo facto de, na Páscoa e Verão, não ir passar férias à terra.
Sendo lisboeta, "não tinha terra", como os meus colegas de escola e amigos que iam passar esses dias em casa de familiares em alhures.
Os nossos pais, avós (até bisavós num último período) e nós, os miúdos, vivíamos todos juntos, uma feliz e bonita família alfacinha, ali bem semeados no Bairro de Alvalade.
Lisboa é composta de muitos bairros típicos e a cada um é-lhe atribuído um certo estar ou um comportamento diferente.
Ou assim era.
Em Alvalade?
Bom, na vida escolar vi-me entre "betos", sendo eu da Avenida da Igreja com um pé no Campo Grande.
Não almejei ser mais uma beta de um premonitório rebanho!
Sendo uma rebelde maria-rapaz, vi-me sempre como uma atrevida e desafiadora papoila que nasce por entre a calçada, de esmerada educação, com memória olfactiva a rosas de Santa Teresinha, nêsperas e maçã riscadinha.
Nascida no Hospital de Santa Maria, vivi desde a infância até ao casamento em Alvalade.
Na minha Av. da Igreja (que cruza com a Av. de Roma, a maior agregadora da "betaria" lisboeta), ao topo a Igreja, descendo, dando a volta na rotunda do altaneiro Santo António que a todos abençoa, continua a descer até ao jardim do Campo Grande, o maior de Lisboa, onde as crianças brincavam e os idosos apreciavam as mini-saias – dito pelo meu quase centenário bisavô Joaquim!
Ainda hoje, é o único bairro lisboeta que têm vasos ao redor da porta de cada loja e os condutores dos carros param respeitosamente em cada passadeira de peões.
(algo que vim a reparar que acontece, também em Aveiro, e que é muito do meu agrado)
De Alvalade?
A feliz memória dos aviões a passarem e os vidros a abanarem!, das escolas, todas ali em redor!, vinda da primária só de meninas, o misto marcante pós 25 de Abril na Eugénio dos Santos, as tardes de sábado no cinema mesmo em frente, os gelados da Itália, os bolos de vinte e cinco tostões da Nova Relíquia (sem comparação aos da Suíça que o avô Xico trazia, a cada dia, do Rossio, no autocarro de dois andares verde, o 21).
Os amigos que por fim fazia no bairro, sem ser os de sempre dos fins-de-semana e Verão, e dos muitos pen-friends com quem amiúde me correspondia.
Do jardim do Campo Grande?
Na infância aprendi a remar, no enorme lago, onde alugavam botes.
Tantos passeios e brincadeiras no jardim com mãe, pai, avós, manos!, e depois, na adolescência, a consolidar os dotes de nadadora no Sporting (SCP), na sua modesta primeira piscina também no mesmo jardim; os longos e inesquecíveis quatro meses de férias na praia aprimoraram-me a propensão! Para quem tanto nadava no mar, era tão fácil a piscina, tão baixinha que a água era!
Da casa? (de placa toponímica com nome de escritora)
O amor.
À nossa frente (nós, do nº 9 – 1º dto, eles, do nº 10 – 1º esq) viviam os outros avós, tios, primos.
A família imediata ali tão próxima, só fez aumentar a sólida sensação, única e indescritível, de infância muito, mesmo muito feliz.
Coincidência?
É que os meus pais namoraram à janela, frente e frente, desde os onze e doze anos!, até se casarem, até que a morte os separou (separou...?)
Depois cresci.
Posso afirmar-vos que escrever me salvou.
E perdoem-me, se mudo de tema.

É como uma sombra que me segue até hoje – a brincadeirinha que nunca me soou a bullying – pelo facto de ter escolhido há uma dezena de anos, viver em Aveiro, sendo tão lisboeta.
Não o encaro com sobranceria – as minhas vivências foram simplesmente diferentes.
Estou em Aveiro, que amo!
E não é que reaprendi a remar...?
Volto sempre a Lisboa.
Agora já posso dizer que... vou à terra!






Sem comentários:
Enviar um comentário