domingo, 16 de fevereiro de 2014

#SimaoC até um dia


Ainda dormente pela notícia da morte do meu querido amigo Simão Carvalho (meu e também um fantástico amigo do meu filho Pedro em fases tão difíceis), quero escrever este post, para juntar a todos os recortes virtuais que a Célia está a guardar para, um dia, mostrar às duas filhas Joana e Emma como o pai era verdadeiramente amado por todos nós. 

Conheci o Simão nos primeiros e gloriosos anos do twitter, ainda assinava @vistodaqui, só mais tarde passou ao nick @SimaoC.   Simpático, gentil, atento, de máquina fotográfica a tiracolo e a arte da conversa boa no bolso, foi tão fácil tornármo-nos amigos. O facto de trabalhar com jovens adultos deficientes e eu ser mãe de autista só fez estreitar o laço que naturalmente se formou - nunca nos vimos, mas isso não tem importância nenhuma. 
Português, natural de Amarante, vivia há muito em Paris. Casado e com duas meninas ainda pequeninas, sabia-o uma pessoa apaixonada pela vida. Bondade  seria uma das muitas palavras ao nosso dispor se fossemos descrever o Simão. Sempre com uma palavra carinhosa e um cativante sorriso sincero, fotografava o mundo com aquela especial lente de mostrar a sua vertente mais bonita. Era igualmente um contestatário, pronto no ataque ao  feio e errado na política e na forma de governarem ou tentarem arruinar este nosso mundo. 
Conversamos muito sobre o seu trabalho - inserção de jovens adultos com deficiência no mercado de trabalho normal - numa fase que o meu filho chegava à maioridade e eu não via forma de lhe dar um futuro adequado.  
Desafiei-o variadas vezes a voltar a Portugal para vir cumprir essa função cá, mas esse era o meu sonho, a minha necessidade dessa realidade neste país para o meu filho, não o do Simão que já havia formado há muito família em França gostava verdadeiramente do que fazia, da sua vida. Tentei em várias frentes que se criasse bases para este trabalho ser feito com decência em Portugal, mas sem sucesso. Lembro-me de afrontar variadas personalidades, até o primeiro ministro da altura, José Socrates, com factos da realidade em França, do trabalho desenvolvido pelo Simão e sua equipe, porque não cá? Sabemos o resultado. No entanto o Simão propôs-se fazer um trabalho à distância com o Pedro, que naquela época era um miúdo com muito mais capacidades comparativamente ao adulto que se tornou exactamente pela falta desse mesmo futuro. O Simão era o amigo de Paris que se abeirou do Pedro, conversavam por mensagem, falavam não só do tema favorito do Pedro como também lhe mandava fotos de carros que fotografava em Paris. Aos poucos criaram uma intimidade engraçada e o Pedro conseguiu verbalizar com o Simão desabafos do que me apercebia, mas não sabia como ajudar. O Pedro sendo autista tem uma perfeita percepção da realidade, da sua realidade, falou com o Simão dos seus medos e anseios para o futuro, e dos motivos porque se tornava violento com a mãe. Foi o Simão a chave para destrancar o Pedro. Para sabermos o desânimo, revolta e dor. Nunca o esquecerei. 
Neste ano de 2014 ainda fresquinho a começar, o Simão acabou de fazer 35 anos em Janeiro, apenas trinta e cinco, e uma estúpida paragem cardíaca retira-o para sempre do nosso convívio. Poderia poetizar que o Simão teria uma coração maior do que o espaço para o alojar, mas quedo-me na ideia de duas meninas ficarem sem pai tão pequeninas e fico sem palavras...
Hoje, dia 16, uma campanha que começou de brincadeira com uns amigos de Paris tomou proporções mundiais.


Das muitas fotografias que o Simão nos presenteou, uma foi das cinco primeiros finalistas na Campanha Publicitária em Portugal: “A minha cidade é super”. Então na sequência dessa ideia que surgiu naturalmente entre amigos e foi crescendo à medida que divulgada, este evento pretende, acima de tudo, celebrar devidamente a vida. A vida de Simão Carvalho.
Vou transcrever uma parte:
«Assim, no dia 16 de Fevereiro, os amigos do Simão convidam quem quiser, a qualquer hora do dia, em qualquer lugar, acompanhados, ou apenas com o Simão, a fazerem um brinde – um brinde à vida, à amizade e para que o gesto se torne eterno pedem, igualmente, que fotografem o momento e o publiquem nas redes sociais (No FB diretamente na página do evento, onde também podem fazer “vou”. Twitter e Instagram basta usar a tag) usando a tag #SimaoC , ou seja, a assinatura que Simão Carvalho usava nas suas fotografias, prestando, deste modo, homenagem a essa grande paixão pela fotografia e garantindo um legado às suas filhas, para que um dia as pequenas Joana e Emma vejam que o sorriso que conheciam do pai, teve um alcance universal. O evento conta já com a adesão de mais de 700 pessoas, em cerca de 50 lugares espalhados por todo o mundo, tornando-se absolutamente viral, ultrapassando todas as expetativas e criando uma rede de amizade espontânea e universal. Na realidade a homenagem acabou por atingir uma escala planetária muito antes da sua realização física, ao conseguir o envolvimento humano desde a Venezuela e Canadá, passando por vários países da Europa, alcançando o continente africano com Angola, Moçambique, Congo e Guiné Bissau e culminando na Ásia (Indonésia, Timor, China, Dubai) e Austrália, entre muitos outros. "Mais uma Bock com o Simão” é superar a morte, celebrando a vida. 

 Sua Família e Amigos»

to infinity?!?! are u sure?!
É esta a legenda original desta foto, das muitas que revisitei no perfil de facebook (para trazer para este post), impregnada com o habitual humor com que o Simão nos presenteava,
A minha resposta?
- yes, I'm sure, querido amigo! até um dia #SimaoC


TwitEntrevista Alive

TwitEntrevista Alive é um formato que criei de entrevistas para e no Twitter a pessoas twitteiras que eu considerei interessantes. Fiz apenas uma temporada que levei a cabo em 2009, porque sou escritora, não jornalista!, porque foi giro fazê-lo, mas não seria tão giro continuá-lo. 
As regras eram simples: Em 140 caracteres PERGUNTA em 140 caracteres RESPOSTA. Sempre com a hashtag #TwEnt

O Simão foi um dos meus primeiros entrevistados.

TwitEntrevista Alive #2
Em 140 caracteres PERGUNTA em 140 caracteres RESPOSTA.
Sempre com a hashtag #TwEnt
TwitEntrevista Alive - Volta esta semana com novo convidado: @SimaoC com o seu olhar da *portugalidade* visto de Paris.
Simão Carvalho, português em Paris, está no Projecto Association AIRES (conta Twitter @airesparis) Association d'intérêt général, AIRES défend le droit des personnes déficientes intellectuelles de travailler et de vivre parmi tous.


A seguir sempre pela hashtag #TwEnt ou pelo site twitterportugal.com - que se tem mostrado mais fiável ao volume de tráfego à hora que decorrem as TwitEntrevistas.
Link http://twitterportugal.com/topico/TwEnt

AM
#TwitEntrevista Alive - Hoje depois das 21h - @SimaoC com o seu olhar da *portugalidade* visto de Paris. #TwEnt http://www.anamartins.com/


joelysandra disse:
@joelysandra: @annamartins TwittReporter ?


AM
RT Não ;) só uma TwitAbordagem levezinha com as pessoas interessantes que há no Twitter @joelysandra: @annamartins TwittReporter ?
SC
Ora, se a técnica o permitir, daqui a pouco serei twitEntrevistado pela @annamartins. Para seguir a conversa http://is.gd/1HXMB #TwitEnt
AM
@SimaoC Meu caro, se eu não for pontual posso TwitEntrevistar-te por telemóvel? #TwEnt (sem enganos na hashtag s'il vous plaît)
SC
@annamartins: Vamos a isto? #TwEnt http://is.gd/1HXMB


TwitEntrevista Alive #2 @SimaoC a 30 Julho – Timeline Twitter
Esta TwitEntrevista foi inteiramente feita via Twitter modo telemóvel


Pas Si Simple - Yann Tiersen
Não me digam que não é possível!
AM
@SimaoC #TwEnt Boa Noite Paris! Simão obrigada por aceitares este TwitDesafio. O Twitter ajuda a não estares tão distante do teu país?
SC
@annamartins #TwEnt Boa noite Ana! Obrigado eu! O twitter ajuda em muito a estar perto de Portugal e de acompanhar melhor o que aí se passa!


Undertheground disse:
@SimaoC @annamartins concordo completamente (opinião de quem também está noutro país) #TwEnt


NunoSarandes disse:
Não está fácil o Search não dá nada. Estou nas vossas páginas. Estou a gostar. Truque: criar um grupo no Deck com vocês os 2. Funciona!


AM
@SimaoC #TwEnt Como no teu nick inicial que muitos recordarão (@vistodaqui), como é a *Portugalidade* vista daí?
SC
@annamartins #TwEnt Questão complexa! Creio que quem está fora percebe melhor o que de positivo existe em Portugal e a sorte que tem quem aí está!
AM
@SimaoC #TwEnt É a estória da galinha da vizinha? Porquê sair do país? No caso, o teu projecto pioneiro não existe em Portugal. Foi a motivação?
SC
@annamartins #TwEnt A minha saída foi por razões que a razão desconhece! :-) Este projecto em que estou agora, veio depois!
AM
@SimaoC #TwEnt Simão, queres explicar o que fazes e como é importante esse projecto?
SC
@annamartins #TwEnt Trabalho com pessoas deficientes mentais, para a sua integração em empresas "normais". Faço também um acompanhamento global!
AM
@SimaoC #TwEnt O que queres dizer com "acompanhamento global"?
SC
@annamartins #TwEnt Não paramos na assinatura do contrato. Continua ao longo da sua vida profissional, mas tb a nível pessoal: lazer, autonomia...
SC
@SimaoC #TwEnt Vemos cada um, 3x por semana: no trabalho, em formação à Quinta-feira e ao Sábado para as actividades de lazer! E outras se preciso!
AM
@SimaoC #TwEnt Estás a falar de uma figura que gostaríamos ver em Portugal: tutor de jovens adultos com deficiência?
SC
@annamartins #TwEnt +- Nos não somos responsáveis pelo jovem. Somos um "interface" entre o jovem, a empresa, os pais, o médico, etc. Técnicos!
AM
@SimaoC #TwEnt Esse "interface" entre jovem, empresa, família, médico, é a de um técnico que chamei *TUTOR* não a figura jurídica!
SC
@annamartins #TwEnt Então sim. Permitimos a cada um de se "dar a compreender" e criar ferramentas para que cada dificuldade seja ultrapassada!
AM
@SimaoC #TwEnt E Simão? É possível a integração efectiva desta população, ainda que com supervisão?
SC
@annamartins #TwEnt Nós provamos que sim. E as empresas pedem mais!
SC
@annamartins #TwEnt Nós provamos que sim, à condição que a pessoa saiba comportar-se em sociedade. Não falamos de doenças mentais, mas deficit…
AM
@SimaoC #TwEnt As empresas pedem mais. Explicas porquê?
SC
@annamartins #TwEnt Porque os jovens são acima de tudo produtivos. Respondem a uma exigência operacional da empresa. São pontuais e assíduos!


PauloQuerido disse:
Sigam a #TwEnt (entrevista twitter) de @annamartins a SimaoC : http://twitterportugal.com/topico/TwEnt


AM
@SimaoC #TwEnt E Simão, visto daí, como é tua perspectiva de jovens com déficit cognitivo na realidade portuguesa? Que pode ser feito?
SC
@annamartins #TwEnt Ui ui!!! Se em França vai funcionando é porque a lei 2005-102 penaliza as empresas q não contratam deficientes. Mas PAGAM MUITO!
AM
@SimaoC #TwEnt Desculpa, não entendi: quem paga? As famílias, empresas ou Estado?
SC
@annamartins #TwEnt As empresas que não empregam deficientes pagam multas enormes e que vão aumentar em 2010. Por isso começam a empregar!
SC
@annamartins #TwEnt E nós aproveitamos essa penalização para provar que dificuldade de aprendizagem não implica incapacidade, muito pelo contrário!


Francismata disse:
RT @SimaoC @annamartins #TwEnt As empresas que não empregam deficientes pagam multas enormes e que vão aumentar em 2010. Por isso começam a empregar


AM
@SimaoC #TwEnt Então essa legislação adequada pode ser norma Europeia? Sabes números de quem usufrui desses meios que reescrevam o final?
SC
@annamartins #TwEnt A dificuldade é que as empresas pagam, mas os meios para as ajudar a aplicar faltam. O próprio Estado não respeita a lei!
SC
@annamartins #TwEnt É isso que apresentamos às empresas. Um profissional operacional e produtivo, mas também um dinamizador de relações na equipa.
AM
@SimaoC #TwEnt Simão, vou terminar com cliché/pergunta que todo o emigrante deve ouvir frequentemente: um dia vais querer voltar a Portugal?
SC
@annamartins #TwEnt Eu já quero voltar a Portugal! Eu voltarei a Portugal. É um país incrível e com uma qualidade de vida enorme, apesar de tudo!
AM
@SimaoC #TwEnt Um dia vens a ser pioneiro desta causa em Portugal, para que todos os iguais sejam menos diferentes. Visto daqui, agrada-me.
SC
@annamartins #TwEnt Acredita que gostaria de o fazer! Eles não são diferentes. O nosso olhar é que é distorcido por preconceitos. São fantásticos!
AM
@SimaoC #TwEnt Por isso eu disse, a brincar com o cliché, que *todos os iguais são menos diferentes*... Pas Si Simple
SC
@annamartins #TwEnt E a presença deles "entre todos" provoca coisas maravilhosas. Obriga-nos a ser naturais. Haverá melhor que isso?!
AM
@SimaoC #TwEnt Verdade. Tomara todas as pessoas terem o privilégio do convívio que temos e nos reeduca na forma de estar e ser.


NunoSarandes disse:
@SimaoC @annamartins Parabéns aos dois pela #TwEnt de hoje. Muito interessante!


SC
@NunoSarandes #TwEnt Obrigado Nuno! Fico contente de pelo menos uma pessoa não ter achado que estraguei a #TwEntrevista à Ana! :-)
AM
@SimaoC #TwEnt Aceita um abraço enormeee, querido TwitEntrevistado Simão Carvalho. Respondes como és - franco e apaixonado por tua causa!
SC
@annamartins #TwEnt Obrigado pelo convite e pela gentileza Ana! Um grande abraço!
AM
@SimaoC #TwEnt Simão, obrigada por tua disponibilidade, presença de espírito e... pela valentia de meu telemóvel! :-) Um beijo.


antunesricardo disse:
@SimaoC @annamartins Não sei se houve muitos a seguir, mas eu gostei da vossa conversa de hoje. Parabéns pelo envolvimento de ambos nas causas!


AM
@antunesricardo Ricardo, ainda que tivesse sido apenas uma pessoa a seguir a #TwEnt :-) É sempre um prazer conversar com o @SimaoC Obrigada!

Nota Final a meus leitores:
A seguir sempre pela hashtag
#TwEnt ou pelo site twitterportugal.com - que se tem mostrado mais fiável ao volume de tráfego à hora que decorrem as TwitEntrevistas.
Link http://twitterportugal.com/topico/TwEnt




quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A meus leitores inusitados

Se me pedissem para escolher um dos livros, dos que já publiquei, qual o meu favorito, não conseguiria escolher. Nem caio no cliché de afirmar que todos os livros são como filhos a que se amam de igual forma, já que sou Mãe de apenas um rapaz, e custa-me sequer imaginar conseguir gostar de alguém de igual forma ao amor umbilical e incondicional que dedico a meu filho Pedro. 
Cada um dos livros encerra histórias e memórias muito minhas. Não são os focos de luz em tempo de promoções publicitárias, muito menos em lançamentos de livros, eventos conduzidos com uma formalidade bocejantemente enfadonha a que sou terrivelmente alérgica e que lhes fujo despudoradamente. Sou uma pessoa simples, o que me apaixona é a intensidade, é a entrega a que me proponho em cada pesquisa para a narrativa e a construção mental de personagens e enredos, e até no depois, quando se pode pensar que as luzes se apagam: aí acontecem as conversas perfeitas com os meus leitores que ocorrem em qualquer momento fortuito, em qualquer sítio improvável. É marcante, o que recordamos no fim de cada projecto que, afinal, não tem nunca fim. Continuo a ter diferentes leituras de momentos que ainda hoje vão acontecendo quando não espero. 
Um destes dias sucedeu mais um digno de entrar directo para o meu TOP 5. Não foi apenas mais uma leitora que me reconheceu como autora de um livro que leu. Aliás, para mim, nunca o é, somente um 'apenas', cada ocasião tem um nome, uma cara, uma história, e como boa contadeira, encanta-me uma bem elaborada, e se protejo nome e cara, atrevo-me a partilhar a história.

clique para escutar enquanto lê  


Num jardim infantil, onde habitualmente levava a filha em pequenina para brincar, conversa com outra mãe. Ambas de olho nas suas crianças, sem se darem conta, desabafam o que nem à alma contam. É fácil destrancar medos e inseguranças quando se fala com desconhecidos. Não sei, não conheço a outra senhora com quem a minha leitora se habituou a conversar naquele jardim. Contou-me que o filho da senhora, o João, é um menino autista e que a mãe um dia levou para o jardim um presente para a que viria assim a ser mais uma das minhas inusitadas leitoras: o meu livro AUTISTA, QUEM...? EU?
Tendo em conta que este livro já faz oito anos de publicado, foi com grande alegria que me apercebi da riqueza de detalhes recordados, o brilho com que esta leitora me falava das emoções que lhe provocara, ao ter lido há tantos anos o meu livro. Esta leitora inusitada, não tinha, continua a não ter, nada a ver com o autismo, mas foi tocada pela presença do João no parque, ou talvez pela sua Mãe no banquinho à conversa, mas ficou a saber o que vinha a ser o autismo, sabe hoje oito anos depois, reconhecer estes Xicos que povooam as nossas vidas.
Bem sei que é um livro que provoca reacções intensas, do riso ao choro, que tive a sorte de muitas dessas histórias me terem sido transmitidas seja pelo diálogo que estabeleço com os meus leitores nas redes sociais, seja assim, pessoalmente, mas este relato entra-me directo para o coração não só pela leitora que ficou a perceber do que falamos, mas também pela mão da senhora, a Mãe do João, o menino que brincava no parquinho. Porque eu conheço o desespero maternal que se sente por ter de explicar incessantemente o seu filho ao mundo. Foi, de todos os motivos, o que me moveu a escrever este livro.
Sei que vendeu como pãezinhos quentes, que cada leitor a cada sessão de autógrafos me aparecia com dez livros - para si, para dar aos pais, aos sogros, à professora do filho, a tios, distribuir pelos amigos... A compra deste livro foi usado (quantas vezes...?) como arma para explicar o filho a todas as pessoas em seu redor. Sim, conheço essa dor desesperante e sei que a oferta do meu livro com um enfático: "Lê" marcou uma época, era mais fácil que mil conversas que infelizmente todos nós tivémos de ter repetidas vezes. Ao fim de oito anos de livro que ficou esgotadérrimo e foi emprestado e reemprestado, passou de mão em mão, sei que teve esta função didática que sempre almejei, mas não sonhei fosse tão longe. Como nunca imaginei que além dos pais, sogros, professores e familiares... houvesse alguém que simplesmente oferecesse este meu livro a um desconhecido no parque, para poder explicar, por fim, porque o seu filho é diferente.



domingo, 27 de outubro de 2013

A Hora do Nada

A violência doméstica continua a ser um crime que toca todas as classes sociais, raças e credos. Escrevi este livro há tantos anos e preparando mais um ano de apresentações e mini-conferências dou-me conta de como infelizmente o tema  continua tão actual. Deixo-vos, hoje na mudança das duas para a uma da manhã, nos sessenta minutos que não existem, o conto A HORA DO NADA. Sempre que acontece esta mudança de hora, em que recuamos uma hora nos nossos relógios e nas nossas vidas, a minha imaginação mais que fértil dispara nas múltiplas possibilidades do que pode ou não acontecer a cada um de nós numa hora que não existe e que de uma forma utópica mude a forma de estar e ser para sempre. É claro que esse momento nos pode surgir em qualquer hora de nossas vidas, mas muito mais poético se for naquela hora mágica que só se designou existir uma vez por ano, poético e definitivamente uma excepcional história para, um dia contar aos seus netos.
Não seria o caso de Sandrine, se fosse o caso desta minha personagem ser real. É uma das muitas caras sem rosto que dão cor ao meu livro «MAL ME QUERO» que sendo um romance de ficção, aborda realidades vividas por muitas Marias e Sandrines. Nem sempre mulheres, nem sempre Marias, e sim, também o reforço no meu livro com personagens masculinas, apesar de o rosto mais visível da vítima da violência doméstica seja o feminino.
Deixo-vos com a Sandrine, quiçá para ser lido na hora do nada deste ano, acompanhado pelo som de Zero 7 - um dos contos do meu livro «MAL ME QUERO» - A hora do nada.

Zero 7 - Distractions

A Hora do Nada 
por Ana Martins

Sandrine convenceu-se que não tinha acontecido. Até porque fora só daquela vez e aquela vez não tinha existido.
Engraçado os mecanismos que a nossa cabeça arranja para se defender do lixo mental que não queremos ver, ouvir, cheirar, sentir, menos ainda saborear.
O Ruben tinha aquele hábito horrível de beber bagaço com a bica do jantar. O pai dela também o fazia, quando imigraram para França, dizia sentir-se mais português por comer bacalhau, chouriças e beber bagaço. Esse era um fedor que se lhe entranhava nas roupas, junto com esse, o do tabaco dos outros da taberna, entrava pela cama lavada a cheirar a alfazema e roubava-lhe o odor a casamento feliz que tanto queria sustentar.
A mãe e o pai ainda tinham um casamento composto, tinham lá as suas coisas, mas qual o casal que não as tem? Viria a ser assim com o Ruben também. Era um bom homem, amigo de trabalhar, um bocado rude devido à educação que tinha tido. A princípio, quando vinha nas férias, até o achara peculiar e pensava que se poliria com o tempo, o convívio e o ficarem juntos em Portugal.
Mas era o Portugal dele. Não o seu. Não agora.
O marido era de perto da terra dos seus pais, uma zona de quintas bem perto de Lisboa. Visitavam os avós todos os verões, no mês habitual e o namoro com o moço despontou. Coisa de miúdos, quando se encontravam nos passeios de bicicleta, pelas pequenas florestas onde depois brincavam. Sandrine recordava-se sempre das histórias de bruxas quando passava por lá, devido ao marulhar esfregadiço das folhas quando havia vento.
Só nos seus 16 anos levararam o namorico da menina mais a sério num amargo fim de Agosto: Sandrine não queria, porque não queria voltar à França deles e pedia: porque não ficava a viver com os avós? Nascera lá, mas o coraçãozinho de jovem ficara só às últimas chuvadas de Verão porque os pais não permitiram que a sua menina de ouro interrompesse a escola e o sonho de a vir a tornar alguém na vida. A promessa de trabalho dos tios do marido, o sonho adolescente de um casamento perfeito e um irredutível Ruben de mochila às costas frente à casa dos pais sem aviso prévio, fizeram-na deixar os pais aos dezoito anos e vir para uma terra que nunca viria a sentir sua.

Três filhas depois sentia-se sugada, estupidificando a cada dia, numa casa sem graça no bairro escuro, como se um vagaroso torpor tomasse lugar da menina inteligente para os livros de escola, enquanto a sua bicicleta enferrujava nas traseiras do quintal.
Aquela noite não tinha existido. Não naquele momento mágico em que a hora de Inverno anda para trás e por isso mesmo nada tinha acontecido. Todos os dias pensava nisso e tentava focar-se apenas na ideia da hora que não tinha acontecido, por isso era tão fácil convencer-se! Contudo, nada ficou igual depois dessa hora em que nada, mas tudo aconteceu.

O Ruben chegou da taberna tarde como vinha sendo habitual. Estranhou quando o ouviu dar uma volta na fechadura da porta do quarto, apenas cerrou mais os olhos, encostou o nariz no lençol e fingiu dormir, como já se tornara seu hábito, tentando reter a lavanda nas suas narinas.
Só teve tempo de estranhar ele não se sentar pesadamente do outro lado da cama e atirar com as botas sem pensar que por baixo dormiam vizinhos: Estava do seu lado da cama e...
Pôs as mãos dentro da sua camisa de dormir e... fez o que não lhe foi muito confortável.
Sabia o nome da coisa, porque tinha dito veemente e repetidamente NÃO.
Honoré de Balzac dizia «Pode-se perdoar, mas esquecer, isso, é impossível.» Sandrine tentava esquecer, tentava ferozmente esquecer, sem se dar conta que nem perdoar conseguia. Talvez o que mais lhe custava desculpar fosse aquele momento, logo no inicio, quando se debateu, fechou as pernas e disse, “NÃO FAÇAS ISSO”, a valente chapada na cara e aquela voz bagacenta a ordenar: “ESTÁ QUIETA!”
Está quieta...?
Como se não fosse dona do seu ser, do seu querer ou não querer.
Não se ajeitou, tão pouco lhe facilitou a coisa. Parvamente recorda quando, desesperada, olhou para cima e na escuridão do quarto viu o neon da luz do despertador e se recordou que teria de mudar a hora.
Depois...
Quando ele saiu para o toillete, rolou na cama e limpando as lágrimas com o pulso dorido, recuou a hora do despertador. Esboçou um sorriso tonto e tentou evadir-se para o campo ensolarado lilás da plantação de alfazema que havia na propriedade onde os pais trabalhavam na sua França enquanto apertava o relógio contra si. Foi a primeira vez que lhe ocorreu esse pensamento a que se agarrava até hoje: A hora do nada. Porque se não existira, logo, nada se passara!
Havia ocasiões em que ponderava e a culpa era dela. Era um dever conjugal a que se esquivava frequentemente quando o Ruben bebia e, verdade se diga, recusava muito. Não suportava aquele cheiro a entrar-lhe pelas narinas e a bloquear-lhe a libido. Era mais fácil fingir que dormia e dormia muito.
Nunca falaram sobre aquela noite.
Ele solicitava e ela não se debatia. Assim. Função cumprida. Todos os dias.
Até que uma noite – daquelas em que Sandrine agora dormia mesmo muito com uns comprimidos que, entretanto, comprara – acordou e não o sentiu na cama a seu lado.
Nessa noite em vez de sentir alívio por ele não estar a seu lado... gelou.
As meninas.
Sorrateiramente foi espreitar o que podia estar a acontecer, mas um sonoro sopro anal vindo do toillete anunciou a localização de Ruben.
Entrou no quarto das meninas e foi beijar e aconchegar uma a uma no soninho descansado. Cheirinho a Alfazema. Perfumava-as sempre depois do banho antes de as deitar. E se... Não. NÃO!
Sabia que no bairro havia uma Associação de Imigrantes. Sabia que eram bastante activos com a população em perigo, não iriam negar ajuda a uma mãe com três filhas, como tinha conhecimento não negavam a ninguém. Uma vizinha cabo-verdiana perto dela andava a ser ajudava por esses senhores da associação, a outra família lá além também e percebia claramente tanto empenho e dedicação.
Deu duas voltas à chave do quarto das meninas e deitou-se na cama com a mais pequenita. Inspirou bem profundamente o ar impregnado de lavanda.
Não pensou no que tinha de comprar na mercearia na manhã seguinte: Mentalmente soube onde iria assim o sol amanhecesse.

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