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segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Pés na terra & cabeça sonhadora

Hoje de manhã um amigo enviou-me esta mensagem: 
"Ia para o trabalho, ouvi esta música na m80 e lembrei-me de ti" 
Fiquei obviamente curiosa e cliquei no link para ver qual a música. 
Imediatamente o sorriso nasceu em mim antes de a escutar, ao ler o título e o grupo!, risonha, já desci para a minha caminhada matinal a dançaricar pelos degraus, a cantarolá-la na minha mente, sem conseguir descolar do meu rosto um alargado e malandro sorriso. 
É que amanhecia o meu mês de Setembro de modo tão, tão meu! 
Explico.
Sei que o meu amigo tem razão ao pensar em mim com esta canção: reconheço como tão bem me compreende ao longo destas décadas todas. De igual modo, o estilo e as palavras da cantautora escocesa Sadenia Reader, lêem-me na perfeição! 
Sim, "Perfect" (e clarooo que não é a música de Ed Sheeran! Atentem os mais jovens que amam descobrir os anos '80), foi o primeiro single dos Fairground Attraction (grupo já extinto), que quando saiu, se tornou #NumberOne numa época em que tínhamos e valorizávamos um top musical. 
Isto aconteceu transversalmente a 1988/1989, aquando do tempo conturbado&mágico da minha gravidez de alto risco, com o tempo de ser mãe, pelo que, estando por imperativa advertência médica, de cama durante oito bonitos meses da gestação do meu Pedro, escutava esta música amiúdea bombar na rádio! 
Ia ter mais cuidado do que todos os médicos me recomendavam! 
Foi uma gravidez muito rara e, por isso, bastante vigiada. 
E, sim!, ia ser perfeito!! 
Todo este texto contém link para uma música após outra, de modo que tem muita informação complementar nas letras de cada canção; as minhas palavras casam com as suas letras, pelo que pode fazer uma leitura apenas pelo texto ou deixar-se inebriar pela banda sonora destes meu pensar: é que a música é essencial à vida! 
Já depois da caminhada, tive de interromper o normal curso do meu dia, absorta e até comovida com os pensamentos que me ocorreram à mente; vim decidida e sentar-me a escrever. 
Escrever salva-me sempre! 
A memória que guarda os bons e os menos bons momentos da nossa vida, é plena na bondade: faz-nos empurrar para um canto mais escuro, o que nem é para lembrar. Não esquecemos: apenas o apagamos da nossa vivência quotidiana, como o som de uma vagarosa vassoura em segundo plano, numa música de Neil Young. 

Perfeito! 

Era como eu queria que fosse o meu casamento, tal como foi o dos meus pais e dos meus avós! 
Vivi rodeada de dois casais tão coesos, porém exposta (em frente, literalmente!) a outros dois tão tóxicos, que nem sei bem porque retive só o perfeito: bom... até sei! Sou da última geração em que as meninas foram educadas para casar. O efeito Cinderela rodeava-me e era bem palpável para mim, demasiado observadora, reparava em cada gesto, palavra, toque ou sorriso cúmplice: tive uma infância mesmo muito feliz, rodeada de amor! Perfeita! E nem a Disney tinha ainda entrado na equação das princesas: estávamos no tempo do rato Mickey e do pato Donald, as belas tardes no cinema Alvalade. 
Perfeito não foi o meu casamento, é facto. Divorciei-me quando o marido disse: "Eu não posso ter um filho deficiente!" Ao que muito bem respondi: "E eu não posso ter um marido parvo!" 

Perfeito! 

Não foi o que aconteceu nos anos seguintes. Na verdade, nem teria de ser, eu é que ainda não tinha aprendido essa lição na vida (as expectativas), e, como sou teimosa, foram necessárias mesmo muitas mais, para que capitulasse. 
Tal como se sugere na música do meu amigo (obrigada!), ainda que devidamente divorciada, mo meu íntimo sempre continuei a acreditar na instituição casamento; num compromisso a sério, na tríade AMOR-CONFIANÇA-RESPEITO.. Acredito, ainda hoje, que só assim vale a pena viver a dois: quando vale a pena! 
Viver só, é uma escolha, e feita há mais tempo do que quero lembrar. Se namorisquei?, é certo, não fiz voto de freira!, mas algo sério...? Bastava-me observar o modo como os pretendentes a pretendentes me olhavam ao início e logo de esguelha para o meu filho, que, coitados!, já estavam de patins em linha no Estoril!, ainda a pensarem ter quaisquer hipóteses de entrarem na minha/nossa vida...!
Quis muito, de começo, o voltar a casar, o construir uma família, o dar irmãos ao meu filho. 
Um dia um médico disse-me de deveria TER mais filhos, para um dia cuidarem do Pedro. Quedei-me horrorizada! Isso era tudo o que não aconteceria na minha ideia de perfeito!! Casar com qualquer um e encher-me de filhos...? Na minha mente, coloquei esse conceito de porca parideira num desses recantos escuros e lamacentos. Hoje entendo o conceito perfeitamente, contudo, não voltei a amar.  
Todo este modo de ser, tal como está na música matinal... sou eu! 
Sou oito ou oitenta. 
Branco ou preto. 
Tudo ou nada! 
(Ainda hoje o serei...?, tenho dias, momentos, em que duvido.)

Sempre assim fui, desde menina, com o carácter e personalidade bem vincados, tal como o meu pai, orgulhosamente, tanto me gabava, a quem quisesse escutá-lo. 
Tive e tenho a coragem e a determinação acirrada de enfrentar, a solo, mais de um salto sem rede, para o qual a minha infância feliz não me preparou - digo melhor -,  tantos anos tão feliz, de um perfeito que ansiava repetir. 
Todo esse amor que me envolveu preparou-me, sim, para o desconcertante embate que é o de ter um filho que baralha a noção pré-construída que qualquer grávida tem de perfeito, e, ainda assim, ter a tenacidade de logo arregaçar as mangas: fazer de conta que era muito corajosa (apesar de me sentir brutalmente aterrorizada), porque ninguém iria notar a diferença, e seguir em frente, defendendo-o de todas as frentes frias, das leves brisas às mais ferozes tormentas! Ainda o faço, sempre o farei. Venha quem vier! 
Continuo em algum recanto ensolarado de mim a ser a brava e feliz menina da foto, com nove anos, a dos quatro meses de férias na praia, a atrevida, pispineta e desafiadora, a saltar sem precisar de rede! 
(É sim, uma das fotografia captada pelo meu papá, uma das muitas minhas preferidas. Esta cristalizo-a com a legenda das palavras, que acima referi, de meu pai). Mas questiono-me: ainda sou tudo isso...?

Recordei, uma outra música: The Whole of the Moon, a que me agarrei com a urgência inata de uma grande lapa: se antes do Pedro nascer estava aterrada com o que os médicos foram dizendo ao longo da gravidez de alto risco e pelos 10 meses subsequentes até fecharem o diagnóstico, comecei um gritante e calado diálogo interno na minha cabeça, entre a Ana, a organizada e bem assente na terra e a Ana, a eterna sonhadora e artista dos pés à cabeça: 

"I saw the rain dirty valley 
You saw Brigadoon 
I saw the crescent 
You saw the whole of the moon"

E ainda que eu o soubesse desde a infância, em algum recanto luminoso em mim, continuei a crer de que Brigadoon não existe só na música, no filme ou na imaginação colectiva: existe mesmo!, 
Ahhh!,para mim, o perfeito nunca chegou. 
E sim, eu sei que existe e consigo ver o todo da Lua, tal como tenho a Dona Dor comigo (é claro que tem nome e ocupa o seu espaço!) nas outras minhas  fases lunares. 
Perfeito, não é, aprendi a acomodar e a pintar com outras cores o vale sujo e lamacento. 
Muitas as vezes que apenas o empurro para debaixo do tapete. 
Muitas mais, as que sei que consegui um intento que tinha desde os trinta anos, quando via outras mães com mais idade do que eu (bem mais novas do que sou agora), que também atravessaram a mesma Porta da Dor (como há décadas lhe chamei num livro); as Mães que eu via com os filhos na rua, nas salas de espera, e, lhes lia nos olhos a profunda e desesperançada tristeza, a que nunca se esmaece, muitas tombadas na amargura.

"Eu não vou ser assim quando for grande!", foi um Mantra que me manteve de pé, a fazer de conta de que era muito corajosa, enquanto continuei a sorrir à vida, a educar a solo o meu querido e lindo filho que nunca foi nada dos tenebrosos diagnósticos que prognosticaram antes do jogo. 
Chamavam-lhe a "estrelinha da companhia", por ter superado todas as expectativas. Foi desde pequenino o meu maior companheiro e amigo, nos momentos muito bons e nos nem tanto assim. 
Continuamos unidos pelo cordão umbilical que, no afã de uma cirurgia complicada, o experiente chefe de equipe se esqueceu de cortar, e eu, ao longo destes trinta e sete anos (contabilizo o da gravidez!), nunca tive o instrumento ou a vontade de usar a tal tesoura. 

E apesar de, durante anos, esta música me acompanhar - me salvar, literalmente! -, no frémito da voz fininha da Max Edie, que, na minha cabeça, era eu de novo com nove anos, só que agora na beira de um infinito vórtice, sem rede, a cada "nana nana na na naaaaah" que eu repetia incessantemente a percorrer o rodapé da minha mente em loop para calar a Dona Dor, a cada gesto do meu dia, num cantarolar tão profundamente calado.

Esta minha constante tortura de escolher viver a vida a sorrir e logo, artisticamente, na minha mente saltar para os carris onde passa o filme cómico da exacta mesma situação (sinto que corre ali encostado, paralelo à vida), tal como no genial filme dos Monthy Phyton "Life of Brian", eu posso dizer que consegui! Eu consegui!! Com o imenso, o interminável, incondicionalmente profundo AMOR que o meu filho e eu nutrimos um pelo outro... cheguei a este início de provecta idade e, nos meus olhos, só lêem amor!, nunca passei pelo sentimento de amargura, desespero sim, porém, sempre acreditei que olhando sempre além do horizonte, se não no amanhã, nem do depois de amanhã, um dia de paz chegaria! 
Paz e sim, amor! 
Pelo Pedro, pelo milagre da VIDA de que não desisto!, por este mundo que quero tanto seja feito de Paz! Sei que posso saltar para o outro par de carris a imaginá-lo...!, e se assim fosse, não seria maravilhoso?  

Alarguei o ângulo de visão, mais adiante na vida, e por comparação, aprendi de que mais do que as Mães e Pais do Autismo, tantas outras pessoas num doloroso momento, em profundo pânico, também atravessaram a Porta da Dor. Diferente, contudo... compreendemo-nos, num nível de intensidade que sei ficar a léguas - e ainda bem que simmm! - de quem nunca a atravessou. 
Bem hajam!, quem nunca passou pelo que nós sabemos! Precisamos de gente sã ao nosso redor, para termos essa perspectiva e expectativa nas nossas vidas! 

E há a Esperança, porque nunca se vai embora!, e há a alegria!, eu continuo a acreditar, e a sorrir! A sorrir!!  Nunca a amargura que via nas outras mães, conseguiu derrubar a minha alegria de viver, por muito que force esse muro mais concreto que o de Berlim. 

Há muitos anos escrevi num dos meus livros: 
"Há é uma forma diferente de ver e viver a vida, o que nos torna loucos aos olhos dos que levam uma vidinha triste e sem sabor. A nossa, sabe a morangos com chocolate, até, quem sabe, sake e wasabi, se e quando deixamos a parte picante entrar na nossa vida." 
                                              in "Mal Me Quero", 2010

Hoje teria de pensar diferente do tudo ou nada, oito ou oitenta, ou não teria crescido tanto, a cada encontrão que a vida teve para me oferecer; e se ser mãe do Pedro fez de mim melhor pessoa, a idade trouxe-me um aveludado sabor adocicado, que se foi espreguiçando pela longa estrada que já percorri. O que observei em outras vidas (com escolhas diferentes ou parecidas), sinto a apaziguadora sensação de que teria feito igual, porque sei que, a cada encruzilhada, decidi o melhor que consegui fazer (certa ou errada), e logo eu que me dei toda! Se bem que, para me enlear na sanidade, trauteasse mentalmente o aconchegante: "nana nana na na naaaaah". 

Sou rainha no overthinking, mas sabem que mais?, que se lixe!, não me moam com o título, porque já não o quero! Passei muito? Passei. Passado!
Eu vivo o presente. Sem pressas ou expectativas para com o futuro.
Há dias contava a meu pai e irmãos o tanto que já fiz na vida académica, só para fechar essa porta e porque a família não sabe o que faço com a minha vida - até me esqueci de mencionar o curso de espanhol! 
Não sou de pancadinhas nas costas, nem sequer competitiva, foi um desabafo que percebi logo depois: olha, fechei mais outra porta do passado! 

E para encerrar este texto, esta outra parte de mim de que abri mão, não a dançariquei, não a vivi: 

houve uma fase em que só escutava em loop Prefap Sprout. Talvez por tanto que me ajudaram, considero uma das minha bandas favoritas (é impossível escolher!), ainda assim, desta banda, se é que consigo seleccionar uma só música favorita teria de ser esta, com que vos deixo. 
E, como costumo autografar no meu livro Azul e branco às riscas: porque eu acredito! 

"We’re building our home upon love and respect 
And when we’ve built it we’ll call it Andromeda Heights

Folks in the valley will look up and say
'You've finally built it, can we come and stay?' 
And cynics will marvel and say, 
'we confess, there were times when we thought it was just an address.' 
But now that we've seen it, we know it's Andromeda Heights" 

                                         Andromeda Heights - Prefab Sprout







 













terça-feira, 3 de outubro de 2017

A história de Martim Pescador e Sr. Gaspar

A mágica história do pequeno guarda-rios apanhou-me desprevenida. Conhecia o bonito traço nas ilustrações com que o Pedro Suárez nos seduz e faz sorrir, todavia arrebatou-me a narrativa enriquecida, fazendo bom uso de um vocabulário inusitado num autor de tão pouca idade.
Martim o Pescador, o pequeno pássaro de luxuriante plumagem azul é, desde a Primavera em que nasce, humanizado pelo autor, dando-lhe a par da capacidade de bordejar rio acima, de só mergulhar após uma paciente, porém frutífera pescaria, como bom guarda-rios que aprende com o senhor pássaro seu pai a ser, concede-lhe a inverosímil possibilidade de se quedar biquiaberto com cartas por ele escritas em papel de junco, ou impaciente, de meter duas patas de conversa, sem nunca dar a asa a torcer. 
O autor, à medida que vai construindo com musgos e líquenes a casa e vida do pequeno e atrevido Martim, vai-nos apresentado as deliciosas personagens que o rodeiam e cautelosamente vai-nos deixando, aqui e ali, pistas a entreler uma velada sequela, qual Harry Potter alado em azul-metálico. 
O Senhor Gaspar, a centenária e sapiente tartaruga de lento assobio musical, só nos é apresentada mais tarde, desfazendo um precipitado e imerecido julgamento do jovem passarinho. A abismal diferença de atitude e idade entre estas duas personagens não é fruto de um mero acaso, se não de uma perfeita analogia em que o autor nos guia até ao amadurecimento de Martim. 
Ao longo de todo o livro, sentamo-nos confortavelmente no largo cadeirão de veludo verde-escuro, deixamo-nos bailaricar ao entrar na casa-árvore quando sorrindo, afastamos com uma mão a exuberante cortina de heras, tomamos pelo outro braço um cesto com pão com uma garrafa de licor e rodopiando um pouco mais, inebriamo-nos na frescura das hortelãs e das cidreiras já totalmente envoltos na doçura das camomilas e das flores de trevo, enquanto as subtis notas das tílias cantam para os confiantes funchos. 
Ahhh…! O Pedro foi passarinho para escrever um bom livro!



sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Por ti

O que já fizeste por ti hoje?
Cada dia é único, o hoje nasce ao virar de um ponteiro maroto sem anunciar o amanhã, e já pensaste no porquê? Simplesmente porque essa noção é inexistente, só o hoje conta, cantas isso na música do poeta, mas ao fazê-lo de forma automática, nem te dás conta o que te encanta a alma. O cliché repetido em bonitas imagens facebookianas e que partilhas sem verdadeiramente pensares, chama ao hoje como? Exacto! Chama-o de presente!!
Que seja um presente divino, ou de forma mais palpável, um que te é posto nas mãos a cada dia que acordas, que desembrulhas ao esfregar os olhos, que escolhes usufruir ou deixar ir.  
Se o deixares ir, permites que desande. Escorre-te por entre os dedos, possibilidades que guardas no ontem, na gaveta do por fazer. 
Amanhã? Será um novo alvorecer, novo esfregar de olhos e presente novo nas tuas mãos, e se comprometeste o anterior abrindo a gaveta dos não feitos, vais lá colocar mais lastro? Porque em algum momento espreitas por cima do ombro e melhor que ninguém sabes no que (não) mexeste. 
No final do dia, quando lavas os pés da longa por vezes dura caminhada, sorris sabendo que esses passos te levam onde queres estar. 
A cada dia as passadas encurtam, as gavetas arrumadas serenam-te, o sorrir mais leve, o reflexo do olhar mais puro. 
És tu. Sabias? Tu és capaz. Só tu e por ti deves avançar no sentido do teu equilíbrio interior. A harmonia que sentes é uma conquista tua. Aproveita-a em pleno. 
Faz o teu dia de hoje ainda mais vibrante. Dança, envolve-te com a vida em mil tons de arco-íris, em mil cores que te sorriem. 







quarta-feira, 24 de junho de 2015

S. João Bonito

Em conversa com um amigo que foi esta noite pela primeira vez ao S. João no Porto, recordei que num capítulo do meu livro AUTISTA, QUEM...? EU?, coloquei todas as personagens nesta noite fantástica. Como ainda hoje os leitores me continuam a falar das peripécias que o Xico e companhia passaram e de como se riram ao lerem o livro em locais pouco apropriados para gáudio dos transeuntes, volto a publicar neste site o meu texto desse capítulo logo hoje em noite sanjoanina. Também aproveitando este ensejo, homenageio a minha amiga ISA SILVA, uma artista que muito prezo o percurso que tem feito, a obra que tem produzido.
Deixo-vos com a reprodução que foi ao Concurso Martelinhos de S. João 2015, porém podem ver o original ao vivo, pois está em exposição no Palácio das Artes - Fábrica de Talentos entre 11 de Junho e 16 de Julho.
Este meu livro AUTISTA, QUEM...? EU? que se encontrava esgotado há muito, existe agora - a pedido de muitos leitores - em versão ebook.
Contacte-me para saber como adquiri-lo.

S. João Bonito

(excerto do capítulo S. João Bonito, do livro Autista, quem...? Eu?)
- imagens retiradas da net -

Estava a descer os Aliados. Isso percebi. Era uma barulheira com música ligeira e buzinadelas de fundo...
– Que dizes, bamos até aos Aliados? - desafiei o J.J. depois de desligar.
Os meus pais não quiseram vir. Definitivamente já não são os foliões que eram! Tinham até à semana para ir visitar as cascatas e preferiam fazê-lo escapando ao burburinho da noite de 23 para 24 – explicaram.
A Gui recusou a oferta da minha mãe de ficar com o Xico e também o de ficarem a dormir no Porto, mas diverti-me a ver o ar desinquieto do J.J. à medida que a Gui recusava uma e outra vez. Estava mortinho por ficar, que eu bem o conheço!
Tivemos dificuldade em estacionar o carro na Lapa, mas outra coisa não seria de esperar e avançámos a pé rumo à Av. dos Aliados serpenteando pelas ruas. Os putos nos semáforos pediam um euro para o S. João.
O que a inflação faz!
– Está uma noite maravilhosa, até parece que o S. Pedro deu uma mãozinha! - exclamou a Gui de braços abertos volteando sobre si própria.
– É melhor irmos até à Ribeira para ver o fogo - disse eu. - Ainda pensei levar-vos às Fontainhas que tem uma vista luxuriante sobre o Douro e para provarem um caldo verde à maneira, mas está sempre à pinha e com o Xico não me parece lá muito boa ideia...
– Isto vai encher imenso. - explicou J.J. dirigindo-se à irmã. - Tal como o Sto. António é uma festa de rua: não escolhe idades, estrato social e económico. Mas mesmo sendo alfacinha devo dizer-te que o S. João tem uma magia que nunca vi lá em Lisboa!
Num quiosque improvisado uma vendedeira de bata às florzinhas e boné do F.C.P. apregoava no nosso sotaque característico o manjerico e o alho-porro. Apesar deste ser mais tradicional, a malta mais nova preferia o prático martelinho de plástico colorido. A Gui ficou muito espantada por uma variedade de hortense à venda que não conhecia e perguntou à vendedeira porque é que aquela flor tinha uma haste tão comprida...
– Bariedade de hortense...? C’um carago!!! A menina está a mangar comigo, num está...? - A vendedeira estava agora incrédula. - Olha-me esta morcona a dezer que nunca biu a porra de um alho-porro na bida!? Ólhe que num acredito, menina!
– É que a minha amiga é de Lisboa... - respondi como se fosse justificação.
– Ides dezer-me que os mouros nunca biram um car... de um alho-porro?!? - bradou a senhora calcando um manjerico - Menina, sabeis que se cheira um manjerico desta maneira...? Num se chega o nariz à beira dele que murcha...
Esticava agora a palma da mão perfumada à inculta lisboeta.
– Isso por acaso até sei. - declarou Gui com um sorriso embaciado; depois murmurou ao meu ouvido - ... se agora lhe dissesse que na minha ideia via o alho-porro como uma espécie de alho-francês... descompunha-me, não?
Tive grande dificuldade em conter o riso...
Fiz sinal à Gui para não acrescentar mais nada à boa ideia que a vendedeira tinha formado dos mouros e comprei quatro martelinhos para nós, já que o Xico não se calava que queria porque queria o seu em verde, da cor do seu Sporting.
Enquanto discutia com o J.J. que quem pagava era eu, que era eu o anfitrião, apanhei a maior cacetada de que há memória e logo de seguida recordo que ouvi o J.J. praguejar uma asneira bem gorda e dizer que estava a ver tudo azul às riscas com o símbolo do FêCêPê... tudo às voltinhas como se fosse um desenho animado a ver estrelinhas...

Pois.
O Xico estava só a experimentar o seu martelo...
A Gui ria que nem uma perdida e aproveitou para nos dar uma marteladita, bem mais suave, convenhamos!
– Ó meu amor, é para bater mas sem força! - Tentava dizer limpando as lágrimas da risota. - Olha Quico, faz assim suavemente.
Olhou para nós para exemplificar mas, só conseguiu tapar a boca para rir ainda mais.
Foi um problema.
O Xico cascava forte e feio em toda a gente...
Tem uma força desmesurada sem ter noção como aplicá-la.
Algumas pessoas ainda achavam graça, quando se viravam, por ele ser mais ou menos pequenito, mas não era tão pequeno assim que não se sujeitasse a algum azeiteiro pronto para lhe dar uns bufardos... estávamos sempre com atenção e muito, muito apreensivos. Mas ele era rápido no gatilho...
Entre a hilaridade que nos acometia os comentários e impropérios, ouvidos em resposta às impetuosas e certeiras marteladas do Xico, continuámos em direcção à Ribeira.
A Gui estava completamente encantada pela versão nortenha dos santos.
– Isto é muito mais giro que o S. António! – clamava. - E a diferença está no martelar. Isto é fantástico! Olha a quantidade de gente com que já me meti!
Pois! Sem contar com a quantidade de morcões que se meteram com ela!
O J.J. estava ansioso que encontrássemos a Lena. Caramba!
– Telefona-lhe - pedia-me descaradamente. - Pergunta-lhe onde está agora.
– Calma! - tranquilizava-o eu - Vais ver que a encontramos na Ribeira...
Na Praça da República estava instalado um palco e actuava um grupo etnográfico, As Tricanas Poveiras, com as suas blusas de renda e os seus aventais multicolores.
– Então e numa noite destas não estão na Póvoa? - perguntava a Gui.
– És tão alfacinha... - brinquei. - Na Póvoa do Varzim gozam o S. Pedro!
– Pensei que cá para cima fosse só S. João, que S. Pedro fosse só em Sintra!
– É verdade! Esqueci que és daquelas que pensam que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. - ri eu, ganhando em troca uma careta e uma martelada.
Quando passámos pela Rua de Cedofeita, uma senhora vendia, entre bandeiras do meu F.C.P. e manjericos, uma outra versão de martelos: os insufláveis.
Perfeito!
Assim o Xico não magoaria mais ninguém!
A Gui parou a olhar as montras das sapatarias. Pfff!!! Nem sei para quê... tem pr’aí uns cinquenta pares! «Tenho de voltar à Invicta para umas comprinhas» disse convicta. Pois claro, estava nas suas sete quintas...
Comprámos o novo e enorme martelo e seguimos caminho enquanto o J.J. tentava ganhar fôlego para o encher, às aranhas com o sistema de segurança.
– Isto das seguranças é só para deixar os adultos doidos, se fosse um miúdo já tinha conseguido encher esta bodega! - reclamava.
Ri-me ao recordar quando, um dia, não consegui abrir um frasco de xarope com um sistema de segurança para crianças que o Xico prontamente abriu.
O Xico estava delirante pelo tamanho do seu novo instrumento de tortura sanjoanina, mas, por ser tão grande não conseguia impulsionar o balanço suficiente para poder cascar decentemente. Então demo-nos conta que uma pessoa gemeu à passagem do martelo do Xico:
– Fuooogo! O catraio num parece mas tem fuooorça!!! - disse num queixume.
Ele segurava o martelo, mas, era com a outra mão que socava!!!
A Gui determinou o fim das hostilidades e tirou-lhe o martelo:
– Desculpa lá Quico, mas não pode ser! Agora ficas sem martelo!
Continuámos, avançando em fila indiana, por entre a multidão que inundava a rua até à Praça Carlos Alberto e eu, feito cicerone, ia explicando onde nos encontrávamos, qual o edifício público ou monumento que víamos ou quaisquer outros esclarecimentos que sentisse necessidade de fornecer aos meus ilustres convidados alfacinhas...
Na praça existem umas enormes floreiras de alvenaria, dispostas lado a lado. Em duas delas estavam sentados dois homens, cada um na sua, visivelmente embriagados.
O Xico seguia à nossa frente na fila e, com uma enorme rapidez, sem que o pudéssemos impedir, pára por breves segundos, mesmo na frente dos homens, levanta os dois braços de punho fechado e... zás!!! Aplica duas grandes e valentes murraças nos dois homenzarrões, em simultâneo, uma em cada testa!!!
Lívidos, entreolhamo-nos os três... É desta que o Xico leva uns cascudos, juro que pensei!
Como seguíamos em fila indiana, hesitámos antes de passar em frente daqueles dois, mas, o Xico, depois de desfechar os murros já lá ia como se nada fosse, por isso prosseguimos também... Por essa altura os homens levaram, ambos, as mãos à testa:
O J.J. avançou timidamente passando bem à frente deles; olhando-os tão de perto que pôde escutar o primeiro:
– Fod...!!! Que car... foi este???
A Gui passou de seguida em estilo apressado e pôde escutar o segundo:
– C’um car...!!! D’ond’é que esta me caiu, carago??? - rugia olhando o céu.
Quando eu passei, sorrateiro, olhavam os dois para cima questionando-se:
– Foi uma pedra, car...!!!
– Um pássaro é que num foi! Fod...!!!
Juntámo-nos em volta do Xico já mais descansados porque eles não tinham sequer percebido que havia sido o puto, mas, ao contarmos o que cada um tinha ouvido de passagem, caímos na risada, ali a dois passos daqueles homens enormes, dobrámo-nos a rir, limpámos as lágrimas e eles tão bêbados... Largámos a rir de novo, gargalhando estrondosamente até nos doer a barriga... Os homens continuavam ali ao lado, sentados, esfregando a testa e olhando o cumpridor céu limpo de uma linda noite de Verão, sem nunca se aperceberem que tinha sido um miúdo que os esmurrara... claro, de brincadeirinha sanjoanina...
Daí para a frente o Xico foi de mãos dadas connosco. Com as duas mãos dadas: firmemente com um de nós em cada um dos lados.

Descíamos na Av. dos Aliados quando o J.J. trocou com a irmã ficando do outro lado com o Xico. Aproveitou e perguntou-me de novo:
– Não lhe queres ligar?
Olhei para a Gui em busca de auxílio, mas estava noutra, uns passos à nossa frente toda eufórica, flirtando descaradamente, a cada pancada de martelo...
– Deixa lá a Lena...! - disse de mau humor. - Logo ali já estamos na Ribeira.
Estava um mar de gente e eu que sou mais alto pude ver, por cima das cabeças, uma verdadeira batalha campal de martelinhos. O J.J. pôs o Xico às cavalitas e ele riu-se muito vendo o mar colorido de plástico acertando aqui e ali... percebi-o pelo gesto que fez: como que tocando xilofone na cabeça do tio!
Fiquei de olho na Gui, não fosse algum parvalhão atrever-se, mas não era tarefa fácil, pois continuava a saltaricar entre as esplanadas da Ribeira, toda gira, e nós ali com o Xico, e, o J.J. maluco, à procura da minha irmã. Mas onde é que eu tinha a cabeça?
O Xico estava com fome e levei-os a comer pizzas... Não é tradicional, é certo, mas o S. João já não se reveste dos costumes que ainda me lembro de ouvir contar, e depois, nenhum de nós era grande apreciador de sardinhas, e, o preço tão inflacionado (1,50 € por sardinha) retirava-nos a réstia de vontade.
Cedi à pressão do J.J. e telefonei à Lena a perguntar onde estava. Estava em Gaia e só iria conseguir atravessar a ponte depois do fogo de artifício.
– A ponte D. Luís I - expliquei puxando os fios de queijo com ar guloso - fecha a passagem ao público durante o fogo suspenso mas reabre logo a seguir.
– Aqui anda-se a pé na ponte, é? - perguntou a Gui com ar incrédulo.
– És tão alfacinha! - retorquiu o irmão, depois virou-se para mim. - Achas que podemos ir até Gaia?
– O que é que há em Gaia? - interpelou de novo a Gui. - Mais festejos, é? Vejam lá se não é demais para o Quico. O que é que tu queres de Gaia, Zé João?
– É giro passar na ponte... - disse em socorro do meu amigo. - Abana todinha!

À meia-noite em ponto as luzes na Ribeira apagaram-se, e, ao burburinho habitual proporcionado pela escuridão momentânea, começou o espectáculo do fogo de artifício.
Lindo. Luxuriante. Poderoso.
– Enche a alma! Enche o coração! - gritou a Gui para o céu abrindo os braços abarcando deslumbrada as suas emoções.
– Faz barulho - queixou-se o Xico tapando os ouvidos -, mas tem cores giras.
A Gui enlaçou-o imediatamente tentando protegê-lo.
– Maguida...? Isto é passagem de ano? - questionou o Xico.
– Nas festas, Quico, o fogo acontece várias vezes... - começa a responder Gui.
– É fogo mas não é para as chamas. - responde lacónico.
Da ponte D. Luís I começa o magnífico fogo suspenso.
Algumas embarcações no rio estão ancoradas, a uma distância de segurança, repletas de convidados que assistem deleitados naquele palco preferencial à chuva magnificente de luz e cor.
– Ouvi além um senhor comentar que há pessoas que reservam a sua vaga nos barcos de um ano para o outro, é assim? - perguntou-me J.J.
Era assim. Anui com um «hum, hum» continuando de olhos no céu.
– Ouvi também comentar que há uma certa rivalidade entre Gaia e Porto. também é verdade? - continuou J.J.
Era assim também...
Quando o fogo acabou reparei que a Gui se tinha sentado e tinha o Xico ao colo. Fiz-lhe sinal perguntando se tinha passado mal. Em resposta ergueu o polegar. Estava tão feliz e acabou por não poder apreciar devidamente!
Fiquei a olhá-la ali concentrada, no meio do bulício, com o filho enorme ao colo.
– A noite é longa! Só acabo na praia, na Foz! - grita alguém para mim.
– Não esqueças de lavar a cara com as orvalhadas! - respondo dando-lhe com o martelo.

– Estás a ver aquele grupo ali de malucas? - apontei ao J.J.
– Onde?
– Ali - sinalizei apontando o meu martelo. - Daquele lado de quem vem de Gaia. São as parvas das amigas da Lena que eu não gosto nada. Olha ali a minha irmã.
Mas o J.J. já a tinha avistado e estava em perfeito estado de basbaqueira: o queixo havia-lhe descaído uns centímetros, provavelmente o suficiente para poder salivar. Abanei a cabeça e olhei na direcção da Gui para lhe chamar a atenção, mas ela estava aos pulinhos martelando um e outro rindo e gracejando aqui e ali... A Lena. Olhei para ela e estava, também, a flirtar de cacetada em cacetada... Mas o que se passa com as minhas miúdas que nunca as vi assim...?
Um estridente grito colectivo, tipicamente feminino, irritou-me os tímpanos. A ponte abanou de novo e agarrei melhor o Xico que ria a bandeiras despregadas.
– Típico! - gritou-me a Gui perto do ouvido. - Toda a gente cheia de medo com as sacudidelas da ponte e o Quico a rir à tripa-forra...!!!

...Depois acertou-me uma martelada rindo e graceja.
– Olha o teu irmão e a minha irmã. - Consegui indicar-lhe com o meu martelo.
Olhámos na mesma direcção. O J.J. furava até estar suficientemente perto para esticar o seu martelo e acertar em cheio na cabeça da Lena.
Ela virou-se a rir.
Estava com um ar tão feliz...
Encarou nos olhos o seu atacante que a esperava, expectante.
O sorriso de Lena esmoreceu.
O seu martelo em riste perdeu o balanço.
O ar de basbaque do J.J. voltou a inundar-lhe o rosto.
– ‘Pera lá... o que é que me está a escapar...? - inquiriu uma curiosa Gui - sabes de alguma coisa que eu não sei?
– Não por muito tempo, parece-me... - mexeriquei.

Sorriam agora os dois com um ar tão tolinho...





Os sem-abrigo na rua tinham impressionado muito a Gui.
No final da noite, quando regressávamos à Lapa pelas 3 da manhã, local onde estava o carro, passámos por muitas ruas já mais desafogadas das gentes borguistas ou, como gracejou o J.J., mais pareciam que se arrastavam de monco e martelinho caído com a atitude venho da festa. O nosso próprio sempre-em-festa ia escalando do colo do tio para o meu, ainda desperto, mas sem aguentar os pés.
Da noite emergiam agora os verdadeiros donos do espaço emprestado à folia: aqueles que esticavam os cartões e cobertores como se de lençóis frescos se tratassem, aqueles que se espreguiçavam e coçavam como se não os víssemos, aqueles que faziam a sua higiene pessoal, ali, à frente de quem passava como se realmente em casa estivessem... E estavam mesmo, infelizmente.

– Em Lisboa também há os sem-abrigo, mas aqui está a impressionar-me por demais - garantia a Gui a olhar para um senhor que lavava os dentes usando água engarrafada (ou numa garrafa...) e cuspindo para o chão.
– Mas em Lisboa se passas por eles de carro à noite, estarás com mais atenção à luz do semáforo, e, se acaso vires alguém dirigir-se a ti arrancas ainda com o vermelho, ou trancas o carro, não é? - disse-lhe o irmão. - Aqui estás numa situação diferente, estás a pé, cansada e a tua atenção foi tomada de uma forma mais perniciosa. Pena é que, voltando à habitual rotina, se continue a trancar portas...


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Consciencializar 365 dias ao ano

Ontem, na correria do meu dia-a-dia e distraída com os meus pensamentos, ao assomar uma entrada para um MB, percepcionei pela visão lateral - porque na verdade nem quis olhar de frente - um casal, em que um dos homens estava encostado à parede, e o outro debruçado sobre ele, o abraçava e beijava. Foi uma escolha momentânea, eu sei: entrei e não quis olhar para não parecer preconceito da minha parte (até porque assim não sou, nem me considero) e, na verdade, fui-o em grande escala. 
Não tendo tido sorte de usar o multibanco dentro de portas por ser exclusivo para os clientes com caderneta, dirigi-me ao fora de portas onde tinha acabado de passar pelo casal. Fiquei sem reacção: assim que saí uma querida amiga minha e companheira de muitos anos nesta nossa atribulada vida de mães de autistas cumprimenta-me: "Olá Ana!" Continuei sem reacção sem querer acreditar no que todos os meus sentidos já me gritavam e gelei por me sentir tão estupidamente horrorizada com o meu anterior pensamento. 
No momento seguinte estava rodeada pelo seu marido e o filho autista, também já adulto, como o meu, que me deu um carinhoso beijo bem babado. 
Eram pai e filho encostados, ali naquela parede, em que os julguei precipitada e preconceituosa! 
Consegui esboçar as palavras habituais num ritual de cumprimento, mas percebi a estranheza da minha pouco habitual efusividade no olhar inquisitivo da minha amiga, mas eu estava ainda naquele torpor perturbador do que acabara de sentir e estava tão indignada por ter feito o que critico, que simplesmente fiquei queda, sem acção. Pouco habitual em mim, é certo. Tanto a quietude no abraço e sorriso fraterno quanto a estupefacção do sentir-me preconceituosa. 
Sai daquele breve encontro perturbada. O filho dos meus amigos está um homem de 1,70 e muitos de altura, tal como o meu filho. Num primeiro olhar são tão "normais" e como momentaneamente não parecem aos olhos de quem os não conhece, ou desconhece o significado ampliado da palavra autismo, causam estranheza. 
O meu filho abraça-me, amassa-me, beija-me na boca na rua, ou então mesmo em público mexo-lhe amiudamente na braguilha para o compor (sempre com fecho abertos!) e sei que o olhar que têm para connosco é idêntico ao que eu mesma fiz com os meus amigos. Convivo com isso e respondo pondo as pessoas no sítio apenas com um olhar. 
Simples, habituei-me. Mas não me conformei. Não me vou conformar nunca! 
A falta de informação sobre esta população e as suas famílias é gritante, sim. Eu sou a que quase agarro as pessoas pelo braço e pergunto, está a olhar? Não sabe o que é uma pessoa com autismo? Venha cá!, que eu explico. 
Da próxima vez que se deparar com outra pessoa com autismo, pelo menos questione-se antes de julgar e vai entender as reacções que não são habituais ver, as frases proferidas em voz alto ou fora de contexto, todo um mundo que lhe parece estranho, é  apenas porque o desconhece. Venha cá, que eu explico! 
E sim, explico, tranquilamente. 
Faço muitas acções de sensibilização muitos dias após ou antes o 2 de Abril, e sei que o farei a vida toda. 
Consciencializar, consciencializar, sempre! 365 dias ao ano. 
Em algum momento chegamos lá. 
É uma certeza em mim. Em muitos de nós. 
Ao casal dos meus queridos amigos que se vão reconhecer quando lerem este texto, peço-vos perdão. É que - já viram? - eu não fiz o que peço ao mundo: que olhem com atenção reconheçam as reacções inusitadas de uma pessoa com autismo, antes de as julgarem. 


domingo, 3 de agosto de 2014

Ler Ana Martins

Decidi, depois do Autista, quem...? Eu? colocar os meus outros livros também no formato ebook. Assim sendo agora pode ter-ler o Mal Me Quero e o Evo (ou amar para sempre) no seu computador, tablet ou telefone. E como estamos na silly season, decidi fazer uma silly campanha, à imagem de tudo quanto é tonto de tão claro: Na compra de três livros-ebook, ofereço um deles. Simples. 
Tão simples que chamei a esta Promoção de Verão prosaicamente de 
Ler Ana Martins 





Como fazer para ter acesso aos livros de Ana Martins?

O acesso a cada livro está disponível em duas modalidades
em apenas 3 cliques: (contactar via email - anamartins.com@gmail.com)





Aqui fica um passo-a-passo, tendo por exemplo um dos livros



PRIMEIRO

Após escolher qual dos acessos pretende, efectuar o seu pagamento (tranferência ou paypal), e mandar com o confirmativo, apenas o seu endereço de email. 
Receberá no email o convite para o livro. 
Abra e clique onde diz ACEITAR CONVITE


SEGUNDO

Não esqueça o conselho em letras pequenas: Tem de iniciar a conta google. E outro ainda: aceite o convite rápido, tem prazo, e dentro de dias expira. Mas quer mesmo ler.... então vamos lá, recebe outro email automático e clique, como no anterior, onde diz ACEITAR CONVITE.




 TERCEIRO 

O seu acesso ao livro está concluído em 3 cliques! Viu? Simples!!





Agora já tem acesso directo aos livros por estes links: 
Autista, quem...? Eu?  http://autistaquemeu.blogspot.pt/
Mal Me Quero http://malmequero.blogspot.pt/
Evo (ou amar para sempre) http://evoouamarparasempre.blogspot.pt/ 

ok, agora clicou nestes links e não conseguiu entrar, foi isso? 

Pois. Está reservado apenas a leitores autorizados, os que passaram pelo ponto inicial - o pagamento. Os livros, o trabalho da autora, não é oferta. 

Agora sim, pode começar a ler, no seu telefone, tablet ou computador.
E se for o caso, tenha umas boas férias!!!







sexta-feira, 4 de julho de 2014

Vamos espreitar o primeiro capítulo do livro Autista, quem...? Eu?

Estou muito contente por ter voltado a pôr este livro no mercado. A frase 'a pedido de muitas famílias', aqui, aplica-se. Não esqueci cada um dos pedidos de leitores e fui sempre procurando como poderia ou conseguiria fazê-lo. O resultado está bem catita e deixa-me feliz ver a adesão imediata que teve da parte do público. 
O livro é o mesmo, este é apenas a versão digital a que juntei imagens e sons, já que este formato me permitiu e eu não voltei costas ao trabalho extra.  

Fiz o layout baseado na capa do livro físico e o conteúdo, quem já tem este ebook, diz que está muito giro, apelativo. Pode ver tudo, entrando aqui

Mas melhor que explicar é deixar-vos espreitar, que tal? 
Deixo-vos com um abraço e a visualização do primeiro capítulo do livro "Autista, quem? Eu?" 



Nunca poderia imaginar, apenas com 22 anos, que o meu primeiro emprego, inicialmente temporário, se viesse a revelar tão gratificante, tão essencial à minha vida. 
Sou jovem, solteiro e bom rapaz.
Dizem-me as miúdas que o contraste dos olhos claros no meu tom moreno as mata... mas eu sou basicamente tímido, desajeitado nessas lides e, naquela época, francamente embaraçado pelo meu sorriso com mais dentes do que a minha boca podia suportar. 
Na verdade tudo começou porque queria fazer um tratamento à boca de ortodôntia (que rapidamente me fez granjear a alcunha de sorriso-de-ferro...) mas não tinha dinheiro suficiente para o orçamento cabeludo que o dentista fez e tinha enorme relutância em pedi-lo ao meu pai: dar-lhe-ia razão quando proclamou a sete ventos que a ida do filho para Lisboa para se tornar independente havia sido prematura! Assim sendo, aceitei a proposta do meu amigo José João (a quem chamo J.J.) para ser baby-sitter oficial do Xico, o sobrinho dele, quando a irmã, mãe do miúdo precisasse de dormir. 
Ora eu que sempre adorei putos, hesitei quando J.J. me disse que o Xico era autista. Para ser franco nem sabia bem o que era um autista e inicialmente até pensei que fossem aqueles miúdos com a cara esquisita.  
Lembro-me que o J.J. sorriu e me deixou à vontade com a explicação sumária que me deu – quis que fosse a casa dele conhecer o sobrinho ainda antes de tomar qualquer tipo de decisão. 
Recordo como se fosse hoje como fiquei chocado ao deparar-me pela primeira vez com o Xico: como é que um puto deficiente tem um ar tão normal? Bloqueei. Senti apoderar-se de mim um torpor que me sitiava como se fosse parvo. Não imaginava como deveria falar ou agir com um menino diferente, logo eu que sempre brinquei com a canalha miúda! 
Num repente, o Xico elevou as mãos no ar, como se fosse um maestro pronto a começar o concerto da sua vida; deteve-se por breves segundos nessa posição e logo começou um movimento estereotipado com as mãos que me fez lembrar um pequeno querubim tocando uma harpa celestial num dedilhar imaginário. 
Parando noutro repente, sempre sem olhar para mim, perguntou-me num tom monocórdico: 
– De que cor é a tua escova de dentes? 
–...Não sei... acho que é amarela. - respondi sem perceber. O J.J. explicou-me nessa altura que, em vez de um Olá ou de um habitual Como te chamas? o sobrinho cumprimentava a todos quantos falassem com ele com a mesmíssima pergunta, e que, estranhamente, sabia a cor da escova de dentes de todas, mas mesmo de todas as pessoas que conhecia, isto sem contar com a escova que já há muito teriam deitado fora... Se encontrassem na rua alguém que já não viam há muito tempo, o Xico declararia de imediato: 
– A tua escova é verde, como o Sporting. Às vezes a pessoa negava: 
– Nããã... É branca Xiquinho. Invariavelmente a pessoa pensava um pouco e depois replicava com admiração: – Espera lá, ele tem razão, estou a lembrar-me... Isto é fantástico, mas a que tinha no ano passado quando estive convosco e ele me perguntou pelo raio da escova era, efectivamente, verde... 

Como é que se lida com um miúdo assim? Quando ainda morava no Porto, na casa dos meus pais, costumava jogar à bola com a garotada ou então pegava na minha guitarra e, sentado nos degraus, tocava para que todos cantassem... a minha guitarra! Mas é claro!!! Como vinha das aulas trazia a minha inseparável guitarra a tiracolo. O J.J. fez-me sinal de ser boa ideia e, logo na primeira nota, apercebi-me do excelente ouvido musical que o Xico possuía. Fiquei fascinado! 
O J.J. todo orgulhoso explicava-me que o sobrinho também reconhecia todos os autores das músicas que ouviam em casa e, inclusive, costumava dizer: Esta música é do carro ou Esta música é da casinha do 24 associando sempre onde e quando a ouvira pela primeira vez, de uma forma quase matemática. 
Acho que de repente se deu conta da minha cara de espanto e traduziu as suas próprias palavras... 
– Espera! Casinha do 24 é como o puto chama à nossa casa, o número da moradia é 24... - justificou como se fosse a coisa mais normal do mundo - e depois sabes? ... nós ao longo dos anos temos adoptado para o nosso vocabulário muitas das expressões do Xico e esquecemo-nos das outras pessoas... 
Na altura não compreendi completamente, mas o Xico puxava as cordas da minha guitarra, estávamos a perder o seu tempo, ele queria mais... 
Claro que toquei de seguida várias melodias e o Xico, para meu grande espanto, trauteou-as todas: desde a canção da moda do momento até à tradicional Mula da Cooperativa. 

Max - Mula da Cooperativa

Fiquei encantado pela possibilidade de comunicar com alguém deste modo, logo eu, que acalento o sonho de um dia conseguir ser um músico reconhecido e ver o meu nome, Xavier Duarte, nas capas dos CD... mas desenganem-se se pensam que esta era a sua única maneira de comunicar! É um tagarela! 
O J.J. explicou-lhe, com uma certa graça, que eu gostava de ir para dentro de um CD (da mesma forma que a mamã escrevia e aparecia dentro do jornal) e que um dia íamos ligar o rádio e sairia a minha música de lá. Bom, na verdade, é o que eu mais quero e, a bem dizer, persistência não me falta! 

Foi pela mão dessa vontade imensa de ser músico e tentar a vida como profissional que quis vir estudar para Lisboa. Esses três anos de formação musical numa escola como o Hot-Clube de Portugal representavam um sonho que, de repente, eu queria que estivesse ali, ao alcance da minha mão. 
O meu pai afirmou que não me sustentaria, estaria por minha conta e risco. Pois bem! Estava decidido a sair de casa de estojo de guitarra a tiracolo, mala e cuia, quando, inesperadamente, tive uma ajuda: o meu avô Luciano, o meu querido avô, o maior artista de Avintes! 
A guerra entre o meu pai e o meu avô materno instalou-se quando este resolveu apadrinhar o meu sonho: chamou-me bolseiro-do-espírito-criativo e mensalmente deposita na minha conta o suficiente para as prestações da escola, o pequeno apartamento que aluguei na Baixa lisboeta e o mais que necessário para viver com dignidade. 
Larguei tudo, casa, família, amigos e também a Faculdade de Direito... Trocar a toga por uma guitarra foi incompreensível aos olhos do meu pai! Vim para Lisboa um bocado incomodado com a sua postura, bem sei que este é o meu sonho, não o dele: Não ficámos zangados, mas nunca mais foi a mesma coisa e no Natal passado fiquei mal com a frieza dele. 
Mas o primeiro ano sozinho, nesta cidade nova para mim, tão avassaladora em grandiosidade e movimento para um banal estudante nortenho, aliado às boas notas no final de cada semestre, atestaram pela minha sanidade mental... 
Tenho a convicção que algum dia lá chegarei! 
Como forma de minimizar a prestação e amealhar algum pé-de-meia, no primeiro ano colaborava nos intervalos das aulas nos trabalhos da secretaria. No segundo ano comecei a ser baby-sitter. 
No entanto, é bom que se diga: desde essa memorável primeira visita à casinha do 24, o tio Zé João fez logo ali do sobrinho Xico o meu maior fã!!! 

Nesse ano o J.J. foi estudar para a Universidade do Minho, já que não tinha conseguido entrar em Arquitectura aqui em Lisboa. Confidenciou-me como estava angustiado por deixar a irmã sozinha com o sobrinho porque ambos tinham ao longo dos anos formado uma boa equipa em torno do Xico. Havia pensado em desistir mas a Margarida não permitira... afinal tinham considerado o Minho como opção na candidatura dele. 
Herdaram uma quinta em S. Torcato, mais propriamente para os lados de Guimarães, perto do Campus de Azurém, onde ficava a Escola de Arquitectura, tão perto que J.J. nos dias em que não chovesse poderia ir de bicicleta... 
Chegaram a pensar na hipótese de alugar alguns quartos a colegas de faculdade (coisa que não escasseava no enorme casarão com dez divisões) e assim facilitar as muitas despesas que tinham, caso ficasse deslocado de Lisboa. 
Foi desse desespero que nasceu a ideia louca de convidar este amigo para baby-sitter do sobrinho... É que uma criança como o Xico que não tem bem adquirida a noção de perigo, é isso mesmo: um perigo! 

Estes meninos (explicou-me o J.J.) estão muito sujeitos a acidentes porque não entendem que têm de olhar para os carros antes de atravessar uma estrada ou porque se debruçam demasiado nas janelas sem sequer perceberem o risco que estão a correr... e não é por falta de cuidados ou de explicações contínuas e diárias... 
Quando o Xico era pequenino pensavam que era simplesmente corajoso, muito destemido para a idade, mas depois aprenderam que, para um autista, a noção de medo pode ser tão imprevisível como desconcertante. 
A interpretação de conceitos na cabeça do Xico é processada de uma forma diferente: para ele os carros têm sempre a conotação de bom tal como o vermelho é mau. Como não tem adquirida a noção do que é efectivamente perigoso, estranhamente para a nossa compreensão, atravessar a estrada pode ser bom... 
O J.J. pediu-me para imaginar estas duas situações hipotéticas como que numa imagem cinematográfica: a) O Xico atravessa uma estrada porque logo ali naquele local, do outro lado da rua, está um stand de automóveis e, impávido e sereno, o Xico passa por entre os carros que travam e se enfaixam uns nos outros... b) O Xico atravessa uma estrada mas pára subitamente no meio da via porque o carro é vermelho e isso sim, é perigoso! 
Por ser destituído dessa consciência que é instintiva nos outros meninos, representa um grande perigo para ele próprio: desafia constantemente a sua integridade física e põe a mãe e o tio de nervos em franja e cabelos em pé. 

O meu papel seria o de estar simplesmente SEMPRE de olho nele, mas... provavelmente nem J.J. pensou que eu me fosse interessar tanto, nem eu suspeitei como este meu emprego temporário iria ser bem mais apaixonante do que ser apenas um vulgar guardião diurno... 
Foi também nesse mesmo dia que conheci a Margarida, a irmã de J.J. e mãe do Xico, que se veio a tornar ao longo destes anos na minha querida amiga Gui. 

Lembro-me de que no início fiquei hesitante sobre como tratar o menino. 
O J.J. havia apresentado o sobrinho como Xico mas a mãe tratava-o por Quico... Achei natural, uma vez que entre amigos o tratávamos por J.J. e em família era o Zé João... 
Hesitei se deveria chamar-lhe Francisco por uma questão de formalidade, por eu ser um desconhecido... 
O J.J. riu-se e contou-me um episódio engraçado. 
– Há alguns anos uma psicóloga veio com essa teoria de que a família não devia dispersar a personalidade da criança confundindo-a e a minha irmã e eu resolvemos, apesar de na escola ser formalmente o Francisco Maia, tratá-lo por Xico, como a maioria das pessoas já faziam, e também porque era o diminutivo que usavam para o nosso avô paterno... 
– Aquele avô de que tu gostavas muito...? - perguntei. 
– Sim... esse mesmo - e prosseguiu - No final do primeiro dia o miúdo estava agitado, triste, e perguntou candidamente: 
– O Quico do Xico foi embora para nunca sempre? 
 Sorrimos. 
– É... O Xico tem coisas muito giras... - rematou J.J. - E então foi assim, desde aí a minha irmã resolveu mandar às urtigas a opinião da psicóloga e continuar com a brincadeira que é, e sempre foi, só deles os dois: a minha irmã trata-o por Quico e ele em vez de mãe chama-a muitas vezes pelo nome Maguida... só nunca percebi se era diminutivo de Margarida se de Mãe Guida!  
Decidi-me então: Xico seria! 

Recordo exactamente o meu primeiro dia, uma semana antes de o J.J. ir embora. 
O Xico estava a ver televisão. 
Não me ligou nenhuma. 
Do filme lembro-me de identificar o grito na selva e o esvoaçar de liana em liana. 
Amistosamente o J.J. e a irmã mostraram-me em todas as divisões da casa, no quintal e no jardim, os locais ou cantos preferidos do Xico e quais os hábitos e actividades que ele tinha. Para uma criança normal, disseram-me, isso seria desnecessário mas um menino autista liga muito às rotinas. 
Depois aconselharam-me a, simplesmente, sentar-me ao pé dele. 
Perguntou sem tirar os olhos da televisão: 
– Aquele Nissan é teu? 
Sorri. 
Para quem não tinha ligado nenhuma... 
– Sim, aquele Nissan estacionado lá fora é meu. Gostas de carros, é Xico? 
– O teu Micra já é velho tens de comprar o modelo novo. 
Ri-me. Sim eu também gostaria... 
Enquanto falámos de carros a conversa fluiu, mas depressa percebi que isso se devia apenas e só ao tema da conversa porque sempre que começava outro assunto, ele voltava de imediato aos carros. 
– Posso ir buzinar o teu Micra? - perguntava sem me olhar. 
A mãe trouxe um tabuleiro com o lanche que pousou na mesa da sala. 
– Então Quico já conheces o Xavier? Deste um aperto de mão? 
Levantou-se como um autómato, veio para a minha frente e, sem nunca me olhar, deu novo sentido à frase que insistentemente o actor repetia: 
– Mim Quico, tu Xavier. 




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Saiba como ter acesso ao livro entrando aqui 
ou contacte-me anamartins.com@gmail.com

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