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segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Pés na terra & cabeça sonhadora

Hoje de manhã um amigo enviou-me esta mensagem: 
"Ia para o trabalho, ouvi esta música na m80 e lembrei-me de ti" 
Fiquei obviamente curiosa e cliquei no link para ver qual a música. 
Imediatamente o sorriso nasceu em mim antes de a escutar, ao ler o título e o grupo!, risonha, já desci para a minha caminhada matinal a dançaricar pelos degraus, a cantarolá-la na minha mente, sem conseguir descolar do meu rosto um alargado e malandro sorriso. 
É que amanhecia o meu mês de Setembro de modo tão, tão meu! 
Explico.
Sei que o meu amigo tem razão ao pensar em mim com esta canção: reconheço como tão bem me compreende ao longo destas décadas todas. De igual modo, o estilo e as palavras da cantautora escocesa Sadenia Reader, lêem-me na perfeição! 
Sim, "Perfect" (e clarooo que não é a música de Ed Sheeran! Atentem os mais jovens que amam descobrir os anos '80), foi o primeiro single dos Fairground Attraction (grupo já extinto), que quando saiu, se tornou #NumberOne numa época em que tínhamos e valorizávamos um top musical. 
Isto aconteceu transversalmente a 1988/1989, aquando do tempo conturbado&mágico da minha gravidez de alto risco, com o tempo de ser mãe, pelo que, estando por imperativa advertência médica, de cama durante oito bonitos meses da gestação do meu Pedro, escutava esta música amiúdea bombar na rádio! 
Ia ter mais cuidado do que todos os médicos me recomendavam! 
Foi uma gravidez muito rara e, por isso, bastante vigiada. 
E, sim!, ia ser perfeito!! 
Todo este texto contém link para uma música após outra, de modo que tem muita informação complementar nas letras de cada canção; as minhas palavras casam com as suas letras, pelo que pode fazer uma leitura apenas pelo texto ou deixar-se inebriar pela banda sonora destes meu pensar: é que a música é essencial à vida! 
Já depois da caminhada, tive de interromper o normal curso do meu dia, absorta e até comovida com os pensamentos que me ocorreram à mente; vim decidida e sentar-me a escrever. 
Escrever salva-me sempre! 
A memória que guarda os bons e os menos bons momentos da nossa vida, é plena na bondade: faz-nos empurrar para um canto mais escuro, o que nem é para lembrar. Não esquecemos: apenas o apagamos da nossa vivência quotidiana, como o som de uma vagarosa vassoura em segundo plano, numa música de Neil Young. 

Perfeito! 

Era como eu queria que fosse o meu casamento, tal como foi o dos meus pais e dos meus avós! 
Vivi rodeada de dois casais tão coesos, porém exposta (em frente, literalmente!) a outros dois tão tóxicos, que nem sei bem porque retive só o perfeito: bom... até sei! Sou da última geração em que as meninas foram educadas para casar. O efeito Cinderela rodeava-me e era bem palpável para mim, demasiado observadora, reparava em cada gesto, palavra, toque ou sorriso cúmplice: tive uma infância mesmo muito feliz, rodeada de amor! Perfeita! E nem a Disney tinha ainda entrado na equação das princesas: estávamos no tempo do rato Mickey e do pato Donald, as belas tardes no cinema Alvalade. 
Perfeito não foi o meu casamento, é facto. Divorciei-me quando o marido disse: "Eu não posso ter um filho deficiente!" Ao que muito bem respondi: "E eu não posso ter um marido parvo!" 

Perfeito! 

Não foi o que aconteceu nos anos seguintes. Na verdade, nem teria de ser, eu é que ainda não tinha aprendido essa lição na vida (as expectativas), e, como sou teimosa, foram necessárias mesmo muitas mais, para que capitulasse. 
Tal como se sugere na música do meu amigo (obrigada!), ainda que devidamente divorciada, mo meu íntimo sempre continuei a acreditar na instituição casamento; num compromisso a sério, na tríade AMOR-CONFIANÇA-RESPEITO.. Acredito, ainda hoje, que só assim vale a pena viver a dois: quando vale a pena! 
Viver só, é uma escolha, e feita há mais tempo do que quero lembrar. Se namorisquei?, é certo, não fiz voto de freira!, mas algo sério...? Bastava-me observar o modo como os pretendentes a pretendentes me olhavam ao início e logo de esguelha para o meu filho, que, coitados!, já estavam de patins em linha no Estoril!, ainda a pensarem ter quaisquer hipóteses de entrarem na minha/nossa vida...!
Quis muito, de começo, o voltar a casar, o construir uma família, o dar irmãos ao meu filho. 
Um dia um médico disse-me de deveria TER mais filhos, para um dia cuidarem do Pedro. Quedei-me horrorizada! Isso era tudo o que não aconteceria na minha ideia de perfeito!! Casar com qualquer um e encher-me de filhos...? Na minha mente, coloquei esse conceito de porca parideira num desses recantos escuros e lamacentos. Hoje entendo o conceito perfeitamente, contudo, não voltei a amar.  
Todo este modo de ser, tal como está na música matinal... sou eu! 
Sou oito ou oitenta. 
Branco ou preto. 
Tudo ou nada! 
(Ainda hoje o serei...?, tenho dias, momentos, em que duvido.)

Sempre assim fui, desde menina, com o carácter e personalidade bem vincados, tal como o meu pai, orgulhosamente, tanto me gabava, a quem quisesse escutá-lo. 
Tive e tenho a coragem e a determinação acirrada de enfrentar, a solo, mais de um salto sem rede, para o qual a minha infância feliz não me preparou - digo melhor -,  tantos anos tão feliz, de um perfeito que ansiava repetir. 
Todo esse amor que me envolveu preparou-me, sim, para o desconcertante embate que é o de ter um filho que baralha a noção pré-construída que qualquer grávida tem de perfeito, e, ainda assim, ter a tenacidade de logo arregaçar as mangas: fazer de conta que era muito corajosa (apesar de me sentir brutalmente aterrorizada), porque ninguém iria notar a diferença, e seguir em frente, defendendo-o de todas as frentes frias, das leves brisas às mais ferozes tormentas! Ainda o faço, sempre o farei. Venha quem vier! 
Continuo em algum recanto ensolarado de mim a ser a brava e feliz menina da foto, com nove anos, a dos quatro meses de férias na praia, a atrevida, pispineta e desafiadora, a saltar sem precisar de rede! 
(É sim, uma das fotografia captada pelo meu papá, uma das muitas minhas preferidas. Esta cristalizo-a com a legenda das palavras, que acima referi, de meu pai). Mas questiono-me: ainda sou tudo isso...?

Recordei, uma outra música: The Whole of the Moon, a que me agarrei com a urgência inata de uma grande lapa: se antes do Pedro nascer estava aterrada com o que os médicos foram dizendo ao longo da gravidez de alto risco e pelos 10 meses subsequentes até fecharem o diagnóstico, comecei um gritante e calado diálogo interno na minha cabeça, entre a Ana, a organizada e bem assente na terra e a Ana, a eterna sonhadora e artista dos pés à cabeça: 

"I saw the rain dirty valley 
You saw Brigadoon 
I saw the crescent 
You saw the whole of the moon"

E ainda que eu o soubesse desde a infância, em algum recanto luminoso em mim, continuei a crer de que Brigadoon não existe só na música, no filme ou na imaginação colectiva: existe mesmo!, 
Ahhh!,para mim, o perfeito nunca chegou. 
E sim, eu sei que existe e consigo ver o todo da Lua, tal como tenho a Dona Dor comigo (é claro que tem nome e ocupa o seu espaço!) nas outras minhas  fases lunares. 
Perfeito, não é, aprendi a acomodar e a pintar com outras cores o vale sujo e lamacento. 
Muitas as vezes que apenas o empurro para debaixo do tapete. 
Muitas mais, as que sei que consegui um intento que tinha desde os trinta anos, quando via outras mães com mais idade do que eu (bem mais novas do que sou agora), que também atravessaram a mesma Porta da Dor (como há décadas lhe chamei num livro); as Mães que eu via com os filhos na rua, nas salas de espera, e, lhes lia nos olhos a profunda e desesperançada tristeza, a que nunca se esmaece, muitas tombadas na amargura.

"Eu não vou ser assim quando for grande!", foi um Mantra que me manteve de pé, a fazer de conta de que era muito corajosa, enquanto continuei a sorrir à vida, a educar a solo o meu querido e lindo filho que nunca foi nada dos tenebrosos diagnósticos que prognosticaram antes do jogo. 
Chamavam-lhe a "estrelinha da companhia", por ter superado todas as expectativas. Foi desde pequenino o meu maior companheiro e amigo, nos momentos muito bons e nos nem tanto assim. 
Continuamos unidos pelo cordão umbilical que, no afã de uma cirurgia complicada, o experiente chefe de equipe se esqueceu de cortar, e eu, ao longo destes trinta e sete anos (contabilizo o da gravidez!), nunca tive o instrumento ou a vontade de usar a tal tesoura. 

E apesar de, durante anos, esta música me acompanhar - me salvar, literalmente! -, no frémito da voz fininha da Max Edie, que, na minha cabeça, era eu de novo com nove anos, só que agora na beira de um infinito vórtice, sem rede, a cada "nana nana na na naaaaah" que eu repetia incessantemente a percorrer o rodapé da minha mente em loop para calar a Dona Dor, a cada gesto do meu dia, num cantarolar tão profundamente calado.

Esta minha constante tortura de escolher viver a vida a sorrir e logo, artisticamente, na minha mente saltar para os carris onde passa o filme cómico da exacta mesma situação (sinto que corre ali encostado, paralelo à vida), tal como no genial filme dos Monthy Phyton "Life of Brian", eu posso dizer que consegui! Eu consegui!! Com o imenso, o interminável, incondicionalmente profundo AMOR que o meu filho e eu nutrimos um pelo outro... cheguei a este início de provecta idade e, nos meus olhos, só lêem amor!, nunca passei pelo sentimento de amargura, desespero sim, porém, sempre acreditei que olhando sempre além do horizonte, se não no amanhã, nem do depois de amanhã, um dia de paz chegaria! 
Paz e sim, amor! 
Pelo Pedro, pelo milagre da VIDA de que não desisto!, por este mundo que quero tanto seja feito de Paz! Sei que posso saltar para o outro par de carris a imaginá-lo...!, e se assim fosse, não seria maravilhoso?  

Alarguei o ângulo de visão, mais adiante na vida, e por comparação, aprendi de que mais do que as Mães e Pais do Autismo, tantas outras pessoas num doloroso momento, em profundo pânico, também atravessaram a Porta da Dor. Diferente, contudo... compreendemo-nos, num nível de intensidade que sei ficar a léguas - e ainda bem que simmm! - de quem nunca a atravessou. 
Bem hajam!, quem nunca passou pelo que nós sabemos! Precisamos de gente sã ao nosso redor, para termos essa perspectiva e expectativa nas nossas vidas! 

E há a Esperança, porque nunca se vai embora!, e há a alegria!, eu continuo a acreditar, e a sorrir! A sorrir!!  Nunca a amargura que via nas outras mães, conseguiu derrubar a minha alegria de viver, por muito que force esse muro mais concreto que o de Berlim. 

Há muitos anos escrevi num dos meus livros: 
"Há é uma forma diferente de ver e viver a vida, o que nos torna loucos aos olhos dos que levam uma vidinha triste e sem sabor. A nossa, sabe a morangos com chocolate, até, quem sabe, sake e wasabi, se e quando deixamos a parte picante entrar na nossa vida." 
                                              in "Mal Me Quero", 2010

Hoje teria de pensar diferente do tudo ou nada, oito ou oitenta, ou não teria crescido tanto, a cada encontrão que a vida teve para me oferecer; e se ser mãe do Pedro fez de mim melhor pessoa, a idade trouxe-me um aveludado sabor adocicado, que se foi espreguiçando pela longa estrada que já percorri. O que observei em outras vidas (com escolhas diferentes ou parecidas), sinto a apaziguadora sensação de que teria feito igual, porque sei que, a cada encruzilhada, decidi o melhor que consegui fazer (certa ou errada), e logo eu que me dei toda! Se bem que, para me enlear na sanidade, trauteasse mentalmente o aconchegante: "nana nana na na naaaaah". 

Sou rainha no overthinking, mas sabem que mais?, que se lixe!, não me moam com o título, porque já não o quero! Passei muito? Passei. Passado!
Eu vivo o presente. Sem pressas ou expectativas para com o futuro.
Há dias contava a meu pai e irmãos o tanto que já fiz na vida académica, só para fechar essa porta e porque a família não sabe o que faço com a minha vida - até me esqueci de mencionar o curso de espanhol! 
Não sou de pancadinhas nas costas, nem sequer competitiva, foi um desabafo que percebi logo depois: olha, fechei mais outra porta do passado! 

E para encerrar este texto, esta outra parte de mim de que abri mão, não a dançariquei, não a vivi: 

houve uma fase em que só escutava em loop Prefap Sprout. Talvez por tanto que me ajudaram, considero uma das minha bandas favoritas (é impossível escolher!), ainda assim, desta banda, se é que consigo seleccionar uma só música favorita teria de ser esta, com que vos deixo. 
E, como costumo autografar no meu livro Azul e branco às riscas: porque eu acredito! 

"We’re building our home upon love and respect 
And when we’ve built it we’ll call it Andromeda Heights

Folks in the valley will look up and say
'You've finally built it, can we come and stay?' 
And cynics will marvel and say, 
'we confess, there were times when we thought it was just an address.' 
But now that we've seen it, we know it's Andromeda Heights" 

                                         Andromeda Heights - Prefab Sprout







 













domingo, 5 de dezembro de 2021

Cartas em Castelo

Queridos leitores, 

Poderia ter dado a este livro o previsível título "Azul e branco aos quadradinhos", caso fosse a continuação do anterior. Para fugir dessa monotonia, arrisco num outro voo pelo tempo que não é medido no pulsar de um relógio. 
Cartas em Castelo é o segundo livro de uma trilogia que começou com o "Azul e branco às riscas", e que concluirei com um terceiro a que não darei o título de "Azul e branco às bolinhas". Os três romances serão de leitura independente com uma fina linha de pozinhos de perlimpimpim que os enlaça em tons de azul. 
Cartas em Castelo é o meu sétimo livro. 
Ao longo dos anos fui-me dando conta de que após a leitura, de qualquer um dos meus romances, os leitores procuram outro e muitas são as vezes que me surpreendem agradavelmente ao perceber que leram todos. 
Poderá ter muitas interpretações, cinjo-me ao facto que essa escolha do leitor me deixa imensamente feliz. 
No meu sétimo livro, sendo um número que envolve ciclos completos, como os dias da semana, as notas musicais ou as cores do arco-íris, resolvi nesta minha sétima volta a esta pescadinha de rabo na boca, fazer um miminho especial para com os leitores que já leram os outros meus livros. 
Como? 

 Deixo-vos um abraço bom, 




domingo, 7 de novembro de 2021

Sinopse do livro Cartas em Castelo

Queridos leitores, 

Hoje revelo-vos a sinopse do livro Cartas em Castelo: 

SINOPSE  

Aquela rapariga... 
Teresinha reflectia amiudadas vezes, como a vida, nas voltas que dava, era tão ironicamente engraçada: 
Madalena com quase 20 anos, a vida toda pela frente, nunca tem tempo para nada, vive a correr! Já Teresinha, com os seus 78 anos, tem todo o tempo do mundo e mais um dia, pensa e actua como se se movesse num tempo diferente. 
Num suspiro, o mundo pára e tudo muda. 
Isoladas durante a quarentena de 2020, a bisavó em Castelo Novo e a bisneta, em Castelo Branco encontram tempo para uma cumplicidade que começa por uma carta. 

Deixo-vos um abraço bom, 








sábado, 6 de novembro de 2021

Como reservo o livro Cartas em Castelo?

Queridos Leitores, 

Começa agora e vai até ao lançamento do livro Cartas em Castelo: pode reservar!

Ao reservar já o seu exemplar terá a oferta de um presente, que revelo serem conteúdos absolutamente originais, exclusivos e grátis; um dos miminhos que preparei apenas para os primeiríssimos leitores. 

Cartas em Castelo é o meu sétimo livro. 

Ao longo dos anos fui-me dando conta de que após a leitura, de qualquer um dos meus romances, os leitores procuram outro e muitas são as vezes que me surpreendem agradavelmente ao perceber que leram todos. 
Poderá ter muitas interpretações, cinjo-me ao facto que essa escolha do leitor me deixa imensamente feliz. 
Por isso, decidi mimar os leitores mais fiéis das mais variadas maneiras, até com surpresas ao longo da leitura do livro...

Para garantir os conteúdos exclusivos, valide a reserva do seu livro! 


 E eu estou feliz! 
O livro Cartas em Castelo em breve nasce e chega às nossas mãos; ainda está no útero, mas já com contracções... sim, sinto cada um dos meus livros como um filho, de tantas fases passo, sinto-as como uma gravidez! 

Deixo-vos um abraço bom, 






terça-feira, 19 de outubro de 2021

Novo Livro - Cartas em Castelo

Olá queridos leitores, 

Escrevi exactamente há um ano esta carta. 
Sendo fiel à essência do livro e tendo começado esta ideia numa longa conversa com a Madalena, senti um ímpeto de lhe escrever. 
O livro está pronto! 
Está a ser tratado com muito carinho para chegar às vossas mãos ainda antes deste Natal. 
Será o meu sétimo "filho" e revelo hoje o seu título: 

Cartas em Castelo 

Hoje escrevo esta nova carta para convidar todos os meus queridos leitores para a apresentação presencial - sim presencial - esperemos, já sem máscara e muitos abraços. 

Até breve! 








segunda-feira, 22 de março de 2021

Spoiler alert novo livro II

Estas imagens dão uma ideia de como eu vejo as minhas personagens deste novo livro. 
Quatro mulheres, quatro gerações, quatro histórias envolvidas em castelo. 
E depois o Gil. Ahhh... e o Ernesto!?
Este livro terá mais personagens que não mostro agora. 
É apenas um appetizer, gosto da provocação, revelar mais seria estragar tudo.



Teresinha 
"Houve tantas complicações querida bisneta – pensou – ganhos e perdas, preconceito, inveja e lágrimas. Dor. Muita. Inultrapassável. Cair de joelhos no chão e não conseguir ver para além do horizonte. Mas se houve trovoadas, houve o apaziguamento após cada borrasca. Orgulho quebrado, nariz no ar. Afundar e voltar à superfície. Cada conquista com travo amargo-doce transformado num sereno renascer adoçado com canela e açúcar amarelo e sempre a entrega e o muito amor em tudo o que fiz na vida. Sorriu. Tudo se resumia a que estava bem. Sim, era feliz." 

Lili 
"Teresinha e Ernesto tiveram só essa filha a que chamaram Liberdade, num período que foi um desafio feroz ao regime. Já a menina, quando teve idade para entender o peso do seu nome, escolheu ser apenas Lili." 



Sara 
"Sara era uma mulher diferente da força da natureza que era a mãe, ou até a avó. Teresinha por vezes pensava que teria sido devido ao divórcio atribulado, por Sara ter tido um pai completamente ausente na sua vida, mas essa falta também acontecera à Lili nos nove anos que Ernesto esteve preso pela P.I.D.E." 


Madalena 
"Teresinha tinha verdadeira paixão pela sua bisneta que tinha uma personalidade forte; não saíra tanto à Sara, herdara toda a fibra de Gil! Era uma miúda pispineta, respondona e impaciente, mas dedicada, meiga e atenciosa." 


Gil 
"Gil escolhera ser médico de família, voltar à terra onde era o rapaz, a cidade que todos o conheciam, sentar-se no consultório sem olhar para o computador, encostar o rosto na palma da mão e perder-se no olhar do paciente, escutá-lo e fazê-lo sentir-se especial no tempo que a consulta demorasse."


"Saltar nua de mãos dadas com o Ernesto para um rio, para um lago, para o mar… sempre que podiam faziam-no."


quinta-feira, 4 de março de 2021

Spoiler alert novo livro

 Sim, já tem título. 

É sempre por onde começo um novo livro. Tenho hábitos de que gosto e enrosco sempre um início na mesma espiral: o título, o que quero contar, as personagens que vão desenhar a minha história, um caderninho para ideias e pesquisas. Pensá-las. Escrevê-las.

Permito aos meus leitores que espreitem alguma personagem por uma porta que deixo entreaberta, um vislumbre através de um esvoaçante véu que não permite propositadamente uma visão abrangente.

A protagonista deste livro será a Teresinha. A sua história de amor maior com Ernesto. Eis como a imagino em vários momentos da sua longa vida. 

"Houve tantas complicações querida bisneta – pensou – ganhos e perdas, preconceito, inveja e lágrimas. Dor. Muita. Inultrapassável. Cair de joelhos no chão e não conseguir ver para além do horizonte. Mas se houve trovoadas, houve o apaziguamento após cada borrasca. Orgulho quebrado, nariz no ar. Afundar e voltar à superfície. Cada conquista com travo amargo-doce transformado num sereno renascer adoçado com canela e açúcar amarelo e sempre a entrega e o muito amor em tudo o que fiz na vida. Sorriu. Tudo se resumia a que estava bem. Sim, era feliz." 


"Teresinha era uma sonhadora – presença assídua nos convívios estudantis, a intrépida miúda que tocava guitarra para os colegas da universidade, sendo de entre as vozes femininas, a mais destacada, criativa e promissora." 

"Já Ernesto, o marido, era um protector – um fervoroso defensor do corporativismo estudantil, sem que isso beliscasse o seu excelente percurso académico, pois fazia parte das cúpulas associativas estudantis, sempre engajado numa nova luta que advogava com vigor, embaraçando o regime, cada vez com mais audácia." 
"Saltar nua de mãos dadas com o Ernesto para um rio, para um lago, para o mar… sempre que podiam faziam-no." 
"tendo por pano de fundo o soberano portão ladeado do antigo muro de granito enleado com as rosas de Santa Teresinha." 



sábado, 8 de junho de 2019

Azul e branco às riscas

O meu novo livro está aí! 
Quis escrever um livro feliz.
Escrevi com paixão, muito mais que a história de amor do João e da Joana: são nove dias na vida de uma família.
Escrevi sobre sincronicidades e reencarnação, agricultura sintrópica e piscinas sustentáveis, namoro e casamento, Lisboa e Alentejo...
Escrevi com o suspense da ordem, o drama (a tragédia, o horror...!) Ahhh!, o humor, sempre o humor!...
Envolvi tudo à mão, com muito muitooo amor e desalinhei, estremeci o mundo das personagens – pondo-as durante nove dias na dúvida do quero e não posso, posso e não consigo – construindo um paralelismo de duas riscas contínuas a que a vida um dia dá um nó.

Um evento inesperado faz surgir uma dúvida aviltante com força para mudar muitas vidas. O que acontece em Azul e branco às riscas durante os nove dias?

Da vida citadina ao olhar espraiado sobre a planície alentejana, estendendo-se pela margem esquerda do Guadiana, Azul e branco às riscas acontece.

Espero-os, queridos leitores, até já!




ilustrações de Isa Silva




quarta-feira, 25 de abril de 2018

Onde é que você estava no 25 de Abril?

Hoje, e porque celebramos o dia 25 de Abril de 1974 e a liberdade que nos trouxe à nossa vida, apetece-me partilhar o início do meu novo livro, chamemos-lhe capítulo zero ou prólogo, porque descrevo justamente este dia e de como uma menina do liceu chamada Alice o percepcionou. 
No dia 23 de Abril, dia do livro, deixei que os leitores espreitassem pelo buraco da fechadura, e lessem algumas palavras do começo do meu novo livro, e hoje, porque tenho a liberdade como autora de mostrar mais do que seria suposto ou politicamente aceitável ou até correcto, faço-o, apenas porque me apetece e celebrando a liberdade de o poder fazer.


Também porque ao descrever as emoções, sensações e pensamentos de uma menina do liceu, abro uma janela às novas gerações que nem conhecem a carismática pergunta de Baptista Bastos, criada numa personagem de Herman José que o retratava, no programa de humor em 1997, o Herman Enciclopédia:
Onde é que você estava no 25 de Abril?


 Esta pergunta de Baptista Bastos (a personagem de Herman José) teve tanto impacto que o escritor, na vida real, acabou por fazer uma série de entrevistas em que colocava esta questão aos seus convidados. E a frase ficou. Hoje os jovens conhecem-na, mas não sabem esta origem. Tão pouco a perguntam, porque a resposta seria: "se nem era nascido..."

Apeteceu-me começar este novo livro, respondendo a essa questão: onde Alice estava no 25 de Abril de 1974?

Pelo novo livro e sua história, os meus queridos leitores terão de esperar o seu momento.
Até breve!


Prólogo
A Malta do Liceu

Alice tinha quase 19 anos quando se deu o 25 de Abril de 1974 e lembrava-se perfeitamente do local onde se encontrava, o que estava a fazer.
Naquela madrugada o telefone ressoou pela casa adormecida. Alice prontamente saltou da sua cama e correu para a saleta, rumo ao aparelho destemperado atendendo a chamada telefónica, estranhando em primeiro lugar a hora matutina e depois o tom sombrio, quase enigmático, com que o pai, uma vez chamado, respondia ao amigo do outro lado do fio.
Nem as meninas foram à escola - a mãe conduziu-as para os seus bordados - nem o pai saiu para o emprego. Ficaram recolhidos naquela manhã a ouvir baixinho na telefonia o que só mais tarde entenderia como o fim de uma era. Os quatro em silêncio, apenas quebrado quando a sua irmã se picou ou com o continuado calcar dos dentes paternos na ebonite da boquilha do seu cachimbo mordiscado.
Recordava-se de outra curta ligação telefónica, do pai num breve movimento a fazer-lhe sinal que se levantasse e fosse ligar de imediato o aparelho de televisão, de esperarem, a contarem os segundos no relógio Omega que o ecrã do televisor mostrava até aparecer a imagem do Fernando Balsinha, muito compenetrado do seu papel de anunciar aos espectadores do seu país que, naquela tarde e a partir daquele momento, a rede emissora da Rádio Televisão Portuguesa estava totalmente controlada pelo Movimento das Forças Armadas.
Outra chamada telefónica, de um tio a perguntar como estavam com a situação em Lisboa, se estavam todos a salvo, que soube quando os cachopos foram ter com ele ao trabalho e o alertaram, estavam normalmente na telescola e mandaram-nos para casa, visto que a emissão fora tomada.
Alice não se recorda muito bem do que o Fialho Gouveia leu na emissão especial do telejornal, não entendeu porque proclamavam à nação o propósito de salvação do país, ainda menos entendeu a necessidade de o libertar de um regime que há longos anos o oprimia. Oprimia? Regime? Na verdade, Alice distraída do seu bordado, fixou-se no diálogo que estranhou aos seus pais: a mãe a ordenar que as meninas se recolhessem de imediato ao quarto, ainda no relógio Omega passavam os segundos na imagem do televisor, e o pai a sobrepor a sua posição, afirmando que deveriam ficar na sala. Alice não entendeu a mudança repentina: iam permitir-se ter conversas de adultos frente às duas filhas? Nunca o haviam feito! Ficaram, mas desabituadas de tanta circunstância a que foram a vida inteira protegidas, entreolhavam-se, não compreendiam o que eram os acontecimentos revolucionários que os dois locutores liam uma e outra vez. Alice lembrava-se de reparar que estariam algo nervosos, enquanto Fernando Balsinha lia as notícias, Fialho Gouveia fumava ininterruptamente.
No final, Alice recordava-se, para além da Sinfonia nº 3 de Beethoven, que reteve daquelas horas iniciais um nervosismo desconhecido, tanto em casa observando os pais como percepcionando-o nos locutores, e de que esse estado de espírito ter ido dando lugar a uma felicidade que não teve capacidade de assimilar qual a sua origem mas que com facilidade se deixou contagiar.
Recordava a estranheza que sentiu quando o pai, contrariando o aviso que os locutores repetiam, saiu para a rua, admirou-se que a senhora sua mãe cantarolasse “E depois do Adeus” do Paulo de Carvalho, cantor pelo qual em casa não nutriam particular simpatia, que o Fialho Gouveia largasse o cigarro e a cada actualização que lhe entregavam, lesse com maior enfâse, até ao empolgamento final com que agradeceu a fineza de trato que o movimento cuidou ter para com todos, desde o primeiro momento que ocupou a estação televisiva.
Recordava-se exactamente da cor que trabalhava no bordado que fazia naquele dia 25 de Abril, mais pela peculiaridade do dia do que pelo seu significado já que a sua ingenuidade não a deixava entender.

Da candura e estranheza, a deixar-se mergulhar na nova época que esse dia anunciou, foi uma mudança demasiado rápida e fácil: ninguém a preparou para a abrupta passagem da rigidez na educação paterna e absolutas regras escolares darem lugar a uma quase vulgaridade de normas valores e costumes que, dançando e cantando, de braço no ar revolucionando o que nem compreendia, embarcou.
Alice, mais afoita que a comedida irmã, queria experimentar, tomar o pulso a tudo, receosa que a liberdade tivesse chegado com breve prazo de validade e tivesse de voltar ao recato do seu bordado.
No liceu havia muitas reuniões gerais de alunos, as R.G.A., que foram ganhando notoriedade entre a população estudantil, foi havendo mais movimentações politizadas e consequentemente quebras na rotina, muitos momentos sem aulas e essa ociosidade foi uma das novidades que mais a atraía. Reuniam-se na pastelaria à frente do liceu, amiúde começou a beber café e, mais por osmose que por convicção, também a fumar como os colegas. Daí foi alargando as saídas do liceu em horário escolar que cada vez era mais caótico, primeiro para os passeios em grupo pela avenida da Igreja, com as obrigatórias idas aos gelados Itália, depois para o jardim do Campo Grande andarem de barco a remos com os irmãos das colegas, também desocupados, e nos dias quentes todos juntos em grandes grupos para as praias da linha do Estoril, faltando deliberadamente às aulas seguintes.
As saídas nocturas surgiram naturalmente com a nova vaga educacional que os pais queriam acompanhar: permitiam-nas desde que as duas filhas fossem juntas. Embora a irmã preferisse ambientes mais reservados, acompanhava Alice levando consigo um livro e distanciava-se das escolhas cada vez mais audazes que via a irmã fazer. Rapazes, drogas, álcool.
Um final de tarde na Marginal teve um desfecho inesperado.
Vinham de mais um ensolarado dia de praia daquele Verão quente.
A irmã viu Alice, que ia à pendura na Zundapp amarela à frente do Mehari onde seguia, ser projectada após um embate palerma com um DS. O rapaz que ia ao volante já havia comentado que o colega não deveria estar a conduzir depois do que tinha consumido, ainda para mais de duas rodas. Quem é que não vê um boca de sapo aproximar? Aconteceu. Pararam, socorreram, esperaram a ambulância, seguiram até ao hospital, esperaram. Alice pediu à irmã segredo, nada contarem aos pais.
O que Alice não esperava era que o segredo fosse maior que ela.
Nem à irmã contou.
Uma médica abeirou-se inquirindo:
- Quem a está a acompanhar?
- A minha irmã.
- A senhora deseja que mande chamar o seu marido?
- Marido? Eu sou solteira.
- Compreendo, menina então. Lamento profundamente, mas devo informá-la que perdeu os seus bebés.
- Que bebés? Do que fala?
- A menina não tinha conhecimento do seu estado?
- Que estado, senhora doutora?
- Devo chamar a sua irmã?
- De maneira nenhuma! Explique só a mim, de que fala? Eu estou grávida??
- Estava.
- Gémeos…? Grávida, eu??
- Sim. Dois meninos. Lamento informá-la assim nestas condições.
A médica sentou-se na beirada da cama e segurou-lhe a mão. Alice respirou fundo e levantou o olhar:
- Doutora… não chame a minha irmã, por favor, não diga nada!

Alice saiu do hospital em silêncio. A irmã e os colegas felicitavam-na, que sorte tivera por escapar só com arranhões, o amigo deles tinha a perna partida e o condutor do boca de sapo ficara internado em observação.
Sim, que sorte. 







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