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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Ou ele ou eu

25 de Novembro é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. 
Um conto meu do livro "Mal Me Quero", porque este romance escrito há tantos anos,  ainda é tão actual. 

Mais do que o Manel que bate na Maria, fixei-me nos casos de que ninguém fala, os que não fazem queixa à polícia, os que não contam nem à própria sombra, os que chamei "os números calados". 
De toda a pesquisa que fiz, não contei uma história verdadeira. São todas ficção, porém as personagens vão parecer-lhes familiares. Uma tia-avó? A vizinha do 2º esq.? O irmão mais velho? Aquele colega de trabalho?
Sim.
A violência doméstica acontece mesmo debaixo do nosso nariz, aproveita-se do silêncio, vence no medo que a vítima vai tendo de enfrentar ou contrariar a tendência crescente do agressor ou agressora, medra ao mesmo tempo que a inércia, não se compadece de pedidos de perdão e-ai-que-nunca-mais-vou-fazer que só servem para os abusadores ganharem tempo e terreno, porque acreditem - fazem de novo e outras tantas vezes mais sem que a saciedade lhes chegue. Acontece debaixo de telhas bem perto de nós, onde não suspeitamos ou, até mesmo sabendo, não nos metemos porque entre marido e mulher não há quem queira meter a colher. 
Toda esta pesquisa ensinou-me a meter a colher. 
Desde 2010, a reacção a este livro é curiosamente calada. As pessoas não dizem publicamente que o leram, antes contam-me à boca pequena, no silêncio de um longo email como gostaram, aproveitam para contar a sua própria história, a passada e também muitas vezes a presente. Há pessoas que compreenderam que são vítimas ao ler uma história em que se revêem, há pessoas em que pressinto a mensagem verdadeira quando me confessam que não conseguiram ler tudo até ao final e aplicam um determinado motivo para o explicar.
Eu compreendo e aceito-o em silêncio. Evito dar conselhos (quem sou eu...?) na verdade para os meus leitores não tenho mais palavras a dizer para além das que escrevi neste livro. 
Mas acreditem, aprendi a comportar-me como cidadã e a perguntar a cada situação que veja na rua com voz bem firme: 
- Precisa de ajuda?

Fico muito grata a meus leitores por me continuarem a ler.




Conto "Ou ele ou eu" in Mal Me Quero 


De repente ficou desorientada, como se tivesse tomado consciência do que tinha acabado de fazer. Nunca lhe passara pela cabeça, nem nas ocasiões mais perversas que, um dia, pudesse chegar a este ponto. Mas esse dia era hoje.
E agora? Não era alívio o que sentia, tão pouco culpa... como explicar o que não concebia?, uma grande confusão de sentimentos contraditórios. Estaria em choque? Se estivesse, pensava, não seria tão consciente de todos os seus movimentos, pois não? Os que tinha acabado de fazer, os passos que teria forçosamente de executar de seguida, a falta de motivação e o poder irresistível de, por o ter feito, ter mudado todo o curso da sua vida. Arrependimento? Nem sabia. Fora um impulso, a oportunidade surgiu e nem pensou noutra coisa senão... morrer ou matar.



Não tinha visto toda a sua vida em flash-back como dizem nos livros. Agora sim, as imagens sucediam a uma velocidade vertiginosa: sabia que não tinha pretendido fazê-lo, mas, num momento de loucura, como fora este, teria realmente, por algum segundo, pensado em acabar com todo o seu martírio, ao pegar naquele horrível martelo dos bifes? Outro pesadelo estaria agora a começar, sabia-o bem. A cristalina consciência da sua situação era tão evidente quanto veloz: não parava de pensar que, provavelmente, estaria em estado de choque.
Olhou para o vaso derrubado com petúnias que tinha comprado para o jardim, havia terra por todo o lado. Se num primeiro impulso pensou em levantar a planta e limpar a terra, no seguinte, recordou os filmes da TV, em que não se devia mexer no local do crime. Crime...? Cometera um crime, sim! Ela perpetrara o mais terrível delito: matara uma pessoa, a mesma a quem prometera amar, respeitar, estar ao lado na saúde e na doença, até que a morte os separasse...
Seria presa, certamente. Quem iria acreditar na sua palavra se alegasse legítima defesa? Ninguém nunca iria crer que, logo eles os dois, tinham um casamento onde imperava o medo, o cinismo, a dissimulação. 
E sim, a cobardia. 
A dele, por a atingir a cada olhar, a cada ameaça, a cada murro. A sua, por o esconder, o encobrir e o perdoar.
Ainda a limpar as mãos na toalha da cozinha, cuidou que o tinha visto respirar. O peito parecia que subia e descia! Aproximou-se a medo. Lembrou-se quando, em pequena, viu um morto num acidente de viação, também o peito dele subia e descia e nem estava no estado que o marido estava... Impossível estar vivo com a cara naquele estado! Deu-lhe um pontapé no pé. Morto. Só podia ser algum reflexo involuntário, alucinação sua, uma brincadeira de mau gosto da sua mente. 
Seria presa, decididamente. Fugir não era opção. Só foge quem quer escapar de algo que fez de errado. Teria sido assim tão errado matá-lo? Ele ia matá-la, senão desta vez, da próxima, ou na seguinte. Sabia, havia muito tempo, que eventualmente morreria às suas mãos. Seria tão errado não querer para si esse fim? Seria assim tão errado querer viver?, fugir desse filme de terror em que se transformara o lindo romance de amor que deveria ser o seu casamento?, se não vivessem todas sempre à espera do príncipe e do cavalo branco, pensava, talvez as expectativas não fossem tão altas, quiçá, tendo fechado o canal cor-de-rosa, pudessem avistar um calhorda na roupagem alva logo à distância!
Devagar, tacteou a cara. Conseguia ver as suas próprias bochechas, devia estar jeitosa... a toalha húmida soube-lhe bem no rosto dorido. 
Porque é que permitiu tanto? Porque é que perdoou tanto? Podia ter acabado as coisas antes do casamento. Sim, naquele longínquo dia, devia ter percebido que não se iria meter em coisa boa, mas já tinham comprado a casa, os convites já tinham sido enviados e os sofás eram tão bonitos... hoje parecia-lhe uma futilidade de motivos, mas percebia agora, claramente, que já era o medo a nidificar em todos os poros do seu ser, serenamente, sem permissão, sem deixar sinal, a impossibilitá-la de pensar no assunto, de reagir. Podia ter sido no dia do casamento, quando o seu antigo namorado telefonou e lhe pediu para não o fazer, podia ter sido no primeiro dia em que a desancou sem motivo, podia ter sido... ontem!, mas nunca conseguiu verdadeiramente pressionar o botão agir... Mas, seria preciso matá-lo? Seria. Mil vezes, seria! Jamais teve ou teria coragem de mexer-se! Jamais respondeu empregando semelhante tom, nunca virou ou viraria as costas, nem tentou ou tentaria argumentar, fugir então...
Aproximou-se. Mortinho da silva! Agora não a atingiria. Aproximou-se mais um pouco. Tentou decifrar o significado da expressão intacta no lado direito do rosto desfigurado. Estranheza? Pasmo? Estupefacção? Não. Não era isso. Era... sim, era medo! 
Ele tinha sentido, no último momento da sua vida, medo dela. Ele tinha tido medo! A primeira sensação foi sentir-se vingada, mas não era bem um gosto a vitória, sabia a amargo. Veio a tristeza. Ele tinha uma cara tão bonita, a mãezinha dele, sua sogra querida, nunca a perdoaria... 
A euforia. Precisava de ajuda... não sabia como ou o que fazer, para onde ir ou ligar, mas... ele estava ali, no chão, caído, ela matara-o, mortinho, matado!
Era tão frágil a vida humana, um gesto, num ápice e ceifa-se uma vida. A poça de sangue escuro nauseava-a. Limpava continuadamente as mãos ao pano. Nunca pensara deveras quão precária pode ser a existência do ser humano. Num ápice azarado, podemos apanhar com o vaso do inquilino do segundo esquerdo que, sem se dar conta, sacode despreocupadamente um tapete, ou inocentemente atravessar uma estrada no momento errado, em que um condutor zeloso, para se afastar da clássica situação, a criancinha que corre atrás da bola, vira repentinamente e, ao escolher a direcção contrária, atinge-nos sem sentido, ou então, pode simplesmente acontecer, como hoje, quando a nossa cara-metade nos faz a cara em metade. 
Tão forte que ele era, pensa, tão fácil que foi. Acabou. Mal, ele não lhe faz mais! Acabou. Respira profundamente. Passa as mãos pelo cabelo, afastando-o do rosto dorido. Está horrorizada com o formato inócuo e desresponsabilizado que todo o seu ser parece adoptar em relação ao que acabou de causar, a facilidade com que o fez, a displicência de quem não tem nada a fazer ali, contudo, no mesmíssimo segundo, sabe e sente a culpabilidade, aguarda a punição, a espera: foi um acto que não tem desculpa possível, nem sequer a do instinto de sobrevivência, de ter estado a lutar para salvar a sua própria vida. Nunca deveria ter permitido que o rumo dos acontecimentos tomassem o leme na sua existência, devia ter feito... poderia ter feito tanto! 
Pensou na mãe, na sua mãe, no que sentiria quando lhe dessem a notícia, como reagiria quando a soubesse presa? No emprego, certamente iriam preencher o seu lugar quando a soubessem uma assassina! Os amigos, os vizinhos, o que iriam dizer? 
Foi até à janela e ficou a olhar as gotas de chuva que escorriam pela vidraça. Amanhecera. Caía uma chuvada valente de pingos grossos. Abriu a janela para escutá-la melhor. Sorriu ao cheiro bom de terra molhada. Aspirou-o profundamente, como que a degustar o seu novo momento. Paz...? Estranhamente, não tinha vontade de chorar, como, achava, seria normal acontecer. Engoliu em seco, doeu-lhe a garganta. Veio-lhe à lembrança as mãos bojudas em torno do seu pescoço, a correria pela casa... olhou em volta – parecia o cenário de uma guerra. Não era o que tinha sido? Desta vez tinha lutado firmemente, não se resignara em apanhar umas biqueiradas placidamente, como se a reacção tivesse sido mandada de folga, desta vez reagiu! O seu marido tinha ficado atónito com a primeira caçarolada na cara, nunca o havia feito e apanhou-o desprevenido. Acto contínuo, como seria bom de ver, ficou mais violento, bateu-lhe com as duas mãos bem abertas, como tão bem fazia, mas, desta vez esqueceu a precaução de não a marcar no rosto e bateu até a ver com a cara num bolo. Devagar, tacteou de novo a cara. Incomodava-a o inchaço, poder ver as próprias bochechas... 
Recordou esse instante... Sim, claro!, ela não tinha tido a intenção de o matar! Fechou a janela e voltou a olhar para aquele corpo inerte. Chegou bem perto e afastou-lhe a franja no lado intacto da cara. Amava-o apesar dos pesares... Ele parara de bater, olhou-a no rosto e viu o que tinha feito: ela achou que tinha terminado a investida do dia. Já suspirava de alívio quando sentiu que ele abrira a gaveta dos talheres e, enquanto remexia, ameaçava: “Achas bem a colher de pau, querida? Já estão fora de moda! Hoje vou usar uma faca, ou preferes um martelo, não deve ser giro?” 
Não fora nada giro. Inicialmente apenas fugira, quando encurralada, ela ainda achara que não a iria matar, apenas a queria intimidar, era o costume, este era apenas um novo instrumento, mas um brilho novo no seu olhar que, momentânea e estupidamente, a fez lembrar o capitão Gancho, assustou-a. Era desta! O seu inferno ia ter um fim. Gritou. Gritou muito alto. Ele tapou-lhe a boca. Ela nunca gritava, e os vizinhos?! 
Fora aquele o instante. O martelo deposto ali ao lado... nunca mais... nunca mais... nunca mais... nunca mais me tocas... nunca mais me bates. – Murmurara a cada investida. 
O céu estava carregado. Ia ser outro dia de chuva forte, tinham dado trovoada. 
- ‘Tá lá? É do 112? Olhe, desculpe, mas eu matei o meu marido. 



sexta-feira, 15 de maio de 2020

novos livros para a sua mesa de cabeceira


Ana Martins regressa com todos os seus romances, agora com preço reduzido. 

              10 euros 

Em tempo de pandemia receba os livros na sua casa em segurança e autografados. 


É simples.
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Por mensagem ou e-mail 


Se já leu, escreva-me, qual foi o seu preferido?


Mais detalhes abaixo 🔽


O livro da maturidade e do amor 

 Ana Martins escreveu um verdadeiro «thriller» do amor e da felicidade que se desenrola entre Lisboa e o Alentejo. Uma história a saborear para esquecer a dureza dos tempos. Um livro azul e branco, mas não cor-de-rosa, repleto de Alentejo: com humanidade, sotaques, gastronomia, paisagens vislumbradas, e mesmo uma banda sonora. Um livro para escutar, sobretudo o coração das personagens: Ana Martins adora tanto as suas personagens que nós acreditamos quase no impossível. Um livro cheio de amizade, de bom senso e de sentido da vida. «Foi Flora que conseguiu falar em primeiro lugar: - Adoro como o Universo nos põe no momento certo com as pessoas certas sem nos darmos conta!» Este livro fala-nos e gostaríamos de responder.  


  







O livro “Ao km 32” conta, através da história de amor das personagens Hala e Wael a guerra na Síria, e mais do que o drama dos refugiados que se vê na TV ou se lê nos Media, a autora aborda com elegância e subtileza o que não se vê, o não se conta: tráfico humano e de órgãos, as controversas travessias de barco para as praias gregas, dá-nos conta da fuga pela vida até à liberdade, da busca dos que estão bem pelos seus desaparecidos, a superação para além de todas as adversidades, sem nunca perder o prumo de conseguir contar a guerra com amor. "Ao Km 32" é, acima de tudo, uma história com muito amor: é através do namoro de sentir absoluto de Hala e Wael que a autora nos conta a guerra, tira-nos o fôlego numa criativa maratona de emoções até ao desfecho, traz-nos um romance apaixonado que começa e termina com a mesma palavra: AMOR! 




Mal Me Quero 

Violência doméstica não é só quando o clube perde e o Manel bate na Maria! Cada conto deste livro é pura ficção, se alguma personagem, evento ou circunstância lhe parecer familiar, não é pura coincidência, é apenas porque as histórias aqui contadas – contos curtos, incisivos e perturbadores – realmente acontecem. Ao nosso lado, debaixo do nosso nariz, onde menos esperamos, da forma mais perniciosa e inesperada. 
Para além do mal querer de qualquer vítima, há e haverá sempre, a perene certeza que existe o momento de dizer: BASTA!


Evo (ou amar para sempre) 
(esgotado, disponível em ebook) 

Sendo Evo cronologicamente o primeiro livro de Ana Martins, contam os amigos que decidiu guardá-lo, evitando publicar até um improvável dia mais tarde na vida. Décadas depois resolve, sem mexer no texto inicial, dar-lhe uma roupagem de contemporaneidade ao juntar um inusitado narrador que abraça e respeita o que a menina escreveu, mas nos revela com mestria a mulher que hoje escreve.
Honrando os amigos que sempre lhe disseram para o publicar, além de finalmente aceitar o pedido (e de lhes dedicar o livro), desafia-os: Uma frase sobre o Evo. As respostas foram todas céleres e emotivas – partilhadas agora com todos os leitores.


Autista, quem...? Eu? 
(esgotado, disponível em ebook) 

Autismo, esse fantasma que assombra e ao mesmo tempo ilumina as vidas que vai tocando. Viver com o autismo é uma fonte constante de sobressalto e criatividade que a Autora retrata através da descrição do narrador.

SINOPSE

E se um primeiro emprego, temporário, lhe modificasse a vida? Quando Xavier Duarte, 22 anos, aceita ser baby-sitter de uma criança autista jamais imaginava que iria entrar num mundo completamente diferente. Desconhecedor das acções, reacções, motivações e obsessões que movem uma criança autista, Xavier vê-se confrontado com emoções contraditórias. De um modo inteligente, a autora, Ana Martins, faz-nos entrar na pele desta personagem levando-nos a sentir, à medida que viramos cada página deste livro, um mundo enigmático, poético e, sobretudo, desconcertante.



 Contos de Verão 

Colectânea de contos publicado no âmbito de um concurso da Editora Coolbooks. Os melhores 30 autores seriam publicados. Eu ganhei com dois contos sendo assim o livro publicado com 29 autores.

Promessas de Verão
Miguel e o Sol

Este livro já não se encontra disponível uma vez que a editora foi comprada e o stock existente infelizmente foi para pasta de papel. Aparentemente pratica comum que me desagrada profundamente. Poderiam ter sido oferecidos a bibliotecas escolares!
Contudo nem tudo fica perdido, decidi colocar os dois contos disponíveis para leitura neste site -- clique aqui --








sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Luto em vida

Apeteceu-me revisitar este conto do meu livro MAL ME QUERO após ter prestado declarações na esquadra [de violência doméstica] e ter de dolorosamente recordar 9 anos (sim, nove) de situações delicadas (chamemos-lhe assim para não dizer vida/morte) com o meu filho Pedro.
Ter de relembrar e relatar alguns episódios, foi duro. A alma humana é tão generosa ao colocar num cantinho escuro o que não quer voltar a pensar. Recordei este meu livro, escrito antes de toda esta fase acontecer, e que já pronto, resolvi acrescentar esta história. Não é segredo para ninguém que neste conto me inspirei em momentos limite que vivi ao volante do meu pobre carro com o meu filho ao lado a tentar que nos acidentássemos. A realidade superou o que decidi (com)partilhar para as personagens. Já o sentir, esse é muito meu. Pensei que o cantinho escuro me tinha protegido de recordar esses momentos. Mas estão cá.

Mais uma vez apelo, a quem de direito, para que olhe para estas realidades caladas e haja ajuda a estas famílias, muitas vezes contrariamente a mim silenciadas no seu pedido de socorro.




LUTO EM VIDA 


onde se conseguiam contar os 5 pontos sob o penso transparente. Andava a pensar usar franja depois da ferida sarar, ia ficar feio, apesar de todos os amigos a tentarem animar que ia ficar com muito charme.

Quem não estava nada satisfeita era a sua avó Rosalinda, todos os dias lhe pedia para largar aquele emprego, que podia ganhar a vida sem se expor a ser maltratada daquela forma, mas a avó não podia entender que aquele trabalho era muito mais do que ganhar dinheiro para pagar as propinas, o carinho que ganhara a Miguel não tinha fim: era o seu amigo das manhãs! Muito encorpado, com os movimentos tolhidos pela forte medicação que tomava, por vezes não sustinha um fio de baba que vagarosamente escorria para a roupa, sempre alinhada. Fugia frequentemente ao contacto físico e, com o olhar ausente, ficava sentado perto da janela parecendo ver as pessoas na avenida movimentada.



A tarefa de Mónica consistia em ajudá-lo nas tarefas básicas e diárias desde o levantar, a higiene pessoal, preparação do pequeno-almoço e acompanhamento durante a manhã. Era substituída pelo João ao meio-dia. À tarde entrava o Paulo. Eram, ao todo, três estudantes que acompanhavam os dias de Miguel enquanto os pais trabalhavam.
Zé Miguel e Marta adiaram, durante muitos anos, a hora de se tornarem pais, sendo os dois sócios num escritório de advogados, quando finalmente decidiram ficar grávidos, foi uma alegria. Os médicos nunca souberam diagnosticar o que acontecera, Miguelinho era um lindo bebé, simplesmente diferente, mas, aqueles pais, amaram-no incondicionalmente. Refizeram a sua vida em torno do menino e, à vez, iam ficando em casa com Miguel para o acompanharem. Nunca consideraram a hipótese de o internar, adoravam o seu bebé. Com o passar dos anos, foi-se tornando mais complicado e a integração do Miguel na escola foi um drama, ainda assim, lutaram pelo direito que o filho tinha de pertencer a uma escola que se dizia inclusiva e por serem bastante influentes, articulados e, sobretudo, determinados, foram sustentando uma situação com contornos insustentáveis.
Miguel cresceu, era um bebé grande com corpo de homem, muito pesado e descoordenado, mas estes pais continuavam a tratá-lo, a mimá-lo e a conduzi-lo a todas as terapias que poderiam ajudar aquele filho querido. No último ano, foi particularmente difícil quando a escola o resolveu excluir por faltas. Foi uma grande partida da direcção da escola, no sentido em que Miguel estava ao abrigo do artigo 319 * e ainda estava na idade adequada para a frequentar. Realmente faltou um mês em que esteve mais agitado, mas havia um atestado médico e, principalmente porque essa expulsão aconteceu no exacto dia em que, em conversa com a professora de ensino especial, a mãe perguntou como seria no ano seguinte, tendo em conta que a lei tinha mudado e a obrigatoriedade passara dos 16 para os 18 anos. Solícita, a professora imediatamente se encarregou de ir perguntar à direcção da escola... nesse mesmo dia receberam o telefonema com o cortante recado que Miguel estava, a partir desse dia, excluído por faltas.
Sendo os pais juristas sabiam exactamente como levantar o dedo contra o sistema abusivo, mas estando genuinamente cansados desta luta inglória, primeiramente pensaram no Miguel e no seu bem-estar.
Apesar de naturalmente envelhecidos, apesar dos rompantes violentos do Miguel sobre ambos, com especial incidência sobre a mãe, tomaram a decisão de não o internar, ao invés, criaram infra-estruturas em casa, em torno da família, como que uma rede de ajudas que tinham capacidade financeira para pagar, para que Miguel não perdesse as suas referências: Distribuídos por turnos, tinham sempre jovens em casa, geralmente estudantes, para aliviar os pais das tarefas cada vez mais difíceis – dar o banho da noite ou ajudar a vestir e na alimentação – devido ao torpor, ao peso, à descoordenação e à rigidez na locomoção, natural da forte medicação. Ao fim de algum tempo e evidenciado o total desprendimento por Miguel, Marta e Zé Miguel trocavam com frequência a equipa sem que o filho demonstrasse o menor sinal de perturbação.
Até Mónica entrar.
Não se limitava a vesti-lo e dar-lhe de comida. Insistia em falar-lhe sobre todos os assuntos como se Miguel fosse um grande amigo e em algum momento mágico pudesse entender e responder-lhe.
Sem grande espanto, Miguel afeiçoou-se a Mónica como a mais nenhum membro da equipa e os pais reconhecendo esse sinal de esperança, pediram um esforço aos outros elementos, que, de alguma forma, comunicassem com o Miguel, tentando assim encontrar uma luz. Com a chegada do final da adolescência, Miguel estava muito tempo desocupado, sem interesse em qualquer actividade, foi ficando sistematicamente mais inacessível e agressivo.
O único elemento que persistiu, em nunca abandonar aqueles pais dedicados, foi Mónica. Pequena e franzina, foram muitas as vezes que foi até ao hospital – costela partida com um encontrão, um dedo partido e outra vez ainda teve um sério traumatismo craniano.
Claro que batia à Mónica!, e a sua avó Rosalinda reclamava com toda a propriedade. Exasperada, Mónica justificava que era tão pouco o que a atingia, comparando com o que fazia à própria mãe, que inclusive a doutora já tinha tido problemas com a assistente social do hospital que, veladamente, a julgava, pensando ser o marido que espancava a senhora daquela forma. Mónica tentava explicar para que a avó Rosalinda entendesse a mentalidade das pessoas: Em lugar nenhum se acreditava que pudesse ser logo um filho deficiente, um coitadinho, a ser o agressor, que disparatado!, era a senhora a desculpabilizar o marido, só podia ser! Pois claro!, ainda por cima, ambos advogados!, pensam sempre que estão acima da lei!... É uma realidade: no geral, as pessoas apenas viam esta população portadora de deficiência como passíveis de serem vítimas de abuso dos familiares por serem uns alvos fáceis, jamais os agressores! Também é uma realidade que estas famílias abusadas protegem os seus bebés grandes e não contam o que se passa dentro de portas, seja por vergonha ou pela mentalidade do «coitadinho» que ainda grassa por aí; talvez, por isso, não constem das estatísticas de violência doméstica, nem tão pouco as autoridades tenham essa noção.

Sendo a violência doméstica agora um crime público, se um vizinho ligar para as autoridades, perturbado porque ouve reboliço no andar de cima, certamente vai achar que a família está a maltratar a pessoa deficiente e, uma vez com a autoridade à porta, a família encobre com receio do que possa acontecer ao seu ente tão querido. Não é fácil!
Querida avó Rosalinda, para si, as cifras poderão ser nulas ou pouco significativas... mas é como a história das bruxas, nós não acreditamos nelas, mas que as há... há!!!
Mónica continuava a contar que à doutora sim, Miguel atingia forte e feio, sem que se pudesse compreender o porquê, já que era, de todas as pessoas, a que ele mais venerava. Bastava a voz da mãe para Miguel ficar atento e quando entrava na mesma sala parecia esboçar algo parecido com um sorriso. Não era compreensível, mas era mais frequente demonstrar a sua agressividade com a mãe ou com Mónica, exactamente as duas pessoas com quem conseguia alguma débil forma de interacção. Ao longo dos anos Mónica tornou-se confidente da mãe do Miguel, portanto podia descrever à avó exactamente o que aqueles pais sentiam e sofriam por este filho. A avó Rosalinda não conseguia entender como era possível à neta amar uma pessoa que não respondia a um simples sorriso, não podia perceber a alegria de Mónica quando conseguiu que segurasse uma colher – e só o fazia quando comia iogurte de ananás – ou a forma irreflectida como chegava a casa com nódoas negras e dizia que não era nada, apenas porque a mãe tinha apanhado mais.
No mês de Janeiro do ano que Miguel faria 18 anos era necessário deslocarem-se até à Câmara Municipal para dar o nome dele para a tropa. O pai, mais racional, manteve-se na postura de que era uma simples formalidade, mas não era nada simples e transtornou muito a mãe. Então estes pais não podiam ser poupados a um procedimento despropositado que, a haver uma boa comunicação entre entidades, seria desnecessário?
Foi um dia complicado. Marta tinha de levar o Miguel para fazer análises e exames, o que se previa ser uma tarefa fácil, já que o filho gostava do ambiente movimentado do hospital, gostava genuinamente de lá estar. Perto das 9 horas, quando já iam para casa, indignada, ainda pensava na simples formalidade. Deu a volta à praceta e rumou em direcção à Câmara Municipal. Insistia em levar Miguel com ela para dar o nome para a tropa, para poder reclamar junto da instituição, tamanha cretinice.
Nunca lhe tinha acontecido guiar naquelas circunstâncias.
Mais tarde quando pensou, não sabia se teria sido por ter mudado o percurso que perturbou Miguel, se teria simplesmente visto algo que o aborrecera, se teria uma natural dor que não sabia exprimir: era sempre uma angústia tentar perceber o que acontecia ao filho com as súbitas mudanças de humores. Por uma questão de segurança, Marta trancava sempre a porta do Miguel à chave pela parte de fora, ele não suportava o cinto e Marta colocava-o no seu braço direito como se fosse uma alça de uma malinha de mão, porque tinha medo que pudesse saltar em andamento. Não costumava reagir muito, gostava de ser conduzido e apreciava o sol quente na cara, mas nesse dia, fosse porque razão fosse, começou a ficar muito agitado. Absolutamente diferente do comportamento habitual, mexia nos botões todos dos comandos, tentava atingir a manípulo e retirar a mudança ou atingir a chave, pensou Marta com algum espanto, seria para atirá-la pela janela...?, sim o seu dedo indicador esquerdo viajava em cima do botão de controle da janela dele, se assim fosse não a conseguiria abrir. Contudo, a Marta, faltava-lhe mãos para tanta coisa, porque dava jeito conseguir segurar o volante. Claro que ia mais devagar e com todos os sentidos bem alerta, coisa fácil quando se tem a adrenalina a disparar. Ligou os quatro piscas e foi a buzinar furando o trânsito, na medida do possível, mas apenas pôs Miguel mais violento. Naquele momento, só queria que algum diligente polícia a mandasse parar para lhe poder explicar a sua aflição e pedir escolta policial, mas só conseguiu uns olhares contrafeitos ou mordazes de outros condutores que não poderiam imaginar o drama que estava a atormentá-la. Marta encostou o carro o tempo suficiente para pôr o auricular e ligar para Zé Miguel, apesar de saber que àquela hora estaria no tribunal de telemóvel desligado. Arrancou e ligou de seguida para a Mónica. Por essa altura, Miguel já estava bastante colérico e estava a agredi-la. Mónica, ao telefone, perguntava onde estava, para permanecer parada, sair do carro deixá-lo trancado lá dentro... mas Marta só queria chegar a casa e acabar aquele pesadelo. Claro que parar não ia resolver a situação, Marta só queria chegar e acabar a viagem antes que ficasse pior, Mónica concordou. Ficou em linha a dar o apoio moral possível, sentia-se tão impotente!, todo o percurso com ele sempre a ficar mais agressivo, a cada movimento mais brusco, Marta neutralizava com o cotovelo ou com um ombro. A um Aiiii!, ou um NÃO!, de Marta, Mónica perguntava logo o que acontecera, mas Marta respondia apenas: superado. Houve uma altura que se riram porque ouviu-se estridentemente a buzina e Mónica, aflita, pensou que tivesse sido o Miguel, mas Marta confessou que era só um automobilista que queria passar-lhe e estava apenas a ser má ao volante, afinal até lhe estava tanto a apetecer descarregar em alguém!!! A certa altura estava a torcer os dedos de Miguel porque era a única forma de neutralizar as duas mãos e era uma luta renhida pela posse do poder de controlar a situação e se ele tem duas mãos grandes com muita força! Como Marta lhe estava a puxar os dedos para trás, de alguma forma estava a desarmá-lo, Ah!, sim!, era com essas três mãos enclavinhadas, a sua nas dele, que conseguia pôr as mudanças... As pessoas nos outros carros olhavam incrédulos a cena de quase pugilato, mas mais rápido que ajudá-la, julgavam-na: olhavam complacentemente para o pobre deficiente, coitadinho, que estava a ser agredido por aquela senhora má.
A chegada a casa foi já com contornos dramáticos, saiu logo do carro à procura de reforços – só Mónica, que estava à porta, de telemóvel, a reservar um lugar, não ia resultar – teve de vir um jovem vizinho retirá-lo do carro (isso então agora era prática corrente, todos os dias que tinham de sair com Miguel, na sua avenida, já perdera toda a vergonha e olhava em volta a ver a que vizinho solícito iria pedir ajuda).
Depois de o terem conseguido pôr no quarto a dormir, Marta, a quem Mónica dera um calmante, ainda demorou um bocado a descomprimir. Mónica lembrou-se de fazer um chá e convidar o simpático vizinho que não parecia estar com vontade de sair. Havia uma razão. Estiveram à conversa, o que se revelou bom porque a mãe de Miguel, mais relaxada com o efeito da medicação, pôde desabafar um bocado, afinal o vizinho era técnico especializado num Centro com jovens portadores de deficiência e, por conhecer bem demais esta realidade, estava a sugerir o melhor que tinham a fazer (interná-lo). Foi a primeira vez que Mónica viu Marta escutar o que o vizinho contava: talvez pela ressaca da descida da adrenalina, porque o comprimido e o chá a estavam a ajudar a relaxar ou, mais provavelmente, porque falava dos utentes do seu Centro com tanto carinho e dedicação. Deixou-lhes os contactos, disse que poderia explicar o teor do relacionamento com Mónica, que estavam na altura de entrar estagiários, poderiam ir juntos e, caso estivessem interessados, que fossem visitar as instalações. Depois, já mais calma, Marta saiu para ir trabalhar, sem conseguir deixar recado ao Zé Miguel. Parecendo adivinhar, no intervalo, Zé Miguel telefonou para saber como tinham corrido as coisas, parecia que tinham um chip não electrónico, mas sensorial instalado. Internar o Miguel? O desabafo foi brutal. Nunca! Era desistir dele enquanto filho, era fazer o luto em vida!!!
Zé Miguel e Marta sabiam que o curso de Mónica estava a terminar, a vida dela não seria só o Miguel, apesar de afirmar nunca o deixar, Marta bem vira como os olhos lhe brilharam com a possibilidade de estágio, ainda para mais se estivesse com Miguel. Com ou sem Miguel, aquela miúda doce estava a crescer, ia seguir o seu caminho, podiam perder o único elo de confiança que, à partida, poderiam ter numa instituição. Como incessantemente se enfadavam de ouvir de todas as pessoas que os rodeavam – porque não queriam ouvir –, eles não iam para novos, não iam cá estar para sempre com o seu bebé grande... que seria de Miguel se não fossem eles, os seus pais, a delinear, a acautelar atempadamente o seu futuro?

A avó Rosalinda ficou muito esperançada com o entusiasmo da neta. Percebeu que, ainda assim, só iria tentar aquele estágio se os senhores doutores lá colocassem o Miguel, mas já era um passo! A sua neta poderia continuar aquele estranho vínculo que, com os anos, aprendera a respeitar sem nunca ter conseguido compreender e adivinhava que aqueles pais tão extremosos deviam estar de coração partido para conseguirem tomar aquela decisão.


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* -Decreto Lei 319/91, 23 de Agosto. Define medidas de regime educativo especial a aplicar a alunos com Necessidades Educativas Especiais (N.E.E.), dos alunos do ensino básico e secundário.


domingo, 3 de agosto de 2014

Ler Ana Martins

Decidi, depois do Autista, quem...? Eu? colocar os meus outros livros também no formato ebook. Assim sendo agora pode ter-ler o Mal Me Quero e o Evo (ou amar para sempre) no seu computador, tablet ou telefone. E como estamos na silly season, decidi fazer uma silly campanha, à imagem de tudo quanto é tonto de tão claro: Na compra de três livros-ebook, ofereço um deles. Simples. 
Tão simples que chamei a esta Promoção de Verão prosaicamente de 
Ler Ana Martins 





Como fazer para ter acesso aos livros de Ana Martins?

O acesso a cada livro está disponível em duas modalidades
em apenas 3 cliques: (contactar via email - anamartins.com@gmail.com)





Aqui fica um passo-a-passo, tendo por exemplo um dos livros



PRIMEIRO

Após escolher qual dos acessos pretende, efectuar o seu pagamento (tranferência ou paypal), e mandar com o confirmativo, apenas o seu endereço de email. 
Receberá no email o convite para o livro. 
Abra e clique onde diz ACEITAR CONVITE


SEGUNDO

Não esqueça o conselho em letras pequenas: Tem de iniciar a conta google. E outro ainda: aceite o convite rápido, tem prazo, e dentro de dias expira. Mas quer mesmo ler.... então vamos lá, recebe outro email automático e clique, como no anterior, onde diz ACEITAR CONVITE.




 TERCEIRO 

O seu acesso ao livro está concluído em 3 cliques! Viu? Simples!!





Agora já tem acesso directo aos livros por estes links: 
Autista, quem...? Eu?  http://autistaquemeu.blogspot.pt/
Mal Me Quero http://malmequero.blogspot.pt/
Evo (ou amar para sempre) http://evoouamarparasempre.blogspot.pt/ 

ok, agora clicou nestes links e não conseguiu entrar, foi isso? 

Pois. Está reservado apenas a leitores autorizados, os que passaram pelo ponto inicial - o pagamento. Os livros, o trabalho da autora, não é oferta. 

Agora sim, pode começar a ler, no seu telefone, tablet ou computador.
E se for o caso, tenha umas boas férias!!!







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