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terça-feira, 19 de março de 2024

O dia que me foi oferecido

O Pedro e eu somos família monoparental.
Hoje, logo hoje, quero contar-vos sobre um bonito momento nosso:

Habituei-me à narrativa de que, nesse fim de Agosto, no afã de uma gravidez complicada e num parto quase mortal para ambos, o cirurgião chefe (que nos salvou), no afã da confusão que foi aquela complexa cirurgia, se esqueceu de cortar a cordão umbilical, e eu, ao longo destes quase 35 anos, nunca tive em mãos o instrumento nem a vontade.  
com cinco anos
Sempre proibi ferozmente, desde tenra idade, a quem quer que fosse, de proferir palavras menos elogiosas acerca do progenitor, estando o Pedro presente. 
Não é correcto, não há necessidade e não acho justo para com uma criança. 




A vida encarregar-se-ia, com o tempo e a maturidade que viesse a adquirir, de poder formar a sua opinião. 

Num dia 19 de Março, teria o Pedro oito ou nove anos, depois de trabalhar, fui buscá-lo ao ATL. Trazia um presente na mão que insistiu em dar-me. 
Estavam dois homens, pais supus, à espera dos seus rebentos. 
com nove anos
Senti o olhar, aquele de esguelha, o que de tanto nos mirarem, nunca nos iremos habituar enquanto vivermos. 
O Pedro insistia em dar-me o presente, e eu, estupidamente, senti-me julgada por aqueles dois homens. Acto-contínuo, começo a justificar o meu filho em automático, perante aquele olhar (e se eu já sabia rosnar...), pondo-me a explicar ao Pedro que era dia do Pai, que o dia da Mâe... 
Nesse momento, o Pedro interrompe-me, com um tom de voz agastado, até algo irónico: "Bem sei!, primeiro domingo de Maio, blá, blá, blá..." 
"Ouve-me", disse.
Puxou-me pelas abas do meu casaco, forçando-me a baixar até à altura dele e me poder olhar bem nos olhos. 
Sim, algo atípico. 
Ganhou, como queria, todo o meu tempo.
"Quero que me oiças com atenção."
Beijou-me na bochecha: "Deste lado és Mãe," 
Beijou do outro lado: "Deste lado és Pai! Eu quero que este presente seja mesmo para ti e não fique guardado num gaveta até ao meu aniversário ou ao Natal." 
com 16 anos

Abracei-o, num dos nossos abraços infinitos. 

Notei num breve relance, sobre o ombro do meu filho e vi os olhares emocionados dos outros pais. 



É. 
O Pedro ofereceu-me o Dia do Pai. 



sábado, 26 de agosto de 2017

Melhor Dia!

Melhor Dia – diz o Pedro quando quer expressar a sua felicidade a cada momento que sente especial. Hoje para mim é um melhor dia.

«Amanhã faço 28 anos, igual ao da Carris», disse-me o Pedro ontem. 
Ao longo da nossa vida de mãe e filho fui escrevendo muito, partilhando uma experiência única de ser mãe a solo de uma criança diferente a quem ensinei tudo, até a sorrir. 
Cedo percebi que o que outra mãe tinha como garantido e natural, para mim teria só após longa conquista. Ensinar um filho a sorrir foi, talvez de tantas, a experiência de que guardo a recordação mais agridoce. O Pedro era um bebé lindo com um profundo olhar aborrecido para a vida e eu, abracei interiormente a ideia de o trazer para a minha vivacidade e alegria. Foi um moroso processo de muitas fases, desânimos e superações, demorou longos oito meses essa primeira de muitas conquistas e, quando o meu filho por fim me sorriu com aquele sorriso encantador que tem, foi um momento avassaladoramente maravilhoso de único, contudo, nesse momento tão feliz, eu mãe não tirei foto, eu chorei. 
Ainda hoje sinto esse momento de forma tão vívida, por ter sido o ponto que marcou toda a diferença: iria sempre ser assim. Eu não iria ter a leveza que as outras mães tinham na vida de, a cada momento feliz, a cada sorriso dos seus bebés, tirarem uma foto, imprimirem e mandarem aos avós babados. A comunidade médica foi dura e desenganava-me a cada consulta e exame durante os primeiros dez meses de vida dele: o meu bebé nem iria ter vida, não iria fazer, não iria conseguir. Porém eu respirei fundo e acreditei nele. E o Pedro fez e o Pedro conseguiu. Chegou à adolescência como um jovem promissor, chamavam-lhe a estrelinha da companhia por ter superado tanto, por ter conseguido o inimaginável. Até ao dia que ele tomou consciência que não teria o futuro que desejava. 
Eu sei que criei, mais que tudo, uma pessoa boa, com valores, carácter e bom coração. E sei que ao meu filho dei vida duas vezes. A terceira, a que eu sonho para ele, falhei. Até ver. Na vida, às vezes, temos de dar um passo atrás para depois conseguir caminhar os dois seguintes em frente. 
Escrever e catarse são grandes amigas que vivem de mãos dadas e eu abracei-as profusamente desde a adolescência até à idade adulta do meu filho. Quando releio algo meu, tenho dificuldade em relembrar que foi assim e logo sou assaltada por memórias que escolhi esquecer. 
Gostaria que tivesse sido diferente, ao amargo Inverno que atravessamos nos últimos dez anos. 
Tornou-se impossível vivermos juntos, e de tantas decisões difíceis que tomei como mãe a solo, esta foi a mais dolorida e amarga. Foi também a mais sã. Eu sei, a coragem que tive para dar esse passo foi imensa, submergi muitas vezes, no antes e no depois, mas sempre com o olhar posto na linha de água. 
Hoje o Pedro faz 28 anos. Há muito que amadureço a ideia que vou ter coragem de mais um passo que sinto tenho de dar para voltar a ser gente: voltar a estar com o meu filho sem sentir medo dele. Foram dez anos de uma profunda e horrenda violência de que não tenho vontade de voltar a escrever. Antes desejo muito chegar ao capítulo seguinte, mas sinto que não posso folhear, passar em frente sem vivenciar cada página desta nossa história, deste medo insano que escondo até de mim. 
Hoje vamos estar juntos, hoje vamos ter um melhor dia! 
O Pedro não sabe. Vai ser uma surpresa para ele. Nem poderia ser de outra forma, já que na ansiedade da antecipação do que tanto anseia, perde-se. Eu quis muito encontrá-lo, ao Pedro que se perdeu pelos 16 anos. Talvez eu mesma tenha aprendido da pior forma que o mundo das minhas expectativas é um e o real é outro. Talvez eu não tenha tido tempo de crescer como mulher, presa que estava a ser mãe. A par de ensinar o Pedro a sorrir, guardei a Ana numa gaveta para depois mais tarde a viver. Tinha 25 anos. Só vim a reabrir essa gaveta com 52 e não soube o que fazer com aquela menina, não me reconhecia nela, mas também não sabia o que a de 52 queria. Então dei-me esse tempo, “permiti-me pensar-me” e aconteceu: cresci. 
A esperança é uma malandra que sempre correu na minha frente, abanando o rabiosque, fazendo caretas, desafiando-me. A menina da gaveta ficou onde deveria permanecer: no passado. Tal como o meu Pedro brilhante e promissor. Hoje é o adulto que completa 28 anos que perdeu muitas dessas capacidades. Mas tem tantas outras! E a génese, o que eu amo profundamente no meu filho, está lá toda! Bendita esperança que me faz ver a sua bondade – de quem literalmente tira do corpo para dar a outro, o seu intenso sentido de justiça – quando fala claro o que os seus pares não verbalizam para se poderem defender, a pureza cristalina do seu sorriso – quando me olha directamente nos olhos e faz com que apareça em linha de rodapé a incontornável melodia da sua vozinha a bradar bem alto: «Melhor dia!»




segunda-feira, 6 de julho de 2015

O Autismo é f...

Há muitooooos meses fui contactada pela querida Sandra Gaspar para escrever um artigo sobre autismo para o Blog SWEET CAOS (que escreve em parceria com a Bárbara Aquarela Barreira), convite que me deixou muito honrada e feliz, tendo em conta os motivos que apresentaram. 
Contudo, quero confesso-vos a minha imensaaaaa demorada demora - não em aceitar o desafio, já que o fiz prontamente, mas em concretizá-lo. Primeiro foi isto, depois  era aquilo... a semana passada fiz um mea culpa aos meses de atraso, num ímpeto arrumei a Dona Preguiça e o Dom Procrastinador, sentei-me e escrevi-o num ai. Sabemos. O tema está escrito a tinta indelével na minha cabeça e debaixo da minha pele. Desta vez (ainda) usei palavras duras, mas creio que as consegui contornar.
O artigo saiu este domingo, que é dia de São Convidado no SWEET CAOS. Republico-o hoje, de novo aqui, para todos os meus habituais leitores, convidando-os a irem ao blog da Sandra e da Bárbara e lerem o que por lá tão bem fazem.
De brinde, um belíssimo desenho exclusivo, a acompanhar o meu artigo.
É um trabalho fantástico da ilustradora Ana Cocker, que podem acompanhar através do site: MY SIMPLE LIFE Obrigada Ana!! Comoveu-me deveras...
Deixo-vos com a linda ilustração e as minhas palavras.

O Autismo é f... 

Sabem aquele livro do Miguel Esteves Cardoso, O Amor é f...? Eu digo que não é bem o Amor, mas o Autismo. É certo, eu não tenho medo das palavras, do seu som ou intensidade. Sem ser a palavra f... - que podem estar menores a ler-me - diria com enorme segurança que o Autismo é "Desconcertante".

Há um momento negro de que todos os pais destes miúdos recordam - e que, naturalmente, os outros pais secretamente temem que lhes suceda: Um senhor doutor de bata branca sentado a uma secretária num qualquer consultório mais ou menos pomposo a debitar palavras que, essas sim, todos temos pavor de um dia ouvir. 
Até nisso tive sorte: não tinha bata branca, estava com o rabo sentado sobre a secretária com um fantoche na mão e enquanto fazia um timbre de voz em falsete a brincar com o meu filho, observava-o com olhar clínico. E fui eu que perguntei - Dr. Nuno, é autismo...? 
Era sim. Autismo e mais um par de botas de patologias associadas. 
Passaram mais de 25 anos desde essa primeira consulta. Terei hoje uma postura diferente perante a adversidade, contudo a mesma convicção, e sim, o mesmo médico. 

Autismo para mim nunca foi um bicho-papão. Inicialmente talvez, porque sabia ao que ia. Sou-era uma menina informada e não era um palavrão que teria de buscar numa qualquer enciclopédia (o Dom Google não fazia parte das nossas vidas, vivia-se sem internet naqueles tempos...) a minha atitude foi sempre muito positiva, no sentido em que arregacei as mangas e encarei o bicho olhos nos olhos: "Anda cá autismo, o que queres fazer tu com o meu bebé?, anda cá que eu estou aqui preparadinha para lutar contigo!!" E foi uma luta de uma vida. Mil batalhas ganhas muitas mais as perdidas, as que rapidamente esquecemos a cada nano-conquista. 
Porque é nesse sorriso do nosso filho em que se ganha fôlego para a seguinte, e a outra depois. 

Dizem que o autismo só se consegue diagnosticar depois dos dois, três anos. Perdoem-me a petulância, mas discordo veementemente. 
Primeiramente (deixem-me que vos diga a quem não sabe), por não existirem quaisquer testes médicos ou clínicos que se façam: o autismo é diagnosticado por observação. E observadora eu sou. Não o fui só com o meu filho. Noto em qualquer outra criança pequena que tenha aquele twist no comportamento que dispara a minha atenção. 
Porque é disso que se trata: Autismo é uma perturbação de comportamento. 
Há um olhar diferente nestes miúdos, uma desatenção, um gelar de alma que se instala quando o sentimos. 
Sim. Batam-me, mas uma mãe ou um pai sabe. Pode não querer senti-lo, muito menos verbalizá-lo, mas no mais recôndito e escuro recanto do seu ser, a dúvida instala-se, um medo frio e escorregadio, pespega-se nas entranhas, queremos a tecla do undo, do delete, do escape, mas não foram ainda inventadas para este intento. 
Este é um filho diferente dos irmãos, dos primos, dos filhos dos amigos. Todos o notam (é um facto incontornável nas relações de grupo), mas só alguns têm a capacidade, a coragem de o falar abertamente, de chamar a atenção dos próprios pais quando eles se fecham na oportuna concha. 
Não é um processo ligeirinho. 
Normalmente começa o cochicho calado. O olhar de esguelha. O acusar descomplacente para com uma postura que não entendem, mas lá que são rápidos no gatilho do julgamento.... 
Peço-vos: não o façam. 
E explico. 
Há pais que escolhem o caminho da negação. Então adjectivam: este filho é tímido, é distraído, é assim. Há pais que viram as costas e recusam aceitar. Há pais que ficam e lutam com armas que nem sabiam que tinham. Há pais que escolhem o caminho da eterna busca pela cura. Cura? Está bem... 
Querem um facto? Aqui o têm: os cientistas (ainda) não a descobriram. 
O que podem encontrar sim, são mil formas de melhorar a qualidade de vida desse filho e da família. 

Dizem os livros que autismo será a diferença mais difícil de gerir no seio de uma família. Demorei muito a aceitar como facto a dor que me provocava esse afastamento familiar e dos amigos que achava serem-me próximos. E é um grito que não deixo calar em mim. Se calhar deveria apaziguá-lo... 

Acredito firmemente que se as pessoas em geral soubessem-souberem realmente o que é um indivíduo com autismo, como se movimenta, pensa e encara a vida, se o respeitassem-respeitarem na sua essência, se se dessem-derem de coração para conhecê-lo, não teriam "medo" - porque é natural ter-se, sentir-se medo do que se desconhece, e a primeira imagem que se retém, de tantos mitos urbanos que circulam, não é simpática. 

É preciso querer-se olhar uma outra vez e com mais atenção para esta população. 
Urge em mim essa vontade. Que o façam. 
Sabia? São pessoas doces e meigas, muitas vezes dadas e terrivelmente genuínas, tanto que o são que muitos lhe chamam anjinhos e outras coisas fofinhas. São gente, como todos nós, têm o mesmo direito do que nós, os tais normaizinhos, de pisar este chão que é de todos, sabia? Eu já o aprendi da forma mais complicada. Não precisa ser assim para si... é que não está só, não está mesmo! 
Familiares e amigos, que se distanciam destas pessoas e suas famílias nucleares, não sabem como perdem uma oportunidade estranha de se elevarem, de crescerem, de serem melhores pessoas. 
Vou-lhe contar um segredo, quer? 
Aprendemos com estas crianças, jovens ou adultos (sim, eles crescem!) a verdadeira essência da vida, a resposta que todos buscamos: é o SIMPLES. Eles têm um *descomplicómetro* associado que lhes confere uma poesia na forma de ver e viver a vida que a nós, os formatados para a normalidade, nos desconcerta tão completamente. Afinal, nós os aparentemente normais, andamos a complicar a nossa existência para quê?? 

Como mãe e como observadora, gostaria ainda de assistir neste mundo ao momento em que familiares, amigos da família, pessoas que circundam estes entornos familiares onde existe uma pessoa com autismo, fossem simplesmente agraciados com uma inusitada generosidade e tivessem a verdadeira intenção de perceber como estas pessoas vivem cada momento do seu dia, como os pais e cuidadores resolvem problemas que apenas aparentam ser de somenos importância e podem ser (são) calamitosos. Mais. Deixassem de culpabilizar (os pais) que não tem nem a culpa nem a vontade que isso aconteça. Mais ainda. Esta é a fase em que estas famílias mais precisam de apoio, não de um dedo apontado. 

Sabe uma chuvada de Verão, que poeticamente achamos ter um cheiro romantizado a terra molhada, e essa ser a única emoção a ser acordada? Pode ser dramático para alguém cuja hipersensibilidade o faz sentir dor. 
A chuva não dói - que disparate - poderá pensar, não é? 
Faça-me lá a vontade e caminhe comigo: vá, dispa o casaco, fique de braços nus, descalce-se, abra os braços a uma nova descoberta e deixe os simpáticos pingos quentes da primeira chuvada tomarem conta de si. Caminhe à chuva, vá, mas esqueça-se da sensação que lhe é prazerosa e tente entrar na mentalidade autística de que só (me) ouve falar. 
Aferir a dor de outrem é algo que considero impossível - sempre afirmo isto - mas tente concentrar-se em que cada minúsculo pingo de chuva é uma alfinetada, um golpe de faca, o que seja que imagine que lhe doa a si, mas sinta que lhe dói. E muito. Então? Ficou com vontade de chorar? De gritar? Não acha (ainda) terrivelmente intrusivo?... Certo, vamos subir de nível neste jogo. Agora acrescente que todos os sons foram magnificados amplificados a raiar a distorção e consegue ouvir todas as conversas de todas as pessoas, todos os ruídos de portas, carros, sirenes, pássaros, até o ar condicionado da loja do outro lado da rua, todos os cães a ladrar, os passos de todas as pessoas, mesmo os grilos lá no fundo, do outro lado do quintal. Não chega... Pense nos cheiros que lhe entra pelas narinas. Quais? Então, o do suor do seu próprio medo, aquele que nem deu conta de que se apossou de si, o do pêlo molhado do cão que está do outro lado da rua, o do cozinhado queimado da tia Micas que sai pela janela, o do horrendo dos caixotes do lixo da rua detrás, e sim, o da terra molhada pela primeira chuvada de Verão. Podia continuar, mas vá, pense só que agora não pode abrir os olhos e acabar este exercício. Nunca. Nunca em toda a sua vida.... Diga-me: e agora já gritaria? Eu creio que sim. E nem falei das texturas complexas, das cores que ferem e doem, das palavras que passam por cima da cabeça e fazem fila para entrar nas suas ideias.... 

Autismo existe. É fodido, sim. É apenas o que lhe peço. Olhe para o lado. Cada vez tem mais amigos, vizinhos, primos e conhecidos a terem um bebé com autismo, não é? Então pare para ajudar. Nem que seja a entender. Vá, não seja fodido para com o autismo. 


quarta-feira, 24 de junho de 2015

S. João Bonito

Em conversa com um amigo que foi esta noite pela primeira vez ao S. João no Porto, recordei que num capítulo do meu livro AUTISTA, QUEM...? EU?, coloquei todas as personagens nesta noite fantástica. Como ainda hoje os leitores me continuam a falar das peripécias que o Xico e companhia passaram e de como se riram ao lerem o livro em locais pouco apropriados para gáudio dos transeuntes, volto a publicar neste site o meu texto desse capítulo logo hoje em noite sanjoanina. Também aproveitando este ensejo, homenageio a minha amiga ISA SILVA, uma artista que muito prezo o percurso que tem feito, a obra que tem produzido.
Deixo-vos com a reprodução que foi ao Concurso Martelinhos de S. João 2015, porém podem ver o original ao vivo, pois está em exposição no Palácio das Artes - Fábrica de Talentos entre 11 de Junho e 16 de Julho.
Este meu livro AUTISTA, QUEM...? EU? que se encontrava esgotado há muito, existe agora - a pedido de muitos leitores - em versão ebook.
Contacte-me para saber como adquiri-lo.

S. João Bonito

(excerto do capítulo S. João Bonito, do livro Autista, quem...? Eu?)
- imagens retiradas da net -

Estava a descer os Aliados. Isso percebi. Era uma barulheira com música ligeira e buzinadelas de fundo...
– Que dizes, bamos até aos Aliados? - desafiei o J.J. depois de desligar.
Os meus pais não quiseram vir. Definitivamente já não são os foliões que eram! Tinham até à semana para ir visitar as cascatas e preferiam fazê-lo escapando ao burburinho da noite de 23 para 24 – explicaram.
A Gui recusou a oferta da minha mãe de ficar com o Xico e também o de ficarem a dormir no Porto, mas diverti-me a ver o ar desinquieto do J.J. à medida que a Gui recusava uma e outra vez. Estava mortinho por ficar, que eu bem o conheço!
Tivemos dificuldade em estacionar o carro na Lapa, mas outra coisa não seria de esperar e avançámos a pé rumo à Av. dos Aliados serpenteando pelas ruas. Os putos nos semáforos pediam um euro para o S. João.
O que a inflação faz!
– Está uma noite maravilhosa, até parece que o S. Pedro deu uma mãozinha! - exclamou a Gui de braços abertos volteando sobre si própria.
– É melhor irmos até à Ribeira para ver o fogo - disse eu. - Ainda pensei levar-vos às Fontainhas que tem uma vista luxuriante sobre o Douro e para provarem um caldo verde à maneira, mas está sempre à pinha e com o Xico não me parece lá muito boa ideia...
– Isto vai encher imenso. - explicou J.J. dirigindo-se à irmã. - Tal como o Sto. António é uma festa de rua: não escolhe idades, estrato social e económico. Mas mesmo sendo alfacinha devo dizer-te que o S. João tem uma magia que nunca vi lá em Lisboa!
Num quiosque improvisado uma vendedeira de bata às florzinhas e boné do F.C.P. apregoava no nosso sotaque característico o manjerico e o alho-porro. Apesar deste ser mais tradicional, a malta mais nova preferia o prático martelinho de plástico colorido. A Gui ficou muito espantada por uma variedade de hortense à venda que não conhecia e perguntou à vendedeira porque é que aquela flor tinha uma haste tão comprida...
– Bariedade de hortense...? C’um carago!!! A menina está a mangar comigo, num está...? - A vendedeira estava agora incrédula. - Olha-me esta morcona a dezer que nunca biu a porra de um alho-porro na bida!? Ólhe que num acredito, menina!
– É que a minha amiga é de Lisboa... - respondi como se fosse justificação.
– Ides dezer-me que os mouros nunca biram um car... de um alho-porro?!? - bradou a senhora calcando um manjerico - Menina, sabeis que se cheira um manjerico desta maneira...? Num se chega o nariz à beira dele que murcha...
Esticava agora a palma da mão perfumada à inculta lisboeta.
– Isso por acaso até sei. - declarou Gui com um sorriso embaciado; depois murmurou ao meu ouvido - ... se agora lhe dissesse que na minha ideia via o alho-porro como uma espécie de alho-francês... descompunha-me, não?
Tive grande dificuldade em conter o riso...
Fiz sinal à Gui para não acrescentar mais nada à boa ideia que a vendedeira tinha formado dos mouros e comprei quatro martelinhos para nós, já que o Xico não se calava que queria porque queria o seu em verde, da cor do seu Sporting.
Enquanto discutia com o J.J. que quem pagava era eu, que era eu o anfitrião, apanhei a maior cacetada de que há memória e logo de seguida recordo que ouvi o J.J. praguejar uma asneira bem gorda e dizer que estava a ver tudo azul às riscas com o símbolo do FêCêPê... tudo às voltinhas como se fosse um desenho animado a ver estrelinhas...

Pois.
O Xico estava só a experimentar o seu martelo...
A Gui ria que nem uma perdida e aproveitou para nos dar uma marteladita, bem mais suave, convenhamos!
– Ó meu amor, é para bater mas sem força! - Tentava dizer limpando as lágrimas da risota. - Olha Quico, faz assim suavemente.
Olhou para nós para exemplificar mas, só conseguiu tapar a boca para rir ainda mais.
Foi um problema.
O Xico cascava forte e feio em toda a gente...
Tem uma força desmesurada sem ter noção como aplicá-la.
Algumas pessoas ainda achavam graça, quando se viravam, por ele ser mais ou menos pequenito, mas não era tão pequeno assim que não se sujeitasse a algum azeiteiro pronto para lhe dar uns bufardos... estávamos sempre com atenção e muito, muito apreensivos. Mas ele era rápido no gatilho...
Entre a hilaridade que nos acometia os comentários e impropérios, ouvidos em resposta às impetuosas e certeiras marteladas do Xico, continuámos em direcção à Ribeira.
A Gui estava completamente encantada pela versão nortenha dos santos.
– Isto é muito mais giro que o S. António! – clamava. - E a diferença está no martelar. Isto é fantástico! Olha a quantidade de gente com que já me meti!
Pois! Sem contar com a quantidade de morcões que se meteram com ela!
O J.J. estava ansioso que encontrássemos a Lena. Caramba!
– Telefona-lhe - pedia-me descaradamente. - Pergunta-lhe onde está agora.
– Calma! - tranquilizava-o eu - Vais ver que a encontramos na Ribeira...
Na Praça da República estava instalado um palco e actuava um grupo etnográfico, As Tricanas Poveiras, com as suas blusas de renda e os seus aventais multicolores.
– Então e numa noite destas não estão na Póvoa? - perguntava a Gui.
– És tão alfacinha... - brinquei. - Na Póvoa do Varzim gozam o S. Pedro!
– Pensei que cá para cima fosse só S. João, que S. Pedro fosse só em Sintra!
– É verdade! Esqueci que és daquelas que pensam que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. - ri eu, ganhando em troca uma careta e uma martelada.
Quando passámos pela Rua de Cedofeita, uma senhora vendia, entre bandeiras do meu F.C.P. e manjericos, uma outra versão de martelos: os insufláveis.
Perfeito!
Assim o Xico não magoaria mais ninguém!
A Gui parou a olhar as montras das sapatarias. Pfff!!! Nem sei para quê... tem pr’aí uns cinquenta pares! «Tenho de voltar à Invicta para umas comprinhas» disse convicta. Pois claro, estava nas suas sete quintas...
Comprámos o novo e enorme martelo e seguimos caminho enquanto o J.J. tentava ganhar fôlego para o encher, às aranhas com o sistema de segurança.
– Isto das seguranças é só para deixar os adultos doidos, se fosse um miúdo já tinha conseguido encher esta bodega! - reclamava.
Ri-me ao recordar quando, um dia, não consegui abrir um frasco de xarope com um sistema de segurança para crianças que o Xico prontamente abriu.
O Xico estava delirante pelo tamanho do seu novo instrumento de tortura sanjoanina, mas, por ser tão grande não conseguia impulsionar o balanço suficiente para poder cascar decentemente. Então demo-nos conta que uma pessoa gemeu à passagem do martelo do Xico:
– Fuooogo! O catraio num parece mas tem fuooorça!!! - disse num queixume.
Ele segurava o martelo, mas, era com a outra mão que socava!!!
A Gui determinou o fim das hostilidades e tirou-lhe o martelo:
– Desculpa lá Quico, mas não pode ser! Agora ficas sem martelo!
Continuámos, avançando em fila indiana, por entre a multidão que inundava a rua até à Praça Carlos Alberto e eu, feito cicerone, ia explicando onde nos encontrávamos, qual o edifício público ou monumento que víamos ou quaisquer outros esclarecimentos que sentisse necessidade de fornecer aos meus ilustres convidados alfacinhas...
Na praça existem umas enormes floreiras de alvenaria, dispostas lado a lado. Em duas delas estavam sentados dois homens, cada um na sua, visivelmente embriagados.
O Xico seguia à nossa frente na fila e, com uma enorme rapidez, sem que o pudéssemos impedir, pára por breves segundos, mesmo na frente dos homens, levanta os dois braços de punho fechado e... zás!!! Aplica duas grandes e valentes murraças nos dois homenzarrões, em simultâneo, uma em cada testa!!!
Lívidos, entreolhamo-nos os três... É desta que o Xico leva uns cascudos, juro que pensei!
Como seguíamos em fila indiana, hesitámos antes de passar em frente daqueles dois, mas, o Xico, depois de desfechar os murros já lá ia como se nada fosse, por isso prosseguimos também... Por essa altura os homens levaram, ambos, as mãos à testa:
O J.J. avançou timidamente passando bem à frente deles; olhando-os tão de perto que pôde escutar o primeiro:
– Fod...!!! Que car... foi este???
A Gui passou de seguida em estilo apressado e pôde escutar o segundo:
– C’um car...!!! D’ond’é que esta me caiu, carago??? - rugia olhando o céu.
Quando eu passei, sorrateiro, olhavam os dois para cima questionando-se:
– Foi uma pedra, car...!!!
– Um pássaro é que num foi! Fod...!!!
Juntámo-nos em volta do Xico já mais descansados porque eles não tinham sequer percebido que havia sido o puto, mas, ao contarmos o que cada um tinha ouvido de passagem, caímos na risada, ali a dois passos daqueles homens enormes, dobrámo-nos a rir, limpámos as lágrimas e eles tão bêbados... Largámos a rir de novo, gargalhando estrondosamente até nos doer a barriga... Os homens continuavam ali ao lado, sentados, esfregando a testa e olhando o cumpridor céu limpo de uma linda noite de Verão, sem nunca se aperceberem que tinha sido um miúdo que os esmurrara... claro, de brincadeirinha sanjoanina...
Daí para a frente o Xico foi de mãos dadas connosco. Com as duas mãos dadas: firmemente com um de nós em cada um dos lados.

Descíamos na Av. dos Aliados quando o J.J. trocou com a irmã ficando do outro lado com o Xico. Aproveitou e perguntou-me de novo:
– Não lhe queres ligar?
Olhei para a Gui em busca de auxílio, mas estava noutra, uns passos à nossa frente toda eufórica, flirtando descaradamente, a cada pancada de martelo...
– Deixa lá a Lena...! - disse de mau humor. - Logo ali já estamos na Ribeira.
Estava um mar de gente e eu que sou mais alto pude ver, por cima das cabeças, uma verdadeira batalha campal de martelinhos. O J.J. pôs o Xico às cavalitas e ele riu-se muito vendo o mar colorido de plástico acertando aqui e ali... percebi-o pelo gesto que fez: como que tocando xilofone na cabeça do tio!
Fiquei de olho na Gui, não fosse algum parvalhão atrever-se, mas não era tarefa fácil, pois continuava a saltaricar entre as esplanadas da Ribeira, toda gira, e nós ali com o Xico, e, o J.J. maluco, à procura da minha irmã. Mas onde é que eu tinha a cabeça?
O Xico estava com fome e levei-os a comer pizzas... Não é tradicional, é certo, mas o S. João já não se reveste dos costumes que ainda me lembro de ouvir contar, e depois, nenhum de nós era grande apreciador de sardinhas, e, o preço tão inflacionado (1,50 € por sardinha) retirava-nos a réstia de vontade.
Cedi à pressão do J.J. e telefonei à Lena a perguntar onde estava. Estava em Gaia e só iria conseguir atravessar a ponte depois do fogo de artifício.
– A ponte D. Luís I - expliquei puxando os fios de queijo com ar guloso - fecha a passagem ao público durante o fogo suspenso mas reabre logo a seguir.
– Aqui anda-se a pé na ponte, é? - perguntou a Gui com ar incrédulo.
– És tão alfacinha! - retorquiu o irmão, depois virou-se para mim. - Achas que podemos ir até Gaia?
– O que é que há em Gaia? - interpelou de novo a Gui. - Mais festejos, é? Vejam lá se não é demais para o Quico. O que é que tu queres de Gaia, Zé João?
– É giro passar na ponte... - disse em socorro do meu amigo. - Abana todinha!

À meia-noite em ponto as luzes na Ribeira apagaram-se, e, ao burburinho habitual proporcionado pela escuridão momentânea, começou o espectáculo do fogo de artifício.
Lindo. Luxuriante. Poderoso.
– Enche a alma! Enche o coração! - gritou a Gui para o céu abrindo os braços abarcando deslumbrada as suas emoções.
– Faz barulho - queixou-se o Xico tapando os ouvidos -, mas tem cores giras.
A Gui enlaçou-o imediatamente tentando protegê-lo.
– Maguida...? Isto é passagem de ano? - questionou o Xico.
– Nas festas, Quico, o fogo acontece várias vezes... - começa a responder Gui.
– É fogo mas não é para as chamas. - responde lacónico.
Da ponte D. Luís I começa o magnífico fogo suspenso.
Algumas embarcações no rio estão ancoradas, a uma distância de segurança, repletas de convidados que assistem deleitados naquele palco preferencial à chuva magnificente de luz e cor.
– Ouvi além um senhor comentar que há pessoas que reservam a sua vaga nos barcos de um ano para o outro, é assim? - perguntou-me J.J.
Era assim. Anui com um «hum, hum» continuando de olhos no céu.
– Ouvi também comentar que há uma certa rivalidade entre Gaia e Porto. também é verdade? - continuou J.J.
Era assim também...
Quando o fogo acabou reparei que a Gui se tinha sentado e tinha o Xico ao colo. Fiz-lhe sinal perguntando se tinha passado mal. Em resposta ergueu o polegar. Estava tão feliz e acabou por não poder apreciar devidamente!
Fiquei a olhá-la ali concentrada, no meio do bulício, com o filho enorme ao colo.
– A noite é longa! Só acabo na praia, na Foz! - grita alguém para mim.
– Não esqueças de lavar a cara com as orvalhadas! - respondo dando-lhe com o martelo.

– Estás a ver aquele grupo ali de malucas? - apontei ao J.J.
– Onde?
– Ali - sinalizei apontando o meu martelo. - Daquele lado de quem vem de Gaia. São as parvas das amigas da Lena que eu não gosto nada. Olha ali a minha irmã.
Mas o J.J. já a tinha avistado e estava em perfeito estado de basbaqueira: o queixo havia-lhe descaído uns centímetros, provavelmente o suficiente para poder salivar. Abanei a cabeça e olhei na direcção da Gui para lhe chamar a atenção, mas ela estava aos pulinhos martelando um e outro rindo e gracejando aqui e ali... A Lena. Olhei para ela e estava, também, a flirtar de cacetada em cacetada... Mas o que se passa com as minhas miúdas que nunca as vi assim...?
Um estridente grito colectivo, tipicamente feminino, irritou-me os tímpanos. A ponte abanou de novo e agarrei melhor o Xico que ria a bandeiras despregadas.
– Típico! - gritou-me a Gui perto do ouvido. - Toda a gente cheia de medo com as sacudidelas da ponte e o Quico a rir à tripa-forra...!!!

...Depois acertou-me uma martelada rindo e graceja.
– Olha o teu irmão e a minha irmã. - Consegui indicar-lhe com o meu martelo.
Olhámos na mesma direcção. O J.J. furava até estar suficientemente perto para esticar o seu martelo e acertar em cheio na cabeça da Lena.
Ela virou-se a rir.
Estava com um ar tão feliz...
Encarou nos olhos o seu atacante que a esperava, expectante.
O sorriso de Lena esmoreceu.
O seu martelo em riste perdeu o balanço.
O ar de basbaque do J.J. voltou a inundar-lhe o rosto.
– ‘Pera lá... o que é que me está a escapar...? - inquiriu uma curiosa Gui - sabes de alguma coisa que eu não sei?
– Não por muito tempo, parece-me... - mexeriquei.

Sorriam agora os dois com um ar tão tolinho...





Os sem-abrigo na rua tinham impressionado muito a Gui.
No final da noite, quando regressávamos à Lapa pelas 3 da manhã, local onde estava o carro, passámos por muitas ruas já mais desafogadas das gentes borguistas ou, como gracejou o J.J., mais pareciam que se arrastavam de monco e martelinho caído com a atitude venho da festa. O nosso próprio sempre-em-festa ia escalando do colo do tio para o meu, ainda desperto, mas sem aguentar os pés.
Da noite emergiam agora os verdadeiros donos do espaço emprestado à folia: aqueles que esticavam os cartões e cobertores como se de lençóis frescos se tratassem, aqueles que se espreguiçavam e coçavam como se não os víssemos, aqueles que faziam a sua higiene pessoal, ali, à frente de quem passava como se realmente em casa estivessem... E estavam mesmo, infelizmente.

– Em Lisboa também há os sem-abrigo, mas aqui está a impressionar-me por demais - garantia a Gui a olhar para um senhor que lavava os dentes usando água engarrafada (ou numa garrafa...) e cuspindo para o chão.
– Mas em Lisboa se passas por eles de carro à noite, estarás com mais atenção à luz do semáforo, e, se acaso vires alguém dirigir-se a ti arrancas ainda com o vermelho, ou trancas o carro, não é? - disse-lhe o irmão. - Aqui estás numa situação diferente, estás a pé, cansada e a tua atenção foi tomada de uma forma mais perniciosa. Pena é que, voltando à habitual rotina, se continue a trancar portas...


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Consciencializar 365 dias ao ano

Ontem, na correria do meu dia-a-dia e distraída com os meus pensamentos, ao assomar uma entrada para um MB, percepcionei pela visão lateral - porque na verdade nem quis olhar de frente - um casal, em que um dos homens estava encostado à parede, e o outro debruçado sobre ele, o abraçava e beijava. Foi uma escolha momentânea, eu sei: entrei e não quis olhar para não parecer preconceito da minha parte (até porque assim não sou, nem me considero) e, na verdade, fui-o em grande escala. 
Não tendo tido sorte de usar o multibanco dentro de portas por ser exclusivo para os clientes com caderneta, dirigi-me ao fora de portas onde tinha acabado de passar pelo casal. Fiquei sem reacção: assim que saí uma querida amiga minha e companheira de muitos anos nesta nossa atribulada vida de mães de autistas cumprimenta-me: "Olá Ana!" Continuei sem reacção sem querer acreditar no que todos os meus sentidos já me gritavam e gelei por me sentir tão estupidamente horrorizada com o meu anterior pensamento. 
No momento seguinte estava rodeada pelo seu marido e o filho autista, também já adulto, como o meu, que me deu um carinhoso beijo bem babado. 
Eram pai e filho encostados, ali naquela parede, em que os julguei precipitada e preconceituosa! 
Consegui esboçar as palavras habituais num ritual de cumprimento, mas percebi a estranheza da minha pouco habitual efusividade no olhar inquisitivo da minha amiga, mas eu estava ainda naquele torpor perturbador do que acabara de sentir e estava tão indignada por ter feito o que critico, que simplesmente fiquei queda, sem acção. Pouco habitual em mim, é certo. Tanto a quietude no abraço e sorriso fraterno quanto a estupefacção do sentir-me preconceituosa. 
Sai daquele breve encontro perturbada. O filho dos meus amigos está um homem de 1,70 e muitos de altura, tal como o meu filho. Num primeiro olhar são tão "normais" e como momentaneamente não parecem aos olhos de quem os não conhece, ou desconhece o significado ampliado da palavra autismo, causam estranheza. 
O meu filho abraça-me, amassa-me, beija-me na boca na rua, ou então mesmo em público mexo-lhe amiudamente na braguilha para o compor (sempre com fecho abertos!) e sei que o olhar que têm para connosco é idêntico ao que eu mesma fiz com os meus amigos. Convivo com isso e respondo pondo as pessoas no sítio apenas com um olhar. 
Simples, habituei-me. Mas não me conformei. Não me vou conformar nunca! 
A falta de informação sobre esta população e as suas famílias é gritante, sim. Eu sou a que quase agarro as pessoas pelo braço e pergunto, está a olhar? Não sabe o que é uma pessoa com autismo? Venha cá!, que eu explico. 
Da próxima vez que se deparar com outra pessoa com autismo, pelo menos questione-se antes de julgar e vai entender as reacções que não são habituais ver, as frases proferidas em voz alto ou fora de contexto, todo um mundo que lhe parece estranho, é  apenas porque o desconhece. Venha cá, que eu explico! 
E sim, explico, tranquilamente. 
Faço muitas acções de sensibilização muitos dias após ou antes o 2 de Abril, e sei que o farei a vida toda. 
Consciencializar, consciencializar, sempre! 365 dias ao ano. 
Em algum momento chegamos lá. 
É uma certeza em mim. Em muitos de nós. 
Ao casal dos meus queridos amigos que se vão reconhecer quando lerem este texto, peço-vos perdão. É que - já viram? - eu não fiz o que peço ao mundo: que olhem com atenção reconheçam as reacções inusitadas de uma pessoa com autismo, antes de as julgarem. 


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Charcot-Marie-Tooth, o que é?

Mais uma doença degenerativa com nome complicado?

Outros cientistas já tinham descrito casos semelhantes, mas foi o trabalho efectuado por estes três cavalheiros, Jean-Martin Charcot, Pierre Marie e Howard Henry Tooth (este último fez inclusive uma tese de doutoramento), que viriam a dar o nome Charcot-Marie-Tooth a esta doença.

Poderia começar por vos dizer que é uma doença neuromuscular, degenerativa, e que os principais sintomas recaem na deformação dos pés e mãos, também nos braços e pernas, propriamente na massa muscular, que causa perdas na sensibilidade e de equilíbrio, passando pela falta de força, e, por ser degenerativa, compromete a independência da pessoa portadora deste diagnóstico de nome estranho. Mas o estranho acontece e o inusitado bate à porta de qualquer família.  O Diogo tem só 15 anos e juntamente com a mãe Susana Moura, decidiram fundar esta Associação em Portugal para apoiarem os portadores de Charcot-Marie-Tooth, enfermidade da qual o Diogo padece, e de que é, de resto, o presidente. Vamos ouvi-lo? 




Acontece que no ADN desta jovem Associação, está um valor muitas vezes esquecido: a BONDADE. Poderia falar igualmente de solidariedade, mas o dar a mão a quem não se conhece, é a meu ver mais que um acto solidário: é proveniente de corações onde a bondade simplesmente habita. 

E desta vez, a mão veio na direcção da minha e do meu filho. Sabem como? Faz parte dos princípios da Associação Charcot-Marie-Tooth dar a mão a outras causas (neste caso específico foi o Autismo) e distribuir 50% dos donativos angariados. É verdade. Não é usual. As campanhas ficam fechadas dentro de si mesmas, mas nesta Associação, literalmente, dão a mão. Escolheram doar metade da receita dos donativos através da exposição "meu pé, tua mão" à campanha Ajudar Pedro e Ana ou seja o meu Pedrinho e eu. 


 

Nem será necessário reafirmar como este gesto me sensibilizou. A Susana pedia desculpa por não ser uma quantia "gritante" mas... é! 
Estou tão grata, Susana e Diogo... e ao malandro do Valério Romão, companheiro de letras e causas comuns, que indicou o nosso nome. Um dia perguntou-me assim na lata, com a franqueza que nos assiste, como me  (nos) poderia ajudar mesmo e eu, na mesma linha, respondi-lhe, deixa-me pensar e depois digo-te. Valério, que forma tão bonita arranjaste de nos ajudares. Obrigada, obrigada, muito... tanto!


Deixo-vos com um outro vídeo que descobri nesta minha busca por entender melhor o que Charcot-Marie-Tooth vem a ser. Gosto desta postura onde o coitadinho não entra... Deve ser defeito meu, porque não há adversidade que derrube o meu sorriso. 




sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Luto em vida

Apeteceu-me revisitar este conto do meu livro MAL ME QUERO após ter prestado declarações na esquadra [de violência doméstica] e ter de dolorosamente recordar 9 anos (sim, nove) de situações delicadas (chamemos-lhe assim para não dizer vida/morte) com o meu filho Pedro.
Ter de relembrar e relatar alguns episódios, foi duro. A alma humana é tão generosa ao colocar num cantinho escuro o que não quer voltar a pensar. Recordei este meu livro, escrito antes de toda esta fase acontecer, e que já pronto, resolvi acrescentar esta história. Não é segredo para ninguém que neste conto me inspirei em momentos limite que vivi ao volante do meu pobre carro com o meu filho ao lado a tentar que nos acidentássemos. A realidade superou o que decidi (com)partilhar para as personagens. Já o sentir, esse é muito meu. Pensei que o cantinho escuro me tinha protegido de recordar esses momentos. Mas estão cá.

Mais uma vez apelo, a quem de direito, para que olhe para estas realidades caladas e haja ajuda a estas famílias, muitas vezes contrariamente a mim silenciadas no seu pedido de socorro.




LUTO EM VIDA 


onde se conseguiam contar os 5 pontos sob o penso transparente. Andava a pensar usar franja depois da ferida sarar, ia ficar feio, apesar de todos os amigos a tentarem animar que ia ficar com muito charme.

Quem não estava nada satisfeita era a sua avó Rosalinda, todos os dias lhe pedia para largar aquele emprego, que podia ganhar a vida sem se expor a ser maltratada daquela forma, mas a avó não podia entender que aquele trabalho era muito mais do que ganhar dinheiro para pagar as propinas, o carinho que ganhara a Miguel não tinha fim: era o seu amigo das manhãs! Muito encorpado, com os movimentos tolhidos pela forte medicação que tomava, por vezes não sustinha um fio de baba que vagarosamente escorria para a roupa, sempre alinhada. Fugia frequentemente ao contacto físico e, com o olhar ausente, ficava sentado perto da janela parecendo ver as pessoas na avenida movimentada.



A tarefa de Mónica consistia em ajudá-lo nas tarefas básicas e diárias desde o levantar, a higiene pessoal, preparação do pequeno-almoço e acompanhamento durante a manhã. Era substituída pelo João ao meio-dia. À tarde entrava o Paulo. Eram, ao todo, três estudantes que acompanhavam os dias de Miguel enquanto os pais trabalhavam.
Zé Miguel e Marta adiaram, durante muitos anos, a hora de se tornarem pais, sendo os dois sócios num escritório de advogados, quando finalmente decidiram ficar grávidos, foi uma alegria. Os médicos nunca souberam diagnosticar o que acontecera, Miguelinho era um lindo bebé, simplesmente diferente, mas, aqueles pais, amaram-no incondicionalmente. Refizeram a sua vida em torno do menino e, à vez, iam ficando em casa com Miguel para o acompanharem. Nunca consideraram a hipótese de o internar, adoravam o seu bebé. Com o passar dos anos, foi-se tornando mais complicado e a integração do Miguel na escola foi um drama, ainda assim, lutaram pelo direito que o filho tinha de pertencer a uma escola que se dizia inclusiva e por serem bastante influentes, articulados e, sobretudo, determinados, foram sustentando uma situação com contornos insustentáveis.
Miguel cresceu, era um bebé grande com corpo de homem, muito pesado e descoordenado, mas estes pais continuavam a tratá-lo, a mimá-lo e a conduzi-lo a todas as terapias que poderiam ajudar aquele filho querido. No último ano, foi particularmente difícil quando a escola o resolveu excluir por faltas. Foi uma grande partida da direcção da escola, no sentido em que Miguel estava ao abrigo do artigo 319 * e ainda estava na idade adequada para a frequentar. Realmente faltou um mês em que esteve mais agitado, mas havia um atestado médico e, principalmente porque essa expulsão aconteceu no exacto dia em que, em conversa com a professora de ensino especial, a mãe perguntou como seria no ano seguinte, tendo em conta que a lei tinha mudado e a obrigatoriedade passara dos 16 para os 18 anos. Solícita, a professora imediatamente se encarregou de ir perguntar à direcção da escola... nesse mesmo dia receberam o telefonema com o cortante recado que Miguel estava, a partir desse dia, excluído por faltas.
Sendo os pais juristas sabiam exactamente como levantar o dedo contra o sistema abusivo, mas estando genuinamente cansados desta luta inglória, primeiramente pensaram no Miguel e no seu bem-estar.
Apesar de naturalmente envelhecidos, apesar dos rompantes violentos do Miguel sobre ambos, com especial incidência sobre a mãe, tomaram a decisão de não o internar, ao invés, criaram infra-estruturas em casa, em torno da família, como que uma rede de ajudas que tinham capacidade financeira para pagar, para que Miguel não perdesse as suas referências: Distribuídos por turnos, tinham sempre jovens em casa, geralmente estudantes, para aliviar os pais das tarefas cada vez mais difíceis – dar o banho da noite ou ajudar a vestir e na alimentação – devido ao torpor, ao peso, à descoordenação e à rigidez na locomoção, natural da forte medicação. Ao fim de algum tempo e evidenciado o total desprendimento por Miguel, Marta e Zé Miguel trocavam com frequência a equipa sem que o filho demonstrasse o menor sinal de perturbação.
Até Mónica entrar.
Não se limitava a vesti-lo e dar-lhe de comida. Insistia em falar-lhe sobre todos os assuntos como se Miguel fosse um grande amigo e em algum momento mágico pudesse entender e responder-lhe.
Sem grande espanto, Miguel afeiçoou-se a Mónica como a mais nenhum membro da equipa e os pais reconhecendo esse sinal de esperança, pediram um esforço aos outros elementos, que, de alguma forma, comunicassem com o Miguel, tentando assim encontrar uma luz. Com a chegada do final da adolescência, Miguel estava muito tempo desocupado, sem interesse em qualquer actividade, foi ficando sistematicamente mais inacessível e agressivo.
O único elemento que persistiu, em nunca abandonar aqueles pais dedicados, foi Mónica. Pequena e franzina, foram muitas as vezes que foi até ao hospital – costela partida com um encontrão, um dedo partido e outra vez ainda teve um sério traumatismo craniano.
Claro que batia à Mónica!, e a sua avó Rosalinda reclamava com toda a propriedade. Exasperada, Mónica justificava que era tão pouco o que a atingia, comparando com o que fazia à própria mãe, que inclusive a doutora já tinha tido problemas com a assistente social do hospital que, veladamente, a julgava, pensando ser o marido que espancava a senhora daquela forma. Mónica tentava explicar para que a avó Rosalinda entendesse a mentalidade das pessoas: Em lugar nenhum se acreditava que pudesse ser logo um filho deficiente, um coitadinho, a ser o agressor, que disparatado!, era a senhora a desculpabilizar o marido, só podia ser! Pois claro!, ainda por cima, ambos advogados!, pensam sempre que estão acima da lei!... É uma realidade: no geral, as pessoas apenas viam esta população portadora de deficiência como passíveis de serem vítimas de abuso dos familiares por serem uns alvos fáceis, jamais os agressores! Também é uma realidade que estas famílias abusadas protegem os seus bebés grandes e não contam o que se passa dentro de portas, seja por vergonha ou pela mentalidade do «coitadinho» que ainda grassa por aí; talvez, por isso, não constem das estatísticas de violência doméstica, nem tão pouco as autoridades tenham essa noção.

Sendo a violência doméstica agora um crime público, se um vizinho ligar para as autoridades, perturbado porque ouve reboliço no andar de cima, certamente vai achar que a família está a maltratar a pessoa deficiente e, uma vez com a autoridade à porta, a família encobre com receio do que possa acontecer ao seu ente tão querido. Não é fácil!
Querida avó Rosalinda, para si, as cifras poderão ser nulas ou pouco significativas... mas é como a história das bruxas, nós não acreditamos nelas, mas que as há... há!!!
Mónica continuava a contar que à doutora sim, Miguel atingia forte e feio, sem que se pudesse compreender o porquê, já que era, de todas as pessoas, a que ele mais venerava. Bastava a voz da mãe para Miguel ficar atento e quando entrava na mesma sala parecia esboçar algo parecido com um sorriso. Não era compreensível, mas era mais frequente demonstrar a sua agressividade com a mãe ou com Mónica, exactamente as duas pessoas com quem conseguia alguma débil forma de interacção. Ao longo dos anos Mónica tornou-se confidente da mãe do Miguel, portanto podia descrever à avó exactamente o que aqueles pais sentiam e sofriam por este filho. A avó Rosalinda não conseguia entender como era possível à neta amar uma pessoa que não respondia a um simples sorriso, não podia perceber a alegria de Mónica quando conseguiu que segurasse uma colher – e só o fazia quando comia iogurte de ananás – ou a forma irreflectida como chegava a casa com nódoas negras e dizia que não era nada, apenas porque a mãe tinha apanhado mais.
No mês de Janeiro do ano que Miguel faria 18 anos era necessário deslocarem-se até à Câmara Municipal para dar o nome dele para a tropa. O pai, mais racional, manteve-se na postura de que era uma simples formalidade, mas não era nada simples e transtornou muito a mãe. Então estes pais não podiam ser poupados a um procedimento despropositado que, a haver uma boa comunicação entre entidades, seria desnecessário?
Foi um dia complicado. Marta tinha de levar o Miguel para fazer análises e exames, o que se previa ser uma tarefa fácil, já que o filho gostava do ambiente movimentado do hospital, gostava genuinamente de lá estar. Perto das 9 horas, quando já iam para casa, indignada, ainda pensava na simples formalidade. Deu a volta à praceta e rumou em direcção à Câmara Municipal. Insistia em levar Miguel com ela para dar o nome para a tropa, para poder reclamar junto da instituição, tamanha cretinice.
Nunca lhe tinha acontecido guiar naquelas circunstâncias.
Mais tarde quando pensou, não sabia se teria sido por ter mudado o percurso que perturbou Miguel, se teria simplesmente visto algo que o aborrecera, se teria uma natural dor que não sabia exprimir: era sempre uma angústia tentar perceber o que acontecia ao filho com as súbitas mudanças de humores. Por uma questão de segurança, Marta trancava sempre a porta do Miguel à chave pela parte de fora, ele não suportava o cinto e Marta colocava-o no seu braço direito como se fosse uma alça de uma malinha de mão, porque tinha medo que pudesse saltar em andamento. Não costumava reagir muito, gostava de ser conduzido e apreciava o sol quente na cara, mas nesse dia, fosse porque razão fosse, começou a ficar muito agitado. Absolutamente diferente do comportamento habitual, mexia nos botões todos dos comandos, tentava atingir a manípulo e retirar a mudança ou atingir a chave, pensou Marta com algum espanto, seria para atirá-la pela janela...?, sim o seu dedo indicador esquerdo viajava em cima do botão de controle da janela dele, se assim fosse não a conseguiria abrir. Contudo, a Marta, faltava-lhe mãos para tanta coisa, porque dava jeito conseguir segurar o volante. Claro que ia mais devagar e com todos os sentidos bem alerta, coisa fácil quando se tem a adrenalina a disparar. Ligou os quatro piscas e foi a buzinar furando o trânsito, na medida do possível, mas apenas pôs Miguel mais violento. Naquele momento, só queria que algum diligente polícia a mandasse parar para lhe poder explicar a sua aflição e pedir escolta policial, mas só conseguiu uns olhares contrafeitos ou mordazes de outros condutores que não poderiam imaginar o drama que estava a atormentá-la. Marta encostou o carro o tempo suficiente para pôr o auricular e ligar para Zé Miguel, apesar de saber que àquela hora estaria no tribunal de telemóvel desligado. Arrancou e ligou de seguida para a Mónica. Por essa altura, Miguel já estava bastante colérico e estava a agredi-la. Mónica, ao telefone, perguntava onde estava, para permanecer parada, sair do carro deixá-lo trancado lá dentro... mas Marta só queria chegar a casa e acabar aquele pesadelo. Claro que parar não ia resolver a situação, Marta só queria chegar e acabar a viagem antes que ficasse pior, Mónica concordou. Ficou em linha a dar o apoio moral possível, sentia-se tão impotente!, todo o percurso com ele sempre a ficar mais agressivo, a cada movimento mais brusco, Marta neutralizava com o cotovelo ou com um ombro. A um Aiiii!, ou um NÃO!, de Marta, Mónica perguntava logo o que acontecera, mas Marta respondia apenas: superado. Houve uma altura que se riram porque ouviu-se estridentemente a buzina e Mónica, aflita, pensou que tivesse sido o Miguel, mas Marta confessou que era só um automobilista que queria passar-lhe e estava apenas a ser má ao volante, afinal até lhe estava tanto a apetecer descarregar em alguém!!! A certa altura estava a torcer os dedos de Miguel porque era a única forma de neutralizar as duas mãos e era uma luta renhida pela posse do poder de controlar a situação e se ele tem duas mãos grandes com muita força! Como Marta lhe estava a puxar os dedos para trás, de alguma forma estava a desarmá-lo, Ah!, sim!, era com essas três mãos enclavinhadas, a sua nas dele, que conseguia pôr as mudanças... As pessoas nos outros carros olhavam incrédulos a cena de quase pugilato, mas mais rápido que ajudá-la, julgavam-na: olhavam complacentemente para o pobre deficiente, coitadinho, que estava a ser agredido por aquela senhora má.
A chegada a casa foi já com contornos dramáticos, saiu logo do carro à procura de reforços – só Mónica, que estava à porta, de telemóvel, a reservar um lugar, não ia resultar – teve de vir um jovem vizinho retirá-lo do carro (isso então agora era prática corrente, todos os dias que tinham de sair com Miguel, na sua avenida, já perdera toda a vergonha e olhava em volta a ver a que vizinho solícito iria pedir ajuda).
Depois de o terem conseguido pôr no quarto a dormir, Marta, a quem Mónica dera um calmante, ainda demorou um bocado a descomprimir. Mónica lembrou-se de fazer um chá e convidar o simpático vizinho que não parecia estar com vontade de sair. Havia uma razão. Estiveram à conversa, o que se revelou bom porque a mãe de Miguel, mais relaxada com o efeito da medicação, pôde desabafar um bocado, afinal o vizinho era técnico especializado num Centro com jovens portadores de deficiência e, por conhecer bem demais esta realidade, estava a sugerir o melhor que tinham a fazer (interná-lo). Foi a primeira vez que Mónica viu Marta escutar o que o vizinho contava: talvez pela ressaca da descida da adrenalina, porque o comprimido e o chá a estavam a ajudar a relaxar ou, mais provavelmente, porque falava dos utentes do seu Centro com tanto carinho e dedicação. Deixou-lhes os contactos, disse que poderia explicar o teor do relacionamento com Mónica, que estavam na altura de entrar estagiários, poderiam ir juntos e, caso estivessem interessados, que fossem visitar as instalações. Depois, já mais calma, Marta saiu para ir trabalhar, sem conseguir deixar recado ao Zé Miguel. Parecendo adivinhar, no intervalo, Zé Miguel telefonou para saber como tinham corrido as coisas, parecia que tinham um chip não electrónico, mas sensorial instalado. Internar o Miguel? O desabafo foi brutal. Nunca! Era desistir dele enquanto filho, era fazer o luto em vida!!!
Zé Miguel e Marta sabiam que o curso de Mónica estava a terminar, a vida dela não seria só o Miguel, apesar de afirmar nunca o deixar, Marta bem vira como os olhos lhe brilharam com a possibilidade de estágio, ainda para mais se estivesse com Miguel. Com ou sem Miguel, aquela miúda doce estava a crescer, ia seguir o seu caminho, podiam perder o único elo de confiança que, à partida, poderiam ter numa instituição. Como incessantemente se enfadavam de ouvir de todas as pessoas que os rodeavam – porque não queriam ouvir –, eles não iam para novos, não iam cá estar para sempre com o seu bebé grande... que seria de Miguel se não fossem eles, os seus pais, a delinear, a acautelar atempadamente o seu futuro?

A avó Rosalinda ficou muito esperançada com o entusiasmo da neta. Percebeu que, ainda assim, só iria tentar aquele estágio se os senhores doutores lá colocassem o Miguel, mas já era um passo! A sua neta poderia continuar aquele estranho vínculo que, com os anos, aprendera a respeitar sem nunca ter conseguido compreender e adivinhava que aqueles pais tão extremosos deviam estar de coração partido para conseguirem tomar aquela decisão.


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* -Decreto Lei 319/91, 23 de Agosto. Define medidas de regime educativo especial a aplicar a alunos com Necessidades Educativas Especiais (N.E.E.), dos alunos do ensino básico e secundário.


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