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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

De quantos costados, mesmo? (parte I)

Sou nascida e criada em Lisboa, alfacinha de gema, sem contudo ser dos quatro costados: os meus pais também – lisboetas, contudo, os meus quatro avós que lá fizeram toda a sua vida, migraram muito jovens para a capital. 
Nós, os netos, temos três sólidas costelas beirãs – das rosas de Santa Teresinha e das filhoses – e uma pispineta costela da zona Oeste – da pêra-rocha e da quase extinta maçã riscadinha – que em muito nos moldaram para que nunca fossemos betos. 

Em tempo de escola havia uma certa brincadeira entre os colegas – hoje talvez lhe chamassem bullying – pelo facto de, na Páscoa e Verão, eu não ir passar férias à terra. 
Sendo lisboeta, "não tenho terra", como os meus colegas de escola que iam passar esses dias a casa dos avós em alhures. 
 Os nossos pais, também os avós (até os bisavós num último período) e nós, os três miúdos, vivíamos todos juntos na mesma casa, com a família à frente, na mesma rua. Já vos conto.

Lisboa é composta de muitos bairros típicos e a cada um é-lhe atribuído um certo estar, um comportamento diferente.  
Ou assim era. Sobre este tema escrevo em outra  publicação. 

Em Alvalade? 
Bom, na vida escolar vi-me entre "betos", sendo eu da Avenida da Igreja, com um pé no Campo Grande. 
Jamais almejei ser mais uma beta de um premonitório rebanho! 

Sendo uma rebelde maria-rapaz, vi-me sempre como uma atrevida e desafiadora papoila que nasce por entre a calçada, fruto de esmerada educação, de perene memória olfactiva a rosas de Santa Teresinha, nêsperas e maçã riscadinha. 

Nascida no Hospital de Santa Maria, vivi desde a infância até ao casamento em Alvalade. 
Vivi na discreta parte da Avenida da Igreja (que cruza com a Avenida de Roma, a maior agregadora da "betaria" lisboeta): começando do topo, com a icónica Igreja, é a parte mais comercial e beta da avenida, dando a volta na Praça de Alvalade, do altaneiro Santo António que a todos abençoa, descemos para o cenário que ficou na minha mente e a que ainda me cheira a casa, a que chamo a minha parte da avenida; sem comércio, só habitação e escolas. 
Descer a melhor parte da avenida no fim das aulas no liceu sorria instantaneamente com a sensação imensa de felicidade ao escutar os passarinhos, na hora de ver o sol a aflorar o cume das árvores – o Campo Grande –, ter o maior jardim de Lisboa por moldura ao longo da minha cálida avenida, banhada pela quente, silenciosa e dourada luz de final da tarde. 
As crianças do bairro adoravam lá brincar com pais e os avós, alguns outros, sentados nos ripados e curvilíneos bancos verdes do jardim, apreciavam as mini-saias: verdade!, foi segredado pelo minha quase centenária bisavó Piedade, à sua nora, minha avó Rosa, na nossa presença infantil, pensando que não compreenderíamos. Recordo vividamente, com toda a minha inocente incompreensão infantil, a falta de sentido daquele apiedado desabafo:

"O Joaquim  vai de tarde sentar-se no jardim ver as pernas de mini-saia e à noite quem as paga sou eu!"

Alvalade, na parte superior da Avenida da Igreja, têm vasos ao redor da porta de cada loja e onde os condutores dos carros param respeitosamente a cada passadeira de peões. 
(algo que vim a reparar que acontece também em Aveiro, e que é muito do meu agrado) 

Memórias boas! 
De Alvalade? 

Saudades da feliz memória dos aviões a passarem e os vidros a abanarem!, das escolas, todas ali em redor!, vinda da primária só de meninas, o misto marcante com o 25 de Abril na Eugénio dos Santos (preparatória), as tardes de sábado no cinema mesmo em frente, os gelados da Itália, os bolos de vinte e cinco tostões da Nova Relíquia (sem comparação aos da Suíça que o avô Xico trazia, a cada dia, do Rossio, no autocarro de dois andares verde, o 21). Liceu no Dona Leonor. 
Os amigos que por fim fazia na rua, no bairro, nas escolas, sem contar com os fins-de-semana e Verão, estes de sempre, e ainda dos muitos pen-friends com quem amiúde me correspondia. 
Sempre escrevi. 

Do jardim do Campo Grande? 

Na infância aprendi a remar não sei se com o meu pai ou meu avô, no enorme lago onde alugam botes. 
Tantos passeios e brincadeiras no jardim com mãe, pai, avós, manos!, e depois, na adolescência, a consolidar os dotes de nadadora no Sporting (SCP), na modesta primeira piscina também no mesmo jardim. Ahhh!, os longos e inesquecíveis quatro meses de férias na praia aprimoraram-me a propensão! Para quem tanto nadava no mar, era tão fácil a piscina, tão baixinha que a água era! 

Da casa? 
O amor. 
Disse que vos contava! 
O facto dos nossos pais terem namorado à janela muito cedo (desde os onze e doze anos), porque os avós paternos e maternos viviam frente a frente (nº 9 – 1º dto e nº 10 – 1º esq), numa rua sem saída, emoldurada pelas árvores, assim que tiveram idade casaram e passaram a viver com os pais do meu pai. Para nós, os três miúdos, criaram o entorno maravilha: vivemos sempre com avós e pais na mesma casa, tendo logo no outro lado da rua, na nossa frente os avós maternos, e seguindo-lhes os  o exemplo, também tios e subsequentes primos.  

No meu imaginário de infância a ideia de casa e uma família imediata tão próxima, só fez aumentar a sólida sensação, única e indescritível, de infância muito, mesmo muito feliz. 

A meus olhos, aconteceu magia com a romântica história de amor dos meus pais de que fomos testemunhas (também a dos meus avós paternos, já agora; foram dois casais felizes a cuidarem de nós). Os meus pais namoram à janela e casaram, até que a morte os separou (separou...?) 

Depois cresci. 
As fortes raízes – beirã e da zona Oeste – desta minha imagem de infância, penso, deu-me a base sólida para suportar tudo o que veio a seguir. 

Posso afirmar-vos que escrever me salvou. 

E perdoem-me, se mudo de tema. 

A verdade é que sendo uma menina de Alvalade, jamais me identifiquei no meu modo de ser e estar, enquanto beta. 
Fui muito traquina, rebelde, o diabo!, sei que não seria tão boa pessoa sem as duas enormes colheres de pau que a avó Rosa me partiu no lombo. 
Quatro adultos a educar com os outros avós e tio em frente, deu espaço para muito mimo. E digo: a minha sábia avó Rosa é ainda hoje a minha pessoa. 

Menina de Alvalade!

É como uma sombra que me segue até hoje – a brincadeirinha que nunca me soou a bullying – ainda em Lisboa em ambientes de trabalho, por ser de Alvalade, mais tarde por ter escolhido viver em Aveiro sendo tão lisboeta, em detrimento da Lisbon em que tristemente se transformou. Não o encaro com sobranceria – as minhas vivências foram simplesmente diferentes das de outras pessoas, só não me chamem beta!

Estou em Aveiro, que amo! 
E não é que reaprendi a remar...? 

Volto sempre a Lisboa. 
De visita. 
Agora já posso dizer que... vou à terra! 



terça-feira, 19 de março de 2024

O dia que me foi oferecido

O Pedro e eu somos família monoparental.
Hoje, logo hoje, quero contar-vos sobre um bonito momento nosso:

Habituei-me à narrativa de que, nesse fim de Agosto, no afã de uma gravidez complicada e num parto quase mortal para ambos, o cirurgião chefe (que nos salvou), no afã da confusão que foi aquela complexa cirurgia, se esqueceu de cortar a cordão umbilical, e eu, ao longo destes quase 35 anos, nunca tive em mãos o instrumento nem a vontade.  
com cinco anos
Sempre proibi ferozmente, desde tenra idade, a quem quer que fosse, de proferir palavras menos elogiosas acerca do progenitor, estando o Pedro presente. 
Não é correcto, não há necessidade e não acho justo para com uma criança. 




A vida encarregar-se-ia, com o tempo e a maturidade que viesse a adquirir, de poder formar a sua opinião. 

Num dia 19 de Março, teria o Pedro oito ou nove anos, depois de trabalhar, fui buscá-lo ao ATL. Trazia um presente na mão que insistiu em dar-me. 
Estavam dois homens, pais supus, à espera dos seus rebentos. 
com nove anos
Senti o olhar, aquele de esguelha, o que de tanto nos mirarem, nunca nos iremos habituar enquanto vivermos. 
O Pedro insistia em dar-me o presente, e eu, estupidamente, senti-me julgada por aqueles dois homens. Acto-contínuo, começo a justificar o meu filho em automático, perante aquele olhar (e se eu já sabia rosnar...), pondo-me a explicar ao Pedro que era dia do Pai, que o dia da Mâe... 
Nesse momento, o Pedro interrompe-me, com um tom de voz agastado, até algo irónico: "Bem sei!, primeiro domingo de Maio, blá, blá, blá..." 
"Ouve-me", disse.
Puxou-me pelas abas do meu casaco, forçando-me a baixar até à altura dele e me poder olhar bem nos olhos. 
Sim, algo atípico. 
Ganhou, como queria, todo o meu tempo.
"Quero que me oiças com atenção."
Beijou-me na bochecha: "Deste lado és Mãe," 
Beijou do outro lado: "Deste lado és Pai! Eu quero que este presente seja mesmo para ti e não fique guardado num gaveta até ao meu aniversário ou ao Natal." 
com 16 anos

Abracei-o, num dos nossos abraços infinitos. 

Notei num breve relance, sobre o ombro do meu filho e vi os olhares emocionados dos outros pais. 



É. 
O Pedro ofereceu-me o Dia do Pai. 



domingo, 5 de dezembro de 2021

Cartas em Castelo

Queridos leitores, 

Poderia ter dado a este livro o previsível título "Azul e branco aos quadradinhos", caso fosse a continuação do anterior. Para fugir dessa monotonia, arrisco num outro voo pelo tempo que não é medido no pulsar de um relógio. 
Cartas em Castelo é o segundo livro de uma trilogia que começou com o "Azul e branco às riscas", e que concluirei com um terceiro a que não darei o título de "Azul e branco às bolinhas". Os três romances serão de leitura independente com uma fina linha de pozinhos de perlimpimpim que os enlaça em tons de azul. 
Cartas em Castelo é o meu sétimo livro. 
Ao longo dos anos fui-me dando conta de que após a leitura, de qualquer um dos meus romances, os leitores procuram outro e muitas são as vezes que me surpreendem agradavelmente ao perceber que leram todos. 
Poderá ter muitas interpretações, cinjo-me ao facto que essa escolha do leitor me deixa imensamente feliz. 
No meu sétimo livro, sendo um número que envolve ciclos completos, como os dias da semana, as notas musicais ou as cores do arco-íris, resolvi nesta minha sétima volta a esta pescadinha de rabo na boca, fazer um miminho especial para com os leitores que já leram os outros meus livros. 
Como? 

 Deixo-vos um abraço bom, 




domingo, 7 de novembro de 2021

Sinopse do livro Cartas em Castelo

Queridos leitores, 

Hoje revelo-vos a sinopse do livro Cartas em Castelo: 

SINOPSE  

Aquela rapariga... 
Teresinha reflectia amiudadas vezes, como a vida, nas voltas que dava, era tão ironicamente engraçada: 
Madalena com quase 20 anos, a vida toda pela frente, nunca tem tempo para nada, vive a correr! Já Teresinha, com os seus 78 anos, tem todo o tempo do mundo e mais um dia, pensa e actua como se se movesse num tempo diferente. 
Num suspiro, o mundo pára e tudo muda. 
Isoladas durante a quarentena de 2020, a bisavó em Castelo Novo e a bisneta, em Castelo Branco encontram tempo para uma cumplicidade que começa por uma carta. 

Deixo-vos um abraço bom, 








sábado, 6 de novembro de 2021

Como reservo o livro Cartas em Castelo?

Queridos Leitores, 

Começa agora e vai até ao lançamento do livro Cartas em Castelo: pode reservar!

Ao reservar já o seu exemplar terá a oferta de um presente, que revelo serem conteúdos absolutamente originais, exclusivos e grátis; um dos miminhos que preparei apenas para os primeiríssimos leitores. 

Cartas em Castelo é o meu sétimo livro. 

Ao longo dos anos fui-me dando conta de que após a leitura, de qualquer um dos meus romances, os leitores procuram outro e muitas são as vezes que me surpreendem agradavelmente ao perceber que leram todos. 
Poderá ter muitas interpretações, cinjo-me ao facto que essa escolha do leitor me deixa imensamente feliz. 
Por isso, decidi mimar os leitores mais fiéis das mais variadas maneiras, até com surpresas ao longo da leitura do livro...

Para garantir os conteúdos exclusivos, valide a reserva do seu livro! 


 E eu estou feliz! 
O livro Cartas em Castelo em breve nasce e chega às nossas mãos; ainda está no útero, mas já com contracções... sim, sinto cada um dos meus livros como um filho, de tantas fases passo, sinto-as como uma gravidez! 

Deixo-vos um abraço bom, 






terça-feira, 19 de outubro de 2021

Novo Livro - Cartas em Castelo

Olá queridos leitores, 

Escrevi exactamente há um ano esta carta. 
Sendo fiel à essência do livro e tendo começado esta ideia numa longa conversa com a Madalena, senti um ímpeto de lhe escrever. 
O livro está pronto! 
Está a ser tratado com muito carinho para chegar às vossas mãos ainda antes deste Natal. 
Será o meu sétimo "filho" e revelo hoje o seu título: 

Cartas em Castelo 

Hoje escrevo esta nova carta para convidar todos os meus queridos leitores para a apresentação presencial - sim presencial - esperemos, já sem máscara e muitos abraços. 

Até breve! 








domingo, 14 de fevereiro de 2021

A primeira vez

Hoje é o aniversário deste site. 
Nasceu de uma brincadeira tola no Twitter, em 2009, quando perguntei “Onde posso publicar um texto para lerem?” uma voz disse: 

“Faz um Blog!”

Se eu não queria escrever num Blog, ter um Blog menos ainda! 
Encantei-me com o contacto directo que obtive com os meus leitores! 
Já não é apenas Blog, cresceu a Site – dou a cara e o nome. 
Assim mesmo, de ganga vestido. 
Porquê dia 14 de Fevereiro? 
Não deixa de ser irónico, festejar o aniversário deste meu espaço logo numa data que não tenho grande respeito (porque, a meu ver, namorar, namora-se todos os dias) o blog nasceu com este conto 
veio posteriormente a ser publicado no livro MAL ME QUERO

Hoje ofereço este conto de novo aos meus leitores 


Irene já se tinha esquecido: há muito tempo prometera a si própria que nunca mais sairia à noite num dia de namorados. Mas aconteceu. Com amigas, alheadas da comemoração, na sua nova “solteirice”, combinaram ir todas ao Japonês.
Ao entrarem no restaurante habitual depararam-se com um invulgar burburinho – infernal!, nem conseguiam avistar o dono! Todas as mesas estavam preenchidas apenas com casalinhos, até ao redor da zona Teppan-yaki – coisa que pretendiam – estava ocupada por parzinhos, claro!, restaurante da moda e caíam lá todos que nem tordos na noite de saída!
“Socorro! Saímos no Dia-Oficial-do-Manel-levar-a-Maria-à-rua!!!!” – Brincou. Alguém sugeriu mudar de restaurante, mas não adiantaria àquela hora, sem marcação, estariam todos a transbordar de Manéis&Marias.
Antes, imagina-os:
Olhou à volta. Irene não tinha nada a opor ao amor ou a sua celebração, apenas o que chamava de “Dia Oficial”, uma representação patética do que deveria ser, por definição, celebrado todos-os-dias-e-todas-as-noites-das-nossas-vidas.
O Manel pespega uma beijoca à sua Maria logo pela manhã antes de sair para o trabalho – ela falou tanto nisso na véspera, entre o intervalo do futebol e o creme de noite que ele teve pesadelos do mês sem sexo que sabia, ela imporia, se ele ousasse esquecer…
A Maria, nesse dia sorri feliz, usa roupa nova, vai ao cabeleireiro – muita laca, muito caracol – compra um postal cor-de-rosa já preenchido, tipo-basta-assinar e uma prendinha bem fofinha para o seu Manel pôr no carro – coisa que ele jamais usará ao lado do galhardete do seu clube do coração…
O Manel, mais pragmático, compra o que ela discretamente lhe pediu durante a última semana toda, incluindo, a seguir à beijoca matinal sem sumo.
A Maria papagueia com as suas colegas de trabalho onde poderá ser levada mais logo a jantar. Todas graciosamente fazem crer umas às outras que não sabem o local e/ou a prenda.
O Manel, à tardinha, entre bejecas e tremoços, ri com os amigos que, este dia dos paleios cor-de-rosa, até foi uma coisa bem inventada: é uma noite que seguramente elas não irão passar a ferro até tarde, lhes doerá a cabeça ou terão o período…
A Maria já passou em casa da Mãe, depositando os filhos com um bem disposto: “Até amanhã!”
O Manel foi à florista.
A Maria chegou a casa mais cedo, tomou uma chuveirada e rapou os pêlos.
O Manel passou horas na fila da florista, rosnando.
A Maria passa o gloss mais uma vez pelos lábios ainda bonitos e com pouca procura.
O Manel chega a casa com um previsível ramo de rosas vermelhas, reclama por lhe ter custado 50 euros e, claro, «a» prenda.
Ouve-se na casa do Manel e da Maria uma palavra inusitada: Amo-te
Saem para a rua. Está tanto trânsito como de dia. Vão a um restaurante com folhas de papel branco por toalha.
O Manel pensa: “A TV desligada, que má sorte a minha, espero que alguém repare… se digo alguma coisa, lá se vai a queca.”
A Maria suspira: “Ele vestiu a camisa mais velha, logo hoje… qualquer dia rasgo-a e faço panos para os vidros.”
Irene respirou fundo e olhou em volta enquanto ainda esperavam mesa. Sentiu um ambiente dengoso nas mesas. Não se distinguia a música do ruído. Contrastava a elegância dos pratos deste espaço usualmente relaxante, seguro pela perplexidade serena dos empregados com o frenesim de tão inusitados clientes que até pediam, imagine-se… karaoke.
Irene lembrou-se daquela outra noite, não há tantos anos em que ficara inoculada da noite dos namorados. Presa num extraordinário trânsito para aquela hora tardia, olhou à sua volta: Estupefacta, viu o Manel ao volante com a Maria ao lado em todos os carros! Havia a versão casados-há-muitos-anos visivelmente enfadados pela demora e os namoradinhos que ainda disfarçam hostilidades cortesmente. Olhara para o João, o seu marido, para o seu olhar vazio esperando que o trânsito fluísse. Sentiu um arrepio: era apenas mais um Manel, o que, lamentavelmente, fazia dela mais uma Maria.
Decidida a que o Manel e a Maria não lhe estragariam mais nenhuma noite, olhou de novo à volta, desta vez com a sua firmeza acutilante.
O frete.
Estavam todos a fazer frete! Tinham saído à rua somente porque tinham de fazê-lo!… Todos sorriam complacentemente enquanto gramavam polidamente a estopada.
Todos não.
De indicador em riste anunciou, peremptoriamente, às suas amigas cansadas de estar em pé:
“O único casal a sério nesta sala, é aquele ali do canto.”
“Como sabes?” Perguntara a Bárbara.
“Sei. Sinto. São os únicos que estão a conversar.” Argumentou encolhendo os ombros.
Contrapuseram, estando num restaurante repleto de sons estridentes, com outros pares que tagarelavam demasiado alto.
“Estão apenas a falar. Reparem no olhar, estão apenas a falar, não estão a conversar.”
“Na mesa mesmo atrás de nós estão os piores espécimes de Manéis&Marias – sussurrou rindo a Maria Clara enquanto se sentavam – os broncos!
Olhavam causticamente para trás. Versão cromanhon-namoradinhos, diziam à socapa. Tinham de estar dois pares
à mesa! Claro!… aos pares, se não, com quem é que eles haveriam de conversar???
Sem estranheza, Irene ouviu um dos rapazes protestar bem alto, com os pauzinhos em riste, pedindo talheres de gente, o outro palerma reclamar do peixe estar mal passado, uma das Marias dizer que o gengibre eram «pétalas de flores comestíveis», que «tinha lido numa revista» até ao momento hilário em que um comeu de uma só vez o “pistachio”, urrou que nem um urso que o tinham enganado… sem mencionar a boa parte da noite a ouvi-los contar anedotas pouco edificantes sobre mulheres… que apropriado! – pensou – mas o melhor ainda estava para vir. Quando entrou uma figura típica da noite, empunhando a habitual braçada de rosas, uma daquelas Marias deu uma valente murraça na mesa afiançando ferozmente:
“Eu hoje vou querer uma rosa!!!”
Até os outros Manéis&Marias das demais mesas tiveram dificuldade de suster o riso… Resta acrescentar o que já todos sabíamos, se calhar, até ela: não a teve.
A pouco e pouco todos os Maneis e Marias foram saindo. Era noite de festa lá em casa ou no banco traseiro do carro! Há casais que são abusivos durante todo o ano, seja verbal, física ou psicologicamente, mas Deus os livre de não festejarem o dia dos namorados!
Ficaram embrenhadas na conversa boa e no último sake gelado, depois do ritual de sabores nipónicos numa refeição memorável onde, como manda a tradição, nem um único bago de arroz foi desperdiçado, quando o tema de início de conversa, voltou à baila: As únicas mesas ainda ocupadas, agora sim, naquele tranquilo e prazenteiro restaurante, eram apenas a das amigas e a do tal casal do canto.
Ficaram a reparar e comentar ostensivamente nos detalhes sem que nunca sequer dessem conta. Era a mulher que estava virada na direcção delas. Tal como as amigas, não tinha estreado roupa nova, não tinha ido ao cabeleireiro, não havia nenhuma rosa vermelha do ké-frô na mesa.
Era particularmente bonita, como só uma mulher segura de si consegue pôr um lápis a segurar-lhe o cabelo, vestir uma qualquer t-shirt branca com jeans e… estar bem.
Irene entretanto contava uma situação que ouvira num supermercado na véspera. Estava no corredor dos desodorizantes quando tomou atenção numa frase: “Olha, não tenho ideia nenhuma, pode ser já isto? Ficava já despachada para amanhã.” Irene sorrira ao se aperceber que falavam da prenda para o Dia Oficial. Que romantismo!, claramente uma Maria! Continuando as suas compras, ficou com atenção ao diálogo: “…ou então, pode ser este perfume…?, é que nem sequer é caro!”
O grito masculino ecoou pelos corredores:
“N-Ã-Ã-Ã-O!!!!”
As pessoas, às compras, entreolharam-se, mas ninguém se pronunciou quando a discussão estalou. Num casamento, quem vai meter a colher? Irene também olhou por cima do ombro. Pensou que fossem mais velhos, mas era um casal muito novo, reconheceu a vergonha só no tremor do queixo daquela rapariga que continuava a dizer tontices com ar subserviente enquanto ele lhe virava as costas e a deixava a falar para as prateleiras.
Respeito. A ligeira diferenciação entre um casal e um Manel&Maria.
Quando saíram do restaurante, o casal da mesa do canto continuava a conversar. Nunca deram pelas outras pessoas que tanto os observaram.
Irene deu um último relance ao casal antes de sair.
Apeteceu-lhe, por um momento, que soubessem que eram o seu prémio casal da noite, afinal fizeram-na acreditar que não eram apenas os Manéis e as Marias que saltavam para fora de casa nesta noite… mas, sempre soube que casais como este, não celebra o seu Amor apenas porque algum grupo de comerciantes resolveu importar uma moda que nem é nossa para aumentar um pouco mais as vendas – criaram portanto este pomposo evento a comemorar – leia-se a comprar.
Sorriu ao casal da mesa do canto e pensou, apesar de ter escolhido o divórcio para si, viver a dois, vale realmente a pena – quando vale a pena, respirou fundo e imaginou todos os casais que sabem: alimentar o amor é uma tarefa diária, construtiva, constante… todos-os-dias-e-todas-as-noites-das-nossas-vidas.
Podia estar sozinha nessa noite, poderia continuar sozinha na vida, mas Irene sorriu. Enquanto esperavam para pagar, abriu o seu Moleskine e escreveu: 

“Há, é uma forma diferente de ver e viver a vida, o que nos torna loucos aos olhos dos que levam uma vidinha triste e sem sabor. A nossa, sabe a morangos com chocolate, até, quem sabe, sake e wasabi, se e quando deixamos a parte picante entrar na nossa vida.”


domingo, 25 de outubro de 2020

A hora do nada

Sempre que acontece a mudança de hora, em que recuamos uma hora nos nossos relógios, nas nossas vidas, a minha imaginação dispara nas múltiplas possibilidades do que pode ou não acontecer a cada um de nós numa hora que não existe e que de uma forma utópica mude a forma de estar e ser para sempre. É claro que esse momento nos pode surgir em qualquer hora de nossas vidas, mas muito mais poético se for naquela hora mágica que só se designou (não) existir uma vez por ano, poético e definitivamente uma excepcional história para, um dia contar aos seus netos. 
Não seria o caso de Sandrine, se fosse o caso desta minha personagem de livro ser real. É uma das muitas caras sem rosto que dão cor ao meu livro "Mal Me Quero" que sendo um romance de ficção, aborda realidades vividas por muitas Marias e Sandrines. Nem sempre mulheres, nem sempre Marias, e sim, também o reforço no meu livro com personagens masculinas, apesar de o rosto mais visível da vítima da violência doméstica seja o feminino.
Deixo-vos com a Sandrine, quiçá para ser lido na hora do nada deste ano, acompanhado pelo som de Billy Joel - num dos contos deste meu livro de ficção (que pode ser tão real, silenciada debaixo das telhas de cada casa)  "MAL ME QUERO" - páginas 53 a 56 - "A hora do nada". 


A Hora do Nada

Sandrine convenceu-se que não tinha acontecido. Até porque fora só daquela vez e aquela vez não tinha existido.
Engraçado os mecanismos que a nossa cabeça arranja para se defender do lixo mental que não queremos ver, ouvir, cheirar, sentir, menos ainda saborear.
O Ruben tinha aquele hábito horrível de beber bagaço com a bica do jantar. O pai dela também o fazia, quando imigraram para França, dizia sentir-se mais português por comer bacalhau, chouriças e beber bagaço. Esse era um fedor que se lhe entranhava nas roupas, junto com esse, o do tabaco dos outros da taberna, entrava pela cama lavada a cheirar a alfazema e roubava-lhe o odor a casamento feliz que tanto queria sustentar.
A mãe e o pai ainda tinham um casamento composto, tinham lá as suas coisas, mas qual o casal que não as tem? Viria a ser assim com o Ruben também. Era um bom homem, amigo de trabalhar, um bocado rude devido à educação que tinha tido. A princípio, quando vinha nas férias, até o achara peculiar e pensava que se poliria com o tempo, o convívio e o ficarem juntos em Portugal.
Mas era o Portugal dele. Não o seu. Não agora.
O marido era de perto da terra dos seus pais, uma zona de quintas bem perto de Lisboa. Visitavam os avós todos os verões, no mês habitual e o namoro com o moço despontou. Coisa de miúdos, quando se encontravam nos passeios de bicicleta, pelas pequenas florestas onde depois brincavam. Sandrine recordava-se sempre das histórias de bruxas quando passava por lá, devido ao marulhar esfregadiço das folhas quando havia vento.
Só nos seus 16 anos levararam o namorico da menina mais a sério num amargo fim de Agosto: Sandrine não queria, porque não queria voltar à França deles e pedia: porque não ficava a viver com os avós? Nascera lá, mas o coraçãozinho de jovem ficara só às últimas chuvadas de Verão porque os pais não permitiram que a sua menina de ouro interrompesse a escola e o sonho de a vir a tornar alguém na vida. A promessa de trabalho dos tios do marido, o sonho adolescente de um casamento perfeito e um irredutível Ruben de mochila às costas frente à casa dos pais sem aviso prévio, fizeram-na deixar os pais aos dezoito anos e vir para uma terra que nunca viria a sentir sua.

Três filhas depois sentia-se sugada, estupidificando a cada dia, numa casa sem graça no bairro escuro, como se um vagaroso torpor tomasse lugar da menina inteligente para os livros de escola, enquanto a sua bicicleta enferrujava nas traseiras do quintal.
Aquela noite não tinha existido. Não naquele momento mágico em que a hora de Inverno anda para trás e por isso mesmo nada tinha acontecido. Todos os dias pensava nisso e tentava focar-se apenas na ideia da hora que não tinha acontecido, por isso era tão fácil convencer-se! Contudo, nada ficou igual depois dessa hora em que nada, mas tudo aconteceu.

O Ruben chegou da taberna tarde como vinha sendo habitual. Estranhou quando o ouviu dar uma volta na fechadura da porta do quarto, apenas cerrou mais os olhos, encostou o nariz no lençol e fingiu dormir, como já se tornara seu hábito, tentando reter a lavanda nas suas narinas.
Só teve tempo de estranhar ele não se sentar pesadamente do outro lado da cama e atirar com as botas sem pensar que por baixo dormiam vizinhos: Estava do seu lado da cama e...
Pôs as mãos dentro da sua camisa de dormir e... fez o que não lhe foi muito confortável.
Sabia o nome da coisa, porque tinha dito veemente e repetidamente NÃO.
Honoré de Balzac dizia «Pode-se perdoar, mas esquecer, isso, é impossível.» Sandrine tentava esquecer, tentava ferozmente esquecer, sem se dar conta que nem perdoar conseguia. Talvez o que mais lhe custava desculpar fosse aquele momento, logo no início, quando se debateu, fechou as pernas e disse, “NÃO FAÇAS ISSO”, a valente chapada na cara e aquela voz bagacenta a ordenar: “ESTÁ QUIETA!”
Está quieta...?
Como se não fosse dona do seu ser, do seu querer ou não querer.
Não se ajeitou, tão pouco lhe facilitou a coisa. Parvamente recorda quando, desesperada, olhou para cima e na escuridão do quarto viu o neon da luz do despertador e se recordou que teria de mudar a hora.
Depois...
Quando ele saiu para o toillete, rolou na cama e limpando as lágrimas com o pulso dorido, recuou a hora do despertador. Esboçou um sorriso tonto e tentou evadir-se para o campo ensolarado lilás da plantação de alfazema que havia na propriedade onde os pais trabalhavam na sua França enquanto apertava o relógio contra si. Foi a primeira vez que lhe ocorreu esse pensamento a que se agarrava até hoje: A hora do nada. Porque se não existira, logo, nada se passara!
Havia ocasiões em que ponderava e a culpa era dela. Era um dever conjugal a que se esquivava frequentemente quando o Ruben bebia e, verdade se diga, recusava muito. Não suportava aquele cheiro a entrar-lhe pelas narinas e a bloquear-lhe a líbido. Era mais fácil fingir que dormia e dormia muito.
Nunca falaram sobre aquela noite.
Ele solicitava e ela não se debatia. Assim. Função cumprida. Todos os dias.
Até que uma noite – daquelas em que Sandrine agora dormia mesmo muito com uns comprimidos que, entretanto, comprara – acordou e não o sentiu na cama a seu lado.
Nessa noite em vez de sentir alívio por ele não estar a seu lado... gelou.
As meninas.
Sorrateiramente foi espreitar o que podia estar a acontecer, mas um sonoro sopro anal vindo do toillete anunciou a localização de Ruben.
Entrou no quarto das meninas e foi beijar e aconchegar uma a uma no soninho descansado. Cheirinho a Alfazema. Perfumava-as sempre depois do banho antes de as deitar. E se... Não. NÃO!
Sabia que no bairro havia uma Associação de Imigrantes. Sabia que eram bastante activos com a população em perigo, não iriam negar ajuda a uma mãe com três filhas, como tinha conhecimento não negavam a ninguém. Uma vizinha cabo-verdiana perto dela andava a ser ajudava por esses senhores da associação, a outra família lá além também e percebia claramente tanto empenho e dedicação.
Deu duas voltas à chave do quarto das meninas e deitou-se na cama com a mais pequenita. Inspirou bem profundamente o ar impregnado de lavanda.
Não pensou no que tinha de comprar na mercearia na manhã seguinte: Mentalmente soube onde iria assim o sol amanhecesse. 


terça-feira, 12 de maio de 2020

A mal contada fábula da cigarra e da formiga

Na quarentena dei comigo a pensar na opinião que sempre tive acerca da forma como se conta a fábula da cigarra e da formiga. 
Povoámos a nossa mente com admiração, ao termos sempre escutado como a sofrida formiga acartava zelosa e diligentemente um respeitável peso para a sua fraca compleição, carregando dia e noite as provisões para o seu formigueiro, servindo abnegadamente a comunidade.
Em contraponto, sempre nos foi incutido um certo desdém pela conduta boémia da cigarra que preguiçando pelos prados cantava dia e noite.
Uma das recordações mais antigas de raciocínio em tenra infância que tenho, prende-se com esta fábula.
Observante dos bichinhos que me rodeavam e com a imaginação sedenta de histórias, guardo a lembrança das quentes noites de Agosto, a tentar conciliar o sono, deleitando-me a escutar os sons da natureza, encantada com o estridular das cigarras a cortar o silêncio profundo e a embalar os meus sonhos. Eram as minhas cantoras favoritas! Talvez por isso nunca compreendia o final daquela história em que só a formiga era louvada pelo seu árduo trabalho.
Hoje compreendo. Fui educada numa família que valorizava as artes. Tive o privilégio de crescer rodeada de livros que o meu pai me incentivava a ler, ao som de discos de vinil que pavimentaram a minha vida, ou o deslumbramento sentido da primeira vez que a minha mãe me levou à Gulbenkian assistir ao bailado Quebra-nozes. Esta infância criativa marcou indelevelmente a minha personalidade. Penso mesmo que os teatrinhos que encenava para toda a embevecida família, foram certamente as primeiras histórias que criei, tão pequenina, imaginando-as ainda antes de as saber escrever!
Outro dia perguntaram-me o que quis ser em miúda quando crescesse. Depois dos sonhos infantis de bailarina e veterinária, eu sempre quis escrever. No entanto, já adulta, sempre que escrevi tive outros empregos paralelos para poder pagar contas.
Sempre considerei que o trabalho árduo da cigarra tem tanto valor quando o da formiga. Quantas vezes os artistas são intitulados de sonhadores, no entanto, sabem respirar fundo, descer à terra e têm outros e diferentes sofridos empregos para se sustentarem e poderem alimentar os seus sonhos. É uma dicotomia difícil de ser explicada ou conciliada.

Se há lição que escuto dizerem deste tempo que todos tivemos de nos confinar em quarentena é que nos teria sido incomensuravelmente mais complicado se não tivéssemos acesso a um livro que nos fez sair de casa sem sair do sofá, escutado uma música que nos fez dançar sozinhos, assistido a um filme que balançou as nossas emoções e que nos fez rir, chorar.
Impedidos de formigar para os nossos empregos vimos à nossa volta tanta criatividade cigarrear - do vídeo engraçado na internet ao pão no forno.

O poeta brasileiro José Paulo Paes sempre foi um apaixonado pelos livros. 
Após ter estudado química e trabalhado durante anos num laboratório farmacêutico, um dia resolveu escrever poesia, inicialmente para adultos, só depois para crianças. Ao abandonar a rigidez da química  nos 25 anos seguintes entregou a sua alma à edição de livros e traduções. Esqueceu-se de formigar pela química e entregou-se à magia de cigarrear pela poesia infantil, aprendeu a brincar com as palavras e escreveu um mundo maravilhoso para as crianças viverem. 

"Enquanto a formiga 
Carrega a comida 
Para o formigueiro, 
A cigarra canta, 
Canta o dia inteiro. 

 A formiga é só trabalho. 
A cigarra é só cantiga. 

 Mas sem a cantiga 
da cigarra 
que distrai da fadiga, 
seria uma barra 
o trabalho da formiga."
José Paulo Paes

Se "A Cigarra e a Formiga" é uma das fábulas atribuídas a Esopo na Grécia antiga ("O Gafanhoto e Formiga" no original) e só veio a ser popularizada mais tarde pelo francês Jean de La Fontaine, eu penso que em 1989 o poeta José Paulo Paes trouxe-a finalmente à sua verdadeira dimensão: a união, a compreensão, a aceitação e o respeito pela diferença do labor do outro. 
Afinal todos são especializados, todos são fruto de muito empenho, de horas incalculáveis de dedicação ao seu trabalho, seja ele manual, intelectual ou artístico. 
Formigas e cigarras de mãos dadas entreajudando-se na esperança de um mundo melhor. Talvez, assim - talvez só assim - se possa cumprir o jargão estafado que tanto se ouviu na quarentena de que vamos todos ficar bem. 



quarta-feira, 25 de abril de 2018

Onde é que você estava no 25 de Abril?

Hoje, e porque celebramos o dia 25 de Abril de 1974 e a liberdade que nos trouxe à nossa vida, apetece-me partilhar o início do meu novo livro, chamemos-lhe capítulo zero ou prólogo, porque descrevo justamente este dia e de como uma menina do liceu chamada Alice o percepcionou. 
No dia 23 de Abril, dia do livro, deixei que os leitores espreitassem pelo buraco da fechadura, e lessem algumas palavras do começo do meu novo livro, e hoje, porque tenho a liberdade como autora de mostrar mais do que seria suposto ou politicamente aceitável ou até correcto, faço-o, apenas porque me apetece e celebrando a liberdade de o poder fazer.


Também porque ao descrever as emoções, sensações e pensamentos de uma menina do liceu, abro uma janela às novas gerações que nem conhecem a carismática pergunta de Baptista Bastos, criada numa personagem de Herman José que o retratava, no programa de humor em 1997, o Herman Enciclopédia:
Onde é que você estava no 25 de Abril?


 Esta pergunta de Baptista Bastos (a personagem de Herman José) teve tanto impacto que o escritor, na vida real, acabou por fazer uma série de entrevistas em que colocava esta questão aos seus convidados. E a frase ficou. Hoje os jovens conhecem-na, mas não sabem esta origem. Tão pouco a perguntam, porque a resposta seria: "se nem era nascido..."

Apeteceu-me começar este novo livro, respondendo a essa questão: onde Alice estava no 25 de Abril de 1974?

Pelo novo livro e sua história, os meus queridos leitores terão de esperar o seu momento.
Até breve!


Prólogo
A Malta do Liceu

Alice tinha quase 19 anos quando se deu o 25 de Abril de 1974 e lembrava-se perfeitamente do local onde se encontrava, o que estava a fazer.
Naquela madrugada o telefone ressoou pela casa adormecida. Alice prontamente saltou da sua cama e correu para a saleta, rumo ao aparelho destemperado atendendo a chamada telefónica, estranhando em primeiro lugar a hora matutina e depois o tom sombrio, quase enigmático, com que o pai, uma vez chamado, respondia ao amigo do outro lado do fio.
Nem as meninas foram à escola - a mãe conduziu-as para os seus bordados - nem o pai saiu para o emprego. Ficaram recolhidos naquela manhã a ouvir baixinho na telefonia o que só mais tarde entenderia como o fim de uma era. Os quatro em silêncio, apenas quebrado quando a sua irmã se picou ou com o continuado calcar dos dentes paternos na ebonite da boquilha do seu cachimbo mordiscado.
Recordava-se de outra curta ligação telefónica, do pai num breve movimento a fazer-lhe sinal que se levantasse e fosse ligar de imediato o aparelho de televisão, de esperarem, a contarem os segundos no relógio Omega que o ecrã do televisor mostrava até aparecer a imagem do Fernando Balsinha, muito compenetrado do seu papel de anunciar aos espectadores do seu país que, naquela tarde e a partir daquele momento, a rede emissora da Rádio Televisão Portuguesa estava totalmente controlada pelo Movimento das Forças Armadas.
Outra chamada telefónica, de um tio a perguntar como estavam com a situação em Lisboa, se estavam todos a salvo, que soube quando os cachopos foram ter com ele ao trabalho e o alertaram, estavam normalmente na telescola e mandaram-nos para casa, visto que a emissão fora tomada.
Alice não se recorda muito bem do que o Fialho Gouveia leu na emissão especial do telejornal, não entendeu porque proclamavam à nação o propósito de salvação do país, ainda menos entendeu a necessidade de o libertar de um regime que há longos anos o oprimia. Oprimia? Regime? Na verdade, Alice distraída do seu bordado, fixou-se no diálogo que estranhou aos seus pais: a mãe a ordenar que as meninas se recolhessem de imediato ao quarto, ainda no relógio Omega passavam os segundos na imagem do televisor, e o pai a sobrepor a sua posição, afirmando que deveriam ficar na sala. Alice não entendeu a mudança repentina: iam permitir-se ter conversas de adultos frente às duas filhas? Nunca o haviam feito! Ficaram, mas desabituadas de tanta circunstância a que foram a vida inteira protegidas, entreolhavam-se, não compreendiam o que eram os acontecimentos revolucionários que os dois locutores liam uma e outra vez. Alice lembrava-se de reparar que estariam algo nervosos, enquanto Fernando Balsinha lia as notícias, Fialho Gouveia fumava ininterruptamente.
No final, Alice recordava-se, para além da Sinfonia nº 3 de Beethoven, que reteve daquelas horas iniciais um nervosismo desconhecido, tanto em casa observando os pais como percepcionando-o nos locutores, e de que esse estado de espírito ter ido dando lugar a uma felicidade que não teve capacidade de assimilar qual a sua origem mas que com facilidade se deixou contagiar.
Recordava a estranheza que sentiu quando o pai, contrariando o aviso que os locutores repetiam, saiu para a rua, admirou-se que a senhora sua mãe cantarolasse “E depois do Adeus” do Paulo de Carvalho, cantor pelo qual em casa não nutriam particular simpatia, que o Fialho Gouveia largasse o cigarro e a cada actualização que lhe entregavam, lesse com maior enfâse, até ao empolgamento final com que agradeceu a fineza de trato que o movimento cuidou ter para com todos, desde o primeiro momento que ocupou a estação televisiva.
Recordava-se exactamente da cor que trabalhava no bordado que fazia naquele dia 25 de Abril, mais pela peculiaridade do dia do que pelo seu significado já que a sua ingenuidade não a deixava entender.

Da candura e estranheza, a deixar-se mergulhar na nova época que esse dia anunciou, foi uma mudança demasiado rápida e fácil: ninguém a preparou para a abrupta passagem da rigidez na educação paterna e absolutas regras escolares darem lugar a uma quase vulgaridade de normas valores e costumes que, dançando e cantando, de braço no ar revolucionando o que nem compreendia, embarcou.
Alice, mais afoita que a comedida irmã, queria experimentar, tomar o pulso a tudo, receosa que a liberdade tivesse chegado com breve prazo de validade e tivesse de voltar ao recato do seu bordado.
No liceu havia muitas reuniões gerais de alunos, as R.G.A., que foram ganhando notoriedade entre a população estudantil, foi havendo mais movimentações politizadas e consequentemente quebras na rotina, muitos momentos sem aulas e essa ociosidade foi uma das novidades que mais a atraía. Reuniam-se na pastelaria à frente do liceu, amiúde começou a beber café e, mais por osmose que por convicção, também a fumar como os colegas. Daí foi alargando as saídas do liceu em horário escolar que cada vez era mais caótico, primeiro para os passeios em grupo pela avenida da Igreja, com as obrigatórias idas aos gelados Itália, depois para o jardim do Campo Grande andarem de barco a remos com os irmãos das colegas, também desocupados, e nos dias quentes todos juntos em grandes grupos para as praias da linha do Estoril, faltando deliberadamente às aulas seguintes.
As saídas nocturas surgiram naturalmente com a nova vaga educacional que os pais queriam acompanhar: permitiam-nas desde que as duas filhas fossem juntas. Embora a irmã preferisse ambientes mais reservados, acompanhava Alice levando consigo um livro e distanciava-se das escolhas cada vez mais audazes que via a irmã fazer. Rapazes, drogas, álcool.
Um final de tarde na Marginal teve um desfecho inesperado.
Vinham de mais um ensolarado dia de praia daquele Verão quente.
A irmã viu Alice, que ia à pendura na Zundapp amarela à frente do Mehari onde seguia, ser projectada após um embate palerma com um DS. O rapaz que ia ao volante já havia comentado que o colega não deveria estar a conduzir depois do que tinha consumido, ainda para mais de duas rodas. Quem é que não vê um boca de sapo aproximar? Aconteceu. Pararam, socorreram, esperaram a ambulância, seguiram até ao hospital, esperaram. Alice pediu à irmã segredo, nada contarem aos pais.
O que Alice não esperava era que o segredo fosse maior que ela.
Nem à irmã contou.
Uma médica abeirou-se inquirindo:
- Quem a está a acompanhar?
- A minha irmã.
- A senhora deseja que mande chamar o seu marido?
- Marido? Eu sou solteira.
- Compreendo, menina então. Lamento profundamente, mas devo informá-la que perdeu os seus bebés.
- Que bebés? Do que fala?
- A menina não tinha conhecimento do seu estado?
- Que estado, senhora doutora?
- Devo chamar a sua irmã?
- De maneira nenhuma! Explique só a mim, de que fala? Eu estou grávida??
- Estava.
- Gémeos…? Grávida, eu??
- Sim. Dois meninos. Lamento informá-la assim nestas condições.
A médica sentou-se na beirada da cama e segurou-lhe a mão. Alice respirou fundo e levantou o olhar:
- Doutora… não chame a minha irmã, por favor, não diga nada!

Alice saiu do hospital em silêncio. A irmã e os colegas felicitavam-na, que sorte tivera por escapar só com arranhões, o amigo deles tinha a perna partida e o condutor do boca de sapo ficara internado em observação.
Sim, que sorte. 







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