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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A minha carica Bock

Olá Alex,
Não te conhecia. Escreveste-me um dia uma mensagem com a pior notícia que me poderias dar. O teu irmão Simão, esse sim, meu amigo querido havia partido. Assim, do nada, caiu e foi.
Hoje escrevo-te eu. Queria contar-te uma coisa: A carica da Bock está no meu porta-moedas, Alex. O Simão continua a acompanhar-me a cada dia da minha vida. É uma amigo que não vou esquecer nunca.


Ficámos amigos Alex. Primeiro pelo Simão e depois por nós mesmos. Descobri que em Amarante o meu Pedrinho e eu temos uma família, e isso........ 
A seguir à partida do teu irmão, contactas-te não só a mim, mas aos amigos em geral, tocaste certamente cada um em particular, eu sei, estou a usar a frase do Simão, mas na verdade tu, Alex, fizeste a diferença. O Simão não caiu simplesmente na calçada e morreu. Tu levantaste-o e trouxeste-o de novo até ao seio dos seus amigos, hoje teus amigos, asseguro-te. Criaste uma campanha enorme de amor, de alegria, de bondade, da forma como o Simão nos acostumou com aquele sorriso lindo no olhar, com a palavra carinhosa e malandra como só ele sabia ter. 
A Bondade, uma das características do teu irmão Simão, fez-nos amigos. Ele trabalhava em França com jovens e adultos com diferença e conduzia-os a ter uma vida profissional e social. Era para mim um sonho poder existir em Portugal essa oportunidade, aliciei-o muitas vezes em voltar à sua terra e fazê-lo cá... falei nisso até ao 44, lembras-te? 
A tua ideia para a campanha Mais Uma Bock com o Simão foi sempre muito simples: reunir os amigos e de bjeca na mão, bebermos uma pelo Simão. Simples. O que tornou a campanha grande foi ter tantooooooos amigos! Todos foram mandando foto do seu momento em particular e a coisa deu-se!! De todos os cantos do mundo... a net tem destas coisas bonitas, e uniu amigos dos amigos que por definição amigos ficaram. Não é verdade, Ema? 
Alex, sabes que o Simão foi um amigo muito importante para o meu Pedrinho. Sabes... porque te contei, contei ao mundo! Escrevi sobre o #SimãoC um post emocionado (podem reler aqui), não queria acreditar que Deus nos pregasse essa partida e nos roubasse o Simão... 
O meu Pedro ficou muito emocionado com a morte do amigo. Sim ele entende o que é vida e morte, sabe o significado da palavra saudade e sabe o que é ser amigo. Quis fazer parte da tua campanha e isso foi tão bonito!! Tirou uma foto da minha bock com um carrinho seu. Os autistas têm uma forma engraçada de ver a vida, digo engraçada, porque além de usarem de uma maior lógica, juntam-lhe uma boa dose de poesia que nós, os ditos normais passamos por cima como tractores e nem nos damos conta que os "diferentes" somos nós. O Pedro adora carros, é a sua "fascinação" (todos os autistas têm uma) e a base da sua forma de comunicar. Então que melhor forma de representar o próprio Simão se não a de usar o seu carrinho 2CV ? Para nós é apenas um brinquedo? Não. Representa o "Paris de França", representa o azulinho da amizade de ambos, representa o seu amigo Simão no Céu. Comoveu-me tanto... mais tarde pegou na minha carica e fez este desenho. Juntou um outro nosso grande, grande amigo, o Henrique que partiu e candidamente escreveu: "Até sempre aos dois".
Alex, eu guardei a minha carica, sabes? Não foi a da Bock que bebi, não foi. Saí do café muito emocionada nesse dia e, caminhando tropecei em algo. Limpei as lágrimas e não podia acreditar. Eu tropecei numa carica de super bock. Chorei tanto. O malandro do Simão estava ali comigo... Apanhei a carica e fechei-a na mão. Não consegui largá-la e simplesmente guardei-a no meu porta-moedas. Acompanha-me desde então, sabias? Incomoda-me. Porque me pica, quando distraída tiro alguma moeda. Ela pica-me, arranha-me, mas sou incapaz de a deitar fora. Antes, a cada momento que a malandra se faz sentir, eu respondo mentalmente: Bom dia a todos e a ti, Simão, em particular! ou então sorrio e penso: e olha para frente senão cais... 
Obrigada Alex!
Toma lá mais uma, como aqui, tu e o teu irmão juntos.



sábado, 17 de janeiro de 2015

Mamã


32 anos hoje. 
Saudade sim. Do que não vivemos. Do que não viste. Tens quatro netos, sabias? Desconfio que sim. Eu senti-te por perto, tantas, muitas vezes.
Trinta anos, demorei a fazer o luto. Demoraste em mim. Só foste quando me sentiste bem. Obrigada por teres ficado quando perdi o fulgor.
Sabes? Sabes. Amo-te.
Até depois.




domingo, 4 de maio de 2014

Dia da Mãe

Dia difícil para quem não tem mãe, não tem avó e todas as minhas referências maternais se diluíram no tempo e no espaço que a desabrida saudade alberga. 
Mas a vida, a dor, ensinaram-me, devagarinho que se consegue manter a cabeça à tona, reinventando a família perdida em outros novos relacionamentos que se investe e dá seus frutos. Diz o povo que os Amigos são a família que escolhemos, e tenho muito presente cada pessoa que tem passado pela minha vida e o papel que desempenha ou desempenhou. Quem como eu vive com o autismo tão presente, sabe como sua permanência - que deveria ser perene - é terrivelmente perecível, e eu, aprendi simplesmente a usufruir do momento que uno é capaz de se dar. 
O Dia da Mãe, tal como seria suposto ser celebrado, não existe na minha vida. E se durante anos lutei contra a falta da minha, chegou um dia a altura na vida de ser Mãe, mas ainda assim, como sabemos, foi tudo ao lado.

Uma vez só na vida, uma amiga grávida ao invés de se distanciar, desejou ter um filho como o meu Pedro. Foi um momento abençoado que a doce Mel Sanroman me deu, sem saber o imenso valor que teria para mim, jamais vou esquecer... escrevi essa história num post quasi-intimista, e podem ler aqui

Um ano só na vida, tive um dominical dia da Mãe "como seria suposto" ser celebrado: o meu querido amigo Henrique, num rapto consentido, proporcionou-nos esse dia especial. Recordo que refilei o tempo todo, seria algo postiço e sem valor, mas fez-me ver o contrário: ainda hoje guardo os presentes que deu ao Pedro para me oferecer nesse dia, com maior carinho que os de outros anos, guardo a memória do passeio, da conversa, do que me disse - e sim, foi definitivamente especial, único. 
Então este ano quero dedicar este dia a uma mãe e uma filha, como poderia ser eu e minha mãe. A amizade que tenho com a Lelê Guedes é igualmente única, sem explicação, somos ambas pessoas muito intensas na forma de sentir o sentido da vida, seremos irmãs ou mãe uma da outra, o que lhe quiserem chamar. Hoje, dar-lhe nome, não tem qualquer importância. Mas a razão de hoje, a minha comemoração com o meu doce Pedro ser partilhada com as duas, é apenas por a relação que ambas têm, poder ter sido a minha e de minha Mãe. 
Exactamente por não ser comemorado no mesmo domingo, a Bia e a Lelê vão assim ganhar um dia extra nas suas vidas de Mãe e Filha, dos muitos Dias da Mãe, que ainda vão viver e comemorar nas suas doces vidas.
Feliz dia da Mãe, desta feita oferecido de coração, minhas queridas Bia e Lelê Guedes!


sábado, 11 de agosto de 2012

SAUDADE II

Há quem nos deixe, com a sua partida, uma tristeza impossível de ser aferida, moldada, compartimentada, sarada. E fica  imensa saudade do que ficou por dizer, fazer, viver.


Trovante - Saudade

 

Saudade
Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

Chegou hoje no correio a notícia
É preciso avisar por esses povos
Que turbulências e ventos se aproximam
Ahhh, cuidado...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

Foi chão que deu uvas, alguém disse
Umas porém colhe-se o trigo, faz-se o pão
E se ouvimos os contos de um tinto velho
Ahhh, bebemos a saudade...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

E vem o dia em que dobramos os nossos cabos
Da Roca a S. Vicente em Boa Esperança
E de poder vaguear com as ondas
Ahhh, saudades do futuro...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

SAUDADE I

este meu texto é especial publico-o aqui hoje, porque sim. 
To Mum - Wish You Were Here

por Ana Martins

Gal Costa & Maria Bethanea
Oração da minha mãe Meninnha


Queria poder ir às compras, almoçar, telefonar, discutir, chorar e rir.

Quisera poder abraçar uma vez mais que fosse, de tantos abraços deslaçados, evitados, perdidos. Perdidos.

Quisera poder contar segredos, partilhar diabruras e desfrutar momentos bons, maus, todos...

Queria não ter de o pedir a cada dia do ano.

Queria tanto que esta dor fosse, nos deixasse paz.

Quero o seu arroz doce, a carícia da sua mão perfeita pelo meu cabelo, ouvir o som da pulseira batucando pelo corrimão da escada e não correr feita tonta para cumprimentar somente a vizinha que chegava... queria rever o sorriso contido de menina nunca mulher, queria que tivesse visto como me tornei mulher, mãe também, queria demais que conhecesse o seu neto. É lindo, sabe? Uma pureza tão grande que me desconcertou, quis tanto a sua ajuda...

Queria que chegasse a avó, já não é só o meu... Tanto neto sem colinho da avó Isabel, sempre menina, nunca mulher, nunca avó.


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