terça-feira, 29 de setembro de 2015

Está escuro

Vim cá para fora telefonar. Está um frio húmido, tenho roupa suficiente e ainda assim gelo. Vou para o carro e faço a chamada. Temos falado sempre a correr, mas hoje preciso contar-lhe. 
Eu vejo-os. 
Estamos num armazém ou antigo stand de carros em que a parte de cima é um hotel improvisado, à volta os campos estão cultivados, árvores ao fundo, a terra é bonita, penso, enquanto enrolo um cigarro. Anoiteceu e o frio é imenso. Fecho o casaco com um arrepio. Mesmo com o lume momentâneo de acender o cigarro, constato como se pôs tão escuro.
É quando as sombras mais melancólicas os encobrem. Estão por todo o lado, sabes? Ali, debaixo daquela árvore desalumiada. Será que estão abrigados da inclemente chuva?, é tão intensa e fria, muito fria. Cabisbaixos, cobertos com uma manta sem ser impermeável, estará encharcada certamente, e sob o esmagador peso da morrinha contínua, como podem estar agasalhados naquela escuridão? Mais além, vejo-os ensopados, enregelados, entorpecidos, enlaçados. Acolá, com crianças ao colo avançam em silêncio, os pés a enterrarem-se na lama pisoteada dos campos outrora cultivados. Tropeçam, caem, rastejam, reerguem-se. Sinto-os, descalços a avançarem, e o frio? É terrível, nem no nosso Inverno está frio como está hoje e nem Inverno é ainda! Vejo-os a arrastarem os poucos pertences que trouxeram, as mochilas com bens básicos que lhes deram lá atrás, toda a vida debaixo de um braço. E o frio húmido que me gela apesar da minha roupa polar, quente, seca, confortavelmente sentado ao volante do meu carro estacionado enquanto telefono. Temos de desligar, dentro de cinco segundos já vai para trinta euros, isto é horrivelmente caro, e incapaz de desligar, continuo. Semicerro o olhar para tentar vislumbrar no negrume da noite. Estão aqui, em todas as bermas, constato-o. Parece mesmo que os vejo, tão presentes estão por todos os recantos escuros. Aperto no peito que dói mais que a asma, não há remédio que alivie o que os meus olhos parecem ver emergir à minha volta, como a minha alma os sente. O som dos passos descompassados, ritmos e energias diferentes emergidas num deslaçar desconectado, olhares que percepciono esvaziados. Onde ficou o sonho? E contudo caminham. Vêem em cada fronteira o eldourado. Estugam o passo, afobam-se e o arame em rolos. Enlaçam mais o filho no colo. Porquê o arame?

Não tarda amanhece, vais ter um dia cheio de luz, lembra-me ela. E olha, vamos desligar, insiste, é muito dinheiro. Não consigo, deixa-me contar-te, digo. E escreve, peço-lhe. Escrevo sim, diz, vou ser os teus olhos, a tua voz, o teu coração, garante-me. Em breve amanhece, reafirma, vão ter um dia bom!

Se quiser e puder, ajude nos custos da viagem do carro do Pedro Lapa pelo
NIB 0035 0836 0069 2517 3302 6 
Grata e bem hajam!!! 


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Vera, a co-piloto de Aveiro

Todos  os que estávamos na quinta-feira de madrugada no grupo de facebook Famílias como as nossas assistimos ao momento em que o Pedro Lapa deixou em aberto o lugar de co-piloto, porque ele, o condutor no carro que viria de Aveiro, pretendia fazer a viagem com companhia. Já o afirmei, queria mesmo muito ter sido eu. Fiquei, e decidimos que escreveria. 
Uma amiga comum sugeriu no grupo o contacto da Vera Valério Batista (também é de Aveiro), queria ir como voluntária, que o iria contactar, mas nesse preciso momento (para quem estava em directo online não tinha como saber), já se tinham adicionado e nessa altura já estavam os dois a conversar no chat a combinar a ida no dia seguinte. Simples, do nada. O Pedro anuncia no grupo que já tinha co-piloto. E foram. Já sabem: é para ajudar, é pelas pessoas.  

A Vera é enfermeira. Chegou cheia de sacos e embalagens. Medicamentos e material que poderia vir a ser necessário. Pensou em tudo, em muitos cenários. Simples, prática e sorridente. 
Uma amiga da Vera também foi ao jardim de Belém despedir-se, levou sacos de bens essenciais e também uma echarpe e um anel de talismã. 
O Pedro explicou-lhes que eu iria escrever sobre a viagem, que usaria as fotos e a amiga da Vera escolheu manter-se anónima, pelo que lhe assegurei recorrer ao efeito de mosaico no rosto. Já depois dessas fotos, na boa onda da brincadeira que se instalou, tiramos também a foto oficial de 'não dar a cara'.




Logo na viagem de Aveiro para Lisboa a Vera assegurou o volante e o Pedro arrochou. Fiquei muito grata. O Pedro no afã dos mil preparativos da viagem e de deixar planeado refeições e toda a logística para o bem estar da família, mal dormira. E não foi só isso... o papel de uma co-piloto num carro sem GPS nem net no estrangeiro é bastante importante, fundamental! E depois a Vera é naturalmente simpática, conversadora e a longa viagem ficou muito mais animada quando se partilha, se canta e até se dança!! 


Em Madrid entrou mais uma pessoa para o carro que veio de Aveiro. Três a bordo, o mesmo propósito: ajudar quem nada tem. 
Foi um fim-de-semana duro, mal dormido, imensos quilómetros e muitas mais decisões a tomar. 










Segunda-feira já acordam em Liubliana, na Eslovénia. Tudo está em cima da mesa. O dia começa, os contactos estabelecem-se e todos nós de olhos postos nestas famílias como as nossas. Sabemos que farão o melhor!
Vera... obrigada por tudo minha querida!!

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domingo, 27 de setembro de 2015

Paris pode esperar

Assim é o Pedro Lapa.
Há anos que as meninas pedem para ir a Paris e Londres, talvez por conta dos livros e filmes que vêem, mas a vida não dá para isso, não dá para tantas solicitações e umas vão sendo preteridas, outras escolhidas, vividas intensamente, saboreadas até à última migalha. São três as meninas, três filhas maravilhosas que o amam e têm tanto por onde se sentirem gratas e orgulhosas do pai que têm.
Ainda outro dia, num jantar de amigos surgiu um apelativo convite, uma viagem, passear, férias. Confidenciava-me: "Mas se não consigo viajar sem elas...!" em cada acção da sua vida este pai põe as suas filhas na frente. "As meninas ainda não andaram de avião e agora vou eu...?" de cada vez que serve a refeição que cozinhou, este pai comove-me com um gesto que não via deste a infância. a minha avó Rosa fazia-o e nunca mais vi ninguém fazer. até ao Pedro. este pai sempre põe mais quantidade de comida nos pratos das filhas que no seu próprio. "Então eu não vou com as cachopas a Paris nem a Londres e vou acudir as pessoas que precisam?" e foi.
Sim, este é o Pedro.

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