sexta-feira, 25 de setembro de 2015

É pelas pessoas

Todos lemos a notícia sobre dois pais de família portugueses, Nuno Félix e Pedro Policarpo, que vão à Croácia buscar refugiados. Um acto isolado? É antes uma onda de amor, de franca solidariedade que se gera em torno desta iniciativa destes dois amigos. 
Sentimos nas redes sociais as pessoas 'fervilhantes' que se movimentam, que querem participar, ajudar. 
Agasalhos? Sim, vai ser necessário. Mantimentos? Certamente. 
E pergunto: dois pais de família? 
Só agora, vamos saber de facto quantos carros particulares vão alinhar no ponto de partida, em Belém,  ao lado dos dois monovolumes que nessa semana, ao invés de levarem os seus filhos à escola, irão buscar famílias, crianças que mais que escola, precisam de uma vida - precisam de paz, precisam de brincar e sorrir como todos nós mães e pais almejamos para os nossos filhos. Porque foi com base neste pressuposto que estes dois amigos iniciam esta viagem: vamos lá buscá-los, porque são famílias como nós.
Vão ser mais de dois carros, mais de duas famílias de refugiados ajudados. 
Pedro Lapa, um outro pai de família, leu sobre a viagem e imediatamente se mexeu: entrou em contacto com os dois amigos, saiu de Aveiro para se reunir à caravana em Lisboa. 
"É pelas pessoas" disse-me assertivamente, enquanto falávamos já sobre a viagem. Parámos quando recordei que ainda no Verão o Pedro me disse: "vou ao norte de Itália buscar pessoas". Parei ao tentar avaliar a diferença que teria feito à tal uma família que permaneceu tantos dias de sofrimento a mais. E o Pedro parou-me de pensar no que ficou por fazer, mostrando-me simplesmente o que se faz. E o Pedro vai buscar essa uma família a quem a sua dádiva de amor incondicional pelo próximo o faz ser como é, e o que o move faz acontecer: a uma família a quem vai fazer a diferença de uns dias que sejam, de um só pesar evitado, menos uma lágrima por verter, é um abraço, uma chávena de sopa quente, um cinto de segurança no carro, um país soalheiro e hospitaleiro para os acolher. "É pelas pessoas, Ana"
Eu quero muito ir, ajudar porque sim. Não podendo, escrevo. E vou escrever.
Esta onda de amor ultrapassou barreiras e fronteiras e estes dois amigos, Nuno Félix e Pedro Policarpo, gostam de frisar que nada pediram, apenas vão porque o coração assim mandou. Sem mais.
Graciosamente acolheram de braços abertos quem quer de igual forma ir para trazer mais uma família aproveitando a máxima que esta união fortalece o intento inicial.
Têm o especial cuidado de responsabilizar cada condutor que os acompanhe na caravana que foi surgindo, sublinhando que cada um é responsável pela sua viatura, pelas despesas inerentes, pelas pessoas que trarão na viagem de regresso, pela sua alimentação e bem estar.
Pedro Lapa já chega a Belém com doações de pessoas solidárias de Aveiro - agasalhos, alimentos - e também de coração pleno, consciente que só poderá trazer uma família com os respectivos filhos, mas que para essas pessoas, estas pessoas que daqui partem, fazem toda a diferença.

Se quiser e puder, ajude nos custos da viagem do carro do Pedro Lapa pelo
NIB 0035 0836 0069 2517 3302 6



sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Por ti

O que já fizeste por ti hoje?
Cada dia é único, o hoje nasce ao virar de um ponteiro maroto sem anunciar o amanhã, e já pensaste no porquê? Simplesmente porque essa noção é inexistente, só o hoje conta, cantas isso na música do poeta, mas ao fazê-lo de forma automática, nem te dás conta o que te encanta a alma. O cliché repetido em bonitas imagens facebookianas e que partilhas sem verdadeiramente pensares, chama ao hoje como? Exacto! Chama-o de presente!!
Que seja um presente divino, ou de forma mais palpável, um que te é posto nas mãos a cada dia que acordas, que desembrulhas ao esfregar os olhos, que escolhes usufruir ou deixar ir.  
Se o deixares ir, permites que desande. Escorre-te por entre os dedos, possibilidades que guardas no ontem, na gaveta do por fazer. 
Amanhã? Será um novo alvorecer, novo esfregar de olhos e presente novo nas tuas mãos, e se comprometeste o anterior abrindo a gaveta dos não feitos, vais lá colocar mais lastro? Porque em algum momento espreitas por cima do ombro e melhor que ninguém sabes no que (não) mexeste. 
No final do dia, quando lavas os pés da longa por vezes dura caminhada, sorris sabendo que esses passos te levam onde queres estar. 
A cada dia as passadas encurtam, as gavetas arrumadas serenam-te, o sorrir mais leve, o reflexo do olhar mais puro. 
És tu. Sabias? Tu és capaz. Só tu e por ti deves avançar no sentido do teu equilíbrio interior. A harmonia que sentes é uma conquista tua. Aproveita-a em pleno. 
Faz o teu dia de hoje ainda mais vibrante. Dança, envolve-te com a vida em mil tons de arco-íris, em mil cores que te sorriem. 







quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Felicidade é...




«Aqui ao luar, 
Ao pé de ti, 
Ao pé do mar» 




Se só o sonho fica, se só a ele te podes entregar?
Vives nos bastidores da tua vida?, és uma espectadora ou a protagonista? 
(vai Ana, usa esse teclado maluco e escreve)
Escrevi há muito tempo no meu livro Evo sobre «Ser Feliz» e nessa altura tinha a convicção de que "a Felicidade é constituída por breves momentos." Disse-o, escrevi-o. Hoje posiciono-me de uma forma diferente: levantei-me do cadeirão confortável em que me aninhava, e já num outro ângulo, olhar a vida passar deixou de ser o foco que inconscientemente assumi, e escolho não me entregar mais na fantasia de um sonho, mas nos braços de uma doce realidade.
(vai Ana, abre essas asas e voa)
Viver é uma experiência mágica, dou-me conta a cada dia. E o que damos valor a cada momento?
Um passarinho que canta tão bem (ou muitos), amo em especial no final de Inverno quando a madrugada é rasgada pelo cantar dos afoitos que apressam a entrada da Primavera.
Encanto-me quando uma nortada me trás até casa o prazer irresistível do fresco da maresia a inundar-me as narinas até à alma, e eu moro longe do mar, quem diria chegava até mim?
Olhares, sorrisos, conversas, pedaços de tempo partilhados com os nossos amigos, pessoas que amamos e nos amam, gestos que o demonstram mais que palavras afirmadas, abraços apertados inesquecíveis mais poderosos que promessas sussurradas ou gestos previsivelmente comandados.
Todos estes momentos ou outros que povoam a mente de cada um são especiais, mágicos e irrepetíveis, mas são isso mesmo: momentos. Hoje apesar do todo mágico que ainda me rodeia, eu quero mais!
Fomos formatados em crianças, condicionados por uma castradora educação judaico-cristã a acreditar na culpa como o complemento das nossas horas sombrias. Ao longo da vida, de uma forma mais ou menos veemente, cada um de nós vai levantando amarras aqui e ali e liberta-se de dogmas e preceitos adquiridos, mamados cedo. Há quem nem almeje a mais e isso estará certo para cada ser que escolhe assim viver e não só se acomodam, como nidificam nesse viver que lhes é aprazível. Para os insaciáveis a coisa torna-se mais densa porque o limite está além do céu. O querer mais não é errado, é uma busca, um caminho (ou muitos) percorrido num sentido (ou noutros), que comparo a em criança e como gostava de trepar às árvores: os pés bem firmes na subida primeiro rápida, depois as mãos segurando e puxando essa elevação do corpo e logo a busca por cada tronco mais forte que os galhos ali ao lado, escolhas de caminhos mais seguros, desistência de percorrer aquele recanto cujo galho te parece instável, ou porque esse caminho tem um horizonte desinteressante e sobes e trepas mais alto, mais apelativo, mais acima a segurança compromete-se e o sonho brilha em cada pontilhado de luz entre as folhas já menos frondosas e a escolha aguçada de cada tronco a que te agarras fica mais criteriosa, e se a segurança continua a ser fundamental, deixas-te levar pela abertura da vista, observas, olhas na outra direcção e continuas a escolher qual o caminho que mais te convém, ou simplesmente o que escolhes para te posicionares, escolhes até onde queres ir, como queres lá chegar e por quanto tempo pretendes ficar até caminhares noutro sentido. O teu sentido caminho.
Tenho vindo a descobrir que existem outros ramos de árvore que nunca avistei, e para um espírito inquieto, não desisto enquanto não os alcançar. Se são frágeis e perecíveis ao meu peso? Emagreço. Simples. Mas eu vou chegar lá, e antes que me dê conta, já me soergui do canto onde me acomodei e busco as mil maneiras de o alcançar.
"a Felicidade é constituída por breves momentos." Vejo diferente. São muitos momentos, deixam até de ser momentos para ser um estado de alma, de disposição para abraçar o todo que se nos apresenta lá no topo da árvore. Porque hei-de admirar apenas um ângulo da visão que se me oferece, quando há tantos cantos e recantos especiais que encontro? Porque não colectá-los a todos? Podemos, sabia? Todos. E os momentos felizes estendem-se a realidades. E saem do grilhão que nos aprisiona os sonhos. Nem só o sonho fica, nem só ele pode ficar, apenas porque cada um de nós quer mais. E sim, esse lado adormecido desperta, a felicidade aterra, e o protagonismo dá-se para cada um de nós.




sexta-feira, 31 de julho de 2015

os perfeitinhos do séc. XXI

Diga-me: começa o dia a sorrir para uma nova manhã ou a correr para a balança à espera do milagre matutino? Pela sua saúde, tenha juízo! 
Existem balzaquianas gorduchinhas, até nas personagens ficcionadas que povoam a nossa mente, como uma maravilhosa Bridget Jones, a sentimentalona desastrada (isto quando a actriz Renée Zellweger tinha cara e corpo de Bridget) ou uma bem desenhada Princesa Fiona que escolhe ser feia, gorda (e verde!) contrariamente aos cânones de beleza vigente, e contudo é linda! Então entre tantas das muitas mulheres com corpos pouco danone, respeito as que desrespeitam as regras, as que quebram o padrão, as que são como são, o que as torna (a meu ver) nas verdadeiras wonder woman deste século.

Porque motivo ser-se magrinha é bonitinho, ou até sinónimo de elegância? Não sabe? Pasme-se com a resposta: porque dá trabalho.

Explico: Se em tempos idos ter acesso a alimentação variada e em abundância tinha uma conotação de status (apenas para alguns privilegiados), quando o reverso da moeda (passar fome) era o espectável, então nessa época ter-se um aspecto nutrido era difícil e considerado o supra sumo da batata frita. 
Hoje é o contrário. Com toda a revolução industrial e industrializada, ficou fácil, temos à disposição uma panóplia fantástica de alimentos, do saudável ao hidrogenado. E cada um (ou uma) de nós é uno nas suas escolhas alimentares, nas que fazemos a cada momento, sejam as conscientes, sejam as da gula ou da palermice aguda. É aquela compulsão de comer uma batata frita seguida de outra, logo de outra, e não parar até às migalhas do fundinho. Apesar de não serem as opções mais correctas, empanturramo-nos - optamos com muita ligeireza pela facilidade do 'saciar', e já nem falo apenas de alimentação ou do cliché da falta de auto-estima ou ter muitos gatos: É o equilíbrio. E esse reside no âmago de cada um de nós. 
Hoje tem um peso demasiado exacerbado o peso que cada um tem. Eu? Voto no bem estar. Conseguir rondar esse bem estar, enroscar mente, alma e corpo numa harmonia que atingida não pode ser partilhada, antes sentida, faz com que ditames de revistas e imposições photoshopadas se reduzam à sua insignificância: se cada um (uma) se sente bem num 40, 42, porquê a guerrilha do 34, vá 36...? Excesso de peso?, ou excesso de zelo? Bom senso é que não é. E depois... 'Mente sã em corpo são' não é o slogan de um qualquer ginásio de moda, daqueles que a malta frequenta para bombar corpos saciando-se de modas, inflando biceps despropositados e egos megalómanos. 
E os postiços...? Ele é unhas, pestanas e cabelos quilométricos, ou maminhas e barriguitas de adolescente, tudo se compra, corta e alinhava. Tudo devidamente uniformizado para não escaparem ao modelito vigente. A originalidade é hoje um conceito esquisito. Ahhhhh, devem ser artistas... aí tudo cola convenientemente no figurino, não é? 
E os sorrisos??? Ceifam-se milhares de sorrisos únicos, com lábios assoprados por agulhinhas, aqueles sorrisos encantadores com um dente sobreposto ou outro tortinho que lhe conferia aquele ar engraçado, e essa unicidade perde para um pré-formatado sorriso pepsodent igualzinho a todos os outros que foram manietados com araminhos e elásticos.
Saciar o insaciável. Descartar o descartável. E logo a batata frita seguinte. Vive-se de um ideal que passamos nas redes sociais como uma realidade maximizada enquanto se esconde na sombra do tamanho desse perfil criado e alimentado a pão-de-ló.
São as linhas de conduta que os nossos dias exigem, ou melhor dizendo, escolhas que fazemos em função de metas que nos são propostas de forma subliminar, em nome de uma satisfação despida e imediatista.


Difícil, difícil? É vestir um 34, vá 32. Difícil é ter tanta comida à disposição e mandarmos a dona Gula evitá-la. 
Na nossa sociedade temos esse paradoxo de o social, o convívio ser em torno de uma mesa de refeição, vá... de petiscos. Amigos, e acepipes deliciosos para trincar. E depois endeusa-se a magrela que come uma folha de alface (a que fica com um humor de cão) e condena-se com um olhar uma anafadinha na montra de uma pastelaria (a que tem a gargalhada descompromissada). 
Teorias há que se batem com este novo modelo e a emancipação das mulheres. Como?, subjugando-as. Libertaram-se do jugo, foi? Tomem lá outro. Vamos inventar um novo sacrifício para as prender a um ideal que vão ter dificuldade extrema de atingir. Vamos pô-las doidinhas sem se aperceberem como e de onde esse sentimento de inadequação surgiu. Vamos às dietas loucas, às operações plásticas, toca a emagrecerem para terem credibilidade, para serem aceites. E ai das que desobedeçam, porque o rótulo salta mais rápido que os impropérios. 
Hoje não se fala em voluptuosidade, mas de implantes, esqueceram-se da sensualidade das curvas, da força de mãe-natureza que cada mulher possui: somos montanhas, vales, rios. Valoriza-se covinhas e saboneteiras nas omoplatas, conta-se as costelas, dá-se assustadoramente valor à ausência de valores.
"Uma fixação cultural na magreza feminina não é uma obsessão pela beleza feminina, mas uma obsessão pela obediência feminina".
Naomi Wolf
Hoje temos o fenómeno da Lua Azul... a minha amiga Rosa Barros desafiou-me há pouco, e desafio cada uma das minhas leitoras e amigas a celebrar-se junto com a Lua num pequeno ritual, seja com mais mulheres ou então a solo. Mas entregue-se, deixe fluir, desamarre as suas asas em final de julho e simplesmente voe. O que realmente conta é celebrar-se junto à Lua, é permitir-se voltar às raízes do feminino. Não sabe como fazer? Apenas dance... somos todo, somos uno, somos essa fluidez da vida, esses movimentos!!!

E temos Agosto aí. Eu? Estou arco-íris. Planeio de todo o coração abraçar este mês que entra, estou fisicamente de braços abertos com todo o meu ser receptivo à chegada do meu filho Pedro :) para o nosso Agosto feliz em arco-íris. E sim, comecei o dia a sorrir, e agora depois de muitooooo escrever, estou confiante, finalmente em paz.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Doer ou doer?

Sabe quando lemos uma frase, aqui ou ali, seja na net ou grafitada numa qualquer parede, que chama por nós? Quando até buscamos a autoria da mesma e depois ao encontrarmos perde o interesse, que nem é esse o nosso foco, porque o que vimos, a leitura que fizemos, é um outro filme? Eu foquei-me nesta palavra: "doer" 


Bem sei, leu certamente em português – "doer" (de dor, magoar) e contudo inserida na frase, a palavra é afinal em inglês "doer" (de fazedor, o que faz) – o que automaticamente posiciona tudo em duas acções ou posturas totalmente diferentes. 

Gosto de pensar em mim como uma mocinha "fazedeira", mas a ser completamente sincera, sei que muitas vezes não o fui, não o sou. No entanto olho para trás, para a pegada que deixo, e é real: um percurso estupidamente coerente colado a mim. E o sorriso, sempre um sorriso. 

Tenho, para trás, uma imensidade de vida de doer, a de dor, faz parte da massa que me moldou a ser a pessoa que sou hoje. O crescimento não é isento. Se fosse, as águas não mexeriam e tudo estagnaria numa alegre monotonia. A beleza de estar vivo, de sermos gente, vem da capacidade que temos de sentir, de pensar, de agir, de fazermos escolhas. Muitas vezes paralisei acometida de medos, outras deixei-me ir na corrente, mas sempre me travava com uma máxima para comigo: faz de conta que és corajosa, ninguém vai notar a diferença. E avançava. E de alguma forma superava os medos muito ou nada tolos. Durante anos supus que até a mim mesma enganava, por fazer de conta tempo demais, mas a determinada altura já se mesclava tanto o fazer de conta com o real... e realmente eu fazia. Doer de fazedeira. Nunca de dont'er. 
Ahhh, e sorria, nunca deixei - nem deixarei - de sorrir. 


segunda-feira, 6 de julho de 2015

O Autismo é f...

Há muitooooos meses fui contactada pela querida Sandra Gaspar para escrever um artigo sobre autismo para o Blog SWEET CAOS (que escreve em parceria com a Bárbara Aquarela Barreira), convite que me deixou muito honrada e feliz, tendo em conta os motivos que apresentaram. 
Contudo, quero confesso-vos a minha imensaaaaa demorada demora - não em aceitar o desafio, já que o fiz prontamente, mas em concretizá-lo. Primeiro foi isto, depois  era aquilo... a semana passada fiz um mea culpa aos meses de atraso, num ímpeto arrumei a dona preguiça e o dom procrastinador, sentei-me e escrevi-o num ai. Sabemos. O tema está escrito a tinta indelével na minha cabeça e debaixo da minha pele. Desta vez (ainda) usei palavras duras, mas creio que as consegui contornar.
O artigo saiu este domingo, que é dia de São convidado no SWEET CAOS. Republico-o hoje de novo aqui, para todos os meus habituais leitores, convidando-os a irem ao blog da Sandra e da Bárbara e lerem o que por lá tão bem fazem.
De brinde, um belíssimo desenho exclusivo, a acompanhar o meu artigo.
É um trabalho fantástico da ilustradora Ana Cocker, que podem acompanhar através do site: MY SIMPLE LIFE Obrigada Ana!! Comoveu-me deveras...
Deixo-vos com a linda ilustração e as minhas palavras.

O Autismo é f... 

Sabem aquele livro do Miguel Esteves Cardoso, O Amor é f...? Eu digo que não é bem o amor, mas o autismo. É certo, eu não tenho medo das palavras, do seu som ou intensidade. Sem ser a palavra f... - que podem estar menores a ler-me - diria com enorme segurança que Autismo é "Desconcertante".

Há um momento negro que todos os pais destes miúdos recordam - que naturalmente os outros pais secretamente temem que lhes suceda: Um senhor doutor de bata branca sentado a uma secretária num qualquer consultório mais ou menos pomposo a debitar palavras que, essas sim, todos temos pavor de um dia ouvir. 
Até nisso tive sorte: não tinha bata branca, estava com o rabo sentado sobre a secretária com um fantoche na mão e enquanto fazia voz de roberto a brincar com o meu filho, observava-o com olhar clínico. E fui eu que perguntei - Dr. Nuno, é autismo...? 
Era sim. Autismo e mais um par de botas de patologias associadas. 
Passaram mais de 25 anos desde essa primeira consulta. Terei hoje uma postura diferente perante a adversidade, contudo a mesma convicção, e sim, o mesmo médico. 

Autismo para mim nunca foi um bicho-papão. Inicialmente talvez, porque sabia ao que ia. Sou-era uma menina informada e não era um palavrão que teria de buscar numa qualquer enciclopédia (o Dom Google não fazia parte das nossas vidas, vivia-se sem internet naqueles tempos...) a minha atitude foi sempre muito positiva, no sentido que arregacei as mangas e encarei o bicho olhos nos olhos: "Anda cá autismo, o que queres fazer com o meu bebé?, anda cá que eu estou aqui preparadinha para lutar contigo!!" E foi uma luta de uma vida. Mil batalhas ganhas muitas mais as perdidas, as que rapidamente esquecemos a cada nano-conquista. 
Porque é nesse sorriso do nosso filho que se ganha fôlego para a seguinte, e a outra depois. 

Dizem que o autismo só se consegue diagnosticar depois dos dois, três anos. Perdoem-me a petulância, mas discordo veementemente. 
Primeiramente (deixem-me que vos diga a quem não sabe), por não existirem quaisquer testes médicos ou clínicos que se façam: O autismo é diagnosticado por observação. E observadora eu sou. Não o fui só com o meu filho. Noto em qualquer outra criança pequena que tenha aquele twist no comportamento que dispara a minha atenção. Porque é disso que se trata: Autismo é uma perturbação de comportamento. 
Há um olhar diferente nestes miúdos, uma desatenção, um gelar de alma que se instala quando o sentimos. 
Sim. Batam-me, mas uma mãe ou um pai sabe. Pode não querer senti-lo, muito menos verbalizá-lo, mas no mais recôndito e escuro recanto do seu ser, a dúvida instala-se, um medo frio e escorregadio, pespega-se nas entranhas, queremos a tecla do undo, do delete, do escape, mas não foram ainda inventadas para este intento. 
Este é um filho diferente dos irmãos, dos primos, dos filhos dos amigos. Todos o notam (é um facto incontornável nas relações de grupo), mas só alguns têm a capacidade, a coragem de o falar abertamente, de chamar a atenção dos próprios pais quando eles se fecham na oportuna concha. Não é um processo ligeirinho. Normalmente começa o cochicho calado. O olhar de esguelha. O acusar descomplacente para com uma postura que não entendem, mas lá que são rápidos no gatilho do julgamento.... Peço-vos: não o façam. E explico. 
Há pais que escolhem o caminho da negação. Este filho é tímido, é distraído, é assim... Há pais que viram as costas e recusam aceitar. Há pais que ficam e lutam com armas que nem sabiam que tinham. Há pais que escolhem o caminho da eterna busca pela cura. Cura? Está bem... Querem um facto? Aqui o têm: os cientistas (ainda) não a descobriram. O que podem encontrar sim, são mil formas de melhorar a qualidade de vida desse filho e da família. 

Dizem os livros que autismo será a diferença mais difícil de gerir no seio de uma família. Demorei muito a aceitar como facto a dor que me provocava esse afastamento familiar e dos amigos que achava serem próximos. E é um grito que não deixo calar em mim. Se calhar deveria apaziguá-lo... 
Acredito firmemente que se as pessoas em geral soubessem-souberem realmente o que é um indivíduo com autismo, como se movimenta e pensa, se o respeitassem-respeitarem na sua essência, se se dessem-derem de coração para conhecê-lo, não teriam "medo" - porque é natural ter-se, sentir-se medo do que se desconhece, e a primeira imagem que se retém, de tantos mitos urbanos que circulam, não é simpática. 

É preciso querer-se olhar uma outra vez e com mais atenção para esta população. 
Urge em mim essa vontade. Que o façam. 
Sabia? São pessoas doces e meigas, muitas vezes dadas e terrivelmente genuínas, tanto que o são que muitos lhe chamam anjinhos e outras coisas fofinhas. São gente, como todos nós, têm o mesmo direito que nós os tais normaizinhos de pisar este chão que é de todos, sabia? Eu já o aprendi da forma mais complicada. Não precisa ser assim para si... 
Familiares e amigos, que se distanciam destas pessoas e suas famílias nucleares, não sabem como perdem uma oportunidade estranha de se elevarem, de crescerem. 
Vou-lhe contar um segredo, quer? 
Aprendemos com eles a verdadeira essência da vida, a resposta que todos buscamos - o SIMPLES. Eles têm um *descomplicómetro* associado que lhes confere uma poesia na forma de ver e viver a vida que a nós, os formatados para a normalidade, nos desconcerta tão completamente. Afinal andamos a complicar a nossa existência para quê?? 

Como mãe e como observadora, gostaria ainda de assistir neste mundo ao momento em que familiares, amigos da família, pessoas que circundam estes lares, onde existe uma pessoa com autismo, fossem simplesmente agraciados com uma estranha generosidade e tivessem a verdadeira intenção de perceber como estas pessoas vivem cada momento do seu dia, como os pais e cuidadores resolvem problemas que apenas aparentam ser de somenos importância e podem ser (são) calamitosos. Mais. Deixassem de culpabilizar quem (os pais) não tem nem a culpa nem a vontade que isso aconteça. Mais ainda. Esta é a fase em que estas famílias mais precisam de apoio, não de um dedo apontado. 

Sabe uma chuvada de Verão, que poeticamente achamos ter um cheiro romantizado a terra molhada, e essa ser a única emoção a ser acordada? Pode ser dramático para alguém cuja hipersensibilidade o faz sentir dor. 
A chuva não dói - que disparate - poderá pensar, não é? 
Faça-me lá a vontade e caminhe comigo: vá, dispa o casaco, fique de braços nus, descalce-se, abra os braços a uma nova descoberta e deixe os simpáticos pingos quentes da primeira chuvada tomarem conta de si. Caminhe à chuva, vá, mas esqueça-se da sensação que lhe é prazeirosa e tente entrar na mentalidade autística de que só (me) ouve falar. 
Aferir a dor de outrem é algo que considero impossível - sempre afirmo isto - mas tente concentrar-se em que cada minúsculo pingo de chuva é uma alfinetada, um golpe de faca, o que seja que imagine que lhe doa a si, mas sinta que lhe dói. E muito. Então? Ficou com vontade de chorar? De gritar? Não acha (ainda) terrivelmente intrusivo?... Certo, vamos subir de nível neste jogo. Agora acrescente que todos os sons foram magnificados amplificados a raiar a distorção e consegue ouvir todas as conversas de todas as pessoas, todos os ruídos de portas, carros, sirenes, pássaros, até o ar condicionado da loja do outro lado da rua, todos os cães a ladrar, os passos de todas as pessoas, mesmo os grilos lá no fundo, do outro lado do quintal. Não chega... Pense nos cheiros que lhe entra pelas narinas. Quais? Então, o do suor do seu próprio medo, aquele que nem deu conta de que se apossou de si, o do pêlo molhado do cão que está do outro lado da rua, o do cozinhado queimado da tia Micas que sai pela janela, o do horrendo dos caixotes do lixo da rua detrás, e sim, o da terra molhada pela primeira chuvada de Verão. Podia continuar, mas vá, pense só que agora não pode abrir os olhos e acabar este exercício. Nunca. Nunca em toda a sua vida.... Diga-me: e agora já gritaria? Eu creio que sim. E nem falei das texturas complexas, das cores que ferem e doem, das palavras que passam por cima da cabeça e fazem fila para entrar nas suas ideias.... 

Autismo existe. É fodido, sim. É apenas o que lhe peço. Olhe para o lado. Cada vez tem mais amigos, vizinhos, primos e conhecidos a terem um bebé com autismo, não é? Então pare para ajudar. Nem que seja a entender. Vá, não seja fodido para com o autismo. 


quarta-feira, 24 de junho de 2015

S. João Bonito

Em conversa com um amigo que foi esta noite pela primeira vez ao S. João no Porto, recordei que num capítulo do meu livro AUTISTA, QUEM...? EU?, coloquei todas as personagens nesta noite fantástica. Como ainda hoje os leitores me continuam a falar das peripécias que o Xico e companhia passaram e de como se riram ao lerem o livro em locais pouco apropriados para gáudio dos transeuntes, volto a publicar neste site o meu texto desse capítulo logo hoje em noite sanjoanina. Também aproveitando este ensejo, homenageio a minha amiga ISA SILVA, uma artista que muito prezo o percurso que tem feito, a obra que tem produzido.
Deixo-vos com a reprodução que foi ao Concurso Martelinhos de S. João 2015, porém podem ver o original ao vivo, pois está em exposição no Palácio das Artes - Fábrica de Talentos entre 11 de Junho e 16 de Julho.
Este meu livro AUTISTA, QUEM...? EU? que se encontrava esgotado há muito, existe agora - a pedido de muitos leitores - em versão ebook.
Contacte-me para saber como adquiri-lo.

S. João Bonito

(excerto do capítulo S. João Bonito, do livro Autista, quem...? Eu?)
- imagens retiradas da net -

Estava a descer os Aliados. Isso percebi. Era uma barulheira com música ligeira e buzinadelas de fundo...
– Que dizes, bamos até aos Aliados? - desafiei o J.J. depois de desligar.
Os meus pais não quiseram vir. Definitivamente já não são os foliões que eram! Tinham até à semana para ir visitar as cascatas e preferiam fazê-lo escapando ao burburinho da noite de 23 para 24 – explicaram.
A Gui recusou a oferta da minha mãe de ficar com o Xico e também o de ficarem a dormir no Porto, mas diverti-me a ver o ar desinquieto do J.J. à medida que a Gui recusava uma e outra vez. Estava mortinho por ficar, que eu bem o conheço!
Tivemos dificuldade em estacionar o carro na Lapa, mas outra coisa não seria de esperar e avançámos a pé rumo à Av. dos Aliados serpenteando pelas ruas. Os putos nos semáforos pediam um euro para o S. João.
O que a inflação faz!
– Está uma noite maravilhosa, até parece que o S. Pedro deu uma mãozinha! - exclamou a Gui de braços abertos volteando sobre si própria.
– É melhor irmos até à Ribeira para ver o fogo - disse eu. - Ainda pensei levar-vos às Fontainhas que tem uma vista luxuriante sobre o Douro e para provarem um caldo verde à maneira, mas está sempre à pinha e com o Xico não me parece lá muito boa ideia...
– Isto vai encher imenso. - explicou J.J. dirigindo-se à irmã. - Tal como o Sto. António é uma festa de rua: não escolhe idades, estrato social e económico. Mas mesmo sendo alfacinha devo dizer-te que o S. João tem uma magia que nunca vi lá em Lisboa!
Num quiosque improvisado uma vendedeira de bata às florzinhas e boné do F.C.P. apregoava no nosso sotaque característico o manjerico e o alho-porro. Apesar deste ser mais tradicional, a malta mais nova preferia o prático martelinho de plástico colorido. A Gui ficou muito espantada por uma variedade de hortense à venda que não conhecia e perguntou à vendedeira porque é que aquela flor tinha uma haste tão comprida...
– Bariedade de hortense...? C’um carago!!! A menina está a mangar comigo, num está...? - A vendedeira estava agora incrédula. - Olha-me esta morcona a dezer que nunca biu a porra de um alho-porro na bida!? Ólhe que num acredito, menina!
– É que a minha amiga é de Lisboa... - respondi como se fosse justificação.
– Ides dezer-me que os mouros nunca biram um car... de um alho-porro?!? - bradou a senhora calcando um manjerico - Menina, sabeis que se cheira um manjerico desta maneira...? Num se chega o nariz à beira dele que murcha...
Esticava agora a palma da mão perfumada à inculta lisboeta.
– Isso por acaso até sei. - declarou Gui com um sorriso embaciado; depois murmurou ao meu ouvido - ... se agora lhe dissesse que na minha ideia via o alho-porro como uma espécie de alho-francês... descompunha-me, não?
Tive grande dificuldade em conter o riso...
Fiz sinal à Gui para não acrescentar mais nada à boa ideia que a vendedeira tinha formado dos mouros e comprei quatro martelinhos para nós, já que o Xico não se calava que queria porque queria o seu em verde, da cor do seu Sporting.
Enquanto discutia com o J.J. que quem pagava era eu, que era eu o anfitrião, apanhei a maior cacetada de que há memória e logo de seguida recordo que ouvi o J.J. praguejar uma asneira bem gorda e dizer que estava a ver tudo azul às riscas com o símbolo do FêCêPê... tudo às voltinhas como se fosse um desenho animado a ver estrelinhas...

Pois.
O Xico estava só a experimentar o seu martelo...
A Gui ria que nem uma perdida e aproveitou para nos dar uma marteladita, bem mais suave, convenhamos!
– Ó meu amor, é para bater mas sem força! - Tentava dizer limpando as lágrimas da risota. - Olha Quico, faz assim suavemente.
Olhou para nós para exemplificar mas, só conseguiu tapar a boca para rir ainda mais.
Foi um problema.
O Xico cascava forte e feio em toda a gente...
Tem uma força desmesurada sem ter noção como aplicá-la.
Algumas pessoas ainda achavam graça, quando se viravam, por ele ser mais ou menos pequenito, mas não era tão pequeno assim que não se sujeitasse a algum azeiteiro pronto para lhe dar uns bufardos... estávamos sempre com atenção e muito, muito apreensivos. Mas ele era rápido no gatilho...
Entre a hilaridade que nos acometia os comentários e impropérios, ouvidos em resposta às impetuosas e certeiras marteladas do Xico, continuámos em direcção à Ribeira.
A Gui estava completamente encantada pela versão nortenha dos santos.
– Isto é muito mais giro que o S. António! – clamava. - E a diferença está no martelar. Isto é fantástico! Olha a quantidade de gente com que já me meti!
Pois! Sem contar com a quantidade de morcões que se meteram com ela!
O J.J. estava ansioso que encontrássemos a Lena. Caramba!
– Telefona-lhe - pedia-me descaradamente. - Pergunta-lhe onde está agora.
– Calma! - tranquilizava-o eu - Vais ver que a encontramos na Ribeira...
Na Praça da República estava instalado um palco e actuava um grupo etnográfico, As Tricanas Poveiras, com as suas blusas de renda e os seus aventais multicolores.
– Então e numa noite destas não estão na Póvoa? - perguntava a Gui.
– És tão alfacinha... - brinquei. - Na Póvoa do Varzim gozam o S. Pedro!
– Pensei que cá para cima fosse só S. João, que S. Pedro fosse só em Sintra!
– É verdade! Esqueci que és daquelas que pensam que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. - ri eu, ganhando em troca uma careta e uma martelada.
Quando passámos pela Rua de Cedofeita, uma senhora vendia, entre bandeiras do meu F.C.P. e manjericos, uma outra versão de martelos: os insufláveis.
Perfeito!
Assim o Xico não magoaria mais ninguém!
A Gui parou a olhar as montras das sapatarias. Pfff!!! Nem sei para quê... tem pr’aí uns cinquenta pares! «Tenho de voltar à Invicta para umas comprinhas» disse convicta. Pois claro, estava nas suas sete quintas...
Comprámos o novo e enorme martelo e seguimos caminho enquanto o J.J. tentava ganhar fôlego para o encher, às aranhas com o sistema de segurança.
– Isto das seguranças é só para deixar os adultos doidos, se fosse um miúdo já tinha conseguido encher esta bodega! - reclamava.
Ri-me ao recordar quando, um dia, não consegui abrir um frasco de xarope com um sistema de segurança para crianças que o Xico prontamente abriu.
O Xico estava delirante pelo tamanho do seu novo instrumento de tortura sanjoanina, mas, por ser tão grande não conseguia impulsionar o balanço suficiente para poder cascar decentemente. Então demo-nos conta que uma pessoa gemeu à passagem do martelo do Xico:
– Fuooogo! O catraio num parece mas tem fuooorça!!! - disse num queixume.
Ele segurava o martelo, mas, era com a outra mão que socava!!!
A Gui determinou o fim das hostilidades e tirou-lhe o martelo:
– Desculpa lá Quico, mas não pode ser! Agora ficas sem martelo!
Continuámos, avançando em fila indiana, por entre a multidão que inundava a rua até à Praça Carlos Alberto e eu, feito cicerone, ia explicando onde nos encontrávamos, qual o edifício público ou monumento que víamos ou quaisquer outros esclarecimentos que sentisse necessidade de fornecer aos meus ilustres convidados alfacinhas...
Na praça existem umas enormes floreiras de alvenaria, dispostas lado a lado. Em duas delas estavam sentados dois homens, cada um na sua, visivelmente embriagados.
O Xico seguia à nossa frente na fila e, com uma enorme rapidez, sem que o pudéssemos impedir, pára por breves segundos, mesmo na frente dos homens, levanta os dois braços de punho fechado e... zás!!! Aplica duas grandes e valentes murraças nos dois homenzarrões, em simultâneo, uma em cada testa!!!
Lívidos, entreolhamo-nos os três... É desta que o Xico leva uns cascudos, juro que pensei!
Como seguíamos em fila indiana, hesitámos antes de passar em frente daqueles dois, mas, o Xico, depois de desfechar os murros já lá ia como se nada fosse, por isso prosseguimos também... Por essa altura os homens levaram, ambos, as mãos à testa:
O J.J. avançou timidamente passando bem à frente deles; olhando-os tão de perto que pôde escutar o primeiro:
– Fod...!!! Que car... foi este???
A Gui passou de seguida em estilo apressado e pôde escutar o segundo:
– C’um car...!!! D’ond’é que esta me caiu, carago??? - rugia olhando o céu.
Quando eu passei, sorrateiro, olhavam os dois para cima questionando-se:
– Foi uma pedra, car...!!!
– Um pássaro é que num foi! Fod...!!!
Juntámo-nos em volta do Xico já mais descansados porque eles não tinham sequer percebido que havia sido o puto, mas, ao contarmos o que cada um tinha ouvido de passagem, caímos na risada, ali a dois passos daqueles homens enormes, dobrámo-nos a rir, limpámos as lágrimas e eles tão bêbados... Largámos a rir de novo, gargalhando estrondosamente até nos doer a barriga... Os homens continuavam ali ao lado, sentados, esfregando a testa e olhando o cumpridor céu limpo de uma linda noite de Verão, sem nunca se aperceberem que tinha sido um miúdo que os esmurrara... claro, de brincadeirinha sanjoanina...
Daí para a frente o Xico foi de mãos dadas connosco. Com as duas mãos dadas: firmemente com um de nós em cada um dos lados.

Descíamos na Av. dos Aliados quando o J.J. trocou com a irmã ficando do outro lado com o Xico. Aproveitou e perguntou-me de novo:
– Não lhe queres ligar?
Olhei para a Gui em busca de auxílio, mas estava noutra, uns passos à nossa frente toda eufórica, flirtando descaradamente, a cada pancada de martelo...
– Deixa lá a Lena...! - disse de mau humor. - Logo ali já estamos na Ribeira.
Estava um mar de gente e eu que sou mais alto pude ver, por cima das cabeças, uma verdadeira batalha campal de martelinhos. O J.J. pôs o Xico às cavalitas e ele riu-se muito vendo o mar colorido de plástico acertando aqui e ali... percebi-o pelo gesto que fez: como que tocando xilofone na cabeça do tio!
Fiquei de olho na Gui, não fosse algum parvalhão atrever-se, mas não era tarefa fácil, pois continuava a saltaricar entre as esplanadas da Ribeira, toda gira, e nós ali com o Xico, e, o J.J. maluco, à procura da minha irmã. Mas onde é que eu tinha a cabeça?
O Xico estava com fome e levei-os a comer pizzas... Não é tradicional, é certo, mas o S. João já não se reveste dos costumes que ainda me lembro de ouvir contar, e depois, nenhum de nós era grande apreciador de sardinhas, e, o preço tão inflacionado (1,50 € por sardinha) retirava-nos a réstia de vontade.
Cedi à pressão do J.J. e telefonei à Lena a perguntar onde estava. Estava em Gaia e só iria conseguir atravessar a ponte depois do fogo de artifício.
– A ponte D. Luís I - expliquei puxando os fios de queijo com ar guloso - fecha a passagem ao público durante o fogo suspenso mas reabre logo a seguir.
– Aqui anda-se a pé na ponte, é? - perguntou a Gui com ar incrédulo.
– És tão alfacinha! - retorquiu o irmão, depois virou-se para mim. - Achas que podemos ir até Gaia?
– O que é que há em Gaia? - interpelou de novo a Gui. - Mais festejos, é? Vejam lá se não é demais para o Quico. O que é que tu queres de Gaia, Zé João?
– É giro passar na ponte... - disse em socorro do meu amigo. - Abana todinha!

À meia-noite em ponto as luzes na Ribeira apagaram-se, e, ao burburinho habitual proporcionado pela escuridão momentânea, começou o espectáculo do fogo de artifício.
Lindo. Luxuriante. Poderoso.
– Enche a alma! Enche o coração! - gritou a Gui para o céu abrindo os braços abarcando deslumbrada as suas emoções.
– Faz barulho - queixou-se o Xico tapando os ouvidos -, mas tem cores giras.
A Gui enlaçou-o imediatamente tentando protegê-lo.
– Maguida...? Isto é passagem de ano? - questionou o Xico.
– Nas festas, Quico, o fogo acontece várias vezes... - começa a responder Gui.
– É fogo mas não é para as chamas. - responde lacónico.
Da ponte D. Luís I começa o magnífico fogo suspenso.
Algumas embarcações no rio estão ancoradas, a uma distância de segurança, repletas de convidados que assistem deleitados naquele palco preferencial à chuva magnificente de luz e cor.
– Ouvi além um senhor comentar que há pessoas que reservam a sua vaga nos barcos de um ano para o outro, é assim? - perguntou-me J.J.
Era assim. Anui com um «hum, hum» continuando de olhos no céu.
– Ouvi também comentar que há uma certa rivalidade entre Gaia e Porto. também é verdade? - continuou J.J.
Era assim também...
Quando o fogo acabou reparei que a Gui se tinha sentado e tinha o Xico ao colo. Fiz-lhe sinal perguntando se tinha passado mal. Em resposta ergueu o polegar. Estava tão feliz e acabou por não poder apreciar devidamente!
Fiquei a olhá-la ali concentrada, no meio do bulício, com o filho enorme ao colo.
– A noite é longa! Só acabo na praia, na Foz! - grita alguém para mim.
– Não esqueças de lavar a cara com as orvalhadas! - respondo dando-lhe com o martelo.

– Estás a ver aquele grupo ali de malucas? - apontei ao J.J.
– Onde?
– Ali - sinalizei apontando o meu martelo. - Daquele lado de quem vem de Gaia. São as parvas das amigas da Lena que eu não gosto nada. Olha ali a minha irmã.
Mas o J.J. já a tinha avistado e estava em perfeito estado de basbaqueira: o queixo havia-lhe descaído uns centímetros, provavelmente o suficiente para poder salivar. Abanei a cabeça e olhei na direcção da Gui para lhe chamar a atenção, mas ela estava aos pulinhos martelando um e outro rindo e gracejando aqui e ali... A Lena. Olhei para ela e estava, também, a flirtar de cacetada em cacetada... Mas o que se passa com as minhas miúdas que nunca as vi assim...?
Um estridente grito colectivo, tipicamente feminino, irritou-me os tímpanos. A ponte abanou de novo e agarrei melhor o Xico que ria a bandeiras despregadas.
– Típico! - gritou-me a Gui perto do ouvido. - Toda a gente cheia de medo com as sacudidelas da ponte e o Quico a rir à tripa-forra...!!!

...Depois acertou-me uma martelada rindo e graceja.
– Olha o teu irmão e a minha irmã. - Consegui indicar-lhe com o meu martelo.
Olhámos na mesma direcção. O J.J. furava até estar suficientemente perto para esticar o seu martelo e acertar em cheio na cabeça da Lena.
Ela virou-se a rir.
Estava com um ar tão feliz...
Encarou nos olhos o seu atacante que a esperava, expectante.
O sorriso de Lena esmoreceu.
O seu martelo em riste perdeu o balanço.
O ar de basbaque do J.J. voltou a inundar-lhe o rosto.
– ‘Pera lá... o que é que me está a escapar...? - inquiriu uma curiosa Gui - sabes de alguma coisa que eu não sei?
– Não por muito tempo, parece-me... - mexeriquei.

Sorriam agora os dois com um ar tão tolinho...





Os sem-abrigo na rua tinham impressionado muito a Gui.
No final da noite, quando regressávamos à Lapa pelas 3 da manhã, local onde estava o carro, passámos por muitas ruas já mais desafogadas das gentes borguistas ou, como gracejou o J.J., mais pareciam que se arrastavam de monco e martelinho caído com a atitude venho da festa. O nosso próprio sempre-em-festa ia escalando do colo do tio para o meu, ainda desperto, mas sem aguentar os pés.
Da noite emergiam agora os verdadeiros donos do espaço emprestado à folia: aqueles que esticavam os cartões e cobertores como se de lençóis frescos se tratassem, aqueles que se espreguiçavam e coçavam como se não os víssemos, aqueles que faziam a sua higiene pessoal, ali, à frente de quem passava como se realmente em casa estivessem... E estavam mesmo, infelizmente.

– Em Lisboa também há os sem-abrigo, mas aqui está a impressionar-me por demais - garantia a Gui a olhar para um senhor que lavava os dentes usando água engarrafada (ou numa garrafa...) e cuspindo para o chão.
– Mas em Lisboa se passas por eles de carro à noite, estarás com mais atenção à luz do semáforo, e, se acaso vires alguém dirigir-se a ti arrancas ainda com o vermelho, ou trancas o carro, não é? - disse-lhe o irmão. - Aqui estás numa situação diferente, estás a pé, cansada e a tua atenção foi tomada de uma forma mais perniciosa. Pena é que, voltando à habitual rotina, se continue a trancar portas...


quarta-feira, 13 de maio de 2015

AO, o irrevogável

Ocorre-me a ideia, no dia em que o malfadado e desacreditado acordo entra (entrará?) em vigor, chamar a que se aproxime aquela nossa palavra estragada - o irrevogável -  para que cumpra na plenitude a sua nova função, já que sendo irrevogavelmente irrevogável, irrevogavelmente o AO agora será finalmente revogado. Vá lá pá, é o que a malta quer, o que a malta pede, o que a malta luta, desde que esta aberração nos foi enfiada goela abaixo. É que já chega! Ó irrevogável filho, chega aqui para acabarem de vez com o AO! 
Para começo de conversa, aborreço-me ao ler as notícias matutinas e constatar que a data de hoje já foi revogada. Há destas coisas giras, movimentações palacianas em vésperas de eleições que me fazem sempre relembrar o conceito de sarcasmo, o tal que somos tão bem familiarizados... então a data 'irrevogadamente irrevogada' de 13 de Maio foi chutada para canto, lá para Setembro, o dia do meu aniversário ainda para mais??? Epá, não me lixem o dia...
(podem ler a notícia na integra aqui
Na verdade, eu estou-me positivamente nas tintas se o AO for revogado, agora, amanhã ou depois, só quero que aconteça. Só isso. Limpem a porcaria que fizeram. Não quero mais falar deste assunto, insurgir-me, assinar petições, assinar de cruz o que diz o bzinho João Pedro Graça. Chega de escrever artigos destes e deixar de utilizar esta imagem no final de cada um dos meus posts, só porque sim. É mau? É. Se tem sido terrivelmente mau para os miúdos que desaprenderam e vão ter de ser ensinados a escrever português de novo? Pois. Revoguem a coisa e dêem de vez um passo em frente, sem compadrios e interesses debaixo do pano que todos sabemos que existem. Chega. Como diria o outro em bom português, mandem o AO cagar à horta e limpar o cú às urtigas. 


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Consciencializar 365 dias ao ano

Ontem, na correira do meu dia-a-dia e distraída com meus pensamentos, ao assomar uma entrada para um ATM percepcionei mais pela visão lateral - porque na verdade nem quis olhar de frente - um casal, em que um dos homens estava encostado à parede, e o outro debruçado sobre ele, abraçava e beijava-o. Foi uma escolha momentânea, eu sei, não quis olhar para não parecer preconceito da minha parte (até porque assim não sou, não me considero) e na verdade fui-o em grande escala. 
Não tendo usado o MB dentro do banco por ser exclusivo para os 'da casa' dirigi-me novamente ao fora de portas onde tinha acabado de passar pelo casal. Fiquei sem reacção... uma querida amiga minha e companheira de muitos anos nesta nossa atribulada vida de mães de autistas cumprimenta-me: «Olá Ana!» Continuei sem reacção sem querer acreditar no que todos os meus sentidos já me gritavam e gelei por me sentir tão estupidamente horrorizada com o meu anterior pensamento. 
No momento seguinte estava rodeada pelo marido e o filho autista, também já adulto, como o meu, que me deu um carinhoso beijo bem babado. 
Eram pai e filho encostados ali naquela parede em que julguei precipitada e preconceituosamente! 
Consegui esboçar as palavras habituais num ritual de cumprimento, mas percebi a estranheza da minha pouco habitual efusividade no olhar inquiritivo da minha amiga, mas estava ainda naquele torpor perturbador do que acabara de sentir e estava tão indignada comigo mesma que simplesmente fiquei queda, sem acção. Pouco habitual em mim, é certo. Tanto a quietude no abraço e sorriso fraterno quanto a estupefacção do sentir-me preconceituosa. 
Sai daquele breve encontro perturbada. O filho dos meus amigos está um homem de 1,70 e muitos de altura, tal como o meu filho, num primeiro olhar estes bebés grandes - como os vemos - não o são nem o parecem aos olhos de quem os não conhece, ou desconhece o significado ampliado da palavra autismo. 
O meu filho abraça-me, amassa-me, beija-me na boca na rua, ou então publicamente mexo-lhe amiudamente na braguilha para o compor (sempre aberta!) e sei que o olhar que têm para connosco é idêntico ao que eu mesma fiz com os meus amigos. Convivo com isso e respondo pondo as pessoas no sítio apenas com um olhar. Simples, habituei-me. Mas não me conformei. Não me vou conformar nunca. 
A falta de informação sobre esta população e suas famílias é gritante, sim. Eu sou a que agarro as pessoas pelo braço e pergunto, está a olhar? Não sabe o que é uma pessoa com autismo? Venha cá que eu explico. Da próxima vez que se deparar com outra pessoa com autismo, pelo menos questione-se antes de julgar e vai entender as reacções que não são habituais ver, as frases proferidas em voz alto ou fora de contexto, todo um mundo que lhe parece estranho apenas porque o desconhece. Venha cá que eu explico! E explico, tranquilamente. E faço muitas acções de sensibilização muitos dias após ou antes o 2 de Abril, e sei que o farei a vida toda. Consciencializar, consciencializar, consciencializar, sempre! 365 dias ao ano. Em algum momento chegamos lá. É uma certeza em mim. Em muitos de nós. 
Aos meus queridos amigos que se vão reconhecer quando lerem este texto, peço-vos perdão. Eu não fiz o que peço ao mundo: Que olhem com atenção para as reacções inusitadas de uma pessoa com autismo antes de as julgarem.


sexta-feira, 20 de março de 2015

Livro Autista 2 - o recomeço

Espicaçando(-me) na retoma de um romance que me vi impossibilitada de escrever por tantos anos, o que os meus leitores continuam a pedir, a esperar pacientemente que o faça, entendendo contudo as minhas motivações (absolutamente pessoais) para o ter interrompido por tantas vezes, tantos recomeços falhados, é uma decisão corajosa, eu sei e sinto-a feroz.
Está-lhes prometido e sei que algum dia o retomarei, seja com mais ou menos distanciamento da minha difícil vida de mãe de autista para me entregar nos braços da ficção sem real ligação à vida que continuará a correr no processo.

Sei o que quero escrever, sei da veemente pressão que tenho no lado real para conseguir deixar espaço à escritora para pensar. O livro em si - de resto a trilogia diria antes - está pensada há anos, desde o primeiro livro AUTISTA, QUEM...? EU? Se prova alguma coisa? Não. Uma coisa é ele estar todinho na minha cabeça, outra, estar no disco rígido. Pode ser um processo real de 15 dias como foi o primeiro, ou como este, que tem demorado anos a sair e estavam igualmente prontos, escritos cá dentro.
Decidir assim, em vésperas de mais um período de férias da Páscoa, faz-me sorrir e pensar que sou completamente doida, mas doidinha estou eu por não escrever. O formigueiro na ponta dos dedos asfixia-me a alma, sufoca-me a garganta num grito calado e preciso, simplesmente recomeçar, retomar uma paixão que tenho deixada afónica, não esquecida, nem adormecida, mas dormente em mim. 
Outro dia numa apresentação falava como me é fácil escrever. É verdade. Sempre foi. Talvez a minha estúpida coerência que não se foi embora com a idade, antes a agudizou, não me deixou prosseguir nos dois temas/livros que tenho igualmente escritos na minha perturbadora mente que não se cala a gritar-me: primeiro este! Poderia ter-me liberto e escrito qualquer um dos outros, qualquer um outro, mas não. Tem de ser a continuação do Autista. Porque tem de ser. Tem de sair de mim. Sei que vou rir e chorar e mais provavelmente vomitar muito até chegar ao bonitinho cenário da mesa de autógrafos que todos anseiam. Este processo visceral é só meu - vá, desejo muito não atacar a cozinha e engordar 10 kgs neste tempo que continuará real, nem posso chamar de "preguiça" um estar que não retomo por envolver tantas emoções contraditórias e violentadas em mim. 
Quem sabe? Gritar por uma ajuda concreta não consigo fazê-lo mais. É um canso, como diz o Pedro. Provoca um desgaste no plano real que me paralisa o criativo. E disso também me canso. O formigueiro. Quem sabe escrevendo vem a libertação. Que os fantasmas assassinam-se na catarse do papel. 
O meu cadeirão lindo chegou - obrigada querido amigo!! - é fruto de uma troca bem gira (das muitas que faço na vida real para viver neste mundo desprovido de dinheiro). Neste caso escolhi um cadeirão colonial em 2ª mão que namoro há séculos e no qual tantas vezes sonhei sentar-me confortavelmente de portátil no colo e simplesmente escrever. Não é mais um anseio. Já o posso chamar de meu. Já o posso fazer, até porque, desta vez, e tendo de novo um outro novo velho computador que espero que o Pedro não parta (e sim, aprendi a (res)guardá-los aos fins-de-semana, feriados e férias escolares quando o meu filho está comigo em casa) - obrigada a outro querido amigo que me telefonou dizendo: estás em casa? Já conseguiste computador? então desce em 10 minutos que passo aí - quero sentar-me no meu cadeirão novo com o meu portátil e retomar o projecto parado em mim. 
E por fim, o clique. Também espicaçada pelo começo de um novo equinócio abençoado por um derriçoso eclipse de Sol e Lua, parece(-me) bem fascinante, até para uma alma preguiçante, se permitir a gana de voltar a escrever.


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