sexta-feira, 10 de julho de 2015

Doer ou doer?

Sabe quando lemos uma frase, aqui ou ali, seja na net ou grafitada numa qualquer parede, que chama por nós? Quando até buscamos a autoria da mesma e depois ao encontrarmos perde o interesse, que nem é esse o nosso foco, porque o que vimos, a leitura que fizemos, é um outro filme? Eu foquei-me nesta palavra: "doer" 


Bem sei, leu certamente em português – "doer" (de dor, magoar) e contudo inserida na frase, a palavra é afinal em inglês "doer" (de fazedor, o que faz) – o que automaticamente posiciona tudo em duas acções ou posturas totalmente diferentes. 

Gosto de pensar em mim como uma mocinha "fazedeira", mas a ser completamente sincera, sei que muitas vezes não o fui, não o sou. No entanto olho para trás, para a pegada que deixo, e é real: um percurso estupidamente coerente colado a mim. E o sorriso, sempre um sorriso. 

Tenho, para trás, uma imensidade de vida de doer, a de dor, faz parte da massa que me moldou a ser a pessoa que sou hoje. O crescimento não é isento. Se fosse, as águas não mexeriam e tudo estagnaria numa alegre monotonia. A beleza de estar vivo, de sermos gente, vem da capacidade que temos de sentir, de pensar, de agir, de fazermos escolhas. Muitas vezes paralisei acometida de medos, outras deixei-me ir na corrente, mas sempre me travava com uma máxima para comigo: faz de conta que és corajosa, ninguém vai notar a diferença. E avançava. E de alguma forma superava os medos muito ou nada tolos. Durante anos supus que até a mim mesma enganava, por fazer de conta tempo demais, mas a determinada altura já se mesclava tanto o fazer de conta com o real... e realmente eu fazia. Doer de fazedeira. Nunca de dont'er. 
Ahhh, e sorria, nunca deixei - nem deixarei - de sorrir. 


segunda-feira, 6 de julho de 2015

O Autismo é f...

Há muitooooos meses fui contactada pela querida Sandra Gaspar para escrever um artigo sobre autismo para o Blog SWEET CAOS (que escreve em parceria com a Bárbara Aquarela Barreira), convite que me deixou muito honrada e feliz, tendo em conta os motivos que apresentaram. 
Contudo, quero confesso-vos a minha imensaaaaa demorada demora - não em aceitar o desafio, já que o fiz prontamente, mas em concretizá-lo. Primeiro foi isto, depois  era aquilo... a semana passada fiz um mea culpa aos meses de atraso, num ímpeto arrumei a dona preguiça e o dom procrastinador, sentei-me e escrevi-o num ai. Sabemos. O tema está escrito a tinta indelével na minha cabeça e debaixo da minha pele. Desta vez (ainda) usei palavras duras, mas creio que as consegui contornar.
O artigo saiu este domingo, que é dia de São convidado no SWEET CAOS. Republico-o hoje de novo aqui, para todos os meus habituais leitores, convidando-os a irem ao blog da Sandra e da Bárbara e lerem o que por lá tão bem fazem.
De brinde, um belíssimo desenho exclusivo, a acompanhar o meu artigo.
É um trabalho fantástico da ilustradora Ana Cocker, que podem acompanhar através do site: MY SIMPLE LIFE Obrigada Ana!! Comoveu-me deveras...
Deixo-vos com a linda ilustração e as minhas palavras.

O Autismo é f... 

Sabem aquele livro do Miguel Esteves Cardoso, O Amor é f...? Eu digo que não é bem o amor, mas o autismo. É certo, eu não tenho medo das palavras, do seu som ou intensidade. Sem ser a palavra f... - que podem estar menores a ler-me - diria com enorme segurança que Autismo é "Desconcertante".

Há um momento negro que todos os pais destes miúdos recordam - que naturalmente os outros pais secretamente temem que lhes suceda: Um senhor doutor de bata branca sentado a uma secretária num qualquer consultório mais ou menos pomposo a debitar palavras que, essas sim, todos temos pavor de um dia ouvir. 
Até nisso tive sorte: não tinha bata branca, estava com o rabo sentado sobre a secretária com um fantoche na mão e enquanto fazia voz de roberto a brincar com o meu filho, observava-o com olhar clínico. E fui eu que perguntei - Dr. Nuno, é autismo...? 
Era sim. Autismo e mais um par de botas de patologias associadas. 
Passaram mais de 25 anos desde essa primeira consulta. Terei hoje uma postura diferente perante a adversidade, contudo a mesma convicção, e sim, o mesmo médico. 

Autismo para mim nunca foi um bicho-papão. Inicialmente talvez, porque sabia ao que ia. Sou-era uma menina informada e não era um palavrão que teria de buscar numa qualquer enciclopédia (o Dom Google não fazia parte das nossas vidas, vivia-se sem internet naqueles tempos...) a minha atitude foi sempre muito positiva, no sentido que arregacei as mangas e encarei o bicho olhos nos olhos: "Anda cá autismo, o que queres fazer com o meu bebé?, anda cá que eu estou aqui preparadinha para lutar contigo!!" E foi uma luta de uma vida. Mil batalhas ganhas muitas mais as perdidas, as que rapidamente esquecemos a cada nano-conquista. 
Porque é nesse sorriso do nosso filho que se ganha fôlego para a seguinte, e a outra depois. 

Dizem que o autismo só se consegue diagnosticar depois dos dois, três anos. Perdoem-me a petulância, mas discordo veementemente. 
Primeiramente (deixem-me que vos diga a quem não sabe), por não existirem quaisquer testes médicos ou clínicos que se façam: O autismo é diagnosticado por observação. E observadora eu sou. Não o fui só com o meu filho. Noto em qualquer outra criança pequena que tenha aquele twist no comportamento que dispara a minha atenção. Porque é disso que se trata: Autismo é uma perturbação de comportamento. 
Há um olhar diferente nestes miúdos, uma desatenção, um gelar de alma que se instala quando o sentimos. 
Sim. Batam-me, mas uma mãe ou um pai sabe. Pode não querer senti-lo, muito menos verbalizá-lo, mas no mais recôndito e escuro recanto do seu ser, a dúvida instala-se, um medo frio e escorregadio, pespega-se nas entranhas, queremos a tecla do undo, do delete, do escape, mas não foram ainda inventadas para este intento. 
Este é um filho diferente dos irmãos, dos primos, dos filhos dos amigos. Todos o notam (é um facto incontornável nas relações de grupo), mas só alguns têm a capacidade, a coragem de o falar abertamente, de chamar a atenção dos próprios pais quando eles se fecham na oportuna concha. Não é um processo ligeirinho. Normalmente começa o cochicho calado. O olhar de esguelha. O acusar descomplacente para com uma postura que não entendem, mas lá que são rápidos no gatilho do julgamento.... Peço-vos: não o façam. E explico. 
Há pais que escolhem o caminho da negação. Este filho é tímido, é distraído, é assim... Há pais que viram as costas e recusam aceitar. Há pais que ficam e lutam com armas que nem sabiam que tinham. Há pais que escolhem o caminho da eterna busca pela cura. Cura? Está bem... Querem um facto? Aqui o têm: os cientistas (ainda) não a descobriram. O que podem encontrar sim, são mil formas de melhorar a qualidade de vida desse filho e da família. 

Dizem os livros que autismo será a diferença mais difícil de gerir no seio de uma família. Demorei muito a aceitar como facto a dor que me provocava esse afastamento familiar e dos amigos que achava serem próximos. E é um grito que não deixo calar em mim. Se calhar deveria apaziguá-lo... 
Acredito firmemente que se as pessoas em geral soubessem-souberem realmente o que é um indivíduo com autismo, como se movimenta e pensa, se o respeitassem-respeitarem na sua essência, se se dessem-derem de coração para conhecê-lo, não teriam "medo" - porque é natural ter-se, sentir-se medo do que se desconhece, e a primeira imagem que se retém, de tantos mitos urbanos que circulam, não é simpática. 

É preciso querer-se olhar uma outra vez e com mais atenção para esta população. 
Urge em mim essa vontade. Que o façam. 
Sabia? São pessoas doces e meigas, muitas vezes dadas e terrivelmente genuínas, tanto que o são que muitos lhe chamam anjinhos e outras coisas fofinhas. São gente, como todos nós, têm o mesmo direito que nós os tais normaizinhos de pisar este chão que é de todos, sabia? Eu já o aprendi da forma mais complicada. Não precisa ser assim para si... 
Familiares e amigos, que se distanciam destas pessoas e suas famílias nucleares, não sabem como perdem uma oportunidade estranha de se elevarem, de crescerem. 
Vou-lhe contar um segredo, quer? 
Aprendemos com eles a verdadeira essência da vida, a resposta que todos buscamos - o SIMPLES. Eles têm um *descomplicómetro* associado que lhes confere uma poesia na forma de ver e viver a vida que a nós, os formatados para a normalidade, nos desconcerta tão completamente. Afinal andamos a complicar a nossa existência para quê?? 

Como mãe e como observadora, gostaria ainda de assistir neste mundo ao momento em que familiares, amigos da família, pessoas que circundam estes lares, onde existe uma pessoa com autismo, fossem simplesmente agraciados com uma estranha generosidade e tivessem a verdadeira intenção de perceber como estas pessoas vivem cada momento do seu dia, como os pais e cuidadores resolvem problemas que apenas aparentam ser de somenos importância e podem ser (são) calamitosos. Mais. Deixassem de culpabilizar quem (os pais) não tem nem a culpa nem a vontade que isso aconteça. Mais ainda. Esta é a fase em que estas famílias mais precisam de apoio, não de um dedo apontado. 

Sabe uma chuvada de Verão, que poeticamente achamos ter um cheiro romantizado a terra molhada, e essa ser a única emoção a ser acordada? Pode ser dramático para alguém cuja hipersensibilidade o faz sentir dor. 
A chuva não dói - que disparate - poderá pensar, não é? 
Faça-me lá a vontade e caminhe comigo: vá, dispa o casaco, fique de braços nus, descalce-se, abra os braços a uma nova descoberta e deixe os simpáticos pingos quentes da primeira chuvada tomarem conta de si. Caminhe à chuva, vá, mas esqueça-se da sensação que lhe é prazeirosa e tente entrar na mentalidade autística de que só (me) ouve falar. 
Aferir a dor de outrem é algo que considero impossível - sempre afirmo isto - mas tente concentrar-se em que cada minúsculo pingo de chuva é uma alfinetada, um golpe de faca, o que seja que imagine que lhe doa a si, mas sinta que lhe dói. E muito. Então? Ficou com vontade de chorar? De gritar? Não acha (ainda) terrivelmente intrusivo?... Certo, vamos subir de nível neste jogo. Agora acrescente que todos os sons foram magnificados amplificados a raiar a distorção e consegue ouvir todas as conversas de todas as pessoas, todos os ruídos de portas, carros, sirenes, pássaros, até o ar condicionado da loja do outro lado da rua, todos os cães a ladrar, os passos de todas as pessoas, mesmo os grilos lá no fundo, do outro lado do quintal. Não chega... Pense nos cheiros que lhe entra pelas narinas. Quais? Então, o do suor do seu próprio medo, aquele que nem deu conta de que se apossou de si, o do pêlo molhado do cão que está do outro lado da rua, o do cozinhado queimado da tia Micas que sai pela janela, o do horrendo dos caixotes do lixo da rua detrás, e sim, o da terra molhada pela primeira chuvada de Verão. Podia continuar, mas vá, pense só que agora não pode abrir os olhos e acabar este exercício. Nunca. Nunca em toda a sua vida.... Diga-me: e agora já gritaria? Eu creio que sim. E nem falei das texturas complexas, das cores que ferem e doem, das palavras que passam por cima da cabeça e fazem fila para entrar nas suas ideias.... 

Autismo existe. É fodido, sim. É apenas o que lhe peço. Olhe para o lado. Cada vez tem mais amigos, vizinhos, primos e conhecidos a terem um bebé com autismo, não é? Então pare para ajudar. Nem que seja a entender. Vá, não seja fodido para com o autismo. 


quarta-feira, 24 de junho de 2015

S. João Bonito

Em conversa com um amigo que foi esta noite pela primeira vez ao S. João no Porto, recordei que num capítulo do meu livro AUTISTA, QUEM...? EU?, coloquei todas as personagens nesta noite fantástica. Como ainda hoje os leitores me continuam a falar das peripécias que o Xico e companhia passaram e de como se riram ao lerem o livro em locais pouco apropriados para gáudio dos transeuntes, volto a publicar neste site o meu texto desse capítulo logo hoje em noite sanjoanina. Também aproveitando este ensejo, homenageio a minha amiga ISA SILVA, uma artista que muito prezo o percurso que tem feito, a obra que tem produzido.
Deixo-vos com a reprodução que foi ao Concurso Martelinhos de S. João 2015, porém podem ver o original ao vivo, pois está em exposição no Palácio das Artes - Fábrica de Talentos entre 11 de Junho e 16 de Julho.
Este meu livro AUTISTA, QUEM...? EU? que se encontrava esgotado há muito, existe agora - a pedido de muitos leitores - em versão ebook.
Contacte-me para saber como adquiri-lo.

S. João Bonito

(excerto do capítulo S. João Bonito, do livro Autista, quem...? Eu?)
- imagens retiradas da net -

Estava a descer os Aliados. Isso percebi. Era uma barulheira com música ligeira e buzinadelas de fundo...
– Que dizes, bamos até aos Aliados? - desafiei o J.J. depois de desligar.
Os meus pais não quiseram vir. Definitivamente já não são os foliões que eram! Tinham até à semana para ir visitar as cascatas e preferiam fazê-lo escapando ao burburinho da noite de 23 para 24 – explicaram.
A Gui recusou a oferta da minha mãe de ficar com o Xico e também o de ficarem a dormir no Porto, mas diverti-me a ver o ar desinquieto do J.J. à medida que a Gui recusava uma e outra vez. Estava mortinho por ficar, que eu bem o conheço!
Tivemos dificuldade em estacionar o carro na Lapa, mas outra coisa não seria de esperar e avançámos a pé rumo à Av. dos Aliados serpenteando pelas ruas. Os putos nos semáforos pediam um euro para o S. João.
O que a inflação faz!
– Está uma noite maravilhosa, até parece que o S. Pedro deu uma mãozinha! - exclamou a Gui de braços abertos volteando sobre si própria.
– É melhor irmos até à Ribeira para ver o fogo - disse eu. - Ainda pensei levar-vos às Fontainhas que tem uma vista luxuriante sobre o Douro e para provarem um caldo verde à maneira, mas está sempre à pinha e com o Xico não me parece lá muito boa ideia...
– Isto vai encher imenso. - explicou J.J. dirigindo-se à irmã. - Tal como o Sto. António é uma festa de rua: não escolhe idades, estrato social e económico. Mas mesmo sendo alfacinha devo dizer-te que o S. João tem uma magia que nunca vi lá em Lisboa!
Num quiosque improvisado uma vendedeira de bata às florzinhas e boné do F.C.P. apregoava no nosso sotaque característico o manjerico e o alho-porro. Apesar deste ser mais tradicional, a malta mais nova preferia o prático martelinho de plástico colorido. A Gui ficou muito espantada por uma variedade de hortense à venda que não conhecia e perguntou à vendedeira porque é que aquela flor tinha uma haste tão comprida...
– Bariedade de hortense...? C’um carago!!! A menina está a mangar comigo, num está...? - A vendedeira estava agora incrédula. - Olha-me esta morcona a dezer que nunca biu a porra de um alho-porro na bida!? Ólhe que num acredito, menina!
– É que a minha amiga é de Lisboa... - respondi como se fosse justificação.
– Ides dezer-me que os mouros nunca biram um car... de um alho-porro?!? - bradou a senhora calcando um manjerico - Menina, sabeis que se cheira um manjerico desta maneira...? Num se chega o nariz à beira dele que murcha...
Esticava agora a palma da mão perfumada à inculta lisboeta.
– Isso por acaso até sei. - declarou Gui com um sorriso embaciado; depois murmurou ao meu ouvido - ... se agora lhe dissesse que na minha ideia via o alho-porro como uma espécie de alho-francês... descompunha-me, não?
Tive grande dificuldade em conter o riso...
Fiz sinal à Gui para não acrescentar mais nada à boa ideia que a vendedeira tinha formado dos mouros e comprei quatro martelinhos para nós, já que o Xico não se calava que queria porque queria o seu em verde, da cor do seu Sporting.
Enquanto discutia com o J.J. que quem pagava era eu, que era eu o anfitrião, apanhei a maior cacetada de que há memória e logo de seguida recordo que ouvi o J.J. praguejar uma asneira bem gorda e dizer que estava a ver tudo azul às riscas com o símbolo do FêCêPê... tudo às voltinhas como se fosse um desenho animado a ver estrelinhas...

Pois.
O Xico estava só a experimentar o seu martelo...
A Gui ria que nem uma perdida e aproveitou para nos dar uma marteladita, bem mais suave, convenhamos!
– Ó meu amor, é para bater mas sem força! - Tentava dizer limpando as lágrimas da risota. - Olha Quico, faz assim suavemente.
Olhou para nós para exemplificar mas, só conseguiu tapar a boca para rir ainda mais.
Foi um problema.
O Xico cascava forte e feio em toda a gente...
Tem uma força desmesurada sem ter noção como aplicá-la.
Algumas pessoas ainda achavam graça, quando se viravam, por ele ser mais ou menos pequenito, mas não era tão pequeno assim que não se sujeitasse a algum azeiteiro pronto para lhe dar uns bufardos... estávamos sempre com atenção e muito, muito apreensivos. Mas ele era rápido no gatilho...
Entre a hilaridade que nos acometia os comentários e impropérios, ouvidos em resposta às impetuosas e certeiras marteladas do Xico, continuámos em direcção à Ribeira.
A Gui estava completamente encantada pela versão nortenha dos santos.
– Isto é muito mais giro que o S. António! – clamava. - E a diferença está no martelar. Isto é fantástico! Olha a quantidade de gente com que já me meti!
Pois! Sem contar com a quantidade de morcões que se meteram com ela!
O J.J. estava ansioso que encontrássemos a Lena. Caramba!
– Telefona-lhe - pedia-me descaradamente. - Pergunta-lhe onde está agora.
– Calma! - tranquilizava-o eu - Vais ver que a encontramos na Ribeira...
Na Praça da República estava instalado um palco e actuava um grupo etnográfico, As Tricanas Poveiras, com as suas blusas de renda e os seus aventais multicolores.
– Então e numa noite destas não estão na Póvoa? - perguntava a Gui.
– És tão alfacinha... - brinquei. - Na Póvoa do Varzim gozam o S. Pedro!
– Pensei que cá para cima fosse só S. João, que S. Pedro fosse só em Sintra!
– É verdade! Esqueci que és daquelas que pensam que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. - ri eu, ganhando em troca uma careta e uma martelada.
Quando passámos pela Rua de Cedofeita, uma senhora vendia, entre bandeiras do meu F.C.P. e manjericos, uma outra versão de martelos: os insufláveis.
Perfeito!
Assim o Xico não magoaria mais ninguém!
A Gui parou a olhar as montras das sapatarias. Pfff!!! Nem sei para quê... tem pr’aí uns cinquenta pares! «Tenho de voltar à Invicta para umas comprinhas» disse convicta. Pois claro, estava nas suas sete quintas...
Comprámos o novo e enorme martelo e seguimos caminho enquanto o J.J. tentava ganhar fôlego para o encher, às aranhas com o sistema de segurança.
– Isto das seguranças é só para deixar os adultos doidos, se fosse um miúdo já tinha conseguido encher esta bodega! - reclamava.
Ri-me ao recordar quando, um dia, não consegui abrir um frasco de xarope com um sistema de segurança para crianças que o Xico prontamente abriu.
O Xico estava delirante pelo tamanho do seu novo instrumento de tortura sanjoanina, mas, por ser tão grande não conseguia impulsionar o balanço suficiente para poder cascar decentemente. Então demo-nos conta que uma pessoa gemeu à passagem do martelo do Xico:
– Fuooogo! O catraio num parece mas tem fuooorça!!! - disse num queixume.
Ele segurava o martelo, mas, era com a outra mão que socava!!!
A Gui determinou o fim das hostilidades e tirou-lhe o martelo:
– Desculpa lá Quico, mas não pode ser! Agora ficas sem martelo!
Continuámos, avançando em fila indiana, por entre a multidão que inundava a rua até à Praça Carlos Alberto e eu, feito cicerone, ia explicando onde nos encontrávamos, qual o edifício público ou monumento que víamos ou quaisquer outros esclarecimentos que sentisse necessidade de fornecer aos meus ilustres convidados alfacinhas...
Na praça existem umas enormes floreiras de alvenaria, dispostas lado a lado. Em duas delas estavam sentados dois homens, cada um na sua, visivelmente embriagados.
O Xico seguia à nossa frente na fila e, com uma enorme rapidez, sem que o pudéssemos impedir, pára por breves segundos, mesmo na frente dos homens, levanta os dois braços de punho fechado e... zás!!! Aplica duas grandes e valentes murraças nos dois homenzarrões, em simultâneo, uma em cada testa!!!
Lívidos, entreolhamo-nos os três... É desta que o Xico leva uns cascudos, juro que pensei!
Como seguíamos em fila indiana, hesitámos antes de passar em frente daqueles dois, mas, o Xico, depois de desfechar os murros já lá ia como se nada fosse, por isso prosseguimos também... Por essa altura os homens levaram, ambos, as mãos à testa:
O J.J. avançou timidamente passando bem à frente deles; olhando-os tão de perto que pôde escutar o primeiro:
– Fod...!!! Que car... foi este???
A Gui passou de seguida em estilo apressado e pôde escutar o segundo:
– C’um car...!!! D’ond’é que esta me caiu, carago??? - rugia olhando o céu.
Quando eu passei, sorrateiro, olhavam os dois para cima questionando-se:
– Foi uma pedra, car...!!!
– Um pássaro é que num foi! Fod...!!!
Juntámo-nos em volta do Xico já mais descansados porque eles não tinham sequer percebido que havia sido o puto, mas, ao contarmos o que cada um tinha ouvido de passagem, caímos na risada, ali a dois passos daqueles homens enormes, dobrámo-nos a rir, limpámos as lágrimas e eles tão bêbados... Largámos a rir de novo, gargalhando estrondosamente até nos doer a barriga... Os homens continuavam ali ao lado, sentados, esfregando a testa e olhando o cumpridor céu limpo de uma linda noite de Verão, sem nunca se aperceberem que tinha sido um miúdo que os esmurrara... claro, de brincadeirinha sanjoanina...
Daí para a frente o Xico foi de mãos dadas connosco. Com as duas mãos dadas: firmemente com um de nós em cada um dos lados.

Descíamos na Av. dos Aliados quando o J.J. trocou com a irmã ficando do outro lado com o Xico. Aproveitou e perguntou-me de novo:
– Não lhe queres ligar?
Olhei para a Gui em busca de auxílio, mas estava noutra, uns passos à nossa frente toda eufórica, flirtando descaradamente, a cada pancada de martelo...
– Deixa lá a Lena...! - disse de mau humor. - Logo ali já estamos na Ribeira.
Estava um mar de gente e eu que sou mais alto pude ver, por cima das cabeças, uma verdadeira batalha campal de martelinhos. O J.J. pôs o Xico às cavalitas e ele riu-se muito vendo o mar colorido de plástico acertando aqui e ali... percebi-o pelo gesto que fez: como que tocando xilofone na cabeça do tio!
Fiquei de olho na Gui, não fosse algum parvalhão atrever-se, mas não era tarefa fácil, pois continuava a saltaricar entre as esplanadas da Ribeira, toda gira, e nós ali com o Xico, e, o J.J. maluco, à procura da minha irmã. Mas onde é que eu tinha a cabeça?
O Xico estava com fome e levei-os a comer pizzas... Não é tradicional, é certo, mas o S. João já não se reveste dos costumes que ainda me lembro de ouvir contar, e depois, nenhum de nós era grande apreciador de sardinhas, e, o preço tão inflacionado (1,50 € por sardinha) retirava-nos a réstia de vontade.
Cedi à pressão do J.J. e telefonei à Lena a perguntar onde estava. Estava em Gaia e só iria conseguir atravessar a ponte depois do fogo de artifício.
– A ponte D. Luís I - expliquei puxando os fios de queijo com ar guloso - fecha a passagem ao público durante o fogo suspenso mas reabre logo a seguir.
– Aqui anda-se a pé na ponte, é? - perguntou a Gui com ar incrédulo.
– És tão alfacinha! - retorquiu o irmão, depois virou-se para mim. - Achas que podemos ir até Gaia?
– O que é que há em Gaia? - interpelou de novo a Gui. - Mais festejos, é? Vejam lá se não é demais para o Quico. O que é que tu queres de Gaia, Zé João?
– É giro passar na ponte... - disse em socorro do meu amigo. - Abana todinha!

À meia-noite em ponto as luzes na Ribeira apagaram-se, e, ao burburinho habitual proporcionado pela escuridão momentânea, começou o espectáculo do fogo de artifício.
Lindo. Luxuriante. Poderoso.
– Enche a alma! Enche o coração! - gritou a Gui para o céu abrindo os braços abarcando deslumbrada as suas emoções.
– Faz barulho - queixou-se o Xico tapando os ouvidos -, mas tem cores giras.
A Gui enlaçou-o imediatamente tentando protegê-lo.
– Maguida...? Isto é passagem de ano? - questionou o Xico.
– Nas festas, Quico, o fogo acontece várias vezes... - começa a responder Gui.
– É fogo mas não é para as chamas. - responde lacónico.
Da ponte D. Luís I começa o magnífico fogo suspenso.
Algumas embarcações no rio estão ancoradas, a uma distância de segurança, repletas de convidados que assistem deleitados naquele palco preferencial à chuva magnificente de luz e cor.
– Ouvi além um senhor comentar que há pessoas que reservam a sua vaga nos barcos de um ano para o outro, é assim? - perguntou-me J.J.
Era assim. Anui com um «hum, hum» continuando de olhos no céu.
– Ouvi também comentar que há uma certa rivalidade entre Gaia e Porto. também é verdade? - continuou J.J.
Era assim também...
Quando o fogo acabou reparei que a Gui se tinha sentado e tinha o Xico ao colo. Fiz-lhe sinal perguntando se tinha passado mal. Em resposta ergueu o polegar. Estava tão feliz e acabou por não poder apreciar devidamente!
Fiquei a olhá-la ali concentrada, no meio do bulício, com o filho enorme ao colo.
– A noite é longa! Só acabo na praia, na Foz! - grita alguém para mim.
– Não esqueças de lavar a cara com as orvalhadas! - respondo dando-lhe com o martelo.

– Estás a ver aquele grupo ali de malucas? - apontei ao J.J.
– Onde?
– Ali - sinalizei apontando o meu martelo. - Daquele lado de quem vem de Gaia. São as parvas das amigas da Lena que eu não gosto nada. Olha ali a minha irmã.
Mas o J.J. já a tinha avistado e estava em perfeito estado de basbaqueira: o queixo havia-lhe descaído uns centímetros, provavelmente o suficiente para poder salivar. Abanei a cabeça e olhei na direcção da Gui para lhe chamar a atenção, mas ela estava aos pulinhos martelando um e outro rindo e gracejando aqui e ali... A Lena. Olhei para ela e estava, também, a flirtar de cacetada em cacetada... Mas o que se passa com as minhas miúdas que nunca as vi assim...?
Um estridente grito colectivo, tipicamente feminino, irritou-me os tímpanos. A ponte abanou de novo e agarrei melhor o Xico que ria a bandeiras despregadas.
– Típico! - gritou-me a Gui perto do ouvido. - Toda a gente cheia de medo com as sacudidelas da ponte e o Quico a rir à tripa-forra...!!!

...Depois acertou-me uma martelada rindo e graceja.
– Olha o teu irmão e a minha irmã. - Consegui indicar-lhe com o meu martelo.
Olhámos na mesma direcção. O J.J. furava até estar suficientemente perto para esticar o seu martelo e acertar em cheio na cabeça da Lena.
Ela virou-se a rir.
Estava com um ar tão feliz...
Encarou nos olhos o seu atacante que a esperava, expectante.
O sorriso de Lena esmoreceu.
O seu martelo em riste perdeu o balanço.
O ar de basbaque do J.J. voltou a inundar-lhe o rosto.
– ‘Pera lá... o que é que me está a escapar...? - inquiriu uma curiosa Gui - sabes de alguma coisa que eu não sei?
– Não por muito tempo, parece-me... - mexeriquei.

Sorriam agora os dois com um ar tão tolinho...





Os sem-abrigo na rua tinham impressionado muito a Gui.
No final da noite, quando regressávamos à Lapa pelas 3 da manhã, local onde estava o carro, passámos por muitas ruas já mais desafogadas das gentes borguistas ou, como gracejou o J.J., mais pareciam que se arrastavam de monco e martelinho caído com a atitude venho da festa. O nosso próprio sempre-em-festa ia escalando do colo do tio para o meu, ainda desperto, mas sem aguentar os pés.
Da noite emergiam agora os verdadeiros donos do espaço emprestado à folia: aqueles que esticavam os cartões e cobertores como se de lençóis frescos se tratassem, aqueles que se espreguiçavam e coçavam como se não os víssemos, aqueles que faziam a sua higiene pessoal, ali, à frente de quem passava como se realmente em casa estivessem... E estavam mesmo, infelizmente.

– Em Lisboa também há os sem-abrigo, mas aqui está a impressionar-me por demais - garantia a Gui a olhar para um senhor que lavava os dentes usando água engarrafada (ou numa garrafa...) e cuspindo para o chão.
– Mas em Lisboa se passas por eles de carro à noite, estarás com mais atenção à luz do semáforo, e, se acaso vires alguém dirigir-se a ti arrancas ainda com o vermelho, ou trancas o carro, não é? - disse-lhe o irmão. - Aqui estás numa situação diferente, estás a pé, cansada e a tua atenção foi tomada de uma forma mais perniciosa. Pena é que, voltando à habitual rotina, se continue a trancar portas...


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...