terça-feira, 1 de julho de 2014

ebook Autista, quem...? Eu?

Este meu livro - Autista, quem...? Eu? - foi publicado da forma mais tradicional em 2006 pela Editora Centralivros. 
É um livro que tem feito o seu percurso de uma forma muito bonita, ao longo destes anos e edições.
Muitos foram - e são - os leitores de que recebi - e recebo - mensagens, confidências, desabafos, palavras que não vou esquecer jamais.
Sendo uma história de ficção, é bastante humanizada e que toca de muito perto quem vive com o autismo dentro de casa, como acontece com as personagens deste livro. 




Hoje, 8 anos após o seu lançamento, este livro continua vivo, a ser-me solicitado não só por vários leitores meus que pretendem partilhar as emoções que tiveram e querem oferecê-lo a outras pessoas, como até por quem não o leu e o quer fazer pela primeira vez por lhe ter sido repetidamente recomendado.
Porém, tendo em conta que está esgotado há anos e me dá um dó imenso não poder divulgá-lo mais, rendi-me às novas plataformas - diferentes do livro físico que tanto prezo - e surge esta forma de apresentação. 
Espero que este livro, agora virtual, continue a ser lido com o mesmo interesse, que continue a ajudar famílias como curiosamente tem acontecido até aqui.


Como fazer para ter acesso ao primeiro livro virtual de Ana Martins?

O acesso ao livro está disponível em duas modalidades
em apenas 3 cliques: (contactar via email - anamartins.com@gmail.com)



  • acesso de leitura por 2 meses 
      - por 5€ 


  • acesso de leitura vitalício 
      - por 10€ 


PRIMEIRO

Após escolher qual dos acessos pretende, efectuar o seu pagamento (tranferência ou paypal), e mandar com o confirmativo apenas o endereço de email. 
Receberá no email o seu convite para o livro. 
Abra e clique em ACEITAR CONVITE


SEGUNDO

Não esqueça o conselho em letras pequenas: Tem de iniciar a conta google. E outro ainda: aceite o convite rápido, tem prazo, e dentro de dias expira. Mas quer mesmo ler.... então vamos lá, clique de novo em ACEITAR CONVITE.




 TERCEIRO 

O seu acesso ao livro está concluído em 3 cliques! Viu? Simples!!





Agora já tem acesso directo ao livro Autista, quem...? Eu? 

ok, agora clicou neste link e não conseguiu entrar, foi isso? 

Pois. Está reservado apenas a leitores autorizados, os que passaram pelo ponto inicial - o pagamento. 
O livro, o trabalho da autora, não é oferta. Neste ebook foi adicionado ao texto que já existia um extra que este novo formato permitiu: imagens e sons que ajudam a conduzir o leitor nas emoções da alucinante viagem de montanha-russa que é o mundo desconcertante do autismo.

Agora sim, pode começar a ler, no seu telefone, tablet ou computador. 










domingo, 4 de maio de 2014

Dia da Mãe

Dia difícil para quem não tem mãe, não tem avó e todas as minhas referências maternais se diluíram no tempo e no espaço que a desabrida saudade alberga. 
Mas a vida, a dor, ensinaram-me, devagarinho que se consegue manter a cabeça à tona, reinventando a família perdida em outros novos relacionamentos que se investe e dá seus frutos. Diz o povo que os Amigos são a família que escolhemos, e tenho muito presente cada pessoa que tem passado pela minha vida e o papel que desempenha ou desempenhou. Quem como eu vive com o autismo tão presente, sabe como sua permanência - que deveria ser perene - é terrivelmente perecível, e eu, aprendi simplesmente a usufruir do momento que uno é capaz de se dar. 
O Dia da Mãe, tal como seria suposto ser celebrado, não existe na minha vida. E se durante anos lutei contra a falta da minha, chegou um dia a altura na vida de ser Mãe, mas ainda assim, como sabemos, foi tudo ao lado.

Uma vez só na vida, uma amiga grávida ao invés de se distanciar, desejou ter um filho como o meu Pedro. Foi um momento abençoado que a doce Mel Sanroman me deu, sem saber o imenso valor que teria para mim, jamais vou esquecer... escrevi essa história num post quasi-intimista, e podem ler aqui

Um ano só na vida, tive um dominical dia da Mãe "como seria suposto" ser celebrado: o meu querido amigo Henrique, num rapto consentido, proporcionou-nos esse dia especial. Recordo que refilei o tempo todo, seria algo postiço e sem valor, mas fez-me ver o contrário: ainda hoje guardo os presentes que deu ao Pedro para me oferecer nesse dia, com maior carinho que os de outros anos, guardo a memória do passeio, da conversa, do que me disse - e sim, foi definitivamente especial, único. 
Então este ano quero dedicar este dia a uma mãe e uma filha, como poderia ser eu e minha mãe. A amizade que tenho com a Lelê Guedes é igualmente única, sem explicação, somos ambas pessoas muito intensas na forma de sentir o sentido da vida, seremos irmãs ou mãe uma da outra, o que lhe quiserem chamar. Hoje, dar-lhe nome, não tem qualquer importância. Mas a razão de hoje, a minha comemoração com o meu doce Pedro ser partilhada com as duas, é apenas por a relação que ambas têm, poder ter sido a minha e de minha Mãe. 
Exactamente por não ser comemorado no mesmo domingo, a Bia e a Lelê vão assim ganhar um dia extra nas suas vidas de Mãe e Filha, dos muitos Dias da Mãe, que ainda vão viver e comemorar nas suas doces vidas.
Feliz dia da Mãe, desta feita oferecido de coração, minhas queridas Bia e Lelê Guedes!


domingo, 20 de abril de 2014

A ausência é um estar em mim

As datas especiais têm um peso social tão marcante que se revela insuportavelmente doloroso na monoparentalidade. 
(ilustração de Margarida Mendonça)
Nesta Sexta-feira Santa, planeava fazer as refeições confeccionando peixe, não por motivação religiosa inerente à data, mas por me fazer sentir a familiaridade da minha querida avó. Quando era criança e adolescente seria impensável pensar em carne nessa sexta-feira e, irreverente como era, ao comer fiambre no pão logo pela manhã, sendo que o meu reino se queda pelos queijos, era a minha desadequada forma aparvalhada naquela idade de subverter as regras da casa. Hoje sorrio ao recordar a tontice e, sem pesar, penso as refeições deste dia com peixe. 

Um vizinho ter feito uma pescaria na noite anterior, foi o meu mote. Os carapaus estavam tão frescos que do saco só emanava uma brisa de maresia e, gulosa, já os casava fritinhos, com o malandro do arroz de tomate aromatizado com pimento e coentros. 
Mas o dia correu todo ao contrário. O meu filho Pedro esteve sempre na eminência de se tornar violento e após arranjar os carapaus, nem sequer consegui chegar perto, muito menos fritar, acto que leva tempo e dedicação e tenho má memória da minha cabeça partida estando ao fogão na confecção de alguma refeição elaborada e tentando neutralizar uma crise. Sou uma lírica, pois não se consegue fazer tudo, e dessa vez uma malga de barro voadora atingiu-me. Pensei que morria nesse dia. Cinco pontos. Agora a minha atenção fica toda na tentativa de neutralizar cada crise e nada mais. E até sou bem sucedida, digo eu com os meus botões. 
A crise arrastou-se pelo dia fora, entrou pelo sábado adentro sem dormir até ao limite de me parecer psicótica - sim, é assustador - e para nos alimentar só consegui aquecer restinhos que tinha no frigorífico, e curiosamente nada tinha de peixe confeccionado. Em 50 anos foi a minha primeira sexta-feira santa corrida a carne. Incomodou-me. Principalmente a quantidade de vezes que me recordei do momento em que no tribunal explicava à juíza como a situação estava mais calma e controlada comparativamente com o terrível mês de Agosto passado, e de como me sorrira e com calma me fez compreender que não tenho nada controlado... Incomoda-me que esteja tão habituadinha a esta vida que nem me apercebo de como é ridícula a minha vã tentativa de me convencer que sair das férias da Páscoa apenas com um pontapé e um murro no ventre seja algo de bom. Incomoda-me que já no final da manhã de sábado aproveitando uma soneca do Pedro, tenha conseguido entre a exaustão e o desconsolo, ter finalmente encontrado meia hora de paz para me entregar à culinária. Incomodou-me ter almoçado sozinha, não ter podido partilhar como estavam bons os carapauzinhos. 
Não tem nada de errado, afinal a maioria das minhas refeições é a solo e não me incomodo, mas em todo o nosso redor, há essa pressão nestes dias supostamente de festa. Nos descontos de supermercado especiais de época, nos ovos de chocolate, nas amêndoas, nos amigos que vão para a terra, tudo em nosso redor nos remete para uma realidade que não tenho, o meu filho não tem, mas sinto que a anseia. Incomoda-me, mas não posso fazer nada, ou até posso, pois que acabando de publicar este post, vou semear a casa com bilhetinhos para uma alegre e matutina caça ao tesouro onde o meu Pedro acabará por dar uns passos, até chegar ao coelho de chocolate. Prevejo umas piadolas que o forte sentido de humor que o meu filho tem, perceberá o fraco trocadilho. Por maior que seja a falta ou ausência de todas as figuras que deveriam estar na sua vida, eu, Mãe, não desisto de preencher a sua vida com momentos bons a dois, tento dar-lhe continuamente uma boa base, ainda que a solo.
Mas eis que encontro forma de me sentir feliz: Uma querida amiga telefona-me entretanto. Vai para fora mais tarde, mas ainda passa por minha casa a trazer um carrinho para o Pedro. Como era cedo, pergunto-lhe se já teria almoçado e desligo já contentinha a preparar-lhe o farnel surpresa, num saco os frescos: as primeiras nêsperas desta primavera tardia e uma caixinha com salada, e num outro saco, arroupadas num pano de cozinha, duas caixas: uma com os carapaus ainda quentes e outra com o arroz já enxuto de malandrices, mas ainda corado de sabores.


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