domingo, 20 de abril de 2014

A ausência é um estar em mim

As datas especiais têm um peso social tão marcante que se revela insuportavelmente doloroso na monoparentalidade. 
(ilustração de Margarida Mendonça)
Nesta Sexta-feira Santa, planeava fazer as refeições confeccionando peixe, não por motivação religiosa inerente à data, mas por me fazer sentir a familiaridade da minha querida avó. Quando era criança e adolescente seria impensável pensar em carne nessa sexta-feira e, irreverente como era, ao comer fiambre no pão logo pela manhã, sendo que o meu reino se queda pelos queijos, era a minha desadequada forma aparvalhada naquela idade de subverter as regras da casa. Hoje sorrio ao recordar a tontice e, sem pesar, penso as refeições deste dia com peixe. 

Um vizinho ter feito uma pescaria na noite anterior, foi o meu mote. Os carapaus estavam tão frescos que do saco só emanava uma brisa de maresia e, gulosa, já os casava fritinhos, com o malandro do arroz de tomate aromatizado com pimento e coentros. 
Mas o dia correu todo ao contrário. O meu filho Pedro esteve sempre na eminência de se tornar violento e após arranjar os carapaus, nem sequer consegui chegar perto, muito menos fritar, acto que leva tempo e dedicação e tenho má memória da minha cabeça partida estando ao fogão na confecção de alguma refeição elaborada e tentando neutralizar uma crise. Sou uma lírica, pois não se consegue fazer tudo, e dessa vez uma malga de barro voadora atingiu-me. Pensei que morria nesse dia. Cinco pontos. Agora a minha atenção fica toda na tentativa de neutralizar cada crise e nada mais. E até sou bem sucedida, digo eu com os meus botões. 
A crise arrastou-se pelo dia fora, entrou pelo sábado adentro sem dormir até ao limite de me parecer psicótica - sim, é assustador - e para nos alimentar só consegui aquecer restinhos que tinha no frigorífico, e curiosamente nada tinha de peixe confeccionado. Em 50 anos foi a minha primeira sexta-feira santa corrida a carne. Incomodou-me. Principalmente a quantidade de vezes que me recordei do momento em que no tribunal explicava à juíza como a situação estava mais calma e controlada comparativamente com o terrível mês de Agosto passado, e de como me sorrira e com calma me fez compreender que não tenho nada controlado... Incomoda-me que esteja tão habituadinha a esta vida que nem me apercebo de como é ridícula a minha vã tentativa de me convencer que sair das férias da Páscoa apenas com um pontapé e um murro no ventre seja algo de bom. Incomoda-me que já no final da manhã de sábado aproveitando uma soneca do Pedro, tenha conseguido entre a exaustão e o desconsolo, ter finalmente encontrado meia hora de paz para me entregar à culinária. Incomodou-me ter almoçado sozinha, não ter podido partilhar como estavam bons os carapauzinhos. 
Não tem nada de errado, afinal a maioria das minhas refeições é a solo e não me incomodo, mas em todo o nosso redor, há essa pressão nestes dias supostamente de festa. Nos descontos de supermercado especiais de época, nos ovos de chocolate, nas amêndoas, nos amigos que vão para a terra, tudo em nosso redor nos remete para uma realidade que não tenho, o meu filho não tem, mas sinto que a anseia. Incomoda-me, mas não posso fazer nada, ou até posso, pois que acabando de publicar este post, vou semear a casa com bilhetinhos para uma alegre e matutina caça ao tesouro onde o meu Pedro acabará por dar uns passos, até chegar ao coelho de chocolate. Prevejo umas piadolas que o forte sentido de humor que o meu filho tem, perceberá o fraco trocadilho. Por maior que seja a falta ou ausência de todas as figuras que deveriam estar na sua vida, eu, Mãe, não desisto de preencher a sua vida com momentos bons a dois, tento dar-lhe continuamente uma boa base, ainda que a solo.
Mas eis que encontro forma de me sentir feliz: Uma querida amiga telefona-me entretanto. Vai para fora mais tarde, mas ainda passa por minha casa a trazer um carrinho para o Pedro. Como era cedo, pergunto-lhe se já teria almoçado e desligo já contentinha a preparar-lhe o farnel surpresa, num saco os frescos: as primeiras nêsperas desta primavera tardia e uma caixinha com salada, e num outro saco, arroupadas num pano de cozinha, duas caixas: uma com os carapaus ainda quentes e outra com o arroz já enxuto de malandrices, mas ainda corado de sabores.


terça-feira, 8 de abril de 2014

Dar voz ao Xico

A personagem Xico do meu livro AUTISTA, QUEM...? EU? já não me pertence, tal como nenhuma outra após voarem e saírem das minhas mãos.
Mas com o Xico foi diferente. O núcleo base das personagens, Xavier, Gui, Lena e Zé João em torno deste menino de 13 anos com o seu cão Atchim, serviram o meu propósito inicial de, não só empatizar com a (chamemos-lhe) comunidade autista, como de uma forma mais arrojada ter almejado que este livro ajudasse a entender esta síndrome para o público em geral, algo que como mãe sentia a necessidade e que esta comunidade me pedia incessantemente que o fizesse, escrevendo. Saiu-me melhor que o esperado!, e estas personagens, a forma como as desenhei neste livro, dizem-me os leitores, ano após ano, serviram (e ainda servem) de guia, deram a mão a quem me lê, para um melhor entendimento do que é o autismo. 
Dos muitos recursos que usei, recordo com muito carinho um caderninho onde apontei frases, ditos, temores e fascinações dos vários meninos autistas que conhecia e que todas as mães e pais prontamente me forneceram de bom grado, que ajudaram posteriormente a colorir a personagem Xico com um mix de tantos meninos a cujos pais gostei de fazer essa singela homenagem. Cada um sabe onde está a sua criança - Existe mesmo um menino que diz: "a casinha do 24" ou então a desconcertante pergunta se a imagem da Nossa Senhora de Fátima tinha saído no MacDonald's, realmente aconteceu. E na minha casa - sim, este hilário dito, já o referi várias vezes, foi coisinha da cabeça do meu Pedro. 
Muitos episódios que relato no livro realmente inventei-os, provoquei as emoções de cada leitor propositadamente, mas aquele colorido, por mais que eu criasse, não seria tão genuíno como usando o material que os nossos filhos produzem em abundância a cada dia: a forma como um autista percepciona a vida é tão ao lado, que nos custa pensar dessa forma tão simples... é terrível percebermos como complicamos tanto a vida quando vivemos com uma pessoa autista, e quem como eu, consegue rir-se de si mesmo - coisa que faço com mais regularidade do que penso ser normal - tem aquele vislumbre que o sentido da vida é algo bem irónico e prosaico. 
Neste livro que ando a escrever, a continuação do AUTISTA, QUEM...? EU?, as mesmas personagens, mas 5 anos depois, vai colocar o Xico com 18 anos. Ora se naquele tempo em que desenhei o Xico, só tinha acesso a algumas famílias com crianças autistas, hoje e pela mão das redes sociais, é interessante ver como de uma forma ou de outra todos nos conhecemos. E a ideia para o meu novo caderninho assume um contorno muito mais globalizante. Todos nós pais temos consciência que rimos do inimaginável para os outros pais, e não é por termos um sentido de humor retorcido, se não pelo caricato de momentos que os nossos putos terrivelmente sinceros e literais imprimem na sua peculiar forma de estar, ser e ver a vida. 
Então pensei... E se...? (sorriso) 
O que vos proponho, queridos leitores é, dar voz ao Xico! Caso queiram partilhar comigo frases, ditos ou feitos, temores e estereotipias dos seus filhos, enviem-me por mensagem, por email, por sms, enfim, mandem-me por escrito que vou armazenar e salpicar ou temperar situações no livro. Terei muito gosto em colorir as minhas personagens com recortes de momentos de pessoas reais. Dizem e fazem a cada momento observações que nos deixam com aquela perplexidade de quem ainda se deixa espantar. Ainda hoje o meu filho me dizia a propósito de uma ida ao Oceanário que irá fazer: "Ó Mãeeeeee, eu já lá fui taaaaantas vezes e os peixinhos são sempre os mesmos!!!"
E não se prendam apenas as famílias dos rapazes. Falei no plural porque no livro 2 teremos uma novidade que agora vos revelo: Uma Aspie também de 18 anos pela qual ando apaixonada e espero conseguir escrevê-la da mesma forma apaixonante com que a desenhei na minha mente!!! 
Este livro 2 há muito prometido, está mentalmente escrito e tenho tido uma imensa dificuldade ao longo dos anos em pô-lo no papel - ou no disco rígido. A minha fase de mãe de jovem autista de 18 anos foi demasiado pesada para conseguir a leveza para escrever sobre o tema. Hoje já sinto o distanciamento necessário para me sair das mãos como o quero. Até porque no Autista 3 o Xico terá 30 anos e gostaria de o escrever ainda antes do meu filho chegar a essa idade... 
Eu vou escrever esta trilogia como delineei o inicial esquisso mental: está no tempo da Mãe fechar o luto em vida que fez da fase dos 18 anos do Pedro para a escritora poder avançar com outra história, agora é a vez do Xico. 



terça-feira, 25 de março de 2014

20 cêntimos

Há uma palavra dita em inglês de que gosto tanto por, ao ser pronunciada nos encher a alma, ser ainda mais intensa que avassaladora, a sua tradução em português: nós temos SAUDADE eles têm OVERWHELM. 
Não estava preparada para o embate emocional que veio com o apelo de ajuda público que fiz.
Sempre disse que gosto mais de dar que receber e sei que na minha vida o pratico com a maior das naturalidades, que o faço sem olhar a quem, como sempre ouvi os meus avós nos ensinarem, sei que o faço de coração, sem alardes, sem justificações. Nestes últimos tempos aprendi de forma muito concreta a baixar a guarda, a aceitar que não consigo tudo e até a saber aceitar ajuda.
Sei que não é fácil quebrarmos a redoma da imagem que transmitimos, aquela que, ao quebrarem as pernas à classe média, todos lutamos, como um último reduto a manter.
Além do Banco Alimentar tenho também um grupo de pessoas amigas que se reúnem para juntas nos proporcionar o que falta à ajuda institucional, se organizam entre si para as boleias para o Pedro desde que fiquei sem carro, estão muito presentes nas nossas vidas. E estou grata. Muito.
Eu adoro ajudar, isso faz o mundo ficar mais redondinho, criarmos a tal ideia que podemos mudar o mundo, com pequenos gestos vamos mudando o mundo de alguém e isso é tão importante!!!, e essa riqueza, o sorriso feliz de quem ajudamos, o facto de sabermos que algo que fizemos melhorou um pouco o dia ou a vida de outra pessoa, isso não há dinheiro ou riqueza que pague!
Há pessoas a quem fiz trabalhos de pintura decorativa ou web design para as suas empresas à laia de troca de serviços ou como 'pagamento' por outras ajudas concretas, mas eu acho que na verdade esta volta à forma ancestral de troca de serviços serviu a muitos de nós para crescermos enquanto população cívica e perceber que para além do tu-dás-e-eu-dou-a-ti, existe o vou dar porque o outro precisa e existe o eu recebo porque estou necessitada, sem ter vergonha de agradecer, de dizer: sim, eu preciso.
Acontece que com este pedido de ajuda público que fiz, desta vez não foram só os amigos que acorreram. São também os amigos de amigos, são os desconhecidos que me têm deixado absolutamente sem palavras.  Confesso, tenho chorado muito. Disse-me uma psicóloga que é uma reacção absolutamente normal para quem aguentou estoicamente por tempo demais e de forma absolutamente contida uma situação insustentável. Tranquilizou-me a explicação, já que me sinto frágil e com muito medo de me deixar cair, coisa que repetidamente e aos longo dos anos não me permito, a ponto de achar estranho em mim o simples chorar. Mas lá está, nem o Pai Natal existe, nem a super-mulher. Eu nunca quis vestir esta capa que repetidamente me põem sobre os ombros e não a quero, não a quero mesmo!

Anthony and the Johnsons - you are my sister

Gostava de partilhar uma de tantas, tantas conversas que tenho tido por mensagem com todas as pessoas que me abordam. Tenho a alma a transbordar mais que a caixa de entrada, e sei que ainda não consegui, talvez nunca consiga agradecer a todos o que estão a fazer por nós a cada dia que passa. E digo honestamente que não falo apenas do dinheiro, se não de mimo. Tenho sido tão acarinhada, tenho recebido o retorno de tantas pessoas que ajudei num ou noutro momento da minha vida e que de uma forma ou de outra me acarinham agora, mas é exactamente dos desconhecidos que ainda fico mais desconcertada.
Uma pessoa escreveu-me que se havia enganado e depositado vinte cêntimos ao invés de euros e estava muito aflita, que faria novo depósito no dia subsequente. Acabámos por rir do engano, que a todos nós acontece e até fizemos umas piadas em torno disso. Mas eu fiquei a pensar nisso. E no dia seguinte entrei outra vez nessa mensagem para dizer à pessoa que iria guardar uma simples moeda de vinte cêntimos comigo, que seria uma moeda especial e que a guardaria sempre.
E vou fazê-lo.
Dou muita importância a pequenos pormenores, costumo dizer que Deus está nos detalhes, e esta simples moedinha vai simbolizar para mim, toda esta onda de ternura que me faz sentir... overwhelmed.
Bem Hajam!





NIB:             0010 0000 5031 7230 0013 6
IBAN: PT 50 0010 0000 5031 7230 0013 6


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