segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Falar de Autismo

Amanhã dia 24, pode marcar na agenda ou programar o seu televisor por volta das 4 horas, canal SIC, programa BOA TARDE. Vou falar de autismo, ser entrevistada por Conceição Lino. A Paula Castro, minha amiga e companheira  de vivências paralelas também irá. O paralelismo começa na franja ruiva, mas não termina por aí. 

Apesar da temática ser o autismo, vamos abordar um recanto escondidinho, silenciado e... eu sei que quer saber, mas para o conseguir, vai mesmo ter de esperar até amanhã para ver tudo em directo, ou quem sabe, mais tarde num link perto de si. 


e o vídeo (completo) de dia 24 Setembro no BOA TARDE




sábado, 21 de setembro de 2013

Faço 50

Faço cinquenta anos e a pergunta que me apetece fazer é:
Qual seria a tua idade se não soubesses quantos anos tens?

A facilidade que seria responder que todo o mundo diz que não aparento a minha idade... nas tenho-a, e sinto-a bem real nos achaques que não vão embora com a facilidade que tinha aquando dos vintes. 

Faço cinquenta, e não os vejo como o cliché do marcante passar meio século, nem me revejo na imagem difusa de criança que visualizava esta idade já envolta em entorpecidas rendas e olências cânforadas. Será um dia como os outros? Não. Eu adoro fazer anos. É sempre um dia especial.
Acontece que desta vez é estranho. Eu sou uma pessoa intensa - só sei pintar da cor que enche tudo - não passei pela vida incólume e esta entrada numa nova década que deveria ser marcante, que não me diz nada por antecipação, mesmo sendo arredia a qualquer lugar-comum, arrasta-me para um amargo sabor de desenxabido guião inacabado.
Penso que vou deixar-me ir.

Certamente que se em 50 anos não fui nunca de me preocupar com o futuro, não será agora que terei essa filosofia de vida.
Com os quarenta, a maturidade aterrou, mas não foi ao soprar velas, nem pela passagem de um dia no calendário setembrino. Foi chegando, enroscando-se sem avisar e chega-te para lá que me instalei. Eu cresci. Sem pressas, sem tumultos. Um dia dei-me conta que a tal criança interior de que tantos falam em reter, já não era mais pirralha. Foi um processo tão natural como bonito.
Com os cinquenta, e já que expectante não estou, presumo que seja a época de aproveitar a vida. Definitivamente esse seria o desejo, caso soprasse velinhas.
Paz. É um desejo interior e antiguinho. A sugestão de estar descalça no corpo todo, agrada à pirralha que cresceu.
Porque mesmo sabendo que faço cinquenta, se não o soubesse, possivelmente situaria a minha idade noutra faixa etária. Talvez porque a Ana-Mãe prevalece à Ana-Mulher, até à Ana-Profissional e essa preponderância faz com que haja ainda muita estrada para caminhar, desafios a concretizar, vida a ser vivida.
É o que anseio. Tempo com qualidade para o poder, por fim, fazer.




sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Viu um autista na rua? Então comporte-se.

Uma pessoa com autismo pode provocar a maior confusão ao seu redor, é um facto, mas não é por isso que deixam de ter direito ao estar em público sem ser olhado de esguelha. 
As pessoas sem autismo, as que habitualmente são chamadas de 'normais' a estarem devidamente informadas, saberiam distinguir uma birra de uma crise num autista - parecem iguais, mas se o autismo fosse tão fácil de gerir como uma birra...
Pessoalmente, não me incomodo de dia após dia explicar, consciencializar o mundo que me rodeia dessa diferença. Castigador é o olhar injusto e condescendente com que mimoseiam as famílias, que sim, precisam de ajuda, mas definitivamente dispensam a comiseraçãozinha. 
Os autistas têm uma tolerância menor a ambientes com muito estímulo e que não lhes dá segurança nem familiaridade. Vejamos um exemplo clássico de situação de stress: Uma criança com a mãe num supermercado - quem estiver ao redor pensa erradamente 'esta mulher não sabe educar o filho'.

Acontece que estas mães, já sofrem muito com o momento em que ainda têm a lista de compras na mão e o filho já está a contorcer-se no carrinho ou com os gestos estereotipados que anunciam o fim do prazo de validade da tranquilidade. O filho quer comer um chocolate da prateleira, com papel e tudo?, ou corre desalmadamente nas escapadas que fazem pelos corredores, obrigando a uma perseguição (quantas vezes de salto alto) desde os detergentes até ao corredor dos brinquedos? Pois, acontece, e o seu olhar punitivo não ajuda, pense antes em dar uma mão... sim, ajudar. Afinal, não são extraterrestres! 
Num mundo ideal, estas famílias certamente até evitariam estes momentos, mas o autismo vive de mão dada no nosso dia-a-dia, não naquela redoma cristalina, protectora dos momentos complicados. Pois, é, lá se vai um mito urbano... Os autistas não vivem no mundinho deles, vivem no nosso! E no nosso, vamos todos às compras, algo que esquecemos e precisamos e sim, levamos os filhos. 
Leva os seus filhos nas idas à praia? Os pais dos autistas também. Que fazem barulhos, passam por cima das toalhas e enchem-no de areia? É verdade. Se for um autistinha lindo de 3 aninhos é tão engraçadinho, não é?, se tiver 8 olha-o de lado e julga os pais pela falta de propósitos, se já for adolescente, faz o quê? Enfrenta-o? Pensa em dar-lhe um estalo? 
Pense melhor. 

As famílias dos autistas vivem além da problemática toda, este estúpido preconceito. Respeito. É tão simples. Se a população em geral conhecesse melhor o que vem a ser realmente o autismo, certamente passariam a respeitar mais estas famílias. A consciencialização da sociedade civil é assim a meu ver um tema urgente. 
O medo do desconhecido cria falsas verdades (acreditem... os autistas não são todos como o Rain man), gera uma distância entre as famílias, o círculo de amigos, a vizinhança. Ninguém merece. 
Há um lado absolutamente fascinante no autismo, na forma como vêm o mundo, é claro, se tiver a leveza de se deixar ir e tentar compreender a formulação mental que fazem. Cada um é diferente do outro, basta terem fascinações diferentes que nada é igual. 
Deixe-se envolver, deixe-se contagiar, deixe-se sorrir para com estas vidas que apenas são diferentes: dê a mão - dê uma mão que a malta agradece. 

esta é uma exposição pública, uma declaração de interesses assinado por
Tina Moreland 
Se ele se atira para o chão a gritar e a espernear porque não há douradinhos, é apenas a maneira dele lidar com a situação. Tenha calma, já vai fazer o seu pedido.  
Se ela bate com a cabeça e começa a agredir-se no rosto, não fique aí especado a olhar, é apenas a frustração dela. Deixe a mãe lidar com isso, de resto vê isso todos os dias. 
Se o pai está a cortar a comida do jovem, não o está a tratar como um bebé, apenas não quer que o seu filho se engasgue. 
Se ela ignora o seu filho no parque, não é mal-educada. Só não é boa a interagir. Adoraria brincar com o seu miúdo se ela soubesse como o fazer. 
Ele pode ser crescido para ir no carrinho das compras, mas não, não se trata de ser preguiçoso. Ele quer cirandar e a mãe precisa de fazer as compras e hoje não está com tempo ou disposição para andar a correr atrás dele. 
Se ela tem de ser arrastada aos berros, é porque provavelmente teve uma crise. Vá, seja gentil, abra-lhes a porta e não fique aí a olhar de esguelha ou a sussurrar. E não, certamente não é porque não obteve o brinquedo que queria. Olha se o autismo fosse assim tão simples! 
Não fale com ela como se fosse uma criança, a não ser que o seja. Não grite porque não é surda. Pode até nem falar, mas compreende tudo. E não, não é má-educação, no caso a disciplina não vai ajudar. 
Isto é autismo, é a vida dele. Não o julgue, porque ele não o está a julgar. 


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