quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Piropeemos

Muitooo se tem falado e mais ainda digitado sobre o piropo, mas era inicialmente uma questiúncula tão mas tão ridícula, que roçou o meu descaso e foi embora.
Hoje, apetece-me piropear o piropo.
Como este quesito começou já na rentrée do BE, eu achei que Adriana Lopera e Elsa Almeida cometeram o lapso de debitar o discurso anterior da tola silly season, mas claramente foi um equívoco meu não as ter entendido.
A minha cisma é que persisto sem atingir o desassossego que as consome.
As duas senhoras dizem entre outros mimos - e podem lê-lo na integra aqui: "O assédio só pode estar enquadrado na área na violência contra as mulheres, portanto da violência de género ou a violência machista, e será analisado como mais uma demonstração da relação de poder que a sociedade patriarcal estabelece".
Ora então vejamos: Se a finura for: "faço-te uma carica num olho, ó besta!" não é um crime de género, não, e é um primor de somenos importância, o desrespeito, é. Mas se for "Ó boooooa, anda cá ao pai", já é um crime analisado como mais uma demonstração da relação de poder que a sociedade patriarcal estabelece? Pois, continuo sem conseguir alcançar...
Tudo o que roce a proibição, dá-me urticária mental. É um facto incontornável na minha vida, e por princípio, sou logo 'do contra'. É que ainda sou do tempo de me lembrar de, na minha família, haver um hábito estranho para a minha cabeça infantil: abrirem a porta da rua, espreitarem se alguém estaria a escutar e só depois se sentarem para conversar baixinho. Não havia activistas no seio familiar, mas o medo instituído de uma possibilidade pidesca que só mais tarde entendi, faz-me ainda hoje respeitar por si só o conceito de liberdade.
Eu até compreendo que a malta esteja cansada da crise, e bate-se nos piropos com uma veemência, como se não houvesse amanhã, nem mais nenhum tema importante para resolver no país, mas convenhamos, um piropo é apenas isso: um piropo.
s. m. [Popular] Galanteio; elogio; frase amável ou lisonjeira dirigida a alguém.

"Mulher honrada não tem ouvidos", crescemos a ouvir isso, ou "não se responde a um pssst" e ainda que tenhamos uma educação judaico-cristã, com um vínculo muito estreito com a culpabilização, a meu ver, a assimilação de conceitos e preconceitos sobre a relação com próprio corpo, a sexualidade e a feminilidade, são diferentes em cada fase da vida de uma mulher.
Eu nasci e cresci no Bairro de Alvalade, que é paredes meias com Hospital Júlio de Matos. Na época da minha adolescência, convivia-se diariamente com os pacientes psiquiátricos internados que passeavam livremente pelas avenidas. Recordo que havia o senhor da gabardine que a abria despudoradamente, a ternurenta condessa desgrenhada  que embalava um bebé-chorão, entre outros que até tinha uma maior paciência e havia os de que fugia devido aos meus atributos físicos constituírem uma séria ameaça.  Se era incómodo para uma  jovem adolescente? Certamente (e sei que a minha irmã se irá rir no preciso momento que ler este texto porque recordará uma historieta).
Eu fui uma menina que cresci com um peito grande. Se fui alvo de piropanços? Com certeza. Mas se em pré-adolescente me assustei (até porque ainda era maria rapaz), mais crescida, bem mais crescida, já liberta de culpas bacocas-religiosas, aprendi que um silencioso olhar podia ser mais dotado de más intenções que um piropo. Para ambos aprendi a defender-me ou com um olhar 33 ou com o meu comedimento na audição. Se ligo? Não, às vezes sorrio da piadola bem engendrada, mas não respondo, nem ligo aos narizes que quase caem no decote, nem olho (ainda) se fizerem pssst.
A relação com a sua feminilidade, não é na rua com o piropo do trolha, que a mulher aprende a lidar com os pseudo-traumas de que se tanto vê por aí escrito, é em casa, na educação que se dá a cada um dos nossos filhos ou filhas. O respeito aprende-se, é bonito e toda a malta gosta.
Gostaria de saber se uma colega minha de liceu se lembrará de uma ociosa tarde que resolvemos fazer um teste e piropear moços jeitosos, encostadas nas arcadas da pastelaria Vá-Vá como bons trolhas na hora de folga. As reacções foram as previsíveis - a incredulidade.
Não voltámos a fazê-lo, era apenas um teste. Mas se na adolescência aprendi que também as mulheres podem piropear e contudo não o fazem porque assim foram educadas, se calhar a resposta está na educação dos moçoilos. Mães que continuam a achar que os meninos não brincam com vassouras, não precisam saber cozinhar ou lavar a loiça... pensem melhor.


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Linda, a personagem autista

Finalmente vamos ter uma personagem autista numa novela em prime time. Há quantos anos eu clamo por isto??? 


A actriz Bruna Linzmeyer de 20 anos dá vida a uma personagem na novela "Amor à Vida" que agora se estreia em Portugal na SIC. Linda, a personagem, é autista e a actriz tem sido acarinhada pelo público pela entrega e dedicação no compor desta complexa personagem.
Pessoalmente, peço pela personagem em novela há anos, por ser o formato que terá visibilidade no nosso país (tendo em conta a enxurrada que passa ao longo de todo o serão televisivo). As pessoas consomem, absorvem e aprendem e, a meu ver, Portugal precisa ser 'educado' a observar, a reconhecer, pelos gestos, postura, olhar, uma criança errática, um jovem adolescente descompensado, um adulto estranho. Poderia continuar a adjectivar em contra-corrente. Mas são pessoas tímidas, desbragadas, ausentes, hiperactivas...? não. É apenas autismo. E porque é tão difícil explicar, de conseguir entendê-los? Porque não há dois iguais. Uma personagem numa novela que entra pela casa adentro sem pedir permissão, vai ajudar nesse entendimento, nos porquês, nas suas frustrações e fascinações.
“Existe preconceito por desconhecimento. Falar sobre autismo e sobre as pessoas que conheci é dar voz a elas. Estou muito envolvida, muito sensibilizada”, conta Bruna Linzmeyer.
Estou expectante com este desempenho. Com a abertura que a Linda pode trazer à nossa comunidade, de pessoas portadoras, suas famílias e cuidadores, por parte de quem os julga num infeliz olhar de esguelha, tantas vezes injustiçoso para com os evolvidos.

"Eu encaro a Linda com o coração aberto e batendo muito forte. Ela é minha vida nesse momento. Ela faz parte de mim. É uma responsabilidade muito grande", diz Bruna Linzmeyer. 


Vamos esperar pela Linda, a personagem autista. 





terça-feira, 3 de setembro de 2013

Já não se pode ser feia



Será até um dos muitos mitos urbanos de tanto que se enfatiza a importância que se atribui à beleza interior. "Ahhh, fulana é linda por dentro e por fora", ou "não interessa a aparência de cicrano, mas sim o interior, aí sim se encontra o verdadeiro encanto". A mim, confesso, dá-me uma instantânea vontade de rir, quando aquele filme paralelo que tem acompanhado a minha vida, aquele que - qual vida de Brian - segue direitinho o meu raciocínio normal a cada situação, mas em versão cómico-apalermada: Beleza interior? Ah sim, deve ser uma beleza o cheirinho do estômago, e o burbulhar acre dos sucos então devem ter cá um encanto... e os intestinos? Bom, nem me adianto no caminho fácil e previsível de pensar na piadola escatológica... 
A beleza existe. Em todo o lado que se olhe. Basta ver o ângulo certo de cada objecto, ser ou momento. Devia ser obrigatório activar a tecla do sentido estético à nascença, mas aí, já nem faria sentido nada do que estou a escrever. 

É o cliché Síndrome da Beleza Exterior/Interior, ou até - o do meu filme cómico - que poderia chamar naturalmente de Síndrome Bota da Tropa/Bebé Beatle... (ok, ok, eu explico). 

Quando nasci, contam que vinha com uma guedelha que teve de ser cortada (penso que terá mesmo sido com a tesoura do umbigo), porque a minha proverbial franja era então uma melena que me dava pelo queixo. Ora sendo o ano de '63, logo as enfermeiras me deram a original alcunha de Bebé Beatle.
Lembro da minha avó contar que, olhando o berçário, outra avó lhe perguntou qual seria o neto, a que graciosamente a minha avó respondeu tufando o peito, a menina mais bonita, a que tem cabelo.
Ora se nasci gira e era gira na escola ou no local onde a família passava férias, em abono da verdade isso constituía um facto que vivia comigo a que, com toda a sinceridade, cresci sem nunca ligar.
Cresci meio maria-rapaz muito mais preocupada no prazer de andar de bicicleta, subir às árvores sempre na chinchada ou bater nos rapazes para defender a minha irmã.
Quando algum moço mais afoito pensou em derriço para o meu lado, e soltou a frase: Ah és tão gira, respondi-lhe secamente: E...? 
Hoje, cá do alto dos meus quase 50 anos, sei que se tivesse nascido feia-feinha como uma bota da tropa, teria certamente ligado e muito a esse simples facto. Muito provavelmente ter-me-ia resguardado na grande personalidade e na imensa beleza interior que certamente (definitivamente!) teria em minha defesa. 
E agora pergunto: e porque é que uma bota da tropa tem de ser feia?, e o que é que vem à lembrança? (lá está ela...) Recordei esta foto que há dias visualizei numa rede social, dessas que todos usamos e por ter achado uma ideia bem gira.
É a forma como olhamos o que nos envolve: Tudo, mas tudo tem o seu encanto. E olhando pelo cantinho certo, pelo ângulo que mais ninguém se incomodou de vislumbrar, descobrimos que nem uma bota da tropa consegue ser feia. 



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