sexta-feira, 10 de agosto de 2012

SAUDADE I

este meu texto é especial publico-o aqui hoje, porque sim. 
To Mum - Wish You Were Here

por Ana Martins

Gal Costa & Maria Bethanea
Oração da minha mãe Meninnha


Queria poder ir às compras, almoçar, telefonar, discutir, chorar e rir.

Quisera poder abraçar uma vez mais que fosse, de tantos abraços deslaçados, evitados, perdidos. Perdidos.

Quisera poder contar segredos, partilhar diabruras e desfrutar momentos bons, maus, todos...

Queria não ter de o pedir a cada dia do ano.

Queria tanto que esta dor fosse, nos deixasse paz.

Quero o seu arroz doce, a carícia da sua mão perfeita pelo meu cabelo, ouvir o som da pulseira batucando pelo corrimão da escada e não correr feita tonta para cumprimentar somente a vizinha que chegava... queria rever o sorriso contido de menina nunca mulher, queria que tivesse visto como me tornei mulher, mãe também, queria demais que conhecesse o seu neto. É lindo, sabe? Uma pureza tão grande que me desconcertou, quis tanto a sua ajuda...

Queria que chegasse a avó, já não é só o meu... Tanto neto sem colinho da avó Isabel, sempre menina, nunca mulher, nunca avó.


quarta-feira, 25 de julho de 2012

José Hermano Saraiva e a Menina do Liceu

A Malta do Liceu no final da década de '70 era muito irreverente, ainda na onda da revolução por uma liberdade que, por sermos tão miúdos, nem sabíamos bem o que fazer com ela. E depois naturalmente nestas idades há sempre os engraçadinhos que se destacam ou pensam ter destaque que em todas as gerações brincam de bobo da corte.
Estávamos em 1977 e um dia no liceu não ia haver aulas  - sim, de novo - a cada instante acontecia algo que suspendia o rigor académico para regozijo da malta.  Dessa vez  o ginásio não estava transformado para mais uma R.G.A. (Reunião Geral de Alunos), era só um senhor que ia falar. Eu sabia quem era o senhor e até tentei motivar colegas a irem assistir em vez de mais uma vez escolherem o futebol ou o café. Eu gostava do senhor e escolhi estar bem na frente a escutá-lo contar histórias da História. 
No final da sua prelecção, na parte que reservou às perguntas, um qualquer bobo da corte de serviço fez uma pergunta que jamais esqueci a resposta que o senhor deu.


Naquele ano estava a passar na televisão uma telenovela que agora está no ar a sua versão actual. Não assisti nem em '77 nem estou a assistir agora, mas quis um feliz acaso que tivesse ligado a TV na semana passada a tempo de perceber que seria o episódio que iriam matar uma personagem Salomão Ayala e essa memória remeteu-me a '77, não à novela que não vi, mas ao senhor na fantástica resposta que nunca esqueci. 
E achei-me num momento carinhoso e deixei-me ficar imbuída nesse sentir a ver esse episódio de novela cuja qualidade de texto continua a não me inspirar como cliente... 
Não assisti à morte em '77, mas vi agora o episódio da semana passada. Na época havia um canal só e era apenas uma novela por serão, daí que a morte de Salomão tivesse tido
 um momento áureo que certamente esta versão já não viu brilhar. 
Quando ainda no mesmo dia vejo passar um tweet com a notícia da morte, não de Salomão, mas do Senhor, devo confessar que me quedei entre a estranheza e o incomodada...
Volto a '77 e a um ginásio apinhado que, num respeitoso silêncio, ouviu todas as histórias do senhor, e nas perguntas, um engraçadinho levanta a mão e questiona: 

«Se sabe sempre todas as histórias, diga-nos: Quem matou Salomão?»

O Senhor deixou que todos gargalhassem abundantemente e eu recordo como traguei aquele momento e fiquei expectante, sedenta da resposta que seria certamente acertada e certeira. Com o seu timbre inconfundível aproximou-se por fim do microfone e respondeu:

«Se assistisse à novela até poderia responder sobre as personagens envolvidas neste mistério que faz parar Portugal para pensar quem matou Salomão, mas como não vejo, sobre as personagens não poderei falar. Mas sei quem matou Salomão. (de expectante passei a exultante - claro que o senhor tinha resposta para o engraçadinho!!!) Disso não tenhamos qualquer dúvida até porque a história tende a repetir-se em todos os tempos. Quem matou Salomão foi a ganância, a avidez, a inveja e a perfídia.»

Faleceu o grande Senhor José Hermano Saraiva, mas connosco fica a sua generosidade deste enorme contador de histórias da nossa História.



quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Ana Martins é a Praia da Nazaré

Vamos lá esclarecer: quantas vezes já afirmei que não sou eu??? A capa deste meu livro não me define, já a escolha desta foto para capa deste livro... são outros quinhentos.


a foto é de autoria de Bárbara Carvalhal, e a fotografada é uma amiga. Não é foto minha com 20 anos!!, mas poderia ser, e essa foi a beleza na escolha desta capa de livro, até porque... é na praia da Nazaré!!! E sim, isso já tem história e divulgada aqui neste site de ganga vestida, mas se ainda não conhece porque a imagem de Praia da Nazaré me encanta para além de uma explicação normalizada... leia ou releia.



Curiosamente, foi muitos anos depois, na escolha da foto para a capa do último livro EVO (igualmente autoria de uma das eleitas desse desafio, a Bárbara Carvalhal), em que reafirmo pela última vez - não sou eu na foto, mas poderia ser - por TUDO o que a foto demonstra e o TANTO que o livro representa - poderia ser eu... mas não sou. Então, sem me dar conta, na escolha da capa deste livro, fecho este ciclo, ao encontrar por fim "a minha imagem" perfeita "aos meus olhos" do que o meu amigo autista provavelmente vê em mim, quando diz a cada vez que me vê (e sim, di-lo com frequência, ano após ano, não muda o que vê em mim):

clique para ouvir o Pablo dos Neruda

Neruda - Canta, Dança, Actua só para mim

(também este poema de Pablo Banazol define Ana Martins)
¡¡esto es tan Anita!! 
¡¡Muchísimas gracias ao Pablo!!


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