terça-feira, 8 de março de 2011

Dia da Mulher (ou o Dia-Oficial-da-Maria-sair-com-as-outras-Marias)

Ao passar o dia 8 de março, 
publico aqui um trecho do meu livro Mal Me Quero
ou então uma outra forma de dizer que o(a) último(a) a rir ...


Dia da Mulher
(ou o Dia-Oficial-da-Maria-sair-com-as-outras-Marias) 

Maria já tinha deixado preparado o jantar dos filhos sem esquecer o pack de cerveja fresca no frigorífico. Sorte, ser dia do jogo com o Benfica, espero que ganhe, pensa, assim nem chateia quando chegar. Mas, este ano, estava decidida. Ia ao jantar que as colegas faziam todos os 8 de Março, também era mulher e tinha esse direito: divertir-se, afinal, é só uma vez no ano!, pensou, justificando-se.
O Manel vociferava no snack-bar com os companheiros de balcão, agora, desde que passavam as jantaradas do Dia da Mulher na televisão, todas achavam que tinham o direito de se exporem ao ridículo, era vê-las a todas, vermelhas de bêbedas, todas a acharem-se muito engraçadas e soltas por uma noite. Como se fosse igual a uma noite de copos com os amigos, como lhe dissera a Maria. Mas quando ele ia para os copos com os amigos e chegava a casa, tinha o jantar pronto, tudo arrumado, na ordem de Deus. Nesse dia, quem trataria dos putos e da casa? A Maria não podia deixar os filhos com a mãe, ela própria saía com as colegas da hidroginástica e, entusiasta, contara-lhe que, regra geral nestas saídas, convidavam os treinadores, sim, porque elas eram mais velhas que um trapo, sabiam-no, por isso se exercitavam, mas ainda não eram, com a graça de Deus, ceguinhas! Os moços eram todos antigos nadadores de competição, tinham uns corpos lindos, uns doces de rapazes, tratavam-nas carinhosamente por avó antes do nome próprio e levavam-nas sempre a casa. A Maria não achava cómico a mãe, com aquela idade toda, só pensar em laurear, quando dizia que, em especial um deles, havia de ter metido conversa com ela uns 50 anos antes... Maria até se benzera! Credo, Jesus!
O Manel sempre achara a sogra uma beata metediça, mas agora piorara, pois então!, Apanhou-se viúva, deu em galdéria, nem queria saber dos netos e ainda puxava a filha para a doideirice. Esta ideia agora de ir com a velharia a jantarinhos comemorativos de serem gajas... Logo a sua Maria que sempre tivera tanto juízo, ia dar noutra como a mãe, era o que era! Mas quem discutia com a senhora sua sogra?
Isto de terem perdido a casa para o banco e terem de ir viver para a vivenda do raio da velha, fora um rude golpe e agora não havia quem a calasse a dar palpites e a comandar a vida deles. A Maria só sabia dizer ámen à velha e ele sentia-se agarrado. Maldito ano de desemprego que o pôs na mó de baixo! Recuperar não estava fácil, já ter este emprego temporário na fábrica tinha sido uma sorte.
A Maria comprara uma fatiota nova, toda brilhante, bem baratinha na loja dos chineses, parecida com uma que andava a namorar na loja das senhoras ricas. Não era a mesma coisa, mas com o barulho das luzes, passava, a diferença de preço, então... Sapatos, ia levar os dos casamentos, claro que num saquinho de plástico, levava as chancas para trocar, quem aguenta aqueles saltos uma noite inteira, depois de trabalhar todo o santo dia, agora que era ela quem pegara a dianteira e arcava com as despesas da família? Isso é para as tias das revistas! A mãe é que dizia saber por uma colega que, para além dos dias de não fazerem mais nada, senão cuidar de si mesmas ou simplesmente ficarem demasiado exaustas de ver tanto povo nas lojas (coitadas, nem compras podiam fazer em paz!), ao sairem das festas, ao carro patrocinado por uma qualquer marca, levavam a previamente combinada caixa plástica dos croquetes, entradas e afins e aí sim, discretamente, já sem o paparazzi em cima, trocavam o salto altíssimo para a chinelinha de dedo.
O Manel ia para casa com a ideia no futebol, dia de Benfica! Agora nem pensava em arranjar uma coisa fixa, ia andando aos biscates e parava mais tempo no snack-bar. A Maria ainda passou no cabeleireiro e pediu à maricure para tentar dar um jeito nos trambolhos que costumava chamar de mãos. Sentiu-se bonita aos ver-se de cabelo armado ao espelho. Há quanto tempo não gostava de se ver no espelho? Pondo de outro modo, há quanto tempo não se olhava ao espelho?
O Benfica fez um jogo miserável... seria possível tanto azar? Cambada de coxos! Deitou-se no sofá a ver televisão. Praguejou quando foi buscar a última cerveja, a Maria não tinha deixado o frigorífico prevenido como ele gostaria naquela noite!
Já a Maria também bebeu mais que a conta e dançou todo o serão com outras Marias igualmente eufóricas. Gritavam histericamente à chegada dos empregados, do animador do restaurante, de todos os espécimes, género masculino, que simplesmente passavam naquela zona para meramente irem ao WC. Sentiam-se livres por uma noite: “Toca a aproveitar que, depois, só pr’ó ano!” Gritava, completamente embriagada, a Glórinha.
Manel passava os canais com ar enfastiado. Se tivesse a Maria em casa já estaria a roncar no sofá, não hoje!, ia ficar bem alerta para a hora que ela necessitasse de ajuda. Ai não que não ia...!

“Algum homem ressabiado!” Dissera a Glórinha, “... Ainda bem que não ando com o volante nas mãos, havia de ser bonito! Estou bêbeda que nem um cacho!”
A Maria pensara por um momento e não quis acreditar, mas ao constatar a quantidade de carros mandados encostar à berma, de mulheres a apresentar documentação e a fazerem testes de alcoolemia... pensara no Tóino, o amigo polícia do Manel, havia de as safar à multa. Tanto homem bêbado todos os dias ao volante, e fazerem um auto-stop, logo neste dia, só para mandar parar mulheres, era uma vergonha!, uma verdadeira caça às senhoras de família que só podem sair nessa noite... a família, está sempre em primeiro lugar, e só nesse dia - até no trabalho - tiveram direito a uma flor que o chefe trouxe para todas lá na repartição e esta novidade de poder sair à noite… Tirando este dia da Mulher, há quantos anos o seu Manel não a levava a sair, sabendo ele o que ela se desunhava para dar um pezinho de dança? Um carinho, um abraço… nada! Desde que ficara desempregado e sem a casa, o seu Manel andava descorçoado e até o entendia e tentava dar apoio, mas e quem lhe dava o apoio que tanto necessitava a ela, quando a cabeça lhe estoirava com enxaqueca?, quando pensava nas seus serviços todos encaixotados?, nas suas roupas de casa ensacados num recanto na garagem da mãe? Quem lhe dava apoio? A Mãe? Ela preferia que tivesse sido sempre o seu Manel e ele onde? No snack-bar, pois está claro!
Ele perdera o emprego, mas a Maria também ficou sem a sua casa e estava como uma menina sob o olhar vigilante da mãe de novo, como se fosse catraia.
O seu olhar ficou ofuscado com a luz fortíssima nos olhos, abismada, com um microfone na frente da cara, sim!, era um carro de reportagem de televisão! Não era nada combinado, não senhor... sentiu-se tonta sem saber o que dizer, só imaginava todos quanto as conheciam a vê-las na reportagem, com os copos, a apanharem multa por excesso de álcool no sangue. Estes gajos fizeram de propósito só para nos deixarem passar vergonha! Depois peço ao Manel que fale com o Tóino.
Manel desligou o telemóvel e endireitou-se no sofá. Mudou de canal a tempo de ver a triste figura da sua Maria em directo. Sinceramente! Ainda tinha sido melhor que poderia ter imaginado. Televisão e tudo! Quando chegasse apetecia-lhe mesmo deixá-la bazanada.
Maria entrou cabisbaixa.
“Linda figura para a mãe dos meus filhos aparecer na televisão!” Rugiu. “Sempre quero ver o que te dizem amanhã no teu emprego, o que vai dizer a tua mãezinha, incluído a vizinhança inteira e na escola dos teus filhos!”
Maria tirou o casaco e suspirou profundamente soerguendo as costas. A Glórinha tinha razão. Ali havia coisa. Custou-lhe a acreditar quando reparou quem estava a falar com o repórter, o bom do Tóino, que de Tóino não tinha nada, não senhor… bem dizia a Glórinha: essa, mesmo pinguça era esperta que nem um alho! Agora, chegada a casa confirmara!, com um Manel tão acordado a essa hora tardia e pelo canal desabitual na sua televisão. O Manel vira. O Tóino avisara-o. A Glórinha tinha razão... se não fosse o Manel o ressabiado que tinha magicado semelhante plano, ia pagar por qualquer outro filho da mãe. Sorriu. Apeteceu-lhe surpreendê-lo como nos filmes da televisão. Com o seu melhor ar contristado, entrou na sala cabisbaixa. As seis garrafas vazias estavam em linha e caídas pela mesa da sala. O Manel fizera menção de continuar a insultar a sua inteligência, mas hoje, apesar de tecnicamente já ter acabado o dia, ainda estava sob a bênção do dia em que as mulheres celebram a sua libertação.
Libertação.
Era a sua cartada.
Aproximou-se das garrafas vazias de cerveja e, agarrando uma pelo gargalo, partiu-a na esquina da mesa de vidro. Antes que o Manel pudesse reagir, já tinha o gargalo aguçado junto do pescoço dele e com a outra mão agarrava-o pelas abas do pijama riscado.
“Piadinha linda, não foi? Pedires ao teu amigo para se prestar ao papelinho de chibo... Pois bem meu caro, o teu reinado acabou aqui e agora. Manuel Fernando, ainda esta noite sem apelo nem agravo, vais enfiar as tuas coisinhas num saco de plástico, daqueles bem grandes do lixo, bem podes ir bater à porta do teu amiguinho para ficares no sofá dele. Debaixo das telhas que a minha mãe paga, não ficas nem só mais um momento! Ouviste bem?, Manuel Fernando? Hoje, agora, sem um pio, juro-te que se abres essa bocarra te enfio este gargalo boca abaixo! Juro-te!, pela saúde dos nossos filhos, que hoje foi o último dia da tua vida que achaste que és uma pessoa superior a mim!”


quinta-feira, 3 de março de 2011

O fim-de-semana em Paris

Estamos de volta neste site de ganga vestido aos desafios literários a amigos. Desta vez duas amigas muito próximas. Ana Paula Motta do outro lado do Atlântico e Sandra Vieira,  mesmo aqui à minha beira, como dizem no norte. E o que lhes proponho? É simples. Se somos três, faremos um triângulo! Eu escrevo uma personagem e o desafio que lhes lanço é o de fazerem as outras duas personagens desta história que vos conto.
A confusão entre personagens reais e ficcionais é puro delírio da sua cabeça de leitor atento.


por Ana Martins

Carolina pensava seriamente como contar ao marido. Amava-o. Por isso o havia feito. Ele iria sofrer tanto com aquele resultado de exame que decidiu num ímpeto de insana lucidez alterá-lo. O seu amor de sempre nunca poderia gerar um filho, nunca seria pai, mas puxou a si a responsabilidade de uma patologia que não tinha para que ele não se torturasse. Amavam-se. Seriam felizes e nada mais importava. Mentiu e para toda o mundo que os circundava, Carolina era estéril.
O chão fugiu-lhe debaixo dos pés quando leu. Inadvertidamente, não tinha por hábito espreitar, estava apenas a tirar um contacto do telemóvel do marido quando viu a mensagem em rascunho, leu porque pensou ser para ela. Mas a ela era outra. Ele traí-la? Impossível. Tinham um casamento tão feliz! Iam agora para fora… logo a Paris, a cidade do Amor, que cliché estapafúrdio transformar um fim-de-semana apenas num fim!?
Carolina concentrou-se em perceber o que se estava a passar. Leu todas as mensagens para tragar aquela história e poder entender. A sua mentira. Tinha começado na sua mentira. Ele estava interessado numa mulher que era também mãe, aquilo que ele pensava que ela nunca poderia ser por sua culpa e agora procurava outra que o fosse…? Era tão inacreditável que se fechou na casa-de-banho a chorar. Enterrou a cara no toalhão de banho para que não a ouvisse.
Passou o rosto por água fria e mais recomposta decidiu que desse por onde desse teria de lhe contar o seu segredo. A mentira que guardava por amor.
Teria ele feito o mesmo por ela? E esse pensamento corroeu-lhe a alma. Tinha abdicado do seu desejo de ser mãe, absorvido o impacto que a dor da notícia poderia fazer a seu amor e ele como respondia? Arranjando outra. Seria assim tão descartável, substituível? Por ser infértil, estéril, como uma ameixa seca, como já tinha ouvido chamarem-lhe? Estaria o seu marido com ela por pena? Ele ficara devastado com a impossibilidade de serem pais. Mas em vez de se centrar na companheira de vida como ela o fizera, o seu lado animal procurava outra fêmea?
Eu faria isso por ele. Pensou Carolina. Engravidaria de outro homem para lhe dar um filho. Eu faria isso!! A questão que agora me coloco é se o meu casamento vale tudo o que fiz, faço ou faria.


por Sandra Vieira

Já nem sei como começou esta coisa das mensagens, sei que agora são mais de trinta por dia… A primeira vez que o vi, achei-lhe piada, só isso, mas aliança na mão esquerda afastei-o logo da minha vista, e agora ando a enviar mensagem atrás de mensagem, como um vício entranhado na minha pele. O tipo tem piada, faz-me rir… algo que há muito não faço, desperta em mim o humor negro pelo qual era conhecida na faculdade. Agora quer marcar um encontro há mais de duas semanas de que fujo com o rabo à seringa… desculpas atrás de desculpas… também já tentei parar com isto das mensagens, mas esta coisa é viciante. Estar sozinha há mais de três anos, é no que dá.
Fomos para a Serra, devia estar louca… sozinha com um tipo que apenas mandei umas mensagens, inconsciência consciente?! Falamos de tudo, de mim do meu casamento falhado, da minha família, dele, da mulher… de não poder ter filhos, este aliás foi um assunto que desde cedo percebi ser assunto proibido para ele. Ninguém o pode censurar, ser mãe é para mim como água no deserto. No dia em que conheceu o meu Gui, vi o olhar dele… um misto de tristeza com doçura, querendo aproximar-se afastando-se. Hoje durante o tempo que estivemos juntos tentou vezes sem conta beijar-me, eu afastei-o sempre… chamei-o à razão vezes sem conta: és casado!
Agora fico a olhar para o vazio… acordo de manhã pinto-me e demoro duas horas a vestir-me… já não me lembro de fazer este tipo de coisas, ando estupidamente alegre e sorrio a toda a gente. Duas horas por dia é o que ele me dá, e saímos a correr do trabalho entramos no carro às escondidas e assim que passamos o fim da rua já estamos de lábios colados um no outro, não almoçamos nem nada, a vontade comer passa quando nos enchem a alma de afecto. O desassossego do não devo, com a vontade de ter é o pior de tudo, sei que é casado, mas o sabor dos seus lábios, o cheiro da pele dele fica horas entranhado no meu nariz, nas minhas mãos, é de enlouquecer.
Ele quer-me… eu desejo-o mas ele é casado… não sei se consigo ultrapassar este último obstáculo. Tenho o nome dela na cabeça: Carolina. Amanha vão para França, cinco dias… ainda agora me mandou uma mensagem, não sabe como vai passar tantos dias sem me ver… sem me tocar, mas vai estar com ela em Paris a Cidade do Amor. Nada pode ser mais romântico que Paris… Estou louca varrida se não vejo o que está diante dos meus olhos… esta noite vai ser a última vez que estamos juntos… está decidido.
Encontramo-nos no local do costume… olho-o nos olhos, ele quer-me beijar como se não houvesse amanhã, o beijo dele é doce e quente… desta vez não fecho os olhos… e ele também não. Os nossos olhos estão tão colados como os nossos lábios… é o último…. Penso eu… a última vez que vou beijá-lo… agora já não penso… uma lágrima está prestes a cair…
Este foi o nosso último beijo…


por Ana Paula Motta

Daniel era o estereótipo do bom rapaz, desde sempre o primeiro aluno da classe, educado, óculos displicentemente sobre o nariz pequenino.
Desde miúdo foi sempre um protetor. Foi assim com a mãe, abandonada grávida e que fazia dele o centro do universo.
Casou cedo, e sonhava ser um pai exemplar, oposto do canalha que sumiu no mundo assim que soube que ele chegaria.O casamento aconteceu assim que concluiu a faculdade de engenharia, quando conheceu a Carolina, que cursava pedagogia.
Gostava dela, do seu jeito dependente. Seria uma boa mãe. Era uma boa esposa e tinha lá seus encantos.
Quando descobriu que seriam um casal sem filhos, viu seu mundo perfeito ruir. Aos poucos foi criando um mundo paralelo.
Conheceu Laura, decidida um tanto carente de afeto. E era mãe, de um miúdo loirinho, como fora ele um dia.
Num átimo seu mundo foi dividido em dois, os lares se completavam. No Gui realizava de certa forma o papel de pai, provedor e herói. A Carolina tinha nos olhos a submissão das que amam sem limites, era dependente dele, como se a vida sem ele não fosse possível.
Laura era decidida e tinha uma doçura nada passiva, de frágil nem o fato de ser uma mãe sozinha. Atraía seu instinto de macho. Trouxe para sua vida uma excitação que até então desconhecia.


por Ana Martins

Nuno afagou-lhe pausadamente o rosto tranquilo e o seu olhar dizia: Linda Carol. Sempre a tratara assim, desde que a conhecera na faculdade, tal como a amara em silêncio sem jamais deixar que soubesse. Carol só tinha olhos para o namorado, aquele com quem tinha casado. Por isso Nuno estranhara tanto quando a encontrou desesperada a discutirem na rua em Paris.
Carolina distendeu-se preguiçosamente deixando-se afagar. Gostava do cheirinho bom do Nuno, sempre gostara. Era o seu melhor amigo, partilhava tanto e tudo, sem nunca supor que, um dia, o seu melhor e mais prolongado orgasmo fosse com ele!
Depois de Paris nada poderia ser igual. Só de pensar que chegara a cogitar engravidar para dar um filho a um marido que não merecia sacrifício algum, deixava-a indignada. Só a ideia de ter usado o leito conjugal, conspurcado a sua cama, devassado a intimidade do seu quarto ao partilhá-lo com uma outra qualquer… sim, não se orgulhava, mas continuara a espreitar-lhe as mensagens. Como ousara continuar a escrever-lhe mensagens de texto mesmo de Paris? Percebia agora claramente que a outra teria tido mais juízo que o Daniel, mas isso pouco lhe importava. Fora com ele que jurara ficar, fora consigo que Daniel se comprometera perante Deus, a família e os amigos todos – numa festa inesquecível – que a amaria, a honraria e lhe seria fiel e contudo… até no seu quarto!? Estragara-o. Nunca mais seria capaz de se deitar, de fazer a cama de lavado ou de se sentar no cadeirão do canto sem que imagens a assaltassem. Aquela já não era a sua toca. Beijou Nuno nos lábios e levantou-se languidamente. Não precisava de toca, não no sentido metafórico de se esconder. Não se queria esconder mais.

EXERCÍCIO
E se, com uma só frase, mudasse todo o sentido do texto?
Caro leitor, faça-me o favor e agora leia de novo substituindo a frase a Bold por esta: 
Por isso Nuno estranhara tanto quando lhe telefonou aliviada a convidá-lo para Paris.



terça-feira, 1 de março de 2011

Mesinha de Cabeceira #5

de 1 março 2010

Hoje trago:
«O homem que plantava árvores» de Jean Giono








Este não é um livro novo, é um aclamado conto publicado em 1953, saiu em filme em 1987 (está disponível no Youtube e aconselho vivamente) e vou falar agora que sai uma nova edição, é um livro pequeno com bonitas ilustrações, mas com um conteúdo imenso.
Muito se falou deste conto de Giono cuja mensagem esteve muito adiante do seu tempo, na sua intenção de um mundo melhor – reflorestar para rejuvenescer o planeta. A sua personagem, Elzéard Bouffier, um pastor que chamou a si uma missão e todos os dias plantava árvores, tendo o especial cuidado de escolher previamente as melhores sementes. Como o local que plantava era longe de sua casa, veio a construir outra casa mais perto para não deixar de cuidar das suas ainda pequenas árvores, deixou a pastorícia com receio que as ovelhas estragassem a sua obra e dedicou-se à apicultura. Sabia de uma nascente e construiu diques, irrigou o terreno, transformou em poucos anos um vale árido e desolado numa floresta magnificente, o que valeu ao local tal fama que milhares de pessoas foram viver para lá sem saberem que aquele pastor lhes proporcionou essa felicidade.
Durante décadas o autor permitiu que fosse alimentado o mito que a personagem seria homenagem a uma pessoa real e que o narrador do conto o alter-ego do autor, mas só cerca de uma década depois de publicado, Jean Giono confessou, numa carta, que a sua personagem Elzéard Bouffier era ficcional e que a sua intenção era que os seus leitores gostassem de árvores, melhor ainda, que gostassem da ideia de plantar árvores. Dizia ainda como este seu conto havia sido traduzido em tantas línguas e os livros distribuídos pelo mundo gratuitamente, que não tinha ganho nada com o livro e contudo, era o texto de que mais se orgulhava de ter escrito.
Para terminar, quero realçar que este livro pequeno é impresso em papel reciclado e dá a garantia que por cada livro vendido, uma árvore é plantada.

Depois, gostava só de salientar estes livros que vêm em embalagem de dois e na compra de um exemplar, a editora 7 dias e 6 noites e o autor oferecem outro às crianças de Moçambique ou Cabo-Verde. E ainda incitam o comprador/leitor a fazer uma dedicatória no exemplar de oferta!
«O rei e a estrela» de Vanda Furtado Marques com ilustrações de Lurdes Silva
«Aliane e Zaneah» de Francisco Fernandes com ilustrações de Sílvia Neto Gonçalves
«Uma lágrima chamada Sal» de Hélder Reis com ilustrações de José Nelson Pestana Henriques


O Filme de 1987 - vale a pena ver




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