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sábado, 11 de agosto de 2012

SAUDADE II

Há quem nos deixe, com a sua partida, uma tristeza impossível de ser aferida, moldada, compartimentada, sarada. E fica  imensa saudade do que ficou por dizer, fazer, viver.


Trovante - Saudade

 

Saudade
Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

Chegou hoje no correio a notícia
É preciso avisar por esses povos
Que turbulências e ventos se aproximam
Ahhh, cuidado...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

Foi chão que deu uvas, alguém disse
Umas porém colhe-se o trigo, faz-se o pão
E se ouvimos os contos de um tinto velho
Ahhh, bebemos a saudade...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...

E vem o dia em que dobramos os nossos cabos
Da Roca a S. Vicente em Boa Esperança
E de poder vaguear com as ondas
Ahhh, saudades do futuro...

Há sempre alguém que nos diz: tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ahhh, saudade...


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

SAUDADE I

este meu texto é especial publico-o aqui hoje, porque sim. 
To Mum - Wish You Were Here

por Ana Martins

Gal Costa & Maria Bethanea
Oração da minha mãe Meninnha


Queria poder ir às compras, almoçar, telefonar, discutir, chorar e rir.

Quisera poder abraçar uma vez mais que fosse, de tantos abraços deslaçados, evitados, perdidos. Perdidos.

Quisera poder contar segredos, partilhar diabruras e desfrutar momentos bons, maus, todos...

Queria não ter de o pedir a cada dia do ano.

Queria tanto que esta dor fosse, nos deixasse paz.

Quero o seu arroz doce, a carícia da sua mão perfeita pelo meu cabelo, ouvir o som da pulseira batucando pelo corrimão da escada e não correr feita tonta para cumprimentar somente a vizinha que chegava... queria rever o sorriso contido de menina nunca mulher, queria que tivesse visto como me tornei mulher, mãe também, queria demais que conhecesse o seu neto. É lindo, sabe? Uma pureza tão grande que me desconcertou, quis tanto a sua ajuda...

Queria que chegasse a avó, já não é só o meu... Tanto neto sem colinho da avó Isabel, sempre menina, nunca mulher, nunca avó.


quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Ana Martins é a Praia da Nazaré

Vamos lá esclarecer: quantas vezes já afirmei que não sou eu??? A capa deste meu livro não me define, já a escolha desta foto para capa deste livro... são outros quinhentos.


a foto é de autoria de Bárbara Carvalhal, e a fotografada é uma amiga. Não é foto minha com 20 anos!!, mas poderia ser, e essa foi a beleza na escolha desta capa de livro, até porque... é na praia da Nazaré!!! E sim, isso já tem história e divulgada aqui neste site de ganga vestida, mas se ainda não conhece porque a imagem de Praia da Nazaré me encanta para além de uma explicação normalizada... leia ou releia.



Curiosamente, foi muitos anos depois, na escolha da foto para a capa do último livro EVO (igualmente autoria de uma das eleitas desse desafio, a Bárbara Carvalhal), em que reafirmo pela última vez - não sou eu na foto, mas poderia ser - por TUDO o que a foto demonstra e o TANTO que o livro representa - poderia ser eu... mas não sou. Então, sem me dar conta, na escolha da capa deste livro, fecho este ciclo, ao encontrar por fim "a minha imagem" perfeita "aos meus olhos" do que o meu amigo autista provavelmente vê em mim, quando diz a cada vez que me vê (e sim, di-lo com frequência, ano após ano, não muda o que vê em mim):

clique para ouvir o Pablo dos Neruda

Neruda - Canta, Dança, Actua só para mim

(também este poema de Pablo Banazol define Ana Martins)
¡¡esto es tan Anita!! 
¡¡Muchísimas gracias ao Pablo!!


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Prenda de casamento

Nos dias de hoje em que proliferam os relacionamentos descartáveis, o «agora estou bem depois logo se vê»... mas ainda existem pessoas que realmente estão bem juntas!, porque vale a pena esse investimento pessoal e até se casam simplesmente porque se amam.
Conheci a Fernanda e o Bruno ainda eram só namorados, mas a cumplicidade entre ambos sempre me comoveu.

Estes dois - pensei eu - são e vão ser sempre um casal. Sente-se nos pequenos gestos do dia-a-dia que sem se darem conta que partilham com outras pessoas, na aceitação das divergências, na forma de lutarem pelos mesmos objectivos. Aqui há uma bonita história de amor, de cumplicidade,  uma união que vai fruir!!!
clique para ouvir a música
Os Azeitonas - Anda Comigo ver os Aviões

Veio a ideia de uma prenda original.
O meu último livro - EVO - fala de uma inesquecível história de amor eterno. E num repente, tudo me pareceu encaixar num dia de festa, emoção e celebração do amor.
Na realidade este mês de Julho os meus livros estão a atravessar o Atlântico para uma primeira remessa de encomendas que temos no Brasil.
Mas a minha ideia não é oferecer meu livro EVO para os noivos, já que a Fernanda e o Bruno são meus leitores, mas sim... para um convidado deste casamento em Curitiba!!!

E como vou fazer isso???

Para os noivos desejo a maior felicidade para o próximo dia 15 de Julho e para todos os dias que se vão seguir, com todas as suas noites.


E para o meu próximo (e improvável, não fosse esse leilão) leitor ou leitora que licitará este meu livro no Brasil, deixo aqui um breve resumo do que a crítica em Portugal fala do EVO para saber que livro vai ganhar.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Ler à lareira

Sabem como é? Ir no carro, de cabelos ao vento, à velocidade de mil pensamentos, embrenhados nos problemas do nosso corrido dia-a-dia e, num repente, a música que passa no rádio transporta-me ainda mais célere para um doce 'rincón' de minhas memórias, uma música dos anos setenta!... e é tão tão Evo!!!

Minnie Riperton - Loving you

Hoje deixo-vos com esta melodia inebriante e com um dos meus capítulos favoritos do livro Evo, «Sábado», o capítulo que «ELE» delicadamente diz tudo sem dizer nada

Sábado

«Jamás me perdonaré termos desencontrado as nossas vidas de forma tão leviana. Olho de relance as fotos sobre a mesa enquanto busco um cigarro no maço e parece-me que oiço Anita, a engraçadinha, que trocista sempre cantarolava baixando o tom e enrouquecendo a voz a tentar imitar Joaquín Sabina:

«Enciedo un cigarrillo y otro más
Un día de estos he de plantearme
Muy seriamente dejar de fumar»

Cresce-me uma raiva surda e amarga ao reler este princípio que podia não ter tido fim. Agimos de forma irreflectida connosco mesmos. Éramos muito novos, alegaria a Ana anos depois, fuimos unos gilipollas, era o que dizia, o que ainda digo.
Pero eso es el recuerdo que tengo hoy dia de aquel entonces.
Naquela altura era diferente. El deseo matava a minha segurança, parecia un virgencito disparatado, caramba!, nem sequer a enlacei e beijei uma única vez!!
E aquele sentir tan largo que me aquecia as entranhas e toldava as ideias, confundia-me tanto…
Afasto a manta de mim e levanto-me do sofá. Noite sem estrelas, logo hoje!, !!hace un tiempo de la hostia!! Agora apetecia-me tanto ficar unicamente a olhá-las… sempre o faço, ahhh! Anita tinha razão no que escrevera, não se enganara, sempre, mas sempre me lembro da nossa combinação, e mais!, eu não tinha a menor dúvida que ela faria igual, onde quer que estivesse, em que situação fosse... por toda a sua vida!
Ainda bem que fui trazendo lenha para dentro, com esta chuva traiçoeira agora estaria molhada. Imbuído nesta melancolia que me dói e conforta, só me apetece acender a lareira. Tantas recordações que me remetem à nossa vida. Anita sempre brincava comigo quando estávamos juntos à lareira chamando-me “peligroso pecaminoso”, fazendo um trocadilho engraçado com as palavras em espanhol pecoso (=sardento em português) e com o reflexo do fogo no meu cabelo ruivo (=pelirrojillo em espanhol).
Sento-me num toco de árvore que tenho como banco e ali fico, aparentemente entretido no torpor quente e ondulante das chamas. Atiro a ponta do cigarro para o lume e acicato o fogo crepitante que tranquilamente cuida que me aquece a alma enquanto me quedo perdido nos meus mais intensos pensamentos.
Eu gosto de ler, às vezes ando em mãos com um livro em espanhol, outro em português e outro em qualquer outro idioma, não é por avançar na leitura devagar que estou a demorar tanto neste… afinal quem não passou já tardes ou dias inteiros delante de un libro, com o cabelo sobre o rosto, com os olhos a doer do esforço continuado, sem conseguir parar de ler, leyendo y leyendo, esquecido da vida, do mundo, sem se dar conta que tem fome ou que arrefeceu e está com os pés gelados? Eu, por pura precaução, se leio tapo-me logo com a minha manta porque sei que me alheio por completo. Mas este livro da Ana, ¡por Dios!, é mágico, envolve-me, transporta-me para as nossas vidas, as que não vivemos como desejaríamos. Faço, sem me dar conta, pausas intermináveis a meditar. Nuestras vidas! Podíamos ter casado, ter tido filhos juntos, ter formado uma família unida e ditosa, porque pais que se amam criam filhos mais felizes, com uma base sólida que lhes servirá em adultos também para serem melhores pais, sempre pensei assim.
Acredito que este mundo precisa de pessoas assim, melhores, equilibradas e bem formadas, na verdade são as que naturalmente se reúnem no decorrer de suas vidas – ou como a Anita, com graciosidade, chamava aos amigos mais chegados, «a sua tribo» – como se as pessoas se reconhecessem como seres iguais e naturalmente se congregassem com um vínculo criado naturalmente a que chamamos amizade.
Os meus amigos de sempre, os que sabiam este meu segredo e sempre souberam da Ana, às vezes quebravam o silêncio sobre este tema para me dizer: Não penses mais nisso! Segue em frente! Por esta altura poderiam estar já divorciados, podias não ter sido feliz com ela, como o vais saber? Pois não o vou saber, porque nuestras vidas, apesar do paralelismo que sempre nos guiou, somos – fomos – como os carris de uma linha de comboio: eternamente ao lado uma da outra, seguem em frente mas nunca se unindo.
A Ana era eu sem o ser, e vendo-me numa outra pessoa como eu era, sou, inebriava-me na sua beleza e candura, encantava-me na sua bravura e inteligência e deixava-me transportar numa imensidão de palavras que calavam um silêncio que nunca deveríamos ter deixado instalar.
Sinto o espírito esvaziado, mas a cara quente e os olhos a picarem do calor emanado.
Ao contrário de Ana, soube que nunca iria ser amado assim, que nunca mais iria amar tão intensamente.»


sexta-feira, 22 de junho de 2012

S. João Bonito

Num dos meus livros dediquei um capítulo à noite de S. João no Porto (e sim, dediquei-o ao apresentador da TVI Manuel Luís Goucha), e como é dos trechos do livro que mais comentários suscita entre todos que o lêem, decidi partilhar a parte de que todoooooos os leitores falam.






S. João Bonito

(excerto do capítulo S. João Bonito, do livro Autista, quem...? Eu?)
- imagens retiradas da net -

Estava a descer os Aliados. Isso percebi. Era uma barulheira com música ligeira e buzinadelas de fundo...
– Que dizes, bamos até aos Aliados? - desafiei o J.J. depois de desligar.
Os meus pais não quiseram vir. Definitivamente já não são os foliões que eram! Tinham até à semana para ir visitar as cascatas e preferiam fazê-lo escapando ao burburinho da noite de 23 para 24 – explicaram.
A Gui recusou a oferta da minha mãe de ficar com o Xico e também o de ficarem a dormir no Porto, mas diverti-me a ver o ar desinquieto do J.J. à medida que a Gui recusava uma e outra vez. Estava mortinho por ficar, que eu bem o conheço!
Tivemos dificuldade em estacionar o carro na Lapa, mas outra coisa não seria de esperar e avançámos a pé rumo à Av. dos Aliados serpenteando pelas ruas. Os putos nos semáforos pediam um euro para o S. João.
O que a inflação faz!
– Está uma noite maravilhosa, até parece que o S. Pedro deu uma mãozinha! - exclamou a Gui de braços abertos volteando sobre si própria.
– É melhor irmos até à Ribeira para ver o fogo - disse eu. - Ainda pensei levar-vos às Fontainhas que tem uma vista luxuriante sobre o Douro e para provarem um caldo verde à maneira, mas está sempre à pinha e com o Xico não me parece lá muito boa ideia...
– Isto vai encher imenso. - explicou J.J. dirigindo-se à irmã. - Tal como o Sto. António é uma festa de rua: não escolhe idades, estrato social e económico. Mas mesmo sendo alfacinha devo dizer-te que o S. João tem uma magia que nunca vi lá em Lisboa!
Num quiosque improvisado uma vendedeira de bata às florzinhas e boné do F.C.P. apregoava no nosso sotaque característico o manjerico e o alho-porro. Apesar deste ser mais tradicional, a malta mais nova preferia o prático martelinho de plástico colorido. A Gui ficou muito espantada por uma variedade de hortense à venda que não conhecia e perguntou à vendedeira porque é que aquela flor tinha uma haste tão comprida...
– Bariedade de hortense...? C’um carago!!! A menina está a mangar comigo, num está...? - A vendedeira estava agora incrédula. - Olha-me esta morcona a dezer que nunca biu a porra de um alho-porro na bida!? Ólhe que num acredito, menina!
– É que a minha amiga é de Lisboa... - respondi como se fosse justificação.
– Ides dezer-me que os mouros nunca biram um car... de um alho-porro?!? - bradou a senhora calcando um manjerico - Menina, sabeis que se cheira um manjerico desta maneira...? Num se chega o nariz à beira dele que murcha...
Esticava agora a palma da mão perfumada à inculta lisboeta.
– Isso por acaso até sei. - declarou Gui com um sorriso embaciado; depois murmurou ao meu ouvido - ... se agora lhe dissesse que na minha ideia via o alho-porro como uma espécie de alho-francês... descompunha-me, não?
Tive grande dificuldade em conter o riso...
Fiz sinal à Gui para não acrescentar mais nada à boa ideia que a vendedeira tinha formado dos mouros e comprei quatro martelinhos para nós, já que o Xico não se calava que queria porque queria o seu em verde, da cor do seu Sporting.
Enquanto discutia com o J.J. que quem pagava era eu, que era eu o anfitrião, apanhei a maior cacetada de que há memória e logo de seguida recordo que ouvi o J.J. praguejar uma asneira bem gorda e dizer que estava a ver tudo azul às riscas com o símbolo do FêCêPê... tudo às voltinhas como se fosse um desenho animado a ver estrelinhas...

Pois.
O Xico estava só a experimentar o seu martelo...
A Gui ria que nem uma perdida e aproveitou para nos dar uma marteladita, bem mais suave, convenhamos!
– Ó meu amor, é para bater mas sem força! - Tentava dizer limpando as lágrimas da risota. - Olha Quico, faz assim suavemente.
Olhou para nós para exemplificar mas, só conseguiu tapar a boca para rir ainda mais.
Foi um problema.
O Xico cascava forte e feio em toda a gente...
Tem uma força desmesurada sem ter noção como aplicá-la.
Algumas pessoas ainda achavam graça, quando se viravam, por ele ser mais ou menos pequenito, mas não era tão pequeno assim que não se sujeitasse a algum azeiteiro pronto para lhe dar uns bufardos... estávamos sempre com atenção e muito, muito apreensivos. Mas ele era rápido no gatilho...
Entre a hilaridade que nos acometia os comentários e impropérios, ouvidos em resposta às impetuosas e certeiras marteladas do Xico, continuámos em direcção à Ribeira.
A Gui estava completamente encantada pela versão nortenha dos santos.
– Isto é muito mais giro que o S. António! – clamava. - E a diferença está no martelar. Isto é fantástico! Olha a quantidade de gente com que já me meti!
Pois! Sem contar com a quantidade de morcões que se meteram com ela!
O J.J. estava ansioso que encontrássemos a Lena. Caramba!
– Telefona-lhe - pedia-me descaradamente. - Pergunta-lhe onde está agora.
– Calma! - tranquilizava-o eu - Vais ver que a encontramos na Ribeira...
Na Praça da República estava instalado um palco e actuava um grupo etnográfico, As Tricanas Poveiras, com as suas blusas de renda e os seus aventais multicolores.
– Então e numa noite destas não estão na Póvoa? - perguntava a Gui.
– És tão alfacinha... - brinquei. - Na Póvoa do Varzim gozam o S. Pedro!
– Pensei que cá para cima fosse só S. João, que S. Pedro fosse só em Sintra!
– É verdade! Esqueci que és daquelas que pensam que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. - ri eu, ganhando em troca uma careta e uma martelada.
Quando passámos pela Rua de Cedofeita, uma senhora vendia, entre bandeiras do meu F.C.P. e manjericos, uma outra versão de martelos: os insufláveis.
Perfeito!
Assim o Xico não magoaria mais ninguém!
A Gui parou a olhar as montras das sapatarias. Pfff!!! Nem sei para quê... tem pr’aí uns cinquenta pares! «Tenho de voltar à Invicta para umas comprinhas» disse convicta. Pois claro, estava nas suas sete quintas...
Comprámos o novo e enorme martelo e seguimos caminho enquanto o J.J. tentava ganhar fôlego para o encher, às aranhas com o sistema de segurança.
– Isto das seguranças é só para deixar os adultos doidos, se fosse um miúdo já tinha conseguido encher esta bodega! - reclamava.
Ri-me ao recordar quando, um dia, não consegui abrir um frasco de xarope com um sistema de segurança para crianças que o Xico prontamente abriu.
O Xico estava delirante pelo tamanho do seu novo instrumento de tortura sanjoanina, mas, por ser tão grande não conseguia impulsionar o balanço suficiente para poder cascar decentemente. Então demo-nos conta que uma pessoa gemeu à passagem do martelo do Xico:
– Fuooogo! O catraio num parece mas tem fuooorça!!! - disse num queixume.
Ele segurava o martelo, mas, era com a outra mão que socava!!!
A Gui determinou o fim das hostilidades e tirou-lhe o martelo:
– Desculpa lá Quico, mas não pode ser! Agora ficas sem martelo!
Continuámos, avançando em fila indiana, por entre a multidão que inundava a rua até à Praça Carlos Alberto e eu, feito cicerone, ia explicando onde nos encontrávamos, qual o edifício público ou monumento que víamos ou quaisquer outros esclarecimentos que sentisse necessidade de fornecer aos meus ilustres convidados alfacinhas...
Na praça existem umas enormes floreiras de alvenaria, dispostas lado a lado. Em duas delas estavam sentados dois homens, cada um na sua, visivelmente embriagados.
O Xico seguia à nossa frente na fila e, com uma enorme rapidez, sem que o pudéssemos impedir, pára por breves segundos, mesmo na frente dos homens, levanta os dois braços de punho fechado e... zás!!! Aplica duas grandes e valentes murraças nos dois homenzarrões, em simultâneo, uma em cada testa!!!
Lívidos, entreolhamo-nos os três... É desta que o Xico leva uns cascudos, juro que pensei!
Como seguíamos em fila indiana, hesitámos antes de passar em frente daqueles dois, mas, o Xico, depois de desfechar os murros já lá ia como se nada fosse, por isso prosseguimos também... Por essa altura os homens levaram, ambos, as mãos à testa:
O J.J. avançou timidamente passando bem à frente deles; olhando-os tão de perto que pôde escutar o primeiro:
– Fod...!!! Que car... foi este???
A Gui passou de seguida em estilo apressado e pôde escutar o segundo:
– C’um car...!!! D’ond’é que esta me caiu, carago??? - rugia olhando o céu.
Quando eu passei, sorrateiro, olhavam os dois para cima questionando-se:
– Foi uma pedra, car...!!!
– Um pássaro é que num foi! Fod...!!!
Juntámo-nos em volta do Xico já mais descansados porque eles não tinham sequer percebido que havia sido o puto, mas, ao contarmos o que cada um tinha ouvido de passagem, caímos na risada, ali a dois passos daqueles homens enormes, dobrámo-nos a rir, limpámos as lágrimas e eles tão bêbados... Largámos a rir de novo, gargalhando estrondosamente até nos doer a barriga... Os homens continuavam ali ao lado, sentados, esfregando a testa e olhando o cumpridor céu limpo de uma linda noite de Verão, sem nunca se aperceberem que tinha sido um miúdo que os esmurrara... claro, de brincadeirinha sanjoanina...
Daí para a frente o Xico foi de mãos dadas connosco. Com as duas mãos dadas: firmemente com um de nós em cada um dos lados.

Descíamos na Av. dos Aliados quando o J.J. trocou com a irmã ficando do outro lado com o Xico. Aproveitou e perguntou-me de novo:
– Não lhe queres ligar?
Olhei para a Gui em busca de auxílio, mas estava noutra, uns passos à nossa frente toda eufórica, flirtando descaradamente, a cada pancada de martelo...
– Deixa lá a Lena...! - disse de mau humor. - Logo ali já estamos na Ribeira.
Estava um mar de gente e eu que sou mais alto pude ver, por cima das cabeças, uma verdadeira batalha campal de martelinhos. O J.J. pôs o Xico às cavalitas e ele riu-se muito vendo o mar colorido de plástico acertando aqui e ali... percebi-o pelo gesto que fez: como que tocando xilofone na cabeça do tio!
Fiquei de olho na Gui, não fosse algum parvalhão atrever-se, mas não era tarefa fácil, pois continuava a saltaricar entre as esplanadas da Ribeira, toda gira, e nós ali com o Xico, e, o J.J. maluco, à procura da minha irmã. Mas onde é que eu tinha a cabeça?
O Xico estava com fome e levei-os a comer pizzas... Não é tradicional, é certo, mas o S. João já não se reveste dos costumes que ainda me lembro de ouvir contar, e depois, nenhum de nós era grande apreciador de sardinhas, e, o preço tão inflacionado (1,50 € por sardinha) retirava-nos a réstia de vontade.
Cedi à pressão do J.J. e telefonei à Lena a perguntar onde estava. Estava em Gaia e só iria conseguir atravessar a ponte depois do fogo de artifício.
– A ponte D. Luís I - expliquei puxando os fios de queijo com ar guloso - fecha a passagem ao público durante o fogo suspenso mas reabre logo a seguir.
– Aqui anda-se a pé na ponte, é? - perguntou a Gui com ar incrédulo.
– És tão alfacinha! - retorquiu o irmão, depois virou-se para mim. - Achas que podemos ir até Gaia?
– O que é que há em Gaia? - interpelou de novo a Gui. - Mais festejos, é? Vejam lá se não é demais para o Quico. O que é que tu queres de Gaia, Zé João?
– É giro passar na ponte... - disse em socorro do meu amigo. - Abana todinha!

À meia-noite em ponto as luzes na Ribeira apagaram-se, e, ao burburinho habitual proporcionado pela escuridão momentânea, começou o espectáculo do fogo de artifício.
Lindo. Luxuriante. Poderoso.
– Enche a alma! Enche o coração! - gritou a Gui para o céu abrindo os braços abarcando deslumbrada as suas emoções.
– Faz barulho - queixou-se o Xico tapando os ouvidos -, mas tem cores giras.
A Gui enlaçou-o imediatamente tentando protegê-lo.
– Maguida...? Isto é passagem de ano? - questionou o Xico.
– Nas festas, Quico, o fogo acontece várias vezes... - começa a responder Gui.
– É fogo mas não é para as chamas. - responde lacónico.
Da ponte D. Luís I começa o magnífico fogo suspenso.
Algumas embarcações no rio estão ancoradas, a uma distância de segurança, repletas de convidados que assistem deleitados naquele palco preferencial à chuva magnificente de luz e cor.
– Ouvi além um senhor comentar que há pessoas que reservam a sua vaga nos barcos de um ano para o outro, é assim? - perguntou-me J.J.
Era assim. Anui com um «hum, hum» continuando de olhos no céu.
– Ouvi também comentar que há uma certa rivalidade entre Gaia e Porto. também é verdade? - continuou J.J.
Era assim também...
Quando o fogo acabou reparei que a Gui se tinha sentado e tinha o Xico ao colo. Fiz-lhe sinal perguntando se tinha passado mal. Em resposta ergueu o polegar. Estava tão feliz e acabou por não poder apreciar devidamente!
Fiquei a olhá-la ali concentrada, no meio do bulício, com o filho enorme ao colo.
– A noite é longa! Só acabo na praia, na Foz! - grita alguém para mim.
– Não esqueças de lavar a cara com as orvalhadas! - respondo dando-lhe com o martelo.

– Estás a ver aquele grupo ali de malucas? - apontei ao J.J.
– Onde?
– Ali - sinalizei apontando o meu martelo. - Daquele lado de quem vem de Gaia. São as parvas das amigas da Lena que eu não gosto nada. Olha ali a minha irmã.
Mas o J.J. já a tinha avistado e estava em perfeito estado de basbaqueira: o queixo havia-lhe descaído uns centímetros, provavelmente o suficiente para poder salivar. Abanei a cabeça e olhei na direcção da Gui para lhe chamar a atenção, mas ela estava aos pulinhos martelando um e outro rindo e gracejando aqui e ali... A Lena. Olhei para ela e estava, também, a flirtar de cacetada em cacetada... Mas o que se passa com as minhas miúdas que nunca as vi assim...?
Um estridente grito colectivo, tipicamente feminino, irritou-me os tímpanos. A ponte abanou de novo e agarrei melhor o Xico que ria a bandeiras despregadas.
– Típico! - gritou-me a Gui perto do ouvido. - Toda a gente cheia de medo com as sacudidelas da ponte e o Quico a rir à tripa-forra...!!!

...Depois acertou-me uma martelada rindo e graceja.
– Olha o teu irmão e a minha irmã. - Consegui indicar-lhe com o meu martelo.
Olhámos na mesma direcção. O J.J. furava até estar suficientemente perto para esticar o seu martelo e acertar em cheio na cabeça da Lena.
Ela virou-se a rir.
Estava com um ar tão feliz...
Encarou nos olhos o seu atacante que a esperava, expectante.
O sorriso de Lena esmoreceu.
O seu martelo em riste perdeu o balanço.
O ar de basbaque do J.J. voltou a inundar-lhe o rosto.
– ‘Pera lá... o que é que me está a escapar...? - inquiriu uma curiosa Gui - sabes de alguma coisa que eu não sei?
– Não por muito tempo, parece-me... - mexeriquei.

Sorriam agora os dois com um ar tão tolinho...





Os sem-abrigo na rua tinham impressionado muito a Gui.
No final da noite, quando regressávamos à Lapa pelas 3 da manhã, local onde estava o carro, passámos por muitas ruas já mais desafogadas das gentes borguistas ou, como gracejou o J.J., mais pareciam que se arrastavam de monco e martelinho caído com a atitude venho da festa. O nosso próprio sempre-em-festa ia escalando do colo do tio para o meu, ainda desperto, mas sem aguentar os pés.
Da noite emergiam agora os verdadeiros donos do espaço emprestado à folia: aqueles que esticavam os cartões e cobertores como se de lençóis frescos se tratassem, aqueles que se espreguiçavam e coçavam como se não os víssemos, aqueles que faziam a sua higiene pessoal, ali, à frente de quem passava como se realmente em casa estivessem... E estavam mesmo, infelizmente.

– Em Lisboa também há os sem-abrigo, mas aqui está a impressionar-me por demais - garantia a Gui a olhar para um senhor que lavava os dentes usando água engarrafada (ou numa garrafa...) e cuspindo para o chão.
– Mas em Lisboa se passas por eles de carro à noite, estarás com mais atenção à luz do semáforo, e, se acaso vires alguém dirigir-se a ti arrancas ainda com o vermelho, ou trancas o carro, não é? - disse-lhe o irmão. - Aqui estás numa situação diferente, estás a pé, cansada e a tua atenção foi tomada de uma forma mais perniciosa. Pena é que, voltando à habitual rotina, se continue a trancar portas...


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