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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

em resposta a MRP

clique aqui para ler entrevista
«Somos para aí umas quatro ou cinco [ser-se loira e ter atitude em Portugal]» Somos? Ahhh!! e a senhora inclui-se!!, e só quatro ou cinco...?

Esta, de tantas outras frases da senhora, indignou-me. Anedotas de loiras burras ou de alentejanos servem para o que servem - ser divertidas -, mas esta afirmação é, quanto a mim, pouco anedótica, grotesca e uma ofensa para tanta mulher de cabelo claro que consegue a proeza de ser inteligente, quiçá gordinha e ainda é uma porreiraça. Admira-me a senhora, que se diz observadora, passar uma borracha mental pela existência destas muitas loiras. E veio-me à ideia, convidar umas quatro ou cinco ruivas - das muitíssimas inteligentes e de bem com a vida que existem - umas quatro ou cinco que conheço a fazerem um texto em defesa das injustiçadas loiras. Em nota de rodapé, devo acrescentar que me destaco da postura da senhora – não o faço sempre…? –, já que das quatro ruivas que escolhi, não tive o descaro de me incluir como a quinta essência...
E já que é a primeira vez que escrevo publicamente sobre a senhora de quem sou uma não-leitora confessa e assumida (tanto livro bom para ler, autores de excelência a descobrir ou a revisitar e tão pouco tempo para o conseguir nesta vida), quero realçar que, para mim, sinto o trabalho da senhora como supérfluo, desnecessário e não-querido porque me desencanta ao que reduz a condição humana, ainda assim apreciei ler que tenha essa consciência e tenha respondido o seguinte: “Esta minha compulsão de estereotipar, analisar, classificar e perceber quem me rodeia – e que às vezes me faz tirar conclusões muito erradas sobre as pessoas e o género humano…”  
Uma loira não encerra em si mesma, apenas e porque a senhora o escreve, a magreza, altivez e atitude de uma Barbie. Abram-se os horizontes, faça-se o downsizing da petulância e tentemos pôr-nos de verdade nos sapatos de outras vidas se realmente nos afirmamos observadoras da vida que nos rodeia. 

A minha cor de cabelo é
mais inteligente que a tua!! 

por Isa Silva

Periodicamente, vem à baila esta história de que a cor de cabelo tem um impacto considerável na inteligência feminina. Sim, vou falar só da parte feminina porque não se chama louro burro a nenhum homem e é evidente que a cor de cabelo nos homens não interessa nada a ninguém e muito menos dá tema para crónicas. Na verdade, não se escrevem anedotas, livros ou filmes a falar de louros burros. Hahh... mas no caso das mulheres essa cor de cabelo é fortemente atacada! Devo salientar de que não sou loura. Mas confesso que em muitas ocasiões gostava de ser loura burra só para me preocupar com futilidades. Sou orgulhosamente RUIVA, fruto de uma costela escocesa extremamente activa. Cabe-me, nesta altura, colocar a seguinte questão: Qual será o nível de inteligência de uma ruiva? Maior que uma morena? Menor que uma loura? Invulgar? Limitado? Aceitável? Colorido? Incorrigível? Misterioso? As teorias e pensamentos do fútil não fazem parte das qualidades da inteligência. Cheguei à conclusão que ser loura dá muito trabalho. São bombardeadas por todos e ainda lhes tiram a inteligência. Não é uma situação fácil de lidar. Mas dizer que há apenas 4 ou 5 louras inteligentes em Portugal também não é sinal de grandes faculdades intelectuais. Ser ruiva é bem mais fácil. Temos a vida toda facilitada! Não estamos na cor com défice de inteligência, temos reacções do sexo oposto ao mesmo nível daquela cor de cabelo que já falei e ainda ganhamos aos pontos em irreverência e destaque no que respeita ao team da cor de cabelo mais escura. Resumindo: as ruivas vivem num mundo de esplendor. É? A sério?? Ainda não me apercebi disso... Tudo isto leva-me a questionar o que sucederá a quem tem mais do que uma cor de cabelo. Dualidade de inteligências? Bipolar de pensamento? Dupla personalidade cerebral? Nunca consegui ter uma resposta cabal a esta questão. Continuo a não entender porque é que o aspecto físico é determinante para a capacidade de ser ou não inteligente. Não é a cor de cabelo que rege a capacidade do cérebro. Quando se padece de carência inteligencial, vulgo "sem cérebro", não há cor de cabelo que salve!!! A inteligência é a aceitação da imperfeição como uma componente da vida. Qualquer tipo de discriminação ou preconceito é a mais clara demonstração de falta de inteligência. E agora vou arejar os meus caracóis ruivos porque já estou a deitar fumo pela cabeça de tanto esforço mental. Com licença...

Downsizing, desenvolvimento infantil
e outras coisas assim… 

por Rute Silva

Nos últimos anos tem sido o downsizing “do camano” aqui por estas bandas que até mete impressão. Ele é downsizing dos subsídios, downsizing da educação, downsizing da saúde, mas, nada disto me tinha preocupado até ler na entrevista da Famosíssima Escritora Portuguesa, (fantasticamente loira, como não poderia deixar de ser) que esta tomou a decisão de fazer um downsizing no seu lifestyle. Mas como é que chegamos a este ponto!?!?!? Confesso que teria ficado muito feliz se o jornalista tivesse feito um downsizing da entrevista … Bem, o que mais me irrita na dita entrevista é a deflexão! Mas a senhora não sabe dar uma resposta direta? Tem de se esconder em perguntas, pior na repetição das perguntas? Bem sei que se assume filha de uma psicóloga (não pode ser fácil) e de um biólogo … e acho que é aqui que está o cerne da questão: Aposto que este pai, biólogo, faz jus ao preconceito do cientista aluado, calmo, reservado… E a mãe psicóloga será terá uma personalidade forte e, quiçá, manipuladora. Não é fácil ser menina nestas condições … no desenvolvimento infantil, o papel do pai é preponderante. Para os meninos ele tem de ser um “rei”, vigoroso e arrebatador que não deixa o “príncipe” conquistar a princesa, no caso das meninas, ele tem de ser capaz de não se enamorar pela “princesa” deixando claro quem é a “rainha” … mas sempre no controlo da situação. Ora se esta “rainha” não se deixou ser comandada, minou, à partida, a imagem de uma relação normal entre um homem e uma mulher … e está explicada a completa falta de jeito para a descrição das relações humanas que a mais vendida escritora feminina tem. Quem leu as crónicas dela na Maxmen (a revista que os homens gostam) sabe o que falo, ela é o estereotipo da “barbie” que quer agradar aos homens (e isto explica a raiva que tem da mulher que ela retrata numa outra crónica, como “a gordinha”), que acha que ser uma mulher independente é banalizar o sexo, beber “como gente grande” e não ter namorados, ter amigos. No fundo, imagino-a bem submissa … bem sensaborona. Mas quero ir mais longe e analisar porque é que ela tem a recorrente necessidade de diminuir a mulher. Imagino que seja a sombra da Super-Mãe e das Super-Avós que descreve no seu discurso, completamente infalíveis ao ponto de nunca serem vistas, nem na intimidade, de pantufas!?!?! Meu Deus! Que peso enorme viver assim! Explica sem dúvida a escolha da tonalidade da cor do cabelo, da extrema magreza e da necessidade de se elevar a uma posição de mulher forte e independente. Em jeito de conclusão, aquilo que se pretendia ser um ataque à estupidez humana imortalizada na entrevista do ionline, acabou por ser o meu primeiro ataque aberto aos pais. Que seja um alerta para o mal que podemos fazer, consciente ou não, aos nossos filhos … Medo … muito medo!

Curta e Fina! 

por Sónia Handel Oliveira

Isto nem é para a Margarida ler, trata-se de uma crítica, logo está-se nas tintas para elas, não é? Nós os Gémeos somos assim! Quem nunca ouviu a expressão, “mais vale cair na graça do que ser engraçado”? A sua falta de humildade serve apenas para mascarar a falta de talento. Comprovado pela audácia em se comparar com a Dra. Estela Barbot (conselheira do FMI), Paula Teixeira da cruz (altamente reputada no mundo jurídico, académico ou não), ou mesmo Teresa Caeiro ou Joana Amaral Dias (a 1ª deputada do CDS-PP e a 2ª do Bloco de Esquerda), e limitar a inteligência e atitude a apenas algumas mulheres. Não conhece mais ninguém ou acabou-se-lhe a tinta da caneta. Não acredito que as mesmas pensem o mesmo dela. Foi um comentário muito Infeliz. Lamento que o público-alvo desta escritora sejam os adolescentes e lamento mais que os mesmos possam ser de alguma forma influenciados. O negócio corre-lhe bem com a escrita "Pop", mas eu continuo achar que tem uma veia mais eficaz para a música. Adorada por uns, odiada por outros e pelo andar da carruagem Ignorada por todos. Não foi o que fiz a pedido da Ana, mas será o que farei de agora em diante. Alguém uma vez disse e aqui subscrevo: "Talento sem humildade é arrogância e talento sem inteligência é farsa."


Primeiro contato: uma análise literária.

por Luana Filipetto

Segundo?! Curiosidade, e se tem algo que me chateia muito é desperdiçar tempo de uma leitura proveitosa, lendo expectativas, e com todo respeito, até uma adolescente escreveria aquelas mal fadadas linhas. Não houve e nem vai haver outros contatos, porquê?! Por vários motivos, mas o mais forte de todos é o fato de se tratar de uma escrita simples, repetitiva (de um livro para outro) e também pelo fato da escritora ser uma pessoa extremamente prepotente, isso mata qualquer livro. Não digo isso com olhares de uma crítica, muito menos de uma professora, mas sim com o olhar de uma leitora, que quando pega o livro quer se sentir desacomodada, mexida... os dois livros lidos não mexeram comigo, são textos encontráveis em tantos outros gêneros por aí – crônica (ler uma crônica com essa simplicidade é bom, é gostoso, pois sempre há algo com o que se identificar na crônica, visto que o papel dela é retratar o diário e como afirma um teórico do gênero “ela é pra ser lida em um dia e no outro servirá para embrulhar sapatos”); conto (pouco mais extenso, mas ainda é um lugar cabível pra esses temas – dos livros que li – ) agora, um romance, pense em um livro com mais de 150 páginas, com linhas simples, frases banais, que poderiam ser ditas no afã de uma conversa de bar, ou até mesmo na cama, pois é... é a isso que se resume a escrita dela. Como prova, eis aí um trecho do livro (não recordo de que página tirei isso, sim estava anotado em minha agenda de trechos para trabalhos e afins, e por favor não perguntem o porque fiz isso): “Quando se ama alguém, tem-se sempre tempo para essa pessoa. E se ela não vem ter conosco, nós esperamos. O verbo esperar torna-se tão imperativo como o verbo respirar. A vida transforma-se numa estação de comboios e o vento anuncia-nos a chegada antes do alcance do olhar. O amor na espera ensina-nos a ver o futuro, a desejá-lo, a organizar tudo para que ele seja possível. É mais fácil esperar do que desistir. É mais fácil desejar do que esquecer. É mais fácil sonhar do que perder. E para quem vive a sonhar, é muito mais fácil viver.” In Diário da tua Ausência. Creio que não preciso dizer mais nada... ah! Preciso sim, no início eu iria compará-la a um escritor brasileiro, provavelmente conhecido por aí também, Paulo Coelho, porém achei melhor não, porque, embora o Coelho tenha essa escrita tendenciosa (engodo pra fazer ler outros livros) e simples, ele escreve autoajuda (¬ ¬ reforma ortográfica sua feia!), e eu estaria caindo no precipício de comparar romances contemporâneos a uma “subliteratura”, só para fins de comparação de escrita, um trechinho de Coelho (busquei na internet, pois não o leio mais): “A possibilidade de realizarmos um sonho é o que torna a vida interessante.” Paulo Coelho Enfim moços e moças, espero ter retratado um pouquinho de minha angústia enquanto leitora e espero que quem já tenha lido e gostado, siga lendo, pois gostos cada um tem o seu e o meu é chato ^^! Ah os livros lidos: Diário da tua ausência e O dia em que te esquecia. E se alguém já leu o Minha Querida Inês me informa se vale leitura, confesso que pelo título fiquei curiosa, mas pela escritora me desmotiva a pensar em ir atrás do livro. 
 Beijitos do outro lado do oceano... 
 Luh

CURLY 

por Paula Valença

Nasci com cabelo castanho em Oxford, Inglaterra. Castanho claro, que castanho só não chega. Liso. A puberdade trouxe os caracóis - não havia secador que controlasse a personalidade do meu cabelo e lá convenci a minha mãe a desistir da maquineta. Ainda hoje não tenho paciência para secadores. A puberdade também trouxe aquela certeza que a minha vida não ia ser só Portugal. Não que não gostasse de Portugal, mas com um Mundo tão grande, com tantas experiências fantásticas, porque raios não havia de vivê-las? Na minha mente ingénua não havia barreiras e muito menos fronteiras. Ao longo da vida pintei o cabelo de tantas cores que perdi a conta. Na universidade e na Internet era conhecida como "a Loirinha". Desci ruiva a túneis onde os primeiros momentos do Universo são recriados. De cabelo azul rabisquei formulas criptográficas com as melhores mentes na área. Tinha cabelo preto quando escolhi ser visível na minha bissexualidade por todas as pessoas que não o podiam ser e contribuir para tornar as suas vidas melhores. Atravessei países de comboio, avião e carro com cabelo lilás. Mudei de pais, de emprego, de vida, e o cabelo lá ia mudando. O cabelo neste momento é vermelho e bem vermelho. Em reuniões ou eventos profissionais é usado por vezes numa piada para quebrar o gelo ou numa abertura para uma conversa. Mas rapidamente o assunto vai para o que interessa e são coisas bem mais importantes que o meu cabelo. O que interessa os meus foliculos quando se trabalha em problemas que afectam o mundo? Mas eu não sou Sansão: a minha força não vem do cabelo vermelho. Nem do ser mulher, feminina ou arrapazada. Ou Portuguesa. Sinceramente não sei de onde vem, mas abraçar tudo o que sou ajuda, oh ajuda. Ser Mulher não define barreiras nem fronteiras. Mentes fechadas que formatam pessoas para algo que lhes é estranho, sim.

domingo, 18 de novembro de 2012

Estaremos todos a mentir?

Dentro de dias vai sair uma reportagem na revista Visão que hesitei em colaborar 'dando a cara'. Na verdade é um tema a que tenho dado bastante tempo de reflexão e de observação. 
Estaremos todos a mentir? 
Numa ida ao supermercado reparo discretamente naquela mãe que cala um surdo NÃO de olhos bem abertos ao filho que pede algo que o ano passado exigia (e tinha) sem pejo. 
Na senhora que no cesto tem apenas pão, manteiga e um saco com duas laranjas e mantém a pose na fila da caixa de um carro cheio. 
Nas mãos da outra senhora de mais idade com apenas um pacote de massa e uma embalagem de caldos de carne. 
Na gasolineira presencio um jerican entre os carros que estão a abastecer. Mais uma pessoa ficou sem gasolina na estrada, não por distracção, mas por achar que o combustível ainda chegaria. 
Nas mãos do carteiro noto que distribui demasiadas cartas registadas que adivinho trazerem as não boas novas de corte de fornecimento de serviços básicos. 
Observo lojas de face escondida em papel pardo forrando as montras, as empresas que fecham ao nosso redor a cada dia, os amigos e conhecidos que estão a sair do país e nos dá vontade de chorar por não termos percebido que aquela família estava a precisar de ajuda... 
A contra-ciclo da queda de poder de compra de toda uma classe média embaciada pelo constrangimento de o demonstrar claramente, eu quero falar sobre isso. 
Gasta-se demasiada energia e recursos a tentar disfarçar o que não temos de ter vergonha: Está a acontecer um pouco por todo o lado, em cada lar, em cada local de trabalho, com o invisível transeunte que connosco se cruza, no amigo que falta ao jantar calado por não o poder pagar, porque já não é possível manter a mesma vivência que se acostumou a demonstrar, a usufruir. Contudo, pela calada todos estamos a sobreviver. Faz parte da nossa natureza, não somos pessoas de desistir e com mais ou menos tranquilidade, sucumbimos aos chamados sub-empregos, os biscates de antigamente para conseguir assegurar o essencial. Recordamos com veemência as palavras de nossos avós que falavam de um tempo de crise diferente, mas que nos faz pensar com uma nova e adquirida propriedade no "uma sardinha para dois" 
Fala-se hoje dos novos pobres. Diferente de dizermos sempre os houve, sempre os haverá, é afirmarmos que a nossa classe média não estava preparada para este revés, para viver sem dinheiro, para viver sem saber como. Mas sabe! Mentir a nós próprios será o primeiro recurso, mas não é solução, porque a cada passo, notamos haver um degrau mais abaixo. E outro ainda. 
Eu tenho uma teoria sobre quando a vida nos dá limões. Limonadas? Não!, façamos logo o melhor possível e venham de lá as caipirinhas!! 
Se a sua vida se estilhaçou, aprenda que foi apenas a sua vida conforme a vinha vivendo, porque a SUA VIDA continua! 
O português é o mestre do desenrasca, e se já o povo clamava que a necessidade aguça o engenho, se observarmos atentamente, vemos que para além das mensagens gritadas alto nas redes sociais e nas manifestações mais que públicas, de forma silenciada a classe média reinventa-se, transforma uma vivência que não conhecia na sua nova rotina e não desiste!, ainda assim, afirmo: Calar uma realidade não faz com que ela desapareça, apenas aumenta o espectro de uma impossibilidade e a estagnação, essa, não é a que tem de sobreviver, mas sim - e que me perdoem a audaciosa redundância - a coragem de ter arrojo.


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Sushi à portuguesa (ou "Vão-se foder!" como muito bem disse a Ângela Crespo)

Sushi de arroz tomate com jaquinzinhos
Não é uma piada, é uma ideia. E ideias (boas ou más) num país como o que o nosso se transformou (ou o querem transformar) em que o empreendedorismo não é valorizado, é na verdade uma piada.
Li este texto no facebook, que vos recomendo vivamente, um grito de revolta de uma jovem portuguesa de 32 anos.
 Poderia ser o meu grito, é certamente o grito de MUITOS!, porque na verdade, a Ângela Crespo gritou bem alto o que desde sexta-feira apetece, também a mim, certamente a muitos de nós, dizer veementemente com todas as letras:
(versão original aqui https://www.facebook.com/angela.ftc/posts/4585835005610)

«Este é um texto longo, pouco facebook friendly, mas à falta de melhor sítio para expressar o que me vai na alma, aqui fica:

Vão-se foder.
Na adolescência usamos vernáculo porque é “fixe”. Depois deixamo-nos disso.
Aos 32 sinto-me novamente no direito de usar vernáculo, quando realmente me apetece e neste momento apetece-me dizer: Vão-se foder!
Trabalho há 11 anos. Sempre por conta de outrém. Comecei numa micro empresa portuguesa e mudei-me para um gigante multinacional.
Acreditei, desde sempre, que fruto do meu trabalho, esforço, dedicação e também, quando necessário, resistência à frustração alcançaria os meus objectivos. E, pasme-se, foi verdade. Aos 32 anos trabalho na minha área de formação, feliz com o que faço e com um ordenado superior à média do que será o das pessoas da minha idade.
Por isso explico já, o que vou escrever tem pouco (mas tem alguma coisa) a ver comigo. Vivo bem, não sou rica. Os meus subsídios de férias e Natal servem exactamente para isso: para ir de férias e para comprar prendas de Natal. Janto fora, passo fins-de-semana com amigos, dou-me a pequenos luxos aqui e ali. Mas faço as minhas contas, controlo o meu orçamento, não faço tudo o que quero e sempre fui educada a poupar.
Vivo, com a satisfação de poder aproveitar o lado bom da vida fruto do meu trabalho e de um ordenado que batalhei para ter.
Sou uma pessoa de muitas convicções, às vezes até caio nalgumas antagónicas que nem eu sei resolver muito bem. Convivo com simpatia por IDEIAS que vão da esquerda à direita. Posso “bater palmas” ao do CDS, como posso estar no dia seguinte a fazer uma vénia a comunistas num tema diferente, mas como sou pouco dado a extremismos sempre fui votando ao centro. Mas de IDEIAS senhores, estamos todos fartos. O que nós queríamos mesmo era ACÇÕES, e sobre as acções que tenho visto só tenho uma coisa a dizer: vão-se foder. Todos. De uma ponta à outra.
Desde que este pequeno, mas maravilho país se descobriu de corda na garganta com dívidas para a vida nunca me insurgi. Ouvi, informei-me aqui e ali. Percebi. Nunca fui a uma manifestação. Levaram-me metade do subsídio de Natal e eu não me queixei. Perante amigos e família mais indignados fiz o papel de corno conformado: “tem que ser”, “todos temos que ajudar”, “vamos levar este país para a frente”. Cheguei a considerar que certas greves eram uma verdadeira afronta a um país que precisava era de suor e esforço. Sim, eu era assim antes de 6ª feira. Agora, hoje, só tenho uma coisa para vos dizer: Vão-se foder.
Matam-nos a esperança.
Onde é que estão os cortes na despesa? Porque é que o 1º Ministro nunca perdeu 30 minutos da sua vida, antes de um jogo de futebol, para nos vir explicar como é que anda a cortar nas gorduras do estado? O que é que vai fazer sobre funcionários de certas empresas que recebem subsídios diários por aparecerem no trabalho (vulgo subsídios de assiduidade)?… É permitido rir neste parte. Em quanto é que andou a cortar nos subsídios para fundações de carácter mais do que duvidoso, especialmente com a crise que atravessa o país? Quando é que páram de mamar grandes empresas à conta de PPP’s que até ao mais distraído do cidadão não passam despercebidas? Quando é que acaba com regalias insultosas para uma cambada de deputados, eleitos pelo povo crédulo, que vão sentar os seus reais rabos (quando lá aparecem) para vomitar demagogias em que já ninguém acredita?
Perdoem-me as chantagem emocional senhores ministros, assessores, secretários e demais personagem eleitos ou boys desta vida, mas os pneus dos vossos BMW’s davam para alimentar as crianças do nosso país (que ainda não é em África) que chegam hoje em dia à escola sem um pedaço de pão de bucho. Por isso, se o tempo é de crise, comecem a andar de opel corsa, porque eu que trabalho hé 11 anos e acho que crédito é coisa de ricos, ainda não passei dessa fasquia.
E para terminar, um “par” de considerações sobre o vosso anúncio de 6ª feira.
Estou na dúvida se o fizeram por real lata ou por um desconhecimento profundo do país que governam.
Aumenta-me em mais de 60% a minha contribuição para a segurança social, não é? No meu caso isso equivale a subsídio e meio e não “a um subsído”. Esse dinheiro vai para onde que ninguém me explicou? Para a puta de uma reforma que eu nunca vou receber? Ou para pagar o salário dos administradores da CGD?
Baixam a TSU das empresas. Clap, clap, clap… Uma vénia!
Vocês, que sentam o já acima mencionado real rabo nesses gabinetes, sabem o que se passa no neste país? Mas acham que as empresas estão a crescer e desesperadas por dinheiro para criar postos de trabalho? A sério? Vão-se foder.
As pequenas empresas vão poder respirar com essa medida. E não despedir mais um ou dois.
As grandes, as dos milhões? Essas vão agarrar no relatório e contas pôr lá um proveito inesperado e distribuir mais dividendos aos accionistas. Ou no vosso mundo as empresas privadas são a Santa Casa da Misericórdia e vão já já a correr criar postos de trabalho só porque o Estado considera a actual taxa de desemprego um flagelo? Que o é.
A sério… Em que país vivem? Vão-se foder.
Mas querem o benefício da dúvida? Eu dou-vos:
1º Provem-me que os meus 7% vão para a minha reforma. Se quiserem até o guardo eu no meu PPR.
2º Criem quotas para novos postos de trabalho que as empresas vão criar com esta medida. E olhem, até vos dou esta ideia de graça: as empresas que não cumprirem tem que devolver os mais de 5% que vai poupar. Vai ser uma belo negócio para o Estado… Digo-vos eu que estou no mundo real de onde vocês parecem, infelizmente, tão longe.
Termino dizendo que me sinto pela primeira vez profundamente triste. Por isso vos digo que até a mim, resistente, realista, lutadora, compreensiva… Até a mim me mataram a esperança.
Talvez me vá embora. Talvez pondere com imensa pena e uma enorme dor no coração deixar para trás o país onde tanto gosto de viver, o trabalho que tanto gosto de fazer, a família que amo, os amigos que me acompanham, onde pensava brevemente ter filhos, mas olhem… Contas feitas, aqui neste t2 onde vivemos, levaram-nos o dinheiro de um infantário.
Talvez vá. E levo comigo os meus impostos e uma pena imensa por quem tem que cá ficar.
Por isso, do alto dos meus 32 anos digo: Vão-se foder.»

por Ângela Crespo 
(publicado no meu site com o seu devido conhecimento)


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Ninguém quis este acordo

"Ninguém quis este acordo, não se percebe para que é que serve"

Esta frase retirada do comentário do MST poderia ser o título de um samba-canção ou de um faduncho divertido do Marco Horácio não fosse este um tema sério.


Comentário de MST sobre o #AO

Só assim de repente, contando com os jornalistas e escritores Rodrigo Guedes de Carvalho e Miguel Sousa Tavares que em artigos de opinião na imprensa escrita sempre fazem questão de não escrever de acordo com o acordo, como de resto afirmaram no comentário de ontem no Jornal da Noite da SIC, assim de repente, junto três comigo quatro autores que fazem absoluta questão de baterem o pé e não seguirem este acordo ortográfico que nos foi imposto. Mencionei quatro, porque estou a contabilizar o Marco Horácio não é apenas o actor, humorista e autor da personagem Rouxinal Faduncho, mas a pessoa que deixa bem claro no seu trabalho a afirmação que nos é comum.
(Nota: O Rouxinol Faduncho não escreve conforme o novo acordo ortográfico)
Tudo isto não é novidade, nem sequer matéria de notícia. Somos arreigadamente contra um acordo que não serve nada nem ninguém (servirá?), e não fosse o nosso Presidente da República ter feito declarações públicas que mais uma vez me envergonham e que fazem os nossos comentadores pôr o dedo na ferida.
Que o shôr Anibal prefira escrever como aprendeu na escola e não se dê bem com os textos que lhe dão de acordo com o acordo, eu até entendo e simpatizo, aliás... começa aí o nosso boicote colectivo. O que me incomoda de sobremaneira é o facto do Shôr Anibal não estar ali na praça com os seus amigos reformados, pela fresca, a jogar à bisca lambida, mas ocupe funções que não se adequam às declarações aquando da visita a Timor. Tal como quando se lamuriou da sua Maria ganhar apenas os benditos 800 euros.  O comentário de banco de jardim não lhe fica bem, nem tão pouco  se pode permitir. É uma figura de estado! E mais. No caso do acordo ortográfico, não o compreende, não gosta e contudo... assinou-o? Porquê? Para quê? Para quem?
E ainda, a outro tempo, a minha indignação - desta feita com a SIC - como é possível se em nota de rodapé coloquem as palavras do comentador Miguel Sousa Tavares, que para além de ser publicamente contra o acordo, está exactamente a falar sobre isso, e aparece a sua frase genial por sinal "Isto é um aCto colonial ao contrário.", sem o 'c' no acto??? Considero uma afronta. Já sei que a resposta está no facilitismo, mas honestamente já me cansa.
Continuo a acreditar acerrimamente no mesmo que afirmou o Rodrigo Guedes de Carvalho:
"Pode ser que com a mesma rapidez um dia seja abolido."


sexta-feira, 30 de março de 2012

Tenho um novo pedido. Posso?

Recordo sempre com carinho um leitor que me escreveu a contar que a filha de 11 anos quis ler o meu livro “Autista… quem? Eu?” e ele permitiu, como no final a menina dizia coisas que nos escapam a nós adultos (nessa família não há pessoas com autismo é mesmo reflexão da menina de 11 anos).
Dizia ela: “o Xico tem a minha idade e não consigo parar de pensar no que não pode fazer e eu posso.”
Aquilo que damos como garantido,  aos olhos de uma leitora que se identificou pela faixa etária com a personagem, fascinou-me e comoveu-me tal a sensibilidade da pequena. E contava o pai que durante vários dias o Xico esteve bastante presente no pensamento, discurso e acções da menina que enumerava com frequência momentos que eu, autora, jamais esqueci: dizia à mesa – “o Xico não comeria assim”. dizia a andar de bicicleta - “o Xico gostaria do vento na cara, de certeza!, mas se calhar não saberia pedalar”. Estava demasiado siderada com o que a diferença faz na vida de uma pessoa. 
Isso é consciencialização.


Continuo a afirmar que a consciencialização é necessária, deveria ser obrigatória (por exemplo) nas forças de autoridade. A cada momento acontece alguma situação que nos deixa desconcertados e o que faz a polícia, os bombeiros, a protecção civil? Pois. Explicamos (sim, nós) primeiro o que é autismo, para depois nos poderem responder - lamento, não posso ajudar. Como se não o soubéssemos. E que tal formação para esta gente que pode efectivamente ajudar? Que deveria fazê-lo (e fá-lo-ia) se soubesse como? 
Falar de temas - seja qual for - a datas precisas irrita-me profundamente, é sabido. Porque quem precisa, precisa sempre. Acredito que a consciencialização se faz o ano todo, 365 dias ao ano. Porque o autismo vive connosco 365 dias ao ano. Não apenas a 2 de Abril.

Anda Comigo ver os Aviões - Os Azeitonas

As datas são importantes para dar um empurrão e fazer lembrar que algo existe, que precisa ser valorizado. O que me irrita nas datas comemorativas é o facto de as pessoas só se lembrarem nesse dia. 
No caso de dia 2 de Abril, não é data comemorativa, é o dia mundial para a consciencialização do autismo. Caramba ainda estamos na guerra do básico, do pão com manteiga da coisa - é absolutamente necessário que se saiba, aquele saber que está debaixo da pele, entranhado pelas pessoas que nos rodeiam, para que de uma vez parem de olhar para a nossa população com autismo como uma coisa do outro mundo, não são excêntricos, nem malcriados, são autistas! São diferentes, são especiais? Chamem como quiserem, mas - utilizando uma expressão popular - dêem o nome certo aos bois, chamem-lhe AUTISMO!
Cansa-me profundamente explicar o meu filho a cada situação embaraçosa. Cansa-me justificar comportamentos e acções em torno da ideia do meu filho necessitar do ter um tubo de mm's mini na mão (sim, dá-lhe segurança, paz, faz com que "a cabeça não fique maluca" e se essa tranquilidade é um tubo, porque não compreender o que nos pede sem nos olhar?), cansa-me de explicar ad nauseaum que lhe é tão essencial como um pulmão e agradeço mil vezes aos meus amigos de S. Paulo, Brasil que me enviam caixas de tubos m&m's mini, uma vez que o produto foi descontinuado e só se encontra à venda em S. Paulo. Pergunto: têm noção do tamanho da ternura contida em cada uma dessas caixas que me chega pelos correios? Porque eu encaro isso como um acto de amor incondicional pelo meu filho e por mim um acto de Amizade que não esquecerei nunca! 
Ahhhh sim, e isso, também é consciencialização.
Cansa-me o olhar cansado de pais mais novos ao desabafarem comigo como foi uma consulta de um médico afamado e que sai de lá com um rol de improváveis patologias, mas que garante uns bons dois a três anos de terapias bem dispendiosas que se vêm a revelar inúteis, cansa-me a desunião que o autismo provoca no seio de uma família apenas porque está lá, cansa-me o olhar de comiseração do coitadinho. Cansa-me tanto que ensinei ao meu filho - como ensinei cada frase correcta como resposta adequada a cada momento e situação da vida (chamo a isso ter-lhe fornecido "um banco frases! - dados que ele usa como respostas para as mais diversas situações na vida, e na grande maioria das vezes usa adequadamente, apesar de baixinho me perguntar "disse bem?") Então, como me cansa o olhar comiserativo e todo o conceito pejorativo do  "coitadinho" também ensinei ao meu filho ter respostas prontas (a roçar o malcriadas, sim), e adequadas a ataques desses, na realidade a saber defender-se na mesma linguagem e ele, lindo menino diz com um ar bem pispineta: "Coitadinho...? Coitadinho é corno!"






Vem aí outro dia 2 de Abril. Este ano não me apetece apenas lutar para conseguir o Cristo-Rei de Azul no dia 2. Ficou lindo o ano passado, tenho o maior orgulho de me ter empenhado e de ter conseguido, mas este ano, sei lá, quero mais! Quero 250 grs. de PAZ.






Dístico de lugar de estacionamento obrigatório à porta de casa de cada família onde habite uma pessoa com autismo - bem sei, não me calo com um detalhe que é tão simples de ser votado na Assembleia da Republica e ou pelos governantes deste nosso país - porque as rotinas são importantes para estas pessoas e saber que o familiar que os conduz estaciona sempre o carro no mesmo sítio, lhes dá paz.
Bem sei que o pedi directamente ao antigo primeiro ministro Sócrates que me respondeu - a ser como eu dizia, haveria muito a fazer. Pois. Continua a haver muito a fazer, lamentavelmente o sr eng José Sócrates nada fez. Agora este ano tenho um novo pedido. Posso?

Encontro Presencial LX Factory 20 Bloguers com o Secretário Geral do P.S. José Sócrates
Moderador jornalista e bloguer Paulo Querido Uma ideia original do Deputado Jorge Seguro

Formação obrigatória para as nossas forças de autoridade. É necessário e premente que saibam o que é Autismo. Não são mongolóides, não são como o tonto lá da aldeia, não são malucos - e sim!, oiço isto das nossas forças de autoridade a cada vez que me confronto com estas situações. As famílias precisam deste tipo de ajuda? Por favor.... FORMAÇÃO e OBRIGATÓRIA. Vão-me ouvir enquanto não o conseguir!!!
Nem que seja só as 250 grs. de paz para esta população e suas famílias... para mim já chega, já me faria sorrir, nesta minha luta 365 dias ao ano de mostrar que o autismo existe e temos de lidar com ela a cada um dos dias e noites das nossas vidas.


quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia da Mulher

Este dia é uma homenagem a mulheres que lutaram pelo nosso direito à igualdade, não ao direito de, por um dia, poder jantar fora com amigas e não ter de fazer o jantar para o marido... esta noção é tão 'redutorazinha' que me irrita profundamente (num dos meus livros escrevi sobre isso e mais abaixo reproduzo esse excerto).
Em Nova Iorque a 8 de Março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos fizeram greve. Ocuparam a fábrica pedindo melhores condições de trabalho, redução horário diário de 16 para 10 horas, salários iguais aos homens e dignidade no tratamento. A manifestação foi reprimida à força: as mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada, e 130 tecelãs morreram carbonizadas. Em 1910, numa conferência na Dinamarca, ficou decido que 8 de Março seria o "Dia Internacional da Mulher", em homenagem às tecelãs de 1857, mas só em 1975 a ONU oficializou esta data.

Ao passar mais um dia 8 de Março,
publico aqui um trecho do meu livro Mal Me Quero.
ou então uma outra forma de dizer que o(a) último(a) a rir ...

(ou o Dia-Oficial-da-Maria-sair-com-as-outras Marias)

Maria já tinha deixado preparado o jantar dos filhos sem esquecer o pack de cerveja fresca no frigorífico. Sorte, ser dia do jogo com o Benfica, espero que ganhe, pensa, assim nem chateia quando chegar. Mas, este ano, estava decidida. Ia ao jantar que as colegas faziam todos os 8 de Março, também era mulher e tinha esse direito: divertir-se, afinal, é só uma vez no ano!, pensou, justificando-se.
O Manel vociferava no snack-bar com os companheiros de balcão, agora, desde que passavam as jantaradas do Dia da Mulher na televisão, todas achavam que tinham o direito de se exporem ao ridículo, era vê-las a todas, vermelhas de bêbedas, todas a acharem-se muito engraçadas e soltas por uma noite. Como se fosse igual a uma noite de copos com os amigos, como lhe dissera a Maria. Mas quando ele ia para os copos com os amigos e chegava a casa, tinha o jantar pronto, tudo arrumado, na ordem de Deus. Nesse dia, quem trataria dos putos e da casa? A Maria não podia deixar os filhos com a mãe, ela própria saía com as colegas da hidroginástica e, entusiasta, contara-lhe que, regra geral nestas saídas, convidavam os treinadores, sim, porque elas eram mais velhas que um trapo, sabiam-no, por isso se exercitavam, mas ainda não eram, com a graça de Deus, ceguinhas! Os moços eram todos antigos nadadores de competição, tinham uns corpos lindos, uns doces de rapazes, tratavam-nas carinhosamente por avó antes do nome próprio e levavam-nas sempre a casa. A Maria não achava cómico a mãe, com aquela idade toda, só pensar em laurear, quando dizia que, em especial um deles, havia de ter metido conversa com ela uns 50 anos antes... Maria até se benzera! Credo, Jesus!
O Manel sempre achara a sogra uma beata metediça, mas agora piorara, pois então!, Apanhou-se viúva, deu em galdéria, nem queria saber dos netos e ainda puxava a filha para a doideirice. Esta ideia agora de ir com a velharia a jantarinhos comemorativos de serem gajas... Logo a sua Maria que sempre tivera tanto juízo, ia dar noutra como a mãe, era o que era! Mas quem discutia com a senhora sua sogra?
Isto de terem perdido a casa para o banco e terem de ir viver para a vivenda do raio da velha, fora um rude golpe e agora não havia quem a calasse a dar palpites e a comandar a vida deles. A Maria só sabia dizer ámen à velha e ele sentia-se agarrado. Maldito ano de desemprego que o pôs na mó de baixo! Recuperar não estava fácil, já ter este emprego temporário na fábrica tinha sido uma sorte.
A Maria comprara uma fatiota nova, toda brilhante, bem baratinha na loja dos chineses, parecida com uma que andava a namorar na loja das senhoras ricas. Não era a mesma coisa, mas com o barulho das luzes, passava, a diferença de preço, então... Sapatos, ia levar os dos casamentos, claro que num saquinho de plástico, levava as chancas para trocar, quem aguenta aqueles saltos uma noite inteira, depois de trabalhar todo o santo dia, agora que era ela quem pegara a dianteira e arcava com as despesas da família? Isso é para as tias das revistas! A mãe é que dizia saber por uma colega que, para além dos dias de não fazerem mais nada, senão cuidar de si mesmas ou simplesmente ficarem demasiado exaustas de ver tanto povo nas lojas (coitadas, nem compras podiam fazer em paz!), ao sairem das festas, ao carro patrocinado por uma qualquer marca, levavam a previamente combinada caixa plástica dos croquetes, entradas e afins e aí sim, discretamente, já sem o paparazzi em cima, trocavam o salto altíssimo para a chinelinha de dedo.
O Manel ia para casa com a ideia no futebol, dia de Benfica! Agora nem pensava em arranjar uma coisa fixa, ia andando aos biscates e parava mais tempo no snack-bar. A Maria ainda passou no cabeleireiro e pediu à maricure para tentar dar um jeito nos trambolhos que costumava chamar de mãos. Sentiu-se bonita aos ver-se de cabelo armado ao espelho. Há quanto tempo não gostava de se ver no espelho? Pondo de outro modo, há quanto tempo não se olhava ao espelho?
O Benfica fez um jogo miserável... seria possível tanto azar? Cambada de coxos! Deitou-se no sofá a ver televisão. Praguejou quando foi buscar a última cerveja, a Maria não tinha deixado o frigorífico prevenido como ele gostaria naquela noite!
Já a Maria também bebeu mais que a conta e dançou todo o serão com outras Marias igualmente eufóricas. Gritavam histericamente à chegada dos empregados, do animador do restaurante, de todos os espécimes, género masculino, que simplesmente passavam naquela zona para meramente irem ao WC. Sentiam-se livres por uma noite: “Toca a aproveitar que, depois, só pr’ó ano!” Gritava, completamente embriagada, a Glórinha.
Manel passava os canais com ar enfastiado. Se tivesse a Maria em casa já estaria a roncar no sofá, não hoje!, ia ficar bem alerta para a hora que ela necessitasse de ajuda. Ai não que não ia...!

“Algum homem ressabiado!” Dissera a Glórinha, “... Ainda bem que não ando com o volante nas mãos, havia de ser bonito! Estou bêbeda que nem um cacho!”
A Maria pensara por um momento e não quis acreditar, mas ao constatar a quantidade de carros mandados encostar à berma, de mulheres a apresentar documentação e a fazerem testes de alcoolemia... pensara no Tóino, o amigo polícia do Manel, havia de as safar à multa. Tanto homem bêbado todos os dias ao volante, e fazerem um auto-stop, logo neste dia, só para mandar parar mulheres, era uma vergonha!, uma verdadeira caça às senhoras de família que só podem sair nessa noite... a família, está sempre em primeiro lugar, e só nesse dia - até no trabalho - tiveram direito a uma flor que o chefe trouxe para todas lá na repartição e esta novidade de poder sair à noite… Tirando este dia da Mulher, há quantos anos o seu Manel não a levava a sair, sabendo ele o que ela se desunhava para dar um pezinho de dança? Um carinho, um abraço… nada! Desde que ficara desempregado e sem a casa, o seu Manel andava descorçoado e até o entendia e tentava dar apoio, mas e quem lhe dava o apoio que tanto necessitava a ela, quando a cabeça lhe estoirava com enxaqueca?, quando pensava nas seus serviços todos encaixotados?, nas suas roupas de casa ensacados num recanto na garagem da mãe? Quem lhe dava apoio? A Mãe? Ela preferia que tivesse sido sempre o seu Manel e ele onde? No snack-bar, pois está claro!
Ele perdera o emprego, mas a Maria também ficou sem a sua casa e estava como uma menina sob o olhar vigilante da mãe de novo, como se fosse catraia.
O seu olhar ficou ofuscado com a luz fortíssima nos olhos, abismada, com um microfone na frente da cara, sim!, era um carro de reportagem de televisão! Não era nada combinado, não senhor... sentiu-se tonta sem saber o que dizer, só imaginava todos quanto as conheciam a vê-las na reportagem, com os copos, a apanharem multa por excesso de álcool no sangue. Estes gajos fizeram de propósito só para nos deixarem passar vergonha! Depois peço ao Manel que fale com o Tóino.
Manel desligou o telemóvel e endireitou-se no sofá. Mudou de canal a tempo de ver a triste figura da sua Maria em directo. Sinceramente! Ainda tinha sido melhor que poderia ter imaginado. Televisão e tudo! Quando chegasse apetecia-lhe mesmo deixá-la bazanada.
Maria entrou cabisbaixa.
“Linda figura para a mãe dos meus filhos aparecer na televisão!” Rugiu. “Sempre quero ver o que te dizem amanhã no teu emprego, o que vai dizer a tua mãezinha, incluído a vizinhança inteira e na escola dos teus filhos!”
Maria tirou o casaco e suspirou profundamente soerguendo as costas. A Glórinha tinha razão. Ali havia coisa. Custou-lhe a acreditar quando reparou quem estava a falar com o repórter, o bom do Tóino, que de Tóino não tinha nada, não senhor… bem dizia a Glórinha: essa, mesmo pinguça era esperta que nem um alho! Agora, chegada a casa confirmara!, com um Manel tão acordado a essa hora tardia e pelo canal desabitual na sua televisão. O Manel vira. O Tóino avisara-o. A Glórinha tinha razão... se não fosse o Manel o ressabiado que tinha magicado semelhante plano, ia pagar por qualquer outro filho da mãe. Sorriu. Apeteceu-lhe surpreendê-lo como nos filmes da televisão. Com o seu melhor ar contristado, entrou na sala cabisbaixa. As seis garrafas vazias estavam em linha e caídas pela mesa da sala. O Manel fizera menção de continuar a insultar a sua inteligência, mas hoje, apesar de tecnicamente já ter acabado o dia, ainda estava sob a bênção do dia em que as mulheres celebram a sua libertação.
Libertação.
Era a sua cartada.
Aproximou-se das garrafas vazias de cerveja e, agarrando uma pelo gargalo, partiu-a na esquina da mesa de vidro. Antes que o Manel pudesse reagir, já tinha o gargalo aguçado junto do pescoço dele e com a outra mão agarrava-o pelas abas do pijama riscado.
“Piadinha linda, não foi? Pedires ao teu amigo para se prestar ao papelinho de chibo... Pois bem meu caro, o teu reinado acabou aqui e agora. Manuel Fernando, ainda esta noite sem apelo nem agravo, vais enfiar as tuas coisinhas num saco de plástico, daqueles bem grandes do lixo, bem podes ir bater à porta do teu amiguinho para ficares no sofá dele. Debaixo das telhas que a minha mãe paga, não ficas nem só mais um momento! Ouviste bem?, Manuel Fernando? Hoje, agora, sem um pio, juro-te que se abres essa bocarra te enfio este gargalo boca abaixo! Juro-te!, pela saúde dos nossos filhos, que hoje foi o último dia da tua vida que achaste que és uma pessoa superior a mim!”




terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Tripped em italiano quer dizer bazei

se lhe perguntarmos: «és um homem ou és um rato?» de certeza que este canalha responderá guinchando: "hi...hi...hiii..."

Tropeçou...? mas este energúmeno não encontrou melhor desculpa esfarrapada? Que tal, por exemplo, ser homenzinho e assumir que errou em toda a linha? Ahhh, claro, esqueci que é um RATO!!!

Um tropeço pode até ser bastante gracioso (quem não se riu já de ver um valente trambolhão ou um simples deslize), mas neste caso, só a boa piada do meu amigo Fernando Azevedo tem graça, quando alega nesta sua irreverente tradução que TROPEÇAR em italiano quer dizer BAZEI . . .

Tropeçou. . . tropeçou onde? 
Ahh, claro, na sua falta de carácter.
só desejo que a História não eternize este crápula com um qualquer Leonardo DiCaprio.



Ahhh sim, e podem ouvir nesta gravação, de forma quase inaudível é certo,  este... (a minha esmerada educação apenas me permite chamar-lhe) filho de mãe de cama incerta... a guinchar no seu encolhido "hi...hi...hiii..." à voz que o manda falar mais alto, essa sim!, de comando. 

E sim, ele escapou do mar, não deverá escapar à justiça, nem à completa ausência de respeito no olhar de quem o rodeia, mas pergunto-me: escapará algum dia ao penoso exame da sua própria consciência . . . ?



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