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quarta-feira, 25 de abril de 2018

Onde é que você estava no 25 de Abril?

Hoje, e porque celebramos o dia 25 de Abril de 1974 e a liberdade que nos trouxe à nossa vida, apetece-me partilhar o início do meu novo livro, chamemos-lhe capítulo zero ou prólogo, porque descrevo justamente este dia e de como uma menina do liceu chamada Alice o percepcionou. 
No dia 23 de Abril, dia do livro, deixei que os leitores espreitassem pelo buraco da fechadura, e lessem algumas palavras do começo do meu novo livro, e hoje, porque tenho a liberdade como autora de mostrar mais do que seria suposto ou politicamente aceitável ou até correcto, faço-o, apenas porque me apetece e celebrando a liberdade de o poder fazer.


Também porque ao descrever as emoções, sensações e pensamentos de uma menina do liceu, abro uma janela às novas gerações que nem conhecem a carismática pergunta de Baptista Bastos, criada numa personagem de Herman José que o retratava, no programa de humor em 1997, o Herman Enciclopédia:
Onde é que você estava no 25 de Abril?


 Esta pergunta de Baptista Bastos (a personagem de Herman José) teve tanto impacto que o escritor, na vida real, acabou por fazer uma série de entrevistas em que colocava esta questão aos seus convidados. E a frase ficou. Hoje os jovens conhecem-na, mas não sabem esta origem. Tão pouco a perguntam, porque a resposta seria: "se nem era nascido..."

Apeteceu-me começar este novo livro, respondendo a essa questão: onde Alice estava no 25 de Abril de 1974?

Pelo novo livro e sua história, os meus queridos leitores terão de esperar o seu momento.
Até breve!


Prólogo
A Malta do Liceu

Alice tinha quase 19 anos quando se deu o 25 de Abril de 1974 e lembrava-se perfeitamente do local onde se encontrava, o que estava a fazer.
Naquela madrugada o telefone ressoou pela casa adormecida. Alice prontamente saltou da sua cama e correu para a saleta, rumo ao aparelho destemperado atendendo a chamada telefónica, estranhando em primeiro lugar a hora matutina e depois o tom sombrio, quase enigmático, com que o pai, uma vez chamado, respondia ao amigo do outro lado do fio.
Nem as meninas foram à escola - a mãe conduziu-as para os seus bordados - nem o pai saiu para o emprego. Ficaram recolhidos naquela manhã a ouvir baixinho na telefonia o que só mais tarde entenderia como o fim de uma era. Os quatro em silêncio, apenas quebrado quando a sua irmã se picou ou com o continuado calcar dos dentes paternos na ebonite da boquilha do seu cachimbo mordiscado.
Recordava-se de outra curta ligação telefónica, do pai num breve movimento a fazer-lhe sinal que se levantasse e fosse ligar de imediato o aparelho de televisão, de esperarem, a contarem os segundos no relógio Omega que o ecrã do televisor mostrava até aparecer a imagem do Fernando Balsinha, muito compenetrado do seu papel de anunciar aos espectadores do seu país que, naquela tarde e a partir daquele momento, a rede emissora da Rádio Televisão Portuguesa estava totalmente controlada pelo Movimento das Forças Armadas.
Outra chamada telefónica, de um tio a perguntar como estavam com a situação em Lisboa, se estavam todos a salvo, que soube quando os cachopos foram ter com ele ao trabalho e o alertaram, estavam normalmente na telescola e mandaram-nos para casa, visto que a emissão fora tomada.
Alice não se recorda muito bem do que o Fialho Gouveia leu na emissão especial do telejornal, não entendeu porque proclamavam à nação o propósito de salvação do país, ainda menos entendeu a necessidade de o libertar de um regime que há longos anos o oprimia. Oprimia? Regime? Na verdade, Alice distraída do seu bordado, fixou-se no diálogo que estranhou aos seus pais: a mãe a ordenar que as meninas se recolhessem de imediato ao quarto, ainda no relógio Omega passavam os segundos na imagem do televisor, e o pai a sobrepor a sua posição, afirmando que deveriam ficar na sala. Alice não entendeu a mudança repentina: iam permitir-se ter conversas de adultos frente às duas filhas? Nunca o haviam feito! Ficaram, mas desabituadas de tanta circunstância a que foram a vida inteira protegidas, entreolhavam-se, não compreendiam o que eram os acontecimentos revolucionários que os dois locutores liam uma e outra vez. Alice lembrava-se de reparar que estariam algo nervosos, enquanto Fernando Balsinha lia as notícias, Fialho Gouveia fumava ininterruptamente.
No final, Alice recordava-se, para além da Sinfonia nº 3 de Beethoven, que reteve daquelas horas iniciais um nervosismo desconhecido, tanto em casa observando os pais como percepcionando-o nos locutores, e de que esse estado de espírito ter ido dando lugar a uma felicidade que não teve capacidade de assimilar qual a sua origem mas que com facilidade se deixou contagiar.
Recordava a estranheza que sentiu quando o pai, contrariando o aviso que os locutores repetiam, saiu para a rua, admirou-se que a senhora sua mãe cantarolasse “E depois do Adeus” do Paulo de Carvalho, cantor pelo qual em casa não nutriam particular simpatia, que o Fialho Gouveia largasse o cigarro e a cada actualização que lhe entregavam, lesse com maior enfâse, até ao empolgamento final com que agradeceu a fineza de trato que o movimento cuidou ter para com todos, desde o primeiro momento que ocupou a estação televisiva.
Recordava-se exactamente da cor que trabalhava no bordado que fazia naquele dia 25 de Abril, mais pela peculiaridade do dia do que pelo seu significado já que a sua ingenuidade não a deixava entender.

Da candura e estranheza, a deixar-se mergulhar na nova época que esse dia anunciou, foi uma mudança demasiado rápida e fácil: ninguém a preparou para a abrupta passagem da rigidez na educação paterna e absolutas regras escolares darem lugar a uma quase vulgaridade de normas valores e costumes que, dançando e cantando, de braço no ar revolucionando o que nem compreendia, embarcou.
Alice, mais afoita que a comedida irmã, queria experimentar, tomar o pulso a tudo, receosa que a liberdade tivesse chegado com breve prazo de validade e tivesse de voltar ao recato do seu bordado.
No liceu havia muitas reuniões gerais de alunos, as R.G.A., que foram ganhando notoriedade entre a população estudantil, foi havendo mais movimentações politizadas e consequentemente quebras na rotina, muitos momentos sem aulas e essa ociosidade foi uma das novidades que mais a atraía. Reuniam-se na pastelaria à frente do liceu, amiúde começou a beber café e, mais por osmose que por convicção, também a fumar como os colegas. Daí foi alargando as saídas do liceu em horário escolar que cada vez era mais caótico, primeiro para os passeios em grupo pela avenida da Igreja, com as obrigatórias idas aos gelados Itália, depois para o jardim do Campo Grande andarem de barco a remos com os irmãos das colegas, também desocupados, e nos dias quentes todos juntos em grandes grupos para as praias da linha do Estoril, faltando deliberadamente às aulas seguintes.
As saídas nocturas surgiram naturalmente com a nova vaga educacional que os pais queriam acompanhar: permitiam-nas desde que as duas filhas fossem juntas. Embora a irmã preferisse ambientes mais reservados, acompanhava Alice levando consigo um livro e distanciava-se das escolhas cada vez mais audazes que via a irmã fazer. Rapazes, drogas, álcool.
Um final de tarde na Marginal teve um desfecho inesperado.
Vinham de mais um ensolarado dia de praia daquele Verão quente.
A irmã viu Alice, que ia à pendura na Zundapp amarela à frente do Mehari onde seguia, ser projectada após um embate palerma com um DS. O rapaz que ia ao volante já havia comentado que o colega não deveria estar a conduzir depois do que tinha consumido, ainda para mais de duas rodas. Quem é que não vê um boca de sapo aproximar? Aconteceu. Pararam, socorreram, esperaram a ambulância, seguiram até ao hospital, esperaram. Alice pediu à irmã segredo, nada contarem aos pais.
O que Alice não esperava era que o segredo fosse maior que ela.
Nem à irmã contou.
Uma médica abeirou-se inquirindo:
- Quem a está a acompanhar?
- A minha irmã.
- A senhora deseja que mande chamar o seu marido?
- Marido? Eu sou solteira.
- Compreendo, menina então. Lamento profundamente, mas devo informá-la que perdeu os seus bebés.
- Que bebés? Do que fala?
- A menina não tinha conhecimento do seu estado?
- Que estado, senhora doutora?
- Devo chamar a sua irmã?
- De maneira nenhuma! Explique só a mim, de que fala? Eu estou grávida??
- Estava.
- Gémeos…? Grávida, eu??
- Sim. Dois meninos. Lamento informá-la assim nestas condições.
A médica sentou-se na beirada da cama e segurou-lhe a mão. Alice respirou fundo e levantou o olhar:
- Doutora… não chame a minha irmã, por favor, não diga nada!

Alice saiu do hospital em silêncio. A irmã e os colegas felicitavam-na, que sorte tivera por escapar só com arranhões, o amigo deles tinha a perna partida e o condutor do boca de sapo ficara internado em observação.
Sim, que sorte. 







sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Fui multada... que bom!

Hoje, o dia que acabo de escrever justamente os agradecimentos e o meu livro "Ao Km 32" segue para a editora, sou multada! E em que momento isso é bom, perguntaram? Neste que vos passo a contar.
É uma das muitas situações que me fazem amar a cidade de Aveiro: está sempre a acontecer algo, programas culturais mais ou menos institucionais, espectáculos de rua, acções que envolvem habitantes e turistas, momentos como este, prosaicos que simplesmente nos fazem sorrir. E sorrir, como sempre digo, tem um efeito de leque magnifico! Todos, à vez, sorriem à nossa volta!
Fui multada hoje, por me ter sido detectado um índice elevado de felicidade, para cima de 900 ml de boa disposição por litro de sangue. 

E deixo-vos o texto da ocorrência: 

"Hoje, tomamos a liberdade de te escrever. Parece-nos que hoje é um bom dia para ser feliz e por isso decidimos que o teu dia devia terminar de forma diferente. 
Por esse motivo, hoje surpreende, liga a quem tens saudades, agradece a quem gosta de ti. É dia de oferecer uma flor, fazer surpresas, deixar aquela mensagem que nunca dizes, um obrigado ou um simples abraço. Hoje escolhe ser feliz e fazer feliz de forma incondicional. E se a vida é feita de escolhas, então hoje escolhe elogiar, escolhe amar, escolhe sorrir mais!
E depois disso?! Faz como nós, multiplica essa vontade de fazer os outros felizes." 

A entidade reguladora desta bonita acção assina U.DREAM e de cada vez que me surpreendem... eu amo! 

Hoje, logo hoje, que terminei de escrever justamente os agradecimentos no meu livro!
São tantos os momentos que revisitei nestes dois anos de construção deste projecto maravilhoso, ao recordar cada pessoa a que quis agradecer a sua contribuição neste romance pelo qual estou completamente rendida! E precisamente por o ter feito, pela ponta dos meus dedos escrevendo, abracei mentalmente tantas, mas tantas pessoas que comigo estiveram nesta jornada! Escrever - dizem - é um acto solitário. Será. Faço-o a solo, porém, transformo-o num acto de amor em equipe! 
Por isso, fiquei tão feliz por me terem multado assim que saí à rua, porque é justamente como me sinto, a transbordar de felicidade!! 
Estou expectante pelo início, pelo raiar do do mês de Dezembro, pelo momento  de todos os meus leitores terem o livro nas suas mãos e ler, fruir, encantarem-se com este romance, "Ao Km 32", que acima de tudo, é uma história com muito amor!


terça-feira, 3 de outubro de 2017

A história de Martim Pescador e Sr. Gaspar

A mágica história do pequeno guarda-rios apanhou-me desprevenida. Conhecia o bonito traço nas ilustrações com que o Pedro Suárez nos seduz e faz sorrir, todavia arrebatou-me a narrativa enriquecida, fazendo bom uso de um vocabulário inusitado num autor de tão pouca idade.
Martim o Pescador, o pequeno pássaro de luxuriante plumagem azul é, desde a Primavera em que nasce, humanizado pelo autor, dando-lhe a par da capacidade de bordejar rio acima, de só mergulhar após uma paciente, porém frutífera pescaria, como bom guarda-rios que aprende com o senhor pássaro seu pai a ser, concede-lhe a inverosímil possibilidade de se quedar biquiaberto com cartas por ele escritas em papel de junco, ou impaciente, de meter duas patas de conversa, sem nunca dar a asa a torcer. 
O autor, à medida que vai construindo com musgos e líquenes a casa e vida do pequeno e atrevido Martim, vai-nos apresentado as deliciosas personagens que o rodeiam e cautelosamente vai-nos deixando, aqui e ali, pistas a entreler uma velada sequela, qual Harry Potter alado em azul-metálico. 
O Senhor Gaspar, a centenária e sapiente tartaruga de lento assobio musical, só nos é apresentada mais tarde, desfazendo um precipitado e imerecido julgamento do jovem passarinho. A abismal diferença de atitude e idade entre estas duas personagens não é fruto de um mero acaso, se não de uma perfeita analogia em que o autor nos guia até ao amadurecimento de Martim. 
Ao longo de todo o livro, sentamo-nos confortavelmente no largo cadeirão de veludo verde-escuro, deixamo-nos bailaricar ao entrar na casa-árvore quando sorrindo, afastamos com uma mão a exuberante cortina de heras, tomamos pelo outro braço um cesto com pão com uma garrafa de licor e rodopiando um pouco mais, inebriamo-nos na frescura das hortelãs e das cidreiras já totalmente envoltos na doçura das camomilas e das flores de trevo, enquanto as subtis notas das tílias cantam para os confiantes funchos. 
Ahhh…! O Pedro foi passarinho para escrever um bom livro!



sábado, 26 de agosto de 2017

Melhor Dia!

Melhor Dia – diz o Pedro quando quer expressar a sua felicidade a cada momento que sente especial. Hoje para mim é um melhor dia.

«Amanhã faço 28 anos, igual ao da Carris», disse-me o Pedro ontem. 
Ao longo da nossa vida de mãe e filho fui escrevendo muito, partilhando uma experiência única de ser mãe a solo de uma criança diferente a quem ensinei tudo, até a sorrir. 
Cedo percebi que o que outra mãe tinha como garantido e natural, para mim teria só após longa conquista. Ensinar um filho a sorrir foi, talvez de tantas, a experiência de que guardo a recordação mais agridoce. O Pedro era um bebé lindo com um profundo olhar aborrecido para a vida e eu, abracei interiormente a ideia de o trazer para a minha vivacidade e alegria. Foi um moroso processo de muitas fases, desânimos e superações, demorou longos oito meses essa primeira de muitas conquistas e, quando o meu filho por fim me sorriu com aquele sorriso encantador que tem, foi um momento avassaladoramente maravilhoso de único, contudo, nesse momento tão feliz, eu mãe não tirei foto, eu chorei. 
Ainda hoje sinto esse momento de forma tão vívida, por ter sido o ponto que marcou toda a diferença: iria sempre ser assim. Eu não iria ter a leveza que as outras mães tinham na vida de, a cada momento feliz, a cada sorriso dos seus bebés, tirarem uma foto, imprimirem e mandarem aos avós babados. A comunidade médica foi dura e desenganava-me a cada consulta e exame durante os primeiros dez meses de vida dele: o meu bebé nem iria ter vida, não iria fazer, não iria conseguir. Porém eu respirei fundo e acreditei nele. E o Pedro fez e o Pedro conseguiu. Chegou à adolescência como um jovem promissor, chamavam-lhe a estrelinha da companhia por ter superado tanto, por ter conseguido o inimaginável. Até ao dia que ele tomou consciência que não teria o futuro que desejava. 
Eu sei que criei, mais que tudo, uma pessoa boa, com valores, carácter e bom coração. E sei que ao meu filho dei vida duas vezes. A terceira, a que eu sonho para ele, falhei. Até ver. Na vida, às vezes, temos de dar um passo atrás para depois conseguir caminhar os dois seguintes em frente. 
Escrever e catarse são grandes amigas que vivem de mãos dadas e eu abracei-as profusamente desde a adolescência até à idade adulta do meu filho. Quando releio algo meu, tenho dificuldade em relembrar que foi assim e logo sou assaltada por memórias que escolhi esquecer. 
Gostaria que tivesse sido diferente, ao amargo Inverno que atravessamos nos últimos dez anos. 
Tornou-se impossível vivermos juntos, e de tantas decisões difíceis que tomei como mãe a solo, esta foi a mais dolorida e amarga. Foi também a mais sã. Eu sei, a coragem que tive para dar esse passo foi imensa, submergi muitas vezes, no antes e no depois, mas sempre com o olhar posto na linha de água. 
Hoje o Pedro faz 28 anos. Há muito que amadureço a ideia que vou ter coragem de mais um passo que sinto tenho de dar para voltar a ser gente: voltar a estar com o meu filho sem sentir medo dele. Foram dez anos de uma profunda e horrenda violência de que não tenho vontade de voltar a escrever. Antes desejo muito chegar ao capítulo seguinte, mas sinto que não posso folhear, passar em frente sem vivenciar cada página desta nossa história, deste medo insano que escondo até de mim. 
Hoje vamos estar juntos, hoje vamos ter um melhor dia! 
O Pedro não sabe. Vai ser uma surpresa para ele. Nem poderia ser de outra forma, já que na ansiedade da antecipação do que tanto anseia, perde-se. Eu quis muito encontrá-lo, ao Pedro que se perdeu pelos 16 anos. Talvez eu mesma tenha aprendido da pior forma que o mundo das minhas expectativas é um e o real é outro. Talvez eu não tenha tido tempo de crescer como mulher, presa que estava a ser mãe. A par de ensinar o Pedro a sorrir, guardei a Ana numa gaveta para depois mais tarde a viver. Tinha 25 anos. Só vim a reabrir essa gaveta com 52 e não soube o que fazer com aquela menina, não me reconhecia nela, mas também não sabia o que a de 52 queria. Então dei-me esse tempo, “permiti-me pensar-me” e aconteceu: cresci. 
A esperança é uma malandra que sempre correu na minha frente, abanando o rabiosque, fazendo caretas, desafiando-me. A menina da gaveta ficou onde deveria permanecer: no passado. Tal como o meu Pedro brilhante e promissor. Hoje é o adulto que completa 28 anos que perdeu muitas dessas capacidades. Mas tem tantas outras! E a génese, o que eu amo profundamente no meu filho, está lá toda! Bendita esperança que me faz ver a sua bondade – de quem literalmente tira do corpo para dar a outro, o seu intenso sentido de justiça – quando fala claro o que os seus pares não verbalizam para se poderem defender, a pureza cristalina do seu sorriso – quando me olha directamente nos olhos e faz com que apareça em linha de rodapé a incontornável melodia da sua vozinha a bradar bem alto: «Melhor dia!»




quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Porquê um livro sobre este tema, Ana?

Faz agora um ano que segui muito de perto a viagem que o Pedro Lapa fez e a que chamei “O carro que veio de Aveiro”. Não preciso que as memórias do FB me lembre as datas e momentos que em mim ficaram gravados debaixo da pele.

O Pedro foi porque não conseguiu ficar sentado no sofá a assistir pela TV ou redes sociais ao que acontecia, e eu fiquei. Combinámos que seria os seus olhos, voz e coração: eu escreveria o relato da sua viagem, a cada dia ia telefonar-me e transformaria as suas palavras em textos que publicaria no meu site, nas redes sociais.
Parecia simples, mas não foi.
Relatava-me o que via de voz quase apagada, embargada de tantas emoções, muitas as vezes que chorámos juntos, na incredulidade, pelo que presenciava, tanto o que as notícias não veiculam. Acreditamos que tivemos os telefones sob escuta, fui ameaçada, mas os textos não pararam de ser publicados a cada dia.

Hoje acredito que esta viagem mudou cada uma das pessoas que se envolveram nela das mais variadas maneiras, trazendo ao de cima a essência de cada um. Mas eu escrevi sobre a viagem do Pedro e sobre o carro que veio de Aveiro e é sobre isto que hoje continuo apenas a querer falar.  

A cada um dos 10 dias de viagem, eu escrevi e publiquei um texto. Os telefonemas que o Pedro me fez, o que ele viu, escutou e me transmitiu quebraram algo em mim. O que ele sentiu, sendo um homem tão bom, ainda hoje, depois de tantas conversas que já tivemos, continuo a crer que seja bem mais profundo do que consegui em alguma vírgula pôr naqueles dez textos, do que ele mesmo consiga explanar por palavras ou pelo seu olhar.

A viagem terminou com um resultado maravilhoso: foi justamente no carro do Pedro, o carro que veio de Aveiro, que trouxeram uma família síria para Portugal, Ali, Nada com as suas três filhas. Hoje a viverem em Ovar, as meninas a frequentarem a nossa escola, a Nada a cuidar da família, o Ali a trabalhar e a sustentar a sua família honestamente como sempre quis fazer. Um sorriso no rosto, uma voz serena, uma vivência que diz atirar para trás, que o futuro são as suas meninas, e de novo todos atados, agora numa corda invisível, rumo à paz que em Portugal podem viver.

Quando digo que algo quebrou em mim, visualizo-o como uma casca de ovo, porque a viagem do Pedro em mim resultou num renascimento. Envolvi-me muito mais do que esperaria e após a chegada, quis continuar a escrever sobre este tema, apenas escolhi outro caminho, o meu, o da ficção e faz agora também um ano que me embrenhei na ideia, no nascimento do livro que agora tenho em mãos.

É um livro de Amor. Assim começa e assim acabará. Amor. Será através do amor que tenho a veleidade de vos contar a guerra, porque só assim consigo conceber como escrevê-lo.

Comecei com um título, como de resto sempre começam os meus livros e daí desenrolo o fio de todo o enredo na minha cabeça. Criei personagens, dei-lhes nomes, vida. Dei-lhes uma cidade – Lattakia, e uma outra cidade – Aveiro. Dei às minhas personagens um propósito, existências felizes e harmoniosas ou simplesmente normais. Pesquisei, continuo a pesquisar tanto sobre uma vivência que nós, com uma vida ocidentalizada, desconhecemos porque não nos aparece nas notícias.

Hoje tenho uma mão-cheia de pessoas sírias que continuam generosamente a contar-me, não só as suas difíceis e dolorosas histórias da travessia até à paz (relatos que me deixam sem voz, sem mais perguntas a fazer, apenas pouso o lápis e escuto, de olhos arregalados a sentir um imenso murro no estômago), como me contam detalhes importantes para mim de forma a saber reconhecer cheiros, sons, e saberes, povoam a minha imaginação com as suas realidades, expectativas e sonhos. "Põe isto no livro, Ana, é importante." E eu vou pôr todo esse colorido que me ensinaram a ver. São formas de ser e pensar de um povo que aprendi a respeitar. Aprendi que os sírios - mais que as outras nacionalidades do médio-oriente - são como os portugueses: gente boa, afáveis, bons anfitriões, brincalhões, são um povo gentil e generoso - são como nós.

,E depois a guerra, estúpida sem sentido que assola a Síria há cinco anos, que destruiu cidades inteiras, monumentos, a identidade de um povo cuja história remonta às mais antigas do mundo, uma perda sem tamanho para a humanidade. E depois... uma fuga incomensurável, uma corrida da morte certa para uma liberdade incerta, uma maratona pela Vida, pela Paz, pelo Amor.

Faz agora um ano que comecei a escrever a maratona das minhas personagens. E penso que já passei o meu km 32. 

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

'Bora pintar um banco?

Por conta de um convite da organização do Vivóbairro, vi-me a pintar um conto de um livro meu num banco de jardim. Eu conto. 


A cada artista seleccionado foi-lhe atribuído um banco de jardim pronto para ser pintado, dos muitos distribuídos por este bairro de Aveiro, tendo total liberdade na sua criatividade desde que respeitasse a sua função principal - um banco de jardim para as pessoas se sentarem.
Na Praça Marquês de Pombal, mesmo junto ao posto de correios aí existente, estava um disponível que me foi atribuído. Inicialmente pensei pintar cartas e postais a voar na direcção do edifício dos CTT, que depois evoluiu para esta outra ideia, visto que no meu primeiro livro publicado há um conto - uma bonita história de amor - em que o narrador é um postal. Isso mesmo, um postal dos CTT. Partindo do princípio que todas as histórias de amor serão lindinhas, o twist está na forma original de as contar para não ficarem sensaboronas (já Pessoa reclamava disso), então o recurso que usei no "Promessas de Verão" foi exactamente esse, criei um inusitado narrador, o postal que se extravia que faz com que os dois enamorados se desencontrem, e no seu afã de ser portador da boa nova, vai acompanhando ao longo do tempo a história de Luís e Lara. Assim, e tendo esse conto, não me limitei a pintar postais e cartas esvoaçantes, antes intentei pintar (contar) o meu conto no banco de jardim.

Quero mesmo agradecer a todos que ajudaram no processo, às pessoas dentro da organização do bonito projecto Vivóbairro que ao longo de muitas horas de intenso calor ou gélido vento nos apoiaram, trazendo mais uma garrafa de água, um material em falta, uma palavra de incentivo, um sorriso, aos muitos, mesmo muitos turistas e aveirenses que pararam o seu caminho, meteram conversa, fizeram perguntas, levaram fotos de recordação (até quiseram figurar nas fotos do making of), aos colegas artistas dos outros bancos na generosidade com que partilharam materiais, ideias e o seu tempo em conversas boas, também aos amigos que acarinharam e tiraram fotos (deixo-vos com o making of). 
Aproveito o ensejo para aqui republicar de novo este bonito conto que escrevi há tantos anos e exactamente por esse distanciamento, ao relê-lo emocionei-me. Gosto mesmo deste conto!! 




Promessas de Verão

conto publicado no livro CONTOS DE VERÃO, 2004

por Ana Martins

“Hoje sinto que vou embora” disse o dos malmequeres amarelos.
“Pois eu acho que tenho mais probabilidades” disse o dos corações vermelhos.
“Já eu” disse o do moinho de vento revoltado “penso que não tenho hipótese nenhuma desde que me dobraram… não sei que faça a este vinco!”
“Convenhamos meus amigos… desde que os do outro lado chegaram nenhum de nós tem segurança” reclamou o da enseada.
“Tens razão” disse o do burro “vamos por cá ficar tanto tempo que acabamos encarquilhados, empoeirados e esmaecidos do sol.”
Do outro lado do expositor o da praia sussurra ao da falésia: “É só inveja….” ao que o colega responde: “Nós temos o dever de ser tolerantes com os do outro lado… não temos é muito tempo para pensar nisso já que estamos sempre de saída!” Riem sarcásticos com satisfação.
O dos malmequeres amarelos agita-se: “Cliente, cliente!”
Uma senhora aproxima-se com o filho pela mão. Roda o expositor para a esquerda, depois para a direita, mais uma vez para a esquerda. O filho brinca com os porta-chaves que estão num cesto. “Não mexas nisso.” diz-lhe maquinalmente. Baixa-se um pouco para ver os da fila debaixo. Mais para a direita e retira dois postais. Dirige-se ao interior da loja recomendando ao filho: “Rodrigo tem maneiras.” depois pergunta à empregada se também vende selos. “Lá está ela, queres ver…?” pergunta o da baía para o do hotel.
“Temos sim, minha senhora. São para o estrangeiro ou para cá mesmo?” pergunta solícita a empregada.
A senhora responde-lhe que são para o continente. Prontamente a diligente empregada sugere a novidade desse Verão: os postais pré-selados. Sorri acrescentando feliz: “Muito mais em conta!”
Quando se dirigem para o exterior da loja a Mãe ralha: “O que é isso Rodrigo?” O ladino fazia o expositor rodar veloz “Vai na mecha!” ainda respondeu.
A empregada num gesto parou o rodopio e mostrou a fileira dos novos postais. “Deixe estar, não tem importância, são crianças…” garantiu à freguesa.
“Deixe estar…? Deixe estar o tanas! Estou mais tonto que sei lá o quê…” reclama enjoado o do moinho.
“Estou a alucinar ou vêm aí mais…?” questiona-se zonzo o do burro.
“Cliente, cliente!” avista o dos malmequeres amarelos excitado.
Um grupo barulhento de raparigas rodeia o mostruário escolhendo entre comentários mordazes e muita risota para quem escreveriam e o quê.
“Estou fartinho destas piadolas… não há imaginação nenhuma nesta juventude?” grunhe o do burro.
Devidamente abastecidas as moças preparam-se para pagar quando uma delas repara: “Ó Lara, ide trocar o teu, carago! Está todo encorrilhado!”
Lara sorri assegurando ser único. A amiga insiste dirigindo-se à empregada: “Menina? Tendes outro?” a empregada meneia a cabeça numa negativa. “O que temos está à vista… temos é uns mais baratos porque já têm selo!”
Os amigos despedem-se rapidamente enquanto são pagos. “Pode ser que nos vejamos pelo caminho! Até sempre!”
“Ó Lara, não entendo… compra outro!” insiste a amiga.
“Deixa, este é perfeito.” diz Lara acariciando o vinco bem marcado.

Nunca pensei que fizesse tantas cócegas nas costas… Será que demorará muito tempo...? Gostava tanto de conseguir ler o que está a escrever… Que nojo! Seria preciso encher-me de baba? Nunca ouviu falar de cola? Boa! Encostou-me ao espelho da cómoda, vou conseguir espreitar!




Esta agora! Vou ser portador de uma boa notícia… é a melhor das finalidades!

Lara dirigia-se à estação de correios enquanto falava ao telefone com uma amiga sem poder suspeitar quem a escutava com atenção. Detalhadamente contou tudo sobre a pessoa que lhe estava a mudar a vida.
Os planos. Os sonhos. A saudade.
Enquanto falava, beijou-o, antes de colocar o postal serenamente na ranhura.
Escorregou pela parede fria.
“Moinho! Moinho! Aqui à tua esquerda!” saltitava o do burro “Vieste mesmo a tempo, a tiragem é agora às seis…”
“Levo boas novas!” gritou histérico “Que mais poderia querer, dizes-me?”
“Eu nunca esperei ter esse destino… não com a foto que carrego! Pelos comentários das miúdas vou enfurecer uma certa besta amansada… Mulheres!” Riram com gosto trocando as que ambos sabiam ser as últimas palavras.
O funcionário abriu a portinhola e inundou de luz o receptáculo.
“Dá aí uma mãozinha, acho que estou entalado aqui neste friso” gemeu contorcendo-se “Céus, estou colado aqui em baixo! Aquela saliva toda… Ajudem-me, não posso ficar aqui! Sou portador de uma boa notícia! Ajudem-me!”

Mas ficou.
Preso. Esquecido. Extraviado.
Nas primeiras tiragens ainda gritava, contorcia e retorcia-se, irremediavelmente trincafiado. “Sou portador de uma boa notícia” repetia a cada tiragem. Depois… Um envelope almofadado bastante pesado caíra-lhe em cima atordoando-o.
Acordou-o o dos malmequeres amarelos.
Deprimido reparou na data de um pré-selado que lhe oprimia um canto. Arregalou os olhos. Maio de 1986?
“Amigo, ainda aqui estás?” perguntou o dos malmequeres amarelos.
“Amigo, só agora vens?” respondeu vagaroso, profundamente desalentado. “Ajuda-me por favor que era portador de uma boa notícia…” murmura agastado.
Na tiragem seguinte todos auxiliaram: “Um portador de boa notícia tresmalhado por dois anos é muito triste” concordou o pré-selado. Num assobio chamou todos os congéneres para dobrarem as pontas amalgamando-se numa imensa cadeia postalérica.
“Cuidado! Não lhe rasguem o selo senão acaba no Cabaz Azul!” gritou aterrado o dos malmequeres amarelos.
Fez-se um silêncio.
Qualquer epístola que se prezasse tinha um pavor insustentável do funesto cabaz onde sempre cabia mais um envelope, encomenda ou postaleco sem forma de ser entregue, esperando o improvável momento de ser reclamado.
Um almofadado pequeno esgueirou-se para baixo e capitaneou os movimentos. “Agora, podem puxar!” afirmou convicto enquanto descolava o pedaço de selo.

Dois dias depois estava numa caixa de correio em Alforgoges.

Luís estremeceu ao abrir a portinhola. Um moinho?

Porquê molhar-me com estes pingos? Porquê que grita? Eram boas notícias…

Luís abriu o bocadinho de papel que o moleiro lhes tinha emprestado. Numa letra redondinha estava o contacto de Lara. Afinal era de Lisboa. Nunca havia aberto aquele pedacinho de papel. O combinado seria ela abrir primeiro… ou não.
“A mana mora na casa nova desde o casamento… quem fala?” dissera uma voz de criança do outro lado da linha.
Luís passou as mãos pela cara, pelo cabelo, despenteando-se, por fim, apoiando o nariz entre os indicadores. Mais uma vez, tentou rever a estória como realmente teria acontecido. E ele que, injustamente, durante todo aquele tempo pensara que Lara, a menina de cidade grande, o tinha ignorado por ser um labrego agricultor provinciano!
Pegou no postal, de novo revendo a data, endireitando os cantos, acariciando o tom mais amarelecido numa ponta. Levantou-se e foi até junto da janela. Examinou o postal na claridade do dia demoradamente por outro ângulo.
Sim, aquele pedaço esteve claramente mais exposto ao sol.
Sim, aquele postal estivera retido por muito tempo sabe Deus onde.
Sim, tempo demais…

A Lara acha que ignorei o que me escreveu… foi isso! Pensou que a tentei conquistar naquele Verão e ficou vexada porque nunca lhe respondi. E agora?

Agora Lara tinha casado.
Luís dobrou cuidadosamente o postal pelo vinco e guardou-o na sua carteira.

Ela estava tão feliz quando me comprou… Percebi-o, quando me encostou ao espelho e li, não tinha importância a marreca do meu vinco… eu era perfeito!

Meteu-se na carrinha.
Aquele era um caminho que evitava mas agora queria revê-lo.
Ficava num cabeço bem arejado no Monte Venturo, apenas a uns escassos cinquenta quilómetros de Alforgoges. Havia sido caiado. O moinho, imponente na sua alvura parecia saudá-lo de novo e Luís circulou ligeiro até debaixo da janela altaneira na retaguarda que, cúmplice, o espreitava através do lintel de pedra.
Já não estava lá, havia sido tapado pela caiadura mas, passando a mão pela grossa parede areada, podia senti-lo gravado na pedra, vibrante e vivo. Roçou a ponta do dedo pelo perfeito ângulo recto que desenhava as duas letras entrelaçadas.
De madrugada quando o moleiro chegou estava sentado à espera.
“Se calhar não se recordará de mim, mas pedi-lhe um pedaço de papel aqui mesmo há uns dois anos e emprestou-me o seu lápis…” disse de rajada.
“Nããã havera de recordar… Luís e Lara! Se os tenho apanhado maganos… Atããão vossemecês escrevinharem-me a mão de cal! Ah! Por esses dias afora estava-lhes cá com umas ganas…!”
Sorriu timidamente enquanto com o polegar levantava a ponta da boina para coçar a cabeça. “Ó ti’Jaquim… desculpe lá o mau jeito” balbuciou. Mas uma dúvida assaltou-lhe de supetão o espírito: tinham efectivamente, com um canivete, feito um enorme coração com as suas iniciais. Tinham brincado por, em ambos os casos, ser a mesma e terem nomes compostos de quatro letras... mas em momento algum os tinham escrito, nem tinham falado disso ao moleiro quando naquele derradeiro encontro pediram o pedaço de papel. A pergunta fervilhava-lhe na mente quando o ti’Jaquim respondeu: “Deixe-se lá disso agora! A sua moça tratou logo do pagamento do prejuízo, ela nããã lhe contou que veio por cá?”

Luís voltou aos Alforgoges mais desalentado. Lara tinha voltado lá antes ou depois de ter escrito o postal? O moleiro não tinha as respostas que ansiava ouvir e custava-lhe a crer que Lara tivesse regressado apenas para mandar pintar por cima todos os vestígios do que juntos tinham gravado na parede.
Sentou-se numa pedra, retirou a carteira do bolso e puxou pelo postal.
«Tua para sempre» uma pessoa não escreve tua para sempre para de seguida casar com outro… o que teria sucedido?

Nunca me conformei. Poderia ter proporcionado tanta felicidade… O meu propósito nunca foi atingido e vinte anos volvidos não me consigo resignar a não ter cumprido a minha missão. Outros vinte poderão passar e não aceito. Cada vez que me tira da carteira e me relê consigo sentir o olhar pesado passar por cada contorno de cada letra, reescrevendo-me ao passar por cada palavra. Gasta-me quando passa o dedo nodoso pela assinatura, doem-me os cantos cansados e os vincos meio rasgados, entristece-me a tinta que ainda me escorre pelas costas esborratada a cada pingo. Nestes anos que passámos juntos tanto me beijou avidamente como veementemente amachucou as minhas entranhas acabadas de tanta espera. Nunca me vou conformar com o sofrimento que provoquei por me ter deixado amofinar. Porque não gritei mais alto, porque não gritei mais forte?

Luís habituara-se a visitar amiudadamente o ti’Jaquim.
Tinha angariado ao longo dos anos a boa reputação de não aumentar no peso nem roubar na maquia como outros moleiros faziam. Mas os tempos eram outros! O moinho só continuava a moer devido à carolice do senhor Presidente da Junta que o remunerava com um gordo subsídio estatal por atrair os turistas à localidade. A vizinhança agradecia comprando-lhe de vez em quando da sua farinha, basicamente para fazerem bolo podre. Também Luís levava sempre um saco de juta quando aparecia. Gostava de ficar à conversa na soleira da porta, ficar a saber as novidades dadas pelo conversador ti’Jaquim e reconhecer os boatos que ajudava a espalhar.
Fora com surpresa que naquela manhã vira o moinho com o velame enrolado e uma placa de uma imobiliária pregada na porta fechada.
Desceu até à cidade procurando o escritório.
Ficou muito abalado com a notícia da morte do seu amigo.
Aparentemente os herdeiros queriam vender o espólio do avô mas ainda estavam enredados com a melhor forma de gerirem as partilhas.
Luís sabia ter posses suficientes para adquirir o moinho e, querendo preservá-lo daquela sordidez mercantil, num ímpeto perfeitamente lúcido, resolveu apresentar a sua proposta.
O empregado confidenciara-lhe que a parada estava bastante mais alta pois a Câmara queria o moinho para património municipal e havia um gabinete de arquitectos com o imóvel debaixo de olho e entre eles estava a disputa pela compra da propriedade. Os terrenos em volta eram todos pertença do humilde ti’Jaquim. Quem diria? Segredara-lhe inclusive os montantes aproximados em despique desses candidatos. Luís ficara na dúvida se não seria bluff para o fazer aumentar a sua proposta. Resolveu sair argumentando que iria ponderar. Parou no alpendre para guardar o cartão do vendedor na carteira. Havia algo nele que o inquietara, não sabia exactamente o quê…
Uma senhora subia a escada preparando-se para entrar e agradeceu a Luís que se afastou instintivamente para lhe dar passagem.

Então, então, então…?! O que se passa? Volta atrás, VOLTA JÁ PARA TRÁS!!! Não viste que era ELA, não lhe reconheceste a voz? Eu não acredito que passaram um pelo outro sem terem reparado… Então, então… não feches a carteira agora que eu quero ver o que se passa! Ora não querem lá ver a brincadeira!

Não voltara à agência. Fora um impulso visceral, para que é que ele queria um moinho? Só não queria que o destruíssem…
Poucas semanas depois, ao perfazer a curva, levantou o olhar e viu os andaimes. No regresso subiu ao cabeço e meteu conversa com o empreiteiro da obra. Ficou a saber que o novo dono ia reestruturá-lo para habitação. Ficou também a saber que se ia conservar no tecto cónico o característico cata-vento e que se encomendara materiais o mais semelhante possível aos de outrora. As paredes com mais de um metro de espessura seriam preservadas, não iriam ser escavadas para dar mais habitabilidade; os lintéis de pedra nas molduras das janelas e da porta estavam em boas condições e seria conservado; o telhado que era de tábuas de madeira cobertas com lona e impregnadas de alcatrão, louro e pés, esse sim, teria de ser substituído por uma tela impermeabilizante.
Luís ficou feliz por verificar que o comprador tinha o tino de não destruir artisticamente aquele local. Durante muito tempo foi passando e admirando a beleza do moinho a ser realçada nos mais variados detalhes. Até o enferrujado cata-vento tinha sido recuperado pelo forjador local e reconduzido ao seu altivo posto.

Gostava tanto quando se sentava naquela mó, me tirava da carteira, endireitava os meus vincos sob a brisa fresca do monte… nunca mais foi até ao moinho. Devo confessar: Eu sentia-o como uma homenagem! Ficava tão envaidecido…

Na realidade Luís partira uma perna numa queda aparatosa de cavalo na sua herdade e estava impossibilitado de conduzir. Havia sido uma tortura para um homem tão activo ver-se obrigado a estas férias involuntárias. Verdade fosse dita, merecia-as. Passava o tempo no alpendre com o portátil ao colo tentando colmatar trabalho atrasado, mas Luís era homem de acção! Mais que a perna era o vazio desocupado que o deixava doente e, o tempo disponível atraiçoou-o.
Lara.
Na verdade, por muitos anos que já se tinha apaziguado com o seu sentimento, sabia que nunca se interessara verdadeiramente por nenhuma outra mulher, provavelmente nunca aconteceria e Lara povoava os seus sonhos, imaginando-a em mil cenários absolutamente irreais, sem ter tido a hipótese de saber o que teria feito da sua vida, nada excepto que tinha um irmão mais novo e um marido. A imagem de Lara era difusa e distante. Ficava bastante aborrecido quando por instantes se apercebia que já não conseguia lembrar-se de certos detalhes do contorno do seu rosto ou da candura do seu sorriso. Houve serões mais amargurados, sentado à lareira, em que se agarrou a um gargalo até tombar profundamente adormecido.

Tinha tanto receio quando abria a carteira nos serões frios de Inverno e se aproximava perigosamente da lareira… como se precisasse de mais luz para ler o que já sabia de cor…! Estar tão perto do lume fazia-me temer pela minha vida. E se tivesse daqueles ferozes ataques de cólera e me atirasse às chamas? Quando via nas cercanias uma garrafa levada vezes demais à boca confesso que ficava transido de medo...

Tinha ido ao hospital tirar o gesso e no caminho iria ficar com atenção à curva. Como era o caseiro que o conduzia, permitiu-se ficar a olhar por mais tempo que costumava. Ah! Nunca tinha reparado que daquele cume dava para ver o moinho, mas quando se vai ao volante não se consegue girar o tronco todo e ficar a olhar pelo vidro traseiro! Havia tanto para ver… Em vez do costumeiro mato em volta existente no tempo do ti’Jaquim havia agora um tapete verde realçando a brancura das paredes e contrastando com a porta nova pintada de azul. A do ti’Jaquim era verde, não era…? Pareceu-lhe ver que a frente estava agora ajardinada, mas ainda assim, não dera tempo de perscrutar tudo como deveria e queria. Nada disse no entanto ao Garrocho; olhou para ele que falava desbragadamente de umas moçoilas que trabalhavam na herdade do Silveira, esboçou um ligeiro sorriso e perdeu-se nos seus pensamentos. Voltaria ao moinho sozinho, quando por fim pudesse conduzir.
Antes da curva estava absolutamente imbuído nos seus pensamentos, quando se deu conta, tomou sentido no que o Garrocho dizia:
“Ééééiiii, finou-se o ti’Jaquim moleiro e os netos foram sete cães a um osso… É como lhe digo! Enquanto não venderam tudo não foi nada! Ao Libório é vê-lo na taberna a entornar copos logo pela manhãzinha, é o que diz o povo… aos outros não conheço. O senhor Arruda alembra-se do Libório o finório? Chegou a trabalhar para nós quando não via o mundo pelo fundo de um caneco. Ééééiiii, o moço tinha uma jeiteira para tratar do jardim, como nunca vi igual! É como lhe digo! Enquanto não deram conta do moinho… olhe bem para aquilo senhor Arruda… O senhor que tem estudos, diga-me lá se é preciso virem de Lisboa para botarem relva nas nossas pastagens, onde é que já se viu?”
Luís suspirou e fechou os olhos… definitivamente voltaria ao moinho sozinho, quando por fim pudesse conduzir!

Deixou passar um e outro fim-de-semana com receio que os novos donos o encontrassem a bisbilhotar na sua propriedade e, na verdade tinha muitos afazeres pendentes enquanto estivera retido no alpendre de perna estendida. Estacionou um pouco longe e caminhou até ao cabeço a pé.

Estranho… não terem vedado a propriedade. Sendo de Lisboa e tudo…

Tinham feito um carreiro empedrado que conduzia a um telheiro para os carros e mais adiante um quinchoso, como os mais antigos chamavam às suas pequenas hortas. Aproximou-se do moinho e sorriu ao verificar que a porta azul era efectivamente de madeira e não de alumínio. Dois renques de hortenses de um bem conseguido azul celeste ladeavam a entrada. Passou a mão pela parede e sentiu a finura da textura… Havia sido rebocado e pintado! Correu em redor do moinho e ficou parado, por muito tempo, debaixo da janela altaneira.

Ficou estático, atónito sem poder acreditar! Deu dois passos atrás e tropeçou numa mó. Ficou sentado quedo num pequeno jardim enfeitado com mós. 

Agora percebo porque não foi vedada a entrada, agora percebo porque foi escolhido exactamente este local para fazer o jardim das mós, agora percebo…

O único sítio que não tinha levado reboco estava pintado em tons de lápis-lazúli: O coração com as duas letras entrelaçadas ganhara vida quando um pincel passara pelo sulco apaixonado gravado na pedra há mais de vinte anos…
Só podia!
Quem mais o faria…?

Ena, ena! Hoje sinto-me homenageado! Tinha tantas saudades que viesse a este sítio… esta brisa fresca faz-me bem para desentorpecer a meu reucártico… Mas o que é que ele está a fazer? A meter-me num envelope…? Não, não, NÃO! Que tenho trauma de caixas de correio! Homessa! Porque é que fez isto comigo? Não podia fazer isto comigo, pensei que iríamos ficar juntos até ao fim. Com franqueza, deixar-me dobrado e de costas para o bilhete dele, como posso ler o que lhe passou na ideia? Ainda bem que não fechou o envelope, sempre posso esgueirar-me. Ah! Até que enfim! Deixa-me desdobrar que não posso com dores… já tenho uma certa idade não posso ser tratado assim! Ora bem, deixa-me cá inspeccionar a correspondência: este logótipo é da Câmara que eu conheço bem. Deixa cá ver… Exma. Sra. Arquitecta Lara Abrantes? Espera lá… Será possível estar a acontecer-me isto? Estou a ficar emocionado! Eu nunca me conformei de não ter cumprido a minha missão… vou esperar pacientemente, só espero não ser tarde demais de novo… Que barulho é este? Alguém entrou em casa. Correio! Veja o correio! Não percebo, anda para dentro e para fora e nada de… Agora! O som da portinhola! Se ela não é quem eu penso, não sei que faça… Tanta luz! Estar na escuridão uma semana inteira, estou mesmo desabituado…! Ah!!! Estou em casa! Sou portador de boas novas! Sabe uma coisa? Esta é a melhor e mais gratificante finalidade para um postal… Então, então, então…?! Já parece o outro… Pare lá com os pingos! 



sábado, 27 de fevereiro de 2016

Escolhas

chuva? frio? neve...? hum hummm
Num final de semana como é este em que a expectativa é para que chova, faça frio, muito frio e até neve pelo país, na minha saída matinal para comprar pão quente, o S. Pedro generosamente presenteia-me com um lindo céu azul turquesa, tão do meu agrado, assim como um calorzinho de aquecer as bochechas e o coração.
Achei engraçado tirar foto de uma bonita amendoeira prematuramente em flor e colocá-la no facebook com um qualquer texto, talvez alusivo à bonita lenda da princesa oriunda do norte da Europa que casou com um rei mouro. Conta-se que sendo sensível à sua tristeza (pela saudade de avistar os campos cobertos de neve na sua terra), o marido mandou plantar amendoeiras a perder de vista nas terras algarvias ao redor do seu castelo, para que a sua bela e jovem mulher sorrisse ao avistar, pelo início da Primavera, uma paisagem branca. Mas o meu apelo era o céu limpo de riscos deixados pelos aviões, num deslumbrante tom de azul profundo. A legenda que coloquei na foto correu em contraposição ao sentido que todos estavam a publicar nas redes sociais nesse momento: o frio gélido do vento, a chuva intensa, o granizo enorme, li que falavam de desconforto. Sim, estava mesmo muito frio, mas escolhi valorizar o fugaz momento feliz que o Sol abriu e brincar com o teor da legenda.
Em momento nenhum escrevi, publiquei ou comentei que esse instante se desvaneceu, acto contínuo, ainda esperava o pão quente sair, o céu fechou e no regresso a casa apanhei uma molha enorme. E sim, foi de novo uma escolha minha muito consciente.
Nas redes sociais cada um usa o seu livre arbítrio para publicar o que lhe aprouver. Todos o sabemos. Podemos achar louvável ou detestável o que o outro escolhe compartilhar. Podemos escolher ler, comentar, deixarmo-nos impregnar naquelas palavras ou voltarmo-nos para outras. Podemos pensar ser aquele o todo, quando apenas é a parte que foi escolhida para partilhar por um qualquer amigo virtual. Pensamos que tal afirmação pode ser real, fantasiosa, ou até despreocupadamente falsa, apesar da convicção do indivíduo ser legitimamente enraizada que está a fazer o correcto.
Cada um de nós escolhe o que quer mostrar de si, como quer mostrar, a quem quer mostrar. Podemos agitar bandeiras, defender causas, levantar a voz ou silenciar numa hibernação profunda. Podemos tanto, podemos tudo.
Ou podemos escolher desligar o wi-fi e simplesmente viver a vida real.


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Por ti

O que já fizeste por ti hoje?
Cada dia é único, o hoje nasce ao virar de um ponteiro maroto sem anunciar o amanhã, e já pensaste no porquê? Simplesmente porque essa noção é inexistente, só o hoje conta, cantas isso na música do poeta, mas ao fazê-lo de forma automática, nem te dás conta o que te encanta a alma. O cliché repetido em bonitas imagens facebookianas e que partilhas sem verdadeiramente pensares, chama ao hoje como? Exacto! Chama-o de presente!!
Que seja um presente divino, ou de forma mais palpável, um que te é posto nas mãos a cada dia que acordas, que desembrulhas ao esfregar os olhos, que escolhes usufruir ou deixar ir.  
Se o deixares ir, permites que desande. Escorre-te por entre os dedos, possibilidades que guardas no ontem, na gaveta do por fazer. 
Amanhã? Será um novo alvorecer, novo esfregar de olhos e presente novo nas tuas mãos, e se comprometeste o anterior abrindo a gaveta dos não feitos, vais lá colocar mais lastro? Porque em algum momento espreitas por cima do ombro e melhor que ninguém sabes no que (não) mexeste. 
No final do dia, quando lavas os pés da longa por vezes dura caminhada, sorris sabendo que esses passos te levam onde queres estar. 
A cada dia as passadas encurtam, as gavetas arrumadas serenam-te, o sorrir mais leve, o reflexo do olhar mais puro. 
És tu. Sabias? Tu és capaz. Só tu e por ti deves avançar no sentido do teu equilíbrio interior. A harmonia que sentes é uma conquista tua. Aproveita-a em pleno. 
Faz o teu dia de hoje ainda mais vibrante. Dança, envolve-te com a vida em mil tons de arco-íris, em mil cores que te sorriem. 







sexta-feira, 10 de julho de 2015

Doer ou doer?

Sabe quando lemos uma frase, aqui ou ali, seja na net ou grafitada numa qualquer parede, que chama por nós? Quando até buscamos a autoria da mesma e depois ao encontrarmos perde o interesse, que nem é esse o nosso foco, porque o que vimos, a leitura que fizemos, é um outro filme? Eu foquei-me nesta palavra: "doer" 


Bem sei, leu certamente em português – "doer" (de dor, magoar) e contudo inserida na frase, a palavra é afinal em inglês "doer" (de fazedor, o que faz) – o que automaticamente posiciona tudo em duas acções ou posturas totalmente diferentes. 

Gosto de pensar em mim como uma mocinha "fazedeira", mas a ser completamente sincera, sei que muitas vezes não o fui, não o sou. No entanto olho para trás, para a pegada que deixo, e é real: um percurso estupidamente coerente colado a mim. E o sorriso, sempre um sorriso. 

Tenho, para trás, uma imensidade de vida de doer, a de dor, faz parte da massa que me moldou a ser a pessoa que sou hoje. O crescimento não é isento. Se fosse, as águas não mexeriam e tudo estagnaria numa alegre monotonia. A beleza de estar vivo, de sermos gente, vem da capacidade que temos de sentir, de pensar, de agir, de fazermos escolhas. Muitas vezes paralisei acometida de medos, outras deixei-me ir na corrente, mas sempre me travava com uma máxima para comigo: faz de conta que és corajosa, ninguém vai notar a diferença. E avançava. E de alguma forma superava os medos muito ou nada tolos. Durante anos supus que até a mim mesma enganava, por fazer de conta tempo demais, mas a determinada altura já se mesclava tanto o fazer de conta com o real... e realmente eu fazia. Doer de fazedeira. Nunca de dont'er. 
Ahhh, e sorria, nunca deixei - nem deixarei - de sorrir. 


segunda-feira, 6 de julho de 2015

O Autismo é f...

Há muitooooos meses fui contactada pela querida Sandra Gaspar para escrever um artigo sobre autismo para o Blog SWEET CAOS (que escreve em parceria com a Bárbara Aquarela Barreira), convite que me deixou muito honrada e feliz, tendo em conta os motivos que apresentaram. 
Contudo, quero confesso-vos a minha imensaaaaa demorada demora - não em aceitar o desafio, já que o fiz prontamente, mas em concretizá-lo. Primeiro foi isto, depois  era aquilo... a semana passada fiz um mea culpa aos meses de atraso, num ímpeto arrumei a dona preguiça e o dom procrastinador, sentei-me e escrevi-o num ai. Sabemos. O tema está escrito a tinta indelével na minha cabeça e debaixo da minha pele. Desta vez (ainda) usei palavras duras, mas creio que as consegui contornar.
O artigo saiu este domingo, que é dia de São convidado no SWEET CAOS. Republico-o hoje de novo aqui, para todos os meus habituais leitores, convidando-os a irem ao blog da Sandra e da Bárbara e lerem o que por lá tão bem fazem.
De brinde, um belíssimo desenho exclusivo, a acompanhar o meu artigo.
É um trabalho fantástico da ilustradora Ana Cocker, que podem acompanhar através do site: MY SIMPLE LIFE Obrigada Ana!! Comoveu-me deveras...
Deixo-vos com a linda ilustração e as minhas palavras.

O Autismo é f... 

Sabem aquele livro do Miguel Esteves Cardoso, O Amor é f...? Eu digo que não é bem o amor, mas o autismo. É certo, eu não tenho medo das palavras, do seu som ou intensidade. Sem ser a palavra f... - que podem estar menores a ler-me - diria com enorme segurança que Autismo é "Desconcertante".

Há um momento negro que todos os pais destes miúdos recordam - que naturalmente os outros pais secretamente temem que lhes suceda: Um senhor doutor de bata branca sentado a uma secretária num qualquer consultório mais ou menos pomposo a debitar palavras que, essas sim, todos temos pavor de um dia ouvir. 
Até nisso tive sorte: não tinha bata branca, estava com o rabo sentado sobre a secretária com um fantoche na mão e enquanto fazia voz de roberto a brincar com o meu filho, observava-o com olhar clínico. E fui eu que perguntei - Dr. Nuno, é autismo...? 
Era sim. Autismo e mais um par de botas de patologias associadas. 
Passaram mais de 25 anos desde essa primeira consulta. Terei hoje uma postura diferente perante a adversidade, contudo a mesma convicção, e sim, o mesmo médico. 

Autismo para mim nunca foi um bicho-papão. Inicialmente talvez, porque sabia ao que ia. Sou-era uma menina informada e não era um palavrão que teria de buscar numa qualquer enciclopédia (o Dom Google não fazia parte das nossas vidas, vivia-se sem internet naqueles tempos...) a minha atitude foi sempre muito positiva, no sentido que arregacei as mangas e encarei o bicho olhos nos olhos: "Anda cá autismo, o que queres fazer com o meu bebé?, anda cá que eu estou aqui preparadinha para lutar contigo!!" E foi uma luta de uma vida. Mil batalhas ganhas muitas mais as perdidas, as que rapidamente esquecemos a cada nano-conquista. 
Porque é nesse sorriso do nosso filho que se ganha fôlego para a seguinte, e a outra depois. 

Dizem que o autismo só se consegue diagnosticar depois dos dois, três anos. Perdoem-me a petulância, mas discordo veementemente. 
Primeiramente (deixem-me que vos diga a quem não sabe), por não existirem quaisquer testes médicos ou clínicos que se façam: O autismo é diagnosticado por observação. E observadora eu sou. Não o fui só com o meu filho. Noto em qualquer outra criança pequena que tenha aquele twist no comportamento que dispara a minha atenção. Porque é disso que se trata: Autismo é uma perturbação de comportamento. 
Há um olhar diferente nestes miúdos, uma desatenção, um gelar de alma que se instala quando o sentimos. 
Sim. Batam-me, mas uma mãe ou um pai sabe. Pode não querer senti-lo, muito menos verbalizá-lo, mas no mais recôndito e escuro recanto do seu ser, a dúvida instala-se, um medo frio e escorregadio, pespega-se nas entranhas, queremos a tecla do undo, do delete, do escape, mas não foram ainda inventadas para este intento. 
Este é um filho diferente dos irmãos, dos primos, dos filhos dos amigos. Todos o notam (é um facto incontornável nas relações de grupo), mas só alguns têm a capacidade, a coragem de o falar abertamente, de chamar a atenção dos próprios pais quando eles se fecham na oportuna concha. Não é um processo ligeirinho. Normalmente começa o cochicho calado. O olhar de esguelha. O acusar descomplacente para com uma postura que não entendem, mas lá que são rápidos no gatilho do julgamento.... Peço-vos: não o façam. E explico. 
Há pais que escolhem o caminho da negação. Este filho é tímido, é distraído, é assim... Há pais que viram as costas e recusam aceitar. Há pais que ficam e lutam com armas que nem sabiam que tinham. Há pais que escolhem o caminho da eterna busca pela cura. Cura? Está bem... Querem um facto? Aqui o têm: os cientistas (ainda) não a descobriram. O que podem encontrar sim, são mil formas de melhorar a qualidade de vida desse filho e da família. 

Dizem os livros que autismo será a diferença mais difícil de gerir no seio de uma família. Demorei muito a aceitar como facto a dor que me provocava esse afastamento familiar e dos amigos que achava serem próximos. E é um grito que não deixo calar em mim. Se calhar deveria apaziguá-lo... 
Acredito firmemente que se as pessoas em geral soubessem-souberem realmente o que é um indivíduo com autismo, como se movimenta e pensa, se o respeitassem-respeitarem na sua essência, se se dessem-derem de coração para conhecê-lo, não teriam "medo" - porque é natural ter-se, sentir-se medo do que se desconhece, e a primeira imagem que se retém, de tantos mitos urbanos que circulam, não é simpática. 

É preciso querer-se olhar uma outra vez e com mais atenção para esta população. 
Urge em mim essa vontade. Que o façam. 
Sabia? São pessoas doces e meigas, muitas vezes dadas e terrivelmente genuínas, tanto que o são que muitos lhe chamam anjinhos e outras coisas fofinhas. São gente, como todos nós, têm o mesmo direito que nós os tais normaizinhos de pisar este chão que é de todos, sabia? Eu já o aprendi da forma mais complicada. Não precisa ser assim para si... 
Familiares e amigos, que se distanciam destas pessoas e suas famílias nucleares, não sabem como perdem uma oportunidade estranha de se elevarem, de crescerem. 
Vou-lhe contar um segredo, quer? 
Aprendemos com eles a verdadeira essência da vida, a resposta que todos buscamos - o SIMPLES. Eles têm um *descomplicómetro* associado que lhes confere uma poesia na forma de ver e viver a vida que a nós, os formatados para a normalidade, nos desconcerta tão completamente. Afinal andamos a complicar a nossa existência para quê?? 

Como mãe e como observadora, gostaria ainda de assistir neste mundo ao momento em que familiares, amigos da família, pessoas que circundam estes lares, onde existe uma pessoa com autismo, fossem simplesmente agraciados com uma estranha generosidade e tivessem a verdadeira intenção de perceber como estas pessoas vivem cada momento do seu dia, como os pais e cuidadores resolvem problemas que apenas aparentam ser de somenos importância e podem ser (são) calamitosos. Mais. Deixassem de culpabilizar quem (os pais) não tem nem a culpa nem a vontade que isso aconteça. Mais ainda. Esta é a fase em que estas famílias mais precisam de apoio, não de um dedo apontado. 

Sabe uma chuvada de Verão, que poeticamente achamos ter um cheiro romantizado a terra molhada, e essa ser a única emoção a ser acordada? Pode ser dramático para alguém cuja hipersensibilidade o faz sentir dor. 
A chuva não dói - que disparate - poderá pensar, não é? 
Faça-me lá a vontade e caminhe comigo: vá, dispa o casaco, fique de braços nus, descalce-se, abra os braços a uma nova descoberta e deixe os simpáticos pingos quentes da primeira chuvada tomarem conta de si. Caminhe à chuva, vá, mas esqueça-se da sensação que lhe é prazeirosa e tente entrar na mentalidade autística de que só (me) ouve falar. 
Aferir a dor de outrem é algo que considero impossível - sempre afirmo isto - mas tente concentrar-se em que cada minúsculo pingo de chuva é uma alfinetada, um golpe de faca, o que seja que imagine que lhe doa a si, mas sinta que lhe dói. E muito. Então? Ficou com vontade de chorar? De gritar? Não acha (ainda) terrivelmente intrusivo?... Certo, vamos subir de nível neste jogo. Agora acrescente que todos os sons foram magnificados amplificados a raiar a distorção e consegue ouvir todas as conversas de todas as pessoas, todos os ruídos de portas, carros, sirenes, pássaros, até o ar condicionado da loja do outro lado da rua, todos os cães a ladrar, os passos de todas as pessoas, mesmo os grilos lá no fundo, do outro lado do quintal. Não chega... Pense nos cheiros que lhe entra pelas narinas. Quais? Então, o do suor do seu próprio medo, aquele que nem deu conta de que se apossou de si, o do pêlo molhado do cão que está do outro lado da rua, o do cozinhado queimado da tia Micas que sai pela janela, o do horrendo dos caixotes do lixo da rua detrás, e sim, o da terra molhada pela primeira chuvada de Verão. Podia continuar, mas vá, pense só que agora não pode abrir os olhos e acabar este exercício. Nunca. Nunca em toda a sua vida.... Diga-me: e agora já gritaria? Eu creio que sim. E nem falei das texturas complexas, das cores que ferem e doem, das palavras que passam por cima da cabeça e fazem fila para entrar nas suas ideias.... 

Autismo existe. É fodido, sim. É apenas o que lhe peço. Olhe para o lado. Cada vez tem mais amigos, vizinhos, primos e conhecidos a terem um bebé com autismo, não é? Então pare para ajudar. Nem que seja a entender. Vá, não seja fodido para com o autismo. 


quarta-feira, 24 de junho de 2015

S. João Bonito

Em conversa com um amigo que foi esta noite pela primeira vez ao S. João no Porto, recordei que num capítulo do meu livro AUTISTA, QUEM...? EU?, coloquei todas as personagens nesta noite fantástica. Como ainda hoje os leitores me continuam a falar das peripécias que o Xico e companhia passaram e de como se riram ao lerem o livro em locais pouco apropriados para gáudio dos transeuntes, volto a publicar neste site o meu texto desse capítulo logo hoje em noite sanjoanina. Também aproveitando este ensejo, homenageio a minha amiga ISA SILVA, uma artista que muito prezo o percurso que tem feito, a obra que tem produzido.
Deixo-vos com a reprodução que foi ao Concurso Martelinhos de S. João 2015, porém podem ver o original ao vivo, pois está em exposição no Palácio das Artes - Fábrica de Talentos entre 11 de Junho e 16 de Julho.
Este meu livro AUTISTA, QUEM...? EU? que se encontrava esgotado há muito, existe agora - a pedido de muitos leitores - em versão ebook.
Contacte-me para saber como adquiri-lo.

S. João Bonito

(excerto do capítulo S. João Bonito, do livro Autista, quem...? Eu?)
- imagens retiradas da net -

Estava a descer os Aliados. Isso percebi. Era uma barulheira com música ligeira e buzinadelas de fundo...
– Que dizes, bamos até aos Aliados? - desafiei o J.J. depois de desligar.
Os meus pais não quiseram vir. Definitivamente já não são os foliões que eram! Tinham até à semana para ir visitar as cascatas e preferiam fazê-lo escapando ao burburinho da noite de 23 para 24 – explicaram.
A Gui recusou a oferta da minha mãe de ficar com o Xico e também o de ficarem a dormir no Porto, mas diverti-me a ver o ar desinquieto do J.J. à medida que a Gui recusava uma e outra vez. Estava mortinho por ficar, que eu bem o conheço!
Tivemos dificuldade em estacionar o carro na Lapa, mas outra coisa não seria de esperar e avançámos a pé rumo à Av. dos Aliados serpenteando pelas ruas. Os putos nos semáforos pediam um euro para o S. João.
O que a inflação faz!
– Está uma noite maravilhosa, até parece que o S. Pedro deu uma mãozinha! - exclamou a Gui de braços abertos volteando sobre si própria.
– É melhor irmos até à Ribeira para ver o fogo - disse eu. - Ainda pensei levar-vos às Fontainhas que tem uma vista luxuriante sobre o Douro e para provarem um caldo verde à maneira, mas está sempre à pinha e com o Xico não me parece lá muito boa ideia...
– Isto vai encher imenso. - explicou J.J. dirigindo-se à irmã. - Tal como o Sto. António é uma festa de rua: não escolhe idades, estrato social e económico. Mas mesmo sendo alfacinha devo dizer-te que o S. João tem uma magia que nunca vi lá em Lisboa!
Num quiosque improvisado uma vendedeira de bata às florzinhas e boné do F.C.P. apregoava no nosso sotaque característico o manjerico e o alho-porro. Apesar deste ser mais tradicional, a malta mais nova preferia o prático martelinho de plástico colorido. A Gui ficou muito espantada por uma variedade de hortense à venda que não conhecia e perguntou à vendedeira porque é que aquela flor tinha uma haste tão comprida...
– Bariedade de hortense...? C’um carago!!! A menina está a mangar comigo, num está...? - A vendedeira estava agora incrédula. - Olha-me esta morcona a dezer que nunca biu a porra de um alho-porro na bida!? Ólhe que num acredito, menina!
– É que a minha amiga é de Lisboa... - respondi como se fosse justificação.
– Ides dezer-me que os mouros nunca biram um car... de um alho-porro?!? - bradou a senhora calcando um manjerico - Menina, sabeis que se cheira um manjerico desta maneira...? Num se chega o nariz à beira dele que murcha...
Esticava agora a palma da mão perfumada à inculta lisboeta.
– Isso por acaso até sei. - declarou Gui com um sorriso embaciado; depois murmurou ao meu ouvido - ... se agora lhe dissesse que na minha ideia via o alho-porro como uma espécie de alho-francês... descompunha-me, não?
Tive grande dificuldade em conter o riso...
Fiz sinal à Gui para não acrescentar mais nada à boa ideia que a vendedeira tinha formado dos mouros e comprei quatro martelinhos para nós, já que o Xico não se calava que queria porque queria o seu em verde, da cor do seu Sporting.
Enquanto discutia com o J.J. que quem pagava era eu, que era eu o anfitrião, apanhei a maior cacetada de que há memória e logo de seguida recordo que ouvi o J.J. praguejar uma asneira bem gorda e dizer que estava a ver tudo azul às riscas com o símbolo do FêCêPê... tudo às voltinhas como se fosse um desenho animado a ver estrelinhas...

Pois.
O Xico estava só a experimentar o seu martelo...
A Gui ria que nem uma perdida e aproveitou para nos dar uma marteladita, bem mais suave, convenhamos!
– Ó meu amor, é para bater mas sem força! - Tentava dizer limpando as lágrimas da risota. - Olha Quico, faz assim suavemente.
Olhou para nós para exemplificar mas, só conseguiu tapar a boca para rir ainda mais.
Foi um problema.
O Xico cascava forte e feio em toda a gente...
Tem uma força desmesurada sem ter noção como aplicá-la.
Algumas pessoas ainda achavam graça, quando se viravam, por ele ser mais ou menos pequenito, mas não era tão pequeno assim que não se sujeitasse a algum azeiteiro pronto para lhe dar uns bufardos... estávamos sempre com atenção e muito, muito apreensivos. Mas ele era rápido no gatilho...
Entre a hilaridade que nos acometia os comentários e impropérios, ouvidos em resposta às impetuosas e certeiras marteladas do Xico, continuámos em direcção à Ribeira.
A Gui estava completamente encantada pela versão nortenha dos santos.
– Isto é muito mais giro que o S. António! – clamava. - E a diferença está no martelar. Isto é fantástico! Olha a quantidade de gente com que já me meti!
Pois! Sem contar com a quantidade de morcões que se meteram com ela!
O J.J. estava ansioso que encontrássemos a Lena. Caramba!
– Telefona-lhe - pedia-me descaradamente. - Pergunta-lhe onde está agora.
– Calma! - tranquilizava-o eu - Vais ver que a encontramos na Ribeira...
Na Praça da República estava instalado um palco e actuava um grupo etnográfico, As Tricanas Poveiras, com as suas blusas de renda e os seus aventais multicolores.
– Então e numa noite destas não estão na Póvoa? - perguntava a Gui.
– És tão alfacinha... - brinquei. - Na Póvoa do Varzim gozam o S. Pedro!
– Pensei que cá para cima fosse só S. João, que S. Pedro fosse só em Sintra!
– É verdade! Esqueci que és daquelas que pensam que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. - ri eu, ganhando em troca uma careta e uma martelada.
Quando passámos pela Rua de Cedofeita, uma senhora vendia, entre bandeiras do meu F.C.P. e manjericos, uma outra versão de martelos: os insufláveis.
Perfeito!
Assim o Xico não magoaria mais ninguém!
A Gui parou a olhar as montras das sapatarias. Pfff!!! Nem sei para quê... tem pr’aí uns cinquenta pares! «Tenho de voltar à Invicta para umas comprinhas» disse convicta. Pois claro, estava nas suas sete quintas...
Comprámos o novo e enorme martelo e seguimos caminho enquanto o J.J. tentava ganhar fôlego para o encher, às aranhas com o sistema de segurança.
– Isto das seguranças é só para deixar os adultos doidos, se fosse um miúdo já tinha conseguido encher esta bodega! - reclamava.
Ri-me ao recordar quando, um dia, não consegui abrir um frasco de xarope com um sistema de segurança para crianças que o Xico prontamente abriu.
O Xico estava delirante pelo tamanho do seu novo instrumento de tortura sanjoanina, mas, por ser tão grande não conseguia impulsionar o balanço suficiente para poder cascar decentemente. Então demo-nos conta que uma pessoa gemeu à passagem do martelo do Xico:
– Fuooogo! O catraio num parece mas tem fuooorça!!! - disse num queixume.
Ele segurava o martelo, mas, era com a outra mão que socava!!!
A Gui determinou o fim das hostilidades e tirou-lhe o martelo:
– Desculpa lá Quico, mas não pode ser! Agora ficas sem martelo!
Continuámos, avançando em fila indiana, por entre a multidão que inundava a rua até à Praça Carlos Alberto e eu, feito cicerone, ia explicando onde nos encontrávamos, qual o edifício público ou monumento que víamos ou quaisquer outros esclarecimentos que sentisse necessidade de fornecer aos meus ilustres convidados alfacinhas...
Na praça existem umas enormes floreiras de alvenaria, dispostas lado a lado. Em duas delas estavam sentados dois homens, cada um na sua, visivelmente embriagados.
O Xico seguia à nossa frente na fila e, com uma enorme rapidez, sem que o pudéssemos impedir, pára por breves segundos, mesmo na frente dos homens, levanta os dois braços de punho fechado e... zás!!! Aplica duas grandes e valentes murraças nos dois homenzarrões, em simultâneo, uma em cada testa!!!
Lívidos, entreolhamo-nos os três... É desta que o Xico leva uns cascudos, juro que pensei!
Como seguíamos em fila indiana, hesitámos antes de passar em frente daqueles dois, mas, o Xico, depois de desfechar os murros já lá ia como se nada fosse, por isso prosseguimos também... Por essa altura os homens levaram, ambos, as mãos à testa:
O J.J. avançou timidamente passando bem à frente deles; olhando-os tão de perto que pôde escutar o primeiro:
– Fod...!!! Que car... foi este???
A Gui passou de seguida em estilo apressado e pôde escutar o segundo:
– C’um car...!!! D’ond’é que esta me caiu, carago??? - rugia olhando o céu.
Quando eu passei, sorrateiro, olhavam os dois para cima questionando-se:
– Foi uma pedra, car...!!!
– Um pássaro é que num foi! Fod...!!!
Juntámo-nos em volta do Xico já mais descansados porque eles não tinham sequer percebido que havia sido o puto, mas, ao contarmos o que cada um tinha ouvido de passagem, caímos na risada, ali a dois passos daqueles homens enormes, dobrámo-nos a rir, limpámos as lágrimas e eles tão bêbados... Largámos a rir de novo, gargalhando estrondosamente até nos doer a barriga... Os homens continuavam ali ao lado, sentados, esfregando a testa e olhando o cumpridor céu limpo de uma linda noite de Verão, sem nunca se aperceberem que tinha sido um miúdo que os esmurrara... claro, de brincadeirinha sanjoanina...
Daí para a frente o Xico foi de mãos dadas connosco. Com as duas mãos dadas: firmemente com um de nós em cada um dos lados.

Descíamos na Av. dos Aliados quando o J.J. trocou com a irmã ficando do outro lado com o Xico. Aproveitou e perguntou-me de novo:
– Não lhe queres ligar?
Olhei para a Gui em busca de auxílio, mas estava noutra, uns passos à nossa frente toda eufórica, flirtando descaradamente, a cada pancada de martelo...
– Deixa lá a Lena...! - disse de mau humor. - Logo ali já estamos na Ribeira.
Estava um mar de gente e eu que sou mais alto pude ver, por cima das cabeças, uma verdadeira batalha campal de martelinhos. O J.J. pôs o Xico às cavalitas e ele riu-se muito vendo o mar colorido de plástico acertando aqui e ali... percebi-o pelo gesto que fez: como que tocando xilofone na cabeça do tio!
Fiquei de olho na Gui, não fosse algum parvalhão atrever-se, mas não era tarefa fácil, pois continuava a saltaricar entre as esplanadas da Ribeira, toda gira, e nós ali com o Xico, e, o J.J. maluco, à procura da minha irmã. Mas onde é que eu tinha a cabeça?
O Xico estava com fome e levei-os a comer pizzas... Não é tradicional, é certo, mas o S. João já não se reveste dos costumes que ainda me lembro de ouvir contar, e depois, nenhum de nós era grande apreciador de sardinhas, e, o preço tão inflacionado (1,50 € por sardinha) retirava-nos a réstia de vontade.
Cedi à pressão do J.J. e telefonei à Lena a perguntar onde estava. Estava em Gaia e só iria conseguir atravessar a ponte depois do fogo de artifício.
– A ponte D. Luís I - expliquei puxando os fios de queijo com ar guloso - fecha a passagem ao público durante o fogo suspenso mas reabre logo a seguir.
– Aqui anda-se a pé na ponte, é? - perguntou a Gui com ar incrédulo.
– És tão alfacinha! - retorquiu o irmão, depois virou-se para mim. - Achas que podemos ir até Gaia?
– O que é que há em Gaia? - interpelou de novo a Gui. - Mais festejos, é? Vejam lá se não é demais para o Quico. O que é que tu queres de Gaia, Zé João?
– É giro passar na ponte... - disse em socorro do meu amigo. - Abana todinha!

À meia-noite em ponto as luzes na Ribeira apagaram-se, e, ao burburinho habitual proporcionado pela escuridão momentânea, começou o espectáculo do fogo de artifício.
Lindo. Luxuriante. Poderoso.
– Enche a alma! Enche o coração! - gritou a Gui para o céu abrindo os braços abarcando deslumbrada as suas emoções.
– Faz barulho - queixou-se o Xico tapando os ouvidos -, mas tem cores giras.
A Gui enlaçou-o imediatamente tentando protegê-lo.
– Maguida...? Isto é passagem de ano? - questionou o Xico.
– Nas festas, Quico, o fogo acontece várias vezes... - começa a responder Gui.
– É fogo mas não é para as chamas. - responde lacónico.
Da ponte D. Luís I começa o magnífico fogo suspenso.
Algumas embarcações no rio estão ancoradas, a uma distância de segurança, repletas de convidados que assistem deleitados naquele palco preferencial à chuva magnificente de luz e cor.
– Ouvi além um senhor comentar que há pessoas que reservam a sua vaga nos barcos de um ano para o outro, é assim? - perguntou-me J.J.
Era assim. Anui com um «hum, hum» continuando de olhos no céu.
– Ouvi também comentar que há uma certa rivalidade entre Gaia e Porto. também é verdade? - continuou J.J.
Era assim também...
Quando o fogo acabou reparei que a Gui se tinha sentado e tinha o Xico ao colo. Fiz-lhe sinal perguntando se tinha passado mal. Em resposta ergueu o polegar. Estava tão feliz e acabou por não poder apreciar devidamente!
Fiquei a olhá-la ali concentrada, no meio do bulício, com o filho enorme ao colo.
– A noite é longa! Só acabo na praia, na Foz! - grita alguém para mim.
– Não esqueças de lavar a cara com as orvalhadas! - respondo dando-lhe com o martelo.

– Estás a ver aquele grupo ali de malucas? - apontei ao J.J.
– Onde?
– Ali - sinalizei apontando o meu martelo. - Daquele lado de quem vem de Gaia. São as parvas das amigas da Lena que eu não gosto nada. Olha ali a minha irmã.
Mas o J.J. já a tinha avistado e estava em perfeito estado de basbaqueira: o queixo havia-lhe descaído uns centímetros, provavelmente o suficiente para poder salivar. Abanei a cabeça e olhei na direcção da Gui para lhe chamar a atenção, mas ela estava aos pulinhos martelando um e outro rindo e gracejando aqui e ali... A Lena. Olhei para ela e estava, também, a flirtar de cacetada em cacetada... Mas o que se passa com as minhas miúdas que nunca as vi assim...?
Um estridente grito colectivo, tipicamente feminino, irritou-me os tímpanos. A ponte abanou de novo e agarrei melhor o Xico que ria a bandeiras despregadas.
– Típico! - gritou-me a Gui perto do ouvido. - Toda a gente cheia de medo com as sacudidelas da ponte e o Quico a rir à tripa-forra...!!!

...Depois acertou-me uma martelada rindo e graceja.
– Olha o teu irmão e a minha irmã. - Consegui indicar-lhe com o meu martelo.
Olhámos na mesma direcção. O J.J. furava até estar suficientemente perto para esticar o seu martelo e acertar em cheio na cabeça da Lena.
Ela virou-se a rir.
Estava com um ar tão feliz...
Encarou nos olhos o seu atacante que a esperava, expectante.
O sorriso de Lena esmoreceu.
O seu martelo em riste perdeu o balanço.
O ar de basbaque do J.J. voltou a inundar-lhe o rosto.
– ‘Pera lá... o que é que me está a escapar...? - inquiriu uma curiosa Gui - sabes de alguma coisa que eu não sei?
– Não por muito tempo, parece-me... - mexeriquei.

Sorriam agora os dois com um ar tão tolinho...





Os sem-abrigo na rua tinham impressionado muito a Gui.
No final da noite, quando regressávamos à Lapa pelas 3 da manhã, local onde estava o carro, passámos por muitas ruas já mais desafogadas das gentes borguistas ou, como gracejou o J.J., mais pareciam que se arrastavam de monco e martelinho caído com a atitude venho da festa. O nosso próprio sempre-em-festa ia escalando do colo do tio para o meu, ainda desperto, mas sem aguentar os pés.
Da noite emergiam agora os verdadeiros donos do espaço emprestado à folia: aqueles que esticavam os cartões e cobertores como se de lençóis frescos se tratassem, aqueles que se espreguiçavam e coçavam como se não os víssemos, aqueles que faziam a sua higiene pessoal, ali, à frente de quem passava como se realmente em casa estivessem... E estavam mesmo, infelizmente.

– Em Lisboa também há os sem-abrigo, mas aqui está a impressionar-me por demais - garantia a Gui a olhar para um senhor que lavava os dentes usando água engarrafada (ou numa garrafa...) e cuspindo para o chão.
– Mas em Lisboa se passas por eles de carro à noite, estarás com mais atenção à luz do semáforo, e, se acaso vires alguém dirigir-se a ti arrancas ainda com o vermelho, ou trancas o carro, não é? - disse-lhe o irmão. - Aqui estás numa situação diferente, estás a pé, cansada e a tua atenção foi tomada de uma forma mais perniciosa. Pena é que, voltando à habitual rotina, se continue a trancar portas...


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