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terça-feira, 1 de julho de 2014

ebook Autista, quem...? Eu?

Este meu livro - Autista, quem...? Eu? - foi publicado da forma mais tradicional em 2006 pela Editora Centralivros. 
É um livro que tem feito o seu percurso de uma forma muito bonita, ao longo destes anos e edições.
Muitos foram - e são - os leitores de que recebi - e recebo - mensagens, confidências, desabafos, palavras que não vou esquecer jamais.
Sendo uma história de ficção, é bastante humanizada e que toca de muito perto quem vive com o autismo dentro de casa, como acontece com as personagens deste livro. 




Hoje, 8 anos após o seu lançamento, este livro continua vivo, a ser-me solicitado não só por vários leitores meus que pretendem partilhar as emoções que tiveram e querem oferecê-lo a outras pessoas, como até por quem não o leu e o quer fazer pela primeira vez por lhe ter sido repetidamente recomendado.
Porém, tendo em conta que está esgotado há anos e me dá um dó imenso não poder divulgá-lo mais, rendi-me às novas plataformas - diferentes do livro físico que tanto prezo - e surge esta forma de apresentação. 
Espero que este livro, agora virtual, continue a ser lido com o mesmo interesse, que continue a ajudar famílias como curiosamente tem acontecido até aqui.


Como fazer para ter acesso ao primeiro livro virtual de Ana Martins?

O acesso ao livro está disponível em duas modalidades
em apenas 3 cliques: (contactar via email - anamartins.com@gmail.com)



  • acesso de leitura por 2 meses 
      - por 5€ 


  • acesso de leitura vitalício 
      - por 10€ 


PRIMEIRO

Após escolher qual dos acessos pretende, efectuar o seu pagamento (tranferência ou paypal), e mandar com o confirmativo apenas o endereço de email. 
Receberá no email o seu convite para o livro. 
Abra e clique em ACEITAR CONVITE


SEGUNDO

Não esqueça o conselho em letras pequenas: Tem de iniciar a conta google. E outro ainda: aceite o convite rápido, tem prazo, e dentro de dias expira. Mas quer mesmo ler.... então vamos lá, clique de novo em ACEITAR CONVITE.




 TERCEIRO 

O seu acesso ao livro está concluído em 3 cliques! Viu? Simples!!





Agora já tem acesso directo ao livro Autista, quem...? Eu? 

ok, agora clicou neste link e não conseguiu entrar, foi isso? 

Pois. Está reservado apenas a leitores autorizados, os que passaram pelo ponto inicial - o pagamento. 
O livro, o trabalho da autora, não é oferta. Neste ebook foi adicionado ao texto que já existia um extra que este novo formato permitiu: imagens e sons que ajudam a conduzir o leitor nas emoções da alucinante viagem de montanha-russa que é o mundo desconcertante do autismo.

Agora sim, pode começar a ler, no seu telefone, tablet ou computador. 










domingo, 20 de abril de 2014

A ausência é um estar em mim

As datas especiais têm um peso social tão marcante que se revela insuportavelmente doloroso na monoparentalidade. 
(ilustração de Margarida Mendonça)
Nesta Sexta-feira Santa, planeava fazer as refeições confeccionando peixe, não por motivação religiosa inerente à data, mas por me fazer sentir a familiaridade da minha querida avó. Quando era criança e adolescente seria impensável pensar em carne nessa sexta-feira e, irreverente como era, ao comer fiambre no pão logo pela manhã, sendo que o meu reino se queda pelos queijos, era a minha desadequada forma aparvalhada naquela idade de subverter as regras da casa. Hoje sorrio ao recordar a tontice e, sem pesar, penso as refeições deste dia com peixe. 

Um vizinho ter feito uma pescaria na noite anterior, foi o meu mote. Os carapaus estavam tão frescos que do saco só emanava uma brisa de maresia e, gulosa, já os casava fritinhos, com o malandro do arroz de tomate aromatizado com pimento e coentros. 
Mas o dia correu todo ao contrário. O meu filho Pedro esteve sempre na eminência de se tornar violento e após arranjar os carapaus, nem sequer consegui chegar perto, muito menos fritar, acto que leva tempo e dedicação e tenho má memória da minha cabeça partida estando ao fogão na confecção de alguma refeição elaborada e tentando neutralizar uma crise. Sou uma lírica, pois não se consegue fazer tudo, e dessa vez uma malga de barro voadora atingiu-me. Pensei que morria nesse dia. Cinco pontos. Agora a minha atenção fica toda na tentativa de neutralizar cada crise e nada mais. E até sou bem sucedida, digo eu com os meus botões. 
A crise arrastou-se pelo dia fora, entrou pelo sábado adentro sem dormir até ao limite de me parecer psicótica - sim, é assustador - e para nos alimentar só consegui aquecer restinhos que tinha no frigorífico, e curiosamente nada tinha de peixe confeccionado. Em 50 anos foi a minha primeira sexta-feira santa corrida a carne. Incomodou-me. Principalmente a quantidade de vezes que me recordei do momento em que no tribunal explicava à juíza como a situação estava mais calma e controlada comparativamente com o terrível mês de Agosto passado, e de como me sorrira e com calma me fez compreender que não tenho nada controlado... Incomoda-me que esteja tão habituadinha a esta vida que nem me apercebo de como é ridícula a minha vã tentativa de me convencer que sair das férias da Páscoa apenas com um pontapé e um murro no ventre seja algo de bom. Incomoda-me que já no final da manhã de sábado aproveitando uma soneca do Pedro, tenha conseguido entre a exaustão e o desconsolo, ter finalmente encontrado meia hora de paz para me entregar à culinária. Incomodou-me ter almoçado sozinha, não ter podido partilhar como estavam bons os carapauzinhos. 
Não tem nada de errado, afinal a maioria das minhas refeições é a solo e não me incomodo, mas em todo o nosso redor, há essa pressão nestes dias supostamente de festa. Nos descontos de supermercado especiais de época, nos ovos de chocolate, nas amêndoas, nos amigos que vão para a terra, tudo em nosso redor nos remete para uma realidade que não tenho, o meu filho não tem, mas sinto que a anseia. Incomoda-me, mas não posso fazer nada, ou até posso, pois que acabando de publicar este post, vou semear a casa com bilhetinhos para uma alegre e matutina caça ao tesouro onde o meu Pedro acabará por dar uns passos, até chegar ao coelho de chocolate. Prevejo umas piadolas que o forte sentido de humor que o meu filho tem, perceberá o fraco trocadilho. Por maior que seja a falta ou ausência de todas as figuras que deveriam estar na sua vida, eu, Mãe, não desisto de preencher a sua vida com momentos bons a dois, tento dar-lhe continuamente uma boa base, ainda que a solo.
Mas eis que encontro forma de me sentir feliz: Uma querida amiga telefona-me entretanto. Vai para fora mais tarde, mas ainda passa por minha casa a trazer um carrinho para o Pedro. Como era cedo, pergunto-lhe se já teria almoçado e desligo já contentinha a preparar-lhe o farnel surpresa, num saco os frescos: as primeiras nêsperas desta primavera tardia e uma caixinha com salada, e num outro saco, arroupadas num pano de cozinha, duas caixas: uma com os carapaus ainda quentes e outra com o arroz já enxuto de malandrices, mas ainda corado de sabores.


terça-feira, 8 de abril de 2014

Dar voz ao Xico

A personagem Xico do meu livro AUTISTA, QUEM...? EU? já não me pertence, tal como nenhuma outra após voarem e saírem das minhas mãos.
Mas com o Xico foi diferente. O núcleo base das personagens, Xavier, Gui, Lena e Zé João em torno deste menino de 13 anos com o seu cão Atchim, serviram o meu propósito inicial de, não só empatizar com a (chamemos-lhe) comunidade autista, como de uma forma mais arrojada ter almejado que este livro ajudasse a entender esta síndrome para o público em geral, algo que como mãe sentia a necessidade e que esta comunidade me pedia incessantemente que o fizesse, escrevendo. Saiu-me melhor que o esperado!, e estas personagens, a forma como as desenhei neste livro, dizem-me os leitores, ano após ano, serviram (e ainda servem) de guia, deram a mão a quem me lê, para um melhor entendimento do que é o autismo. 
Dos muitos recursos que usei, recordo com muito carinho um caderninho onde apontei frases, ditos, temores e fascinações dos vários meninos autistas que conhecia e que todas as mães e pais prontamente me forneceram de bom grado, que ajudaram posteriormente a colorir a personagem Xico com um mix de tantos meninos a cujos pais gostei de fazer essa singela homenagem. Cada um sabe onde está a sua criança - Existe mesmo um menino que diz: "a casinha do 24" ou então a desconcertante pergunta se a imagem da Nossa Senhora de Fátima tinha saído no MacDonald's, realmente aconteceu. E na minha casa - sim, este hilário dito, já o referi várias vezes, foi coisinha da cabeça do meu Pedro. 
Muitos episódios que relato no livro realmente inventei-os, provoquei as emoções de cada leitor propositadamente, mas aquele colorido, por mais que eu criasse, não seria tão genuíno como usando o material que os nossos filhos produzem em abundância a cada dia: a forma como um autista percepciona a vida é tão ao lado, que nos custa pensar dessa forma tão simples... é terrível percebermos como complicamos tanto a vida quando vivemos com uma pessoa autista, e quem como eu, consegue rir-se de si mesmo - coisa que faço com mais regularidade do que penso ser normal - tem aquele vislumbre que o sentido da vida é algo bem irónico e prosaico. 
Neste livro que ando a escrever, a continuação do AUTISTA, QUEM...? EU?, as mesmas personagens, mas 5 anos depois, vai colocar o Xico com 18 anos. Ora se naquele tempo em que desenhei o Xico, só tinha acesso a algumas famílias com crianças autistas, hoje e pela mão das redes sociais, é interessante ver como de uma forma ou de outra todos nos conhecemos. E a ideia para o meu novo caderninho assume um contorno muito mais globalizante. Todos nós pais temos consciência que rimos do inimaginável para os outros pais, e não é por termos um sentido de humor retorcido, se não pelo caricato de momentos que os nossos putos terrivelmente sinceros e literais imprimem na sua peculiar forma de estar, ser e ver a vida. 
Então pensei... E se...? (sorriso) 
O que vos proponho, queridos leitores é, dar voz ao Xico! Caso queiram partilhar comigo frases, ditos ou feitos, temores e estereotipias dos seus filhos, enviem-me por mensagem, por email, por sms, enfim, mandem-me por escrito que vou armazenar e salpicar ou temperar situações no livro. Terei muito gosto em colorir as minhas personagens com recortes de momentos de pessoas reais. Dizem e fazem a cada momento observações que nos deixam com aquela perplexidade de quem ainda se deixa espantar. Ainda hoje o meu filho me dizia a propósito de uma ida ao Oceanário que irá fazer: "Ó Mãeeeeee, eu já lá fui taaaaantas vezes e os peixinhos são sempre os mesmos!!!"
E não se prendam apenas as famílias dos rapazes. Falei no plural porque no livro 2 teremos uma novidade que agora vos revelo: Uma Aspie também de 18 anos pela qual ando apaixonada e espero conseguir escrevê-la da mesma forma apaixonante com que a desenhei na minha mente!!! 
Este livro 2 há muito prometido, está mentalmente escrito e tenho tido uma imensa dificuldade ao longo dos anos em pô-lo no papel - ou no disco rígido. A minha fase de mãe de jovem autista de 18 anos foi demasiado pesada para conseguir a leveza para escrever sobre o tema. Hoje já sinto o distanciamento necessário para me sair das mãos como o quero. Até porque no Autista 3 o Xico terá 30 anos e gostaria de o escrever ainda antes do meu filho chegar a essa idade... 
Eu vou escrever esta trilogia como delineei o inicial esquisso mental: está no tempo da Mãe fechar o luto em vida que fez da fase dos 18 anos do Pedro para a escritora poder avançar com outra história, agora é a vez do Xico. 



terça-feira, 25 de março de 2014

20 cêntimos

Há uma palavra dita em inglês de que gosto tanto por, ao ser pronunciada nos encher a alma, ser ainda mais intensa que avassaladora, a sua tradução em português: nós temos SAUDADE eles têm OVERWHELM. 
Não estava preparada para o embate emocional que veio com o apelo de ajuda público que fiz.
Sempre disse que gosto mais de dar que receber e sei que na minha vida o pratico com a maior das naturalidades, que o faço sem olhar a quem, como sempre ouvi os meus avós nos ensinarem, sei que o faço de coração, sem alardes, sem justificações. Nestes últimos tempos aprendi de forma muito concreta a baixar a guarda, a aceitar que não consigo tudo e até a saber aceitar ajuda.
Sei que não é fácil quebrarmos a redoma da imagem que transmitimos, aquela que, ao quebrarem as pernas à classe média, todos lutamos, como um último reduto a manter.
Além do Banco Alimentar tenho também um grupo de pessoas amigas que se reúnem para juntas nos proporcionar o que falta à ajuda institucional, se organizam entre si para as boleias para o Pedro desde que fiquei sem carro, estão muito presentes nas nossas vidas. E estou grata. Muito.
Eu adoro ajudar, isso faz o mundo ficar mais redondinho, criarmos a tal ideia que podemos mudar o mundo, com pequenos gestos vamos mudando o mundo de alguém e isso é tão importante!!!, e essa riqueza, o sorriso feliz de quem ajudamos, o facto de sabermos que algo que fizemos melhorou um pouco o dia ou a vida de outra pessoa, isso não há dinheiro ou riqueza que pague!
Há pessoas a quem fiz trabalhos de pintura decorativa ou web design para as suas empresas à laia de troca de serviços ou como 'pagamento' por outras ajudas concretas, mas eu acho que na verdade esta volta à forma ancestral de troca de serviços serviu a muitos de nós para crescermos enquanto população cívica e perceber que para além do tu-dás-e-eu-dou-a-ti, existe o vou dar porque o outro precisa e existe o eu recebo porque estou necessitada, sem ter vergonha de agradecer, de dizer: sim, eu preciso.
Acontece que com este pedido de ajuda público que fiz, desta vez não foram só os amigos que acorreram. São também os amigos de amigos, são os desconhecidos que me têm deixado absolutamente sem palavras.  Confesso, tenho chorado muito. Disse-me uma psicóloga que é uma reacção absolutamente normal para quem aguentou estoicamente por tempo demais e de forma absolutamente contida uma situação insustentável. Tranquilizou-me a explicação, já que me sinto frágil e com muito medo de me deixar cair, coisa que repetidamente e aos longo dos anos não me permito, a ponto de achar estranho em mim o simples chorar. Mas lá está, nem o Pai Natal existe, nem a super-mulher. Eu nunca quis vestir esta capa que repetidamente me põem sobre os ombros e não a quero, não a quero mesmo!

Anthony and the Johnsons - you are my sister

Gostava de partilhar uma de tantas, tantas conversas que tenho tido por mensagem com todas as pessoas que me abordam. Tenho a alma a transbordar mais que a caixa de entrada, e sei que ainda não consegui, talvez nunca consiga agradecer a todos o que estão a fazer por nós a cada dia que passa. E digo honestamente que não falo apenas do dinheiro, se não de mimo. Tenho sido tão acarinhada, tenho recebido o retorno de tantas pessoas que ajudei num ou noutro momento da minha vida e que de uma forma ou de outra me acarinham agora, mas é exactamente dos desconhecidos que ainda fico mais desconcertada.
Uma pessoa escreveu-me que se havia enganado e depositado vinte cêntimos ao invés de euros e estava muito aflita, que faria novo depósito no dia subsequente. Acabámos por rir do engano, que a todos nós acontece e até fizemos umas piadas em torno disso. Mas eu fiquei a pensar nisso. E no dia seguinte entrei outra vez nessa mensagem para dizer à pessoa que iria guardar uma simples moeda de vinte cêntimos comigo, que seria uma moeda especial e que a guardaria sempre.
E vou fazê-lo.
Dou muita importância a pequenos pormenores, costumo dizer que Deus está nos detalhes, e esta simples moedinha vai simbolizar para mim, toda esta onda de ternura que me faz sentir... overwhelmed.
Bem Hajam!





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quinta-feira, 20 de março de 2014

Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar

O meu filho Pedro tem quase 25 anos e eu 50. Metade da minha vida dedicada a um filho?, ahhh sim, e quando penso, acho que faria tudo igual, erros e acertos, pois que os senti a cada momento como a porta certa, o caminho a seguir. 
Banco BPI
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No final, sei que fiz um grande trabalho com este filho, que lhe ensinei e lhe dei muito mais alma que é expectável, mas isso, qualquer mãe de autista poderá dizer o mesmo: somos feitas da mesma massa e não desistimos à primeira pancada da vida, nem à segunda e à terceira, já criamos um calo bem eficaz que por vezes faz vislumbrar uma quasi-capa de super-mulher. Mas o Pai Natal não existe e a super-mulher também não. 
Hoje é o meu dia de atirar a toalha ao chão. Sinto-me triste por escrever estas palavras e ter de recorrer às redes sociais (ver aqui página FB Ajudar Pedro e Ana), não para colocar uma foto bonitinha do meu filho lindo, mas para fazer um pedido difícil: Há muito tempo que luto para conseguir sobreviver sem dinheiro. Não estou a conseguir (ou não estou a conseguir suportar a situação por mais tempo). Estou em falta com a associação de autistas onde o meu filho está durante a semana, a APPDA-Lisboa, tenho muitas mensalidades em atraso e é urgente regularizar esta situação. Preciso de ajuda para pagar esta conta, sob a pena do meu filho perder toda a qualidade de vida que tem neste momento. 
O Pedro frequenta a APPDA-Lisboa desde os seus 18 anos e após o período inicial (que foi difícil, até talvez mais para mim que para ele), a adaptação foi muito importante para o seu bem-estar e até para a sua saúde mental. Tem fases muito complicadas, de grande violência que tenho tremenda dificuldade em contornar (quando consigo contornar ou até controlar), mas nesta fase está tão tranquilo e feliz que me dá uma imensa pena saber que ele se apercebe do que se passa - apesar de eu tentar disfarçar, anda ansioso mas sinto que não 'estica mais a corda' porque vê que eu não aguento... e o não ter capacidade financeira para poder fazer mais...



Sei que estas palavras são fruto de um grande desespero, como canta Djavan: "Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar", vou deixar aqui o meu apelo e quem me puder ajudar a ajudar o meu filho, é só isso que peço. 

Muito grata,




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Djavan - Esquinas




quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A meus leitores inusitados

Se me pedissem para escolher um dos livros, dos que já publiquei, qual o meu favorito, não conseguiria escolher. Nem caio no cliché de afirmar que todos os livros são como filhos a que se amam de igual forma, já que sou Mãe de apenas um rapaz, e custa-me sequer imaginar conseguir gostar de alguém de igual forma ao amor umbilical e incondicional que dedico a meu filho Pedro. 
Cada um dos livros encerra histórias e memórias muito minhas. Não são os focos de luz em tempo de promoções publicitárias, muito menos em lançamentos de livros, eventos conduzidos com uma formalidade bocejantemente enfadonha a que sou terrivelmente alérgica e que lhes fujo despudoradamente. Sou uma pessoa simples, o que me apaixona é a intensidade, é a entrega a que me proponho em cada pesquisa para a narrativa e a construção mental de personagens e enredos, e até no depois, quando se pode pensar que as luzes se apagam: aí acontecem as conversas perfeitas com os meus leitores que ocorrem em qualquer momento fortuito, em qualquer sítio improvável. É marcante, o que recordamos no fim de cada projecto que, afinal, não tem nunca fim. Continuo a ter diferentes leituras de momentos que ainda hoje vão acontecendo quando não espero. 
Um destes dias sucedeu mais um digno de entrar directo para o meu TOP 5. Não foi apenas mais uma leitora que me reconheceu como autora de um livro que leu. Aliás, para mim, nunca o é, somente um 'apenas', cada ocasião tem um nome, uma cara, uma história, e como boa contadeira, encanta-me uma bem elaborada, e se protejo nome e cara, atrevo-me a partilhar a história.

clique para escutar enquanto lê  


Num jardim infantil, onde habitualmente levava a filha em pequenina para brincar, conversa com outra mãe. Ambas de olho nas suas crianças, sem se darem conta, desabafam o que nem à alma contam. É fácil destrancar medos e inseguranças quando se fala com desconhecidos. Não sei, não conheço a outra senhora com quem a minha leitora se habituou a conversar naquele jardim. Contou-me que o filho da senhora, o João, é um menino autista e que a mãe um dia levou para o jardim um presente para a que viria assim a ser mais uma das minhas inusitadas leitoras: o meu livro AUTISTA, QUEM...? EU?
Tendo em conta que este livro já faz oito anos de publicado, foi com grande alegria que me apercebi da riqueza de detalhes recordados, o brilho com que esta leitora me falava das emoções que lhe provocara, ao ter lido há tantos anos o meu livro. Esta leitora inusitada, não tinha, continua a não ter, nada a ver com o autismo, mas foi tocada pela presença do João no parque, ou talvez pela sua Mãe no banquinho à conversa, mas ficou a saber o que vinha a ser o autismo, sabe hoje oito anos depois, reconhecer estes Xicos que povooam as nossas vidas.
Bem sei que é um livro que provoca reacções intensas, do riso ao choro, que tive a sorte de muitas dessas histórias me terem sido transmitidas seja pelo diálogo que estabeleço com os meus leitores nas redes sociais, seja assim, pessoalmente, mas este relato entra-me directo para o coração não só pela leitora que ficou a perceber do que falamos, mas também pela mão da senhora, a Mãe do João, o menino que brincava no parquinho. Porque eu conheço o desespero maternal que se sente por ter de explicar incessantemente o seu filho ao mundo. Foi, de todos os motivos, o que me moveu a escrever este livro.
Sei que vendeu como pãezinhos quentes, que cada leitor a cada sessão de autógrafos me aparecia com dez livros - para si, para dar aos pais, aos sogros, à professora do filho, a tios, distribuir pelos amigos... A compra deste livro foi usado (quantas vezes...?) como arma para explicar o filho a todas as pessoas em seu redor. Sim, conheço essa dor desesperante e sei que a oferta do meu livro com um enfático: "Lê" marcou uma época, era mais fácil que mil conversas que infelizmente todos nós tivémos de ter repetidas vezes. Ao fim de oito anos de livro que ficou esgotadérrimo e foi emprestado e reemprestado, passou de mão em mão, sei que teve esta função didática que sempre almejei, mas não sonhei fosse tão longe. Como nunca imaginei que além dos pais, sogros, professores e familiares... houvesse alguém que simplesmente oferecesse este meu livro a um desconhecido no parque, para poder explicar, por fim, porque o seu filho é diferente.



quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Sexo no Autismo, acontece...?

Perguntava naturalmente a Lucília ao Pedro se já tinha namorada. "EU não!!," respondeu com aquele ar absolutamente imperturbado, "e depois tinha de fazer sexo com ela...!!" 
Claro que é anedótico e nos rimos as duas - por vezes as mães de autistas riem de coisas muito diferentes - mas se olharmos com seriedade para cada detalhe na convivência com um miúdo autista, podemos retirar aprendizagens inusitadas.
Então os autistas não gostam de sexo?
Se até os bichinhos gostam...
Lá entramos de novo nas terras pantanosas dos tabus de que não se fala, não se diz. Pois, mas eu falo, questiono outras famílias, quero saber.
Com o meu filho fica fácil, porque sempre me contou tudo, mas resguardo as nossas conversas. Que servem de base para construir a personagem autista Xico? Sem dúvida que recheio as falas e pensamentos do Xico com as frases excepcionais do meu Pedro, mas o leitor nunca sabe se é o meu processo criativo, se é copy-paste do real. Benefícios de quem connosco priva, apenas.
Mas os autistas, são assexuados, é isso? Não. Ora, seria tão simplista...
Pela minha observação constato que na deficiência o preconceito impera, se confunde sexo com sexualidade, que os julgam erroneamente por um todo, e que decididamente são ou assexuados ou hiperssexualidados!!! Não se pode colocar numa só sacola tantas existências, tantas formas de ser e ver o mundo. Não me canso de repetir que formulam o mundo num olhar diferente tanto dos neurotípicos como dos seus pares, e se a vida é absorvida de maneira tão original, porque encarariam esse quesito em bloco de forma una?
No livro "AUTISTA, QUEM...? EU?" para além do Xico, mencionei um senhor dentro do espectro do autismo que até tinha conseguido casar e ter uma vida conjugal, mas que a determinada altura se decidiu divorciar, e ao anunciá-lo a sua mulher, esta chorou. Resposta dele? "Não te preocupes, eu arranjo outra..." Mais uma vez o nosso olhar neurotípico acha hilário, mas o twist prende-se num detalhe único que faz toda a diferença. A intimidade. O toque. O dar e receber. O pensar no outro. O amar o outro.
É tudo tão arredio do autismo...
É natural pensar: são assexuados. Mas o lado físico da pessoa com autismo cresce e nas idades certas acontece o mesmo que nos neurotípicos. Então acontece muitas vezes o negar a sexualidade, o infantilizar das atitudes e um virar a cara no outro sentido. Para mim não faz sentido.
Sei que o meu filho já esteve verdadeiramente apaixonado - não vos vou contar detalhes, mas sentiu as tais borboletas no estômago, sofreu ao se ver trocado e foi à luta pelo que pretendia. Visto aos olhos da normalidade?, seria mais um de tantos namoricos, mas foi para mim emocionante e também muito divertido presenciar a ausência de malícia sem joguinhos de sedução e directos no ponto. Autistas até à quinta casa!, mas terrivelmente coerentes e correctos. Foi uma lição. Vi o meu filho feliz. E isso sim, para mim fez todo o sentido.
A forma como a sociedade repudia e estigmatiza as manifestações sexualizadas a estas pessoas, causa-me uma certa revolta. Muitas das acções que consideram ter uma carga sexual, as que não são pelos neurotípicos encaradas como tal, vá... vou considerar como um piropo: é inofensivo e até nos faz sorrir.
 (imagem de dois actores brasileiros não-autistas)  
Há quem passe por nós e nos afague os cabelos, ou simplesmente nos cheire os ombros. De notar que no autismo as sensações, as texturas, o odor, os sentidos são exacerbados, têm uma maneira tão diferente de sentir que tenho dificuldade em aceitar que determinado gesto tem uma conotação sexualizada. Terá? E que seja...! Incomoda-me? Não. Deixo-me ser tocada, cheirada, afagada. Gosto dessa proximidade que é momentânea e por vezes, mágica. Já outros gestos ou acções denotam o que identificamos com clareza: uma erecção, ou a intenção de passarem a mão pelo peito. Como reajo? Afasto a mãozinha antes de chegar lá como faria a qualquer neurotípico! 
Se pensarmos quantos ditos normais existem com transtornos inadequados para consolidarem um relacionamento amoroso... Porque todos nós temos pontos menos bons, quantas vezes nem disso somos totalmente conscientes ou racionais, e no entanto esses factos não interferem negativamente na satisfação entre um casal. No autismo - especialmente nos indivíduos com Síndrome de Asperger - pode até haver um desejo de ir ao encontro do outro e, porque não?, de ser amado, mas não haverá motivação suficiente porque acreditam que, se o fizerem, serão estigmatizados a partir dos padrões que lhes são impostos, por seus cuidadores e pela sociedade no geral. 
Tenho pena que não se invista no amor e sexualidade no universo autístico e simplesmente se entre no facilitismo de lhes prescrever medicação para 'acalmar as hormonas'.  A meu ver, não se deveria infantilizar adultos. Têm direito à sua vida plena. Mais. Esta minha interrogação acerca do poder do amor e dos relacionamentos amorosos ser uma das improváveis mas possíveis soluções, vindo a abrir a porta ao desenvolvimento de comportamentos  sócio-comportamentais adequados e porque não, melhoramento dos cognitivos, apenas porque estão felizes...? Não seria caso de se ponderar sobre o que aconteceria?



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