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sábado, 8 de junho de 2019

Azul e branco às riscas

O meu novo livro está aí! 
Quis escrever um livro feliz.
Escrevi com paixão, muito mais que a história de amor do João e da Joana: são nove dias na vida de uma família.
Escrevi sobre sincronicidades e reencarnação, agricultura sintrópica e piscinas sustentáveis, namoro e casamento, Lisboa e Alentejo...
Escrevi com o suspense da ordem, o drama (a tragédia, o horror...!) Ahhh!, o humor, sempre o humor!...
Envolvi tudo à mão, com muito muitooo amor e desalinhei, estremeci o mundo das personagens – pondo-as durante nove dias na dúvida do quero e não posso, posso e não consigo – construindo um paralelismo de duas riscas contínuas a que a vida um dia dá um nó.

Um evento inesperado faz surgir uma dúvida aviltante com força para mudar muitas vidas. O que acontece em Azul e branco às riscas durante os nove dias?

Da vida citadina ao olhar espraiado sobre a planície alentejana, estendendo-se pela margem esquerda do Guadiana, Azul e branco às riscas acontece.

Espero-os, queridos leitores, até já!




ilustrações de Isa Silva




quarta-feira, 13 de maio de 2015

AO, o irrevogável

Ocorre-me a ideia, no dia em que o malfadado e desacreditado acordo entra (entrará?) em vigor, chamar a que se aproxime aquela nossa palavra estragada - o irrevogável -  para que cumpra na plenitude a sua nova função, já que sendo irrevogavelmente irrevogável, irrevogavelmente o AO agora será finalmente revogado. Vá lá pá, é o que a malta quer, o que a malta pede, o que a malta luta, desde que esta aberração nos foi enfiada goela abaixo. É que já chega! Ó irrevogável filho, chega aqui para acabarem de vez com o AO! 
Para começo de conversa, aborreço-me ao ler as notícias matutinas e constatar que a data de hoje já foi revogada. Há destas coisas giras, movimentações palacianas em vésperas de eleições que me fazem sempre relembrar o conceito de sarcasmo, o tal que somos tão bem familiarizados... então a data 'irrevogadamente irrevogada' de 13 de Maio foi chutada para canto, lá para Setembro, o dia do meu aniversário ainda para mais??? Epá, não me lixem o dia...
(podem ler a notícia na integra aqui
Na verdade, eu estou-me positivamente nas tintas se o AO for revogado, agora, amanhã ou depois, só quero que aconteça. Só isso. Limpem a porcaria que fizeram. Não quero mais falar deste assunto, insurgir-me, assinar petições, assinar de cruz o que diz o bzinho João Pedro Graça. Chega de escrever artigos destes e deixar de utilizar esta imagem no final de cada um dos meus posts, só porque sim. É mau? É. Se tem sido terrivelmente mau para os miúdos que desaprenderam e vão ter de ser ensinados a escrever português de novo? Pois. Revoguem a coisa e dêem de vez um passo em frente, sem compadrios e interesses debaixo do pano que todos sabemos que existem. Chega. Como diria o outro em bom português, mandem o AO cagar à horta e limpar o cú às urtigas. 


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Consciencializar 365 dias ao ano

Ontem, na correira do meu dia-a-dia e distraída com meus pensamentos, ao assomar uma entrada para um ATM percepcionei mais pela visão lateral - porque na verdade nem quis olhar de frente - um casal, em que um dos homens estava encostado à parede, e o outro debruçado sobre ele, abraçava e beijava-o. Foi uma escolha momentânea, eu sei, não quis olhar para não parecer preconceito da minha parte (até porque assim não sou, não me considero) e na verdade fui-o em grande escala. 
Não tendo usado o MB dentro do banco por ser exclusivo para os 'da casa' dirigi-me novamente ao fora de portas onde tinha acabado de passar pelo casal. Fiquei sem reacção... uma querida amiga minha e companheira de muitos anos nesta nossa atribulada vida de mães de autistas cumprimenta-me: «Olá Ana!» Continuei sem reacção sem querer acreditar no que todos os meus sentidos já me gritavam e gelei por me sentir tão estupidamente horrorizada com o meu anterior pensamento. 
No momento seguinte estava rodeada pelo marido e o filho autista, também já adulto, como o meu, que me deu um carinhoso beijo bem babado. 
Eram pai e filho encostados ali naquela parede em que julguei precipitada e preconceituosamente! 
Consegui esboçar as palavras habituais num ritual de cumprimento, mas percebi a estranheza da minha pouco habitual efusividade no olhar inquiritivo da minha amiga, mas estava ainda naquele torpor perturbador do que acabara de sentir e estava tão indignada comigo mesma que simplesmente fiquei queda, sem acção. Pouco habitual em mim, é certo. Tanto a quietude no abraço e sorriso fraterno quanto a estupefacção do sentir-me preconceituosa. 
Sai daquele breve encontro perturbada. O filho dos meus amigos está um homem de 1,70 e muitos de altura, tal como o meu filho, num primeiro olhar estes bebés grandes - como os vemos - não o são nem o parecem aos olhos de quem os não conhece, ou desconhece o significado ampliado da palavra autismo. 
O meu filho abraça-me, amassa-me, beija-me na boca na rua, ou então publicamente mexo-lhe amiudamente na braguilha para o compor (sempre aberta!) e sei que o olhar que têm para connosco é idêntico ao que eu mesma fiz com os meus amigos. Convivo com isso e respondo pondo as pessoas no sítio apenas com um olhar. Simples, habituei-me. Mas não me conformei. Não me vou conformar nunca. 
A falta de informação sobre esta população e suas famílias é gritante, sim. Eu sou a que agarro as pessoas pelo braço e pergunto, está a olhar? Não sabe o que é uma pessoa com autismo? Venha cá que eu explico. Da próxima vez que se deparar com outra pessoa com autismo, pelo menos questione-se antes de julgar e vai entender as reacções que não são habituais ver, as frases proferidas em voz alto ou fora de contexto, todo um mundo que lhe parece estranho apenas porque o desconhece. Venha cá que eu explico! E explico, tranquilamente. E faço muitas acções de sensibilização muitos dias após ou antes o 2 de Abril, e sei que o farei a vida toda. Consciencializar, consciencializar, consciencializar, sempre! 365 dias ao ano. Em algum momento chegamos lá. É uma certeza em mim. Em muitos de nós. 
Aos meus queridos amigos que se vão reconhecer quando lerem este texto, peço-vos perdão. Eu não fiz o que peço ao mundo: Que olhem com atenção para as reacções inusitadas de uma pessoa com autismo antes de as julgarem.


quinta-feira, 12 de março de 2015

Escrever é como respirar alto

Fui hoje a escritora convidada no curso de escrita criativa dirigido pelo jornalista e escritor José Couto Nogueira no Âmbito Cultural do Corte Inglés. 
José Couto Nogueira dando uma aula
O Zé, digo-o sempre sem pejo, foi um dos professores que mais me marcou, meu querido Mestre com quem tanto aprendi. Ficámos amigos de uma forma muito natural, é um conversador admirável, ensina-nos a sério brincando, o som da sua gargalhada é uma imagem doce que nos entra na alma e mesmo depois de acabarem as aulas, permanece. Até mais, acompanha-nos no momento de escrevermos alguma das maroteiras que habilmente nos ensinou como fazer. 
Quando me convidou, senti-me muito honrada. Estar no mesmo painel de escritores de nomeada que muito respeito como Pedro Paixão, Mário Carvalho, Lídia Jorge, Miguel Real ou Tiago Salazar... nem queria acreditar!! 
Pediu-me simplesmente para falar da vida e obra. 
Para mim escrever sempre foi uma coisa natural, sempre o fiz, acho que sempre o farei. 
No liceu tive como professora a carismática Marina Pestana que vaticinou: "um dia esta menina escreve" 
alguns dos simpáticos alunos do José Couto Nogueira 
E se escrever me é tão fácil, já o acto de publicar são literalmente outros cinco tostões e falei na aula deste tema de uma forma irreverente. 
Acredito que o mundo editorial tal como o conhecemos faleceu já há muito e os velhos do Restelo ou os barões da coisa, como lhes queiram chamar, não ocupam lugar onde comodamente sento o respeito. O escritor - a essência desta industria toda - é tão mal tratado que considero um ultraje continuarmos todos nós - as alegres cigarras que fazem magia com a ponta dos dedos num qualquer teclado ou simplesmente com papel e lápis - a prestar vassalagem a uns senhores que se dizem donos disto tudo. Eu disse Basta! há já uns anos e tornei-me uma escritora independente, uma outsider do sistema e quis, perante uma sala atenta, abrir o jogo e explicar como o fiz, o faço. 
Sim é irreverente e sim resulta.
E quanto mais de nós alegres cigarras o fizermos, mais força ganharemos. 
Falar dos meus livros é sempre tão bom... Escrever é como respirar alto. 
Obrigada Zé, pelo teu gentil convite que tanto me enterneceu. 
Que pena que nos esquecemos, no afã do momento, de tirarmos uma foto juntos! 

TwitEntrevista Alive foi um formato que inventei em 2009 de entrevistas para e no Twitter a pessoas twitteiras que eu considerei interessantes. Fiz apenas uma temporada, porque sou escritora, não jornalista!, porque foi giro fazê-lo, mas não seria tão giro continuá-lo. 
As regras eram simples: Em 140 caracteres PERGUNTA em 140 caracteres RESPOSTA. Sempre com a hashtag #TwEnt

O Zé Couto Nogueira foi o meu entrevistado nº4 aqui fica o registo que fui repescar aos meus arquivos (onde, de resto, consta toda a temporada de entrevistas twiteiras guardadas, caso se interesse pode lê-las, pode fazê-lo seguindo este link http://anamartinscom.blogspot.pt/p/ler.html)
Honra seja feita às minhas originais entrevistas, causavam o caos no Twitter à hora marcada de tanta gente a lê-las em directo, e devido à afluência do público, o pico de audiência que conseguíamos era tal que a plataforma em si ia abaixo e aparecia a imagem irritante da baleia a mandar-nos esperar...

Querido Zé, já passaram 6 anos e tu estás cada vez melhor!!! Um abraço!

TwitEntrevista Alive #4
Em 140 caracteres PERGUNTA em 140 caracteres RESPOSTA.
Sempre com a hashtag #TwEnt


TwitEntrevista Alive – Volta esta semana com novo convidado especial:


TwitEntrevista Alive com José Couto Nogueira

Timeline Twitter | dia 11 | às 15h

@josecnogueira

Escritor, Jornalista, Blogger,

Professor de Escrita Criativa

José Couto Nogueira foi meu professor no seu curso de Escrita Criativa, um querido amigo e é o único responsável por eu ter entrado no Twitter – o ter ficado já foi por conta própria.

TwitEntrevista Alive #4 @josecnogueira a 11 Agosto 2009 – Timeline Twitter

josecnogueira: #TwEnt @annamartins estou aqui

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Boa Tarde Zé, querido Mestre. Obrigada por teres vindo a meu encontro. Conta-nos como tem sido tua experiência no i.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Tem sido muito satisfatória. Acho o jornal muito bonito, é quase como uma revista diária

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Isso do Mestre… Só se for na boa vida, mas não me lembro de te ter ensinado nada

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Conta aos leitores Twitter o que escreves especificamente no jornal i ?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Faço uma página de tv todos os dias e uma coluna sobre ética aos sábados, a “Coluna Vertical”

josecnogueira: #TwEnt @annamartins E ultimamente tenho feito algumas peças avulsas, dois quiz e comentários a certas coisas

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Mestre? Não da malandragem, de Escrita mesmo! És um excelente professor, mesmo fora de aulas! Descreves o curso?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins É um curso para convencer as pessoas de que podem escrever, desde que saibam português. Motivá-las.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Para ti, por exemplo, não serviu de nada, uma vez que já tinhas os requisitos e estavas motivada.

josecnogueira: #TwEnt @josecnogueira O Zé, caros leitores, é um charmoso que dá uma gargalhada na sua máxima plenitude, ri com o corpo todo. Viver é como?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Se me continuas a atirar flores acaba a entrevista… Viver é óptimo — é a única consciência que temos, não é verdade?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Um dia descobrimos que estamos vivos, depois aprendemos a viver, e um dia já não estamos vivos — e nem sabemos.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Quero dizer, não se sabe que se morreu, não é verdade?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Um ideia pirante, mas completamente filosófica, já que não tem nenhuma aplicação prática.

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Ao volante de um Taxi em NY é coisa para escrever um livro. Em 140 batidas qual o sumo dessa experiência na tua vida?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Para Nova York não é preciso 140 toques: NYC é o melhor sítio do mundo.

annamartins: #TwEnt @josecnogueira És um batoteiro de primeira apanha! São apenas 140 caracteres para cada resposta!

josecnogueira: #TwEnt @annamartins A explicação é mais longa: não é porque seja paradisíaco, ou só tenha gente boa. É precisamente pelo contrário.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Tem de tudo, seja o que for. À distância de um olhar — ou de um braço

annamartins: #TwEnt @josecnogueira O meu poder de síntese também é terrivelmente posto à prova a cada pergunta. Tenta responder só com um tweet, por favor

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Paris também podia ser assim, mas tem os parisienses a estragar tudo.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins E Londres também podia, mas faltam-lhe centros. Aliás, tem centros demais, em todos os bairros, que nunca se tocam

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Mesmo para um romântico incurável como tu? É o sotaque que atrapalha os parisienses? A teu ver o que lhes falta?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins O Chauvin era parisiense. São de uma arrogância incontrolável

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Nessa linha de pensamento, o “Pesquisa Sentimental” teria de ser em Lisboa?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Teria de ser em Portugal, definitivamente

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Os sentimentos são os mesmos no mundo inteiro, mas exprimem-se de maneiras diferentes conforme as culturas

josecnogueira: #TwEnt @annamartins E também os temperamentos individuais, claro. É 50% cultura, 50% feitio.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins O tipo de problemas sentimentais da Pesquisa e o modo de os resolver, só por cá!

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Consegues escolher entre os teus livros “Taxi”, “Vista da Praia” e “Pesquisa Sentimental” o *tal*?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Bem, o último é sempre o melhor, é o que qualquer escritor acha!

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Há um aperfeiçoamento de livro para livro, ou então não vale a pena escrever mais

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Confesso a minha preferência pelo “O Vista da Praia” – época muito carismática e a tua visão… perfeita (sem flores)!

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Como tem sido a reacção do público masculino à personagem Alex do “Pesquisa Sentimental”?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Francamente, não sei. Quer dizer, falei com alguns amigos e poucos desconhecidos, não dá para avaliar

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Será porque de uma forma muito Lusa *um homem não chora*, logo os teus leitores não vão jamais comentar contigo?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins É muito difícil avaliar a reacção do público a um livro, porque só sabemos dos conhecidos e de quem gosta

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Acho que qualquer autor tem a sensação que o seu livro está a ser um sucesso, pelo agito em volta

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Um livro, hoje (saindo das mãos do escritor), é tratado como uma mera peça de marketing. Sentes-te um *não-alinhado*?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Pois, isso tem pano para mangas. O marketing é irritante, mas é absolutamente necessário.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Se um livro não tiver marketing não existe, mesmo que seja a maior obra-prima de todos os tempos

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Por outro lado há livros que são deploráveis e que vendem bem no engano do marketing

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Claro que o tempo é que mostra quais são os bons livros, os que perduram, mesmo que não tenham feito sucesso na altura

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Qual a vertente profissional que escolherias Escritor ou Jornalista ou são a simbiose perfeita em ti?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Não, não são nada simbióticas. Geralmente os jornalistas não dão bons escritores

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Acho que há um lado factual no jornalista (o quê, quando, como, com quem) que vicia e estraga a poesia na ficção

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Eu preferia que me considerassem um escritor, mas creio que sou mais um jornalista

josecnogueira: #TwEnt @annamartins E tudo, como é que te vês?

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Eu, como assim..?

annamartins: #TwEnt @josecnogueira O Álvaro de Campos via-me: “Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!” in Tabacaria

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Deixa-te de filosofias e diz-me lá terra a terra, vá!

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Ora! Eu sou terra a terra! Mas meu caro Mestre eu nem jornalista sou, nem pretensão. Escrever sim, é grande paixão

josecnogueira: #TwEnt @annamartins E tens escrito muito, ultimamente?

annamartins: @josecnogueira Mas tu subvertes todas as regras da #TwEnt !!! Agora perguntas tu, é…? E eu respondo!? Humm, escrevo sempre, Zé e muito.

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Há sempre outros projectos paralelos à paixão da escrita. Acordei no séc.XXI abri um Blog que hoje mesmo passa a Site.

annamartins: #TwEnt @josecnogueira E tu querido Zé, depois do sucesso do “Pesquisa Sentimental” já está pensado/escrito o teu próximo romance?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Mas um blogue só é um projecto a sério se tiver um objectivo e for actualizado amiúde

annamartins: #TwEnt @josecnogueira .oO (A baleia vai boicotar esta #TwitEntrevista) Oo.

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Tem um propósito. Agora que passa a Site o www.anamartins.com tem uma razão de ser: O espaço da escritora Ana Martins.

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Mas deixa-me perguntar (se a malandra da baleia nos deixar prosseguir) sobre o teu Blog com mais carisma: o PERPLEXO

josecnogueira: #TwEnt @annamartins É um blogue que eu fiz para descarregar as frustrações que a situação me coloca

annamartins: #TwEnt @josecnogueira .oO (Os directos têm destes imprevistos e o Twitter em vez da mira-técnica tem uma baleia) Oo.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Mas a certa altura passei da perplexidade e achei que já não valia a pena dizer mais nada

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Mudei para falar de questões de media — as mudanças na comunicação social, mas acontece pouca coisa

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Portanto está paradote…

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Há sempre algo mais a dizer, Zé, por vezes canalizado de forma diferente como o movimento que iniciaste em Lisboa.

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Pois, há sempre coisas a dizer, mas com o i e mais outros trabalhos, e o twitter e a vida…

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Há que estabelecer prioridades e o Perplexo não é uma delas, neste momento

josecnogueira: #TwEnt @annamartins E tu, o que vais fazer com o teu blogue?

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Ora, Zé, digo-te – sem flores – tu tens a energia que muitos jovens de 20 não vão ter nunca! E continuas com perguntas??

annamartins: #TwEnt @josecnogueira O meu Blog ao ser Site alarga o âmbito e fica tudo arrumadinho por departamentos. Muitas surpresas, espero que boas
josecnogueira: #TwEnt @annamartins Não queres adiantar nada?

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Zé queria agradecer a tua disponibilidade no meio do caos que poderá ser o de um pai de férias a responder-me

annamartins: RT Convido-te para o TwitBeberete de lançamento do http://www.anamartins.com/ @josecnogueira: #TwEnt @annamartins Não queres adiantar nada?

josecnogueira: #TwEnt @annamartins Eu é que gostei muito desta forma de entrevistar! É sempre divertido falar contigo. Adeus a todos.

annamartins: #TwEnt @josecnogueira Obrigada, querido Zé, por tudo quanto me continuas a ensinar depois das aulas terminarem e agora sim… flores http://ipt.olhares.com/data/big/201/2011264.jpg

annamartins: #TwEnt @josecnogueira São para ti, Querido Mestre. Um abraço 


domingo, 8 de março de 2015

Todas as Marias são antes de tudo Mulheres

Este dia é uma homenagem a mulheres que lutaram pelo nosso direito à igualdade, não ao direito de, por um dia, poder jantar fora com amigas e não ter de fazer o jantar para o marido... esta noção é tão 'redutorazinha' que me irrita profundamente (num dos meus livros escrevi sobre isso e mais abaixo reproduzo esse texto). 
Em Nova Iorque a 8 de Março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos fizeram greve. Ocuparam a fábrica pedindo melhores condições de trabalho, redução horário diário de 16 para 10 horas, salários iguais aos homens e dignidade no tratamento. A manifestação foi reprimida à força: as mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada, e 130 tecelãs morreram carbonizadas. Em 1910, numa conferência na Dinamarca, ficou decido que 8 de Março seria o "Dia Internacional da Mulher", em homenagem às tecelãs de 1857, mas só em 1975 a ONU oficializou esta data.

Entristece-me que chegados ao século XXI continuemos a ter de clamar pelo direito à igualdade. Patricia Arquette não usou só o seu glorioso momento de fama, que todo o mundo reproduziu, para o fazer. Continua fazendo, mesmo quando há menos holofotes, acredito que mesmo quando não há holofotes.
É o que fazemos, cada uma à sua maneira, sem as luzes das câmaras on, sem os microfones apontados, e por favor, sem jantares patéticos, em que o expoente máximo é nesse dia não fazer nada em casa e no tal restaurante, aparecerem uns empregados jeitosos. 


Ao passar mais um dia 8 de Março, 
publico aqui um trecho do meu livro MAL ME QUERO. 
ou então uma outra forma de dizer que o(a) último(a) a rir... 

(ou o Dia-Oficial-da-Maria-sair-com-as-outras Marias)

Maria já tinha deixado preparado o jantar dos filhos sem esquecer o pack de cerveja fresca no frigorífico. Sorte, ser dia do jogo com o Benfica, espero que ganhe, pensa, assim nem chateia quando chegar. Mas, este ano, estava decidida. Ia ao jantar que as colegas faziam todos os 8 de Março, também era mulher e tinha esse direito: divertir-se, afinal, é só uma vez no ano!, pensou, justificando-se. 
O Manel vociferava no snack-bar com os companheiros de balcão, agora, desde que passavam as jantaradas do Dia da Mulher na televisão, todas achavam que tinham o direito de se exporem ao ridículo, era vê-las a todas, vermelhas de bêbedas, todas a acharem-se muito engraçadas e soltas por uma noite. Como se fosse igual a uma noite de copos com os amigos, como lhe dissera a Maria. Mas quando ele ia para os copos com os amigos e chegava a casa, tinha o jantar pronto, tudo arrumado, na ordem de Deus. Nesse dia, quem trataria dos putos e da casa? A Maria não podia deixar os filhos com a mãe, ela própria saía com as colegas da hidroginástica e, entusiasta, contara-lhe que, regra geral nestas saídas, convidavam os treinadores, sim, porque elas eram mais velhas que um trapo, sabiam-no, por isso se exercitavam, mas ainda não eram, com a graça de Deus, ceguinhas! Os moços eram todos antigos nadadores de competição, tinham uns corpos lindos, uns doces de rapazes, tratavam-nas carinhosamente por avó antes do nome próprio e levavam-nas sempre a casa. A Maria não achava cómico a mãe, com aquela idade toda, só pensar em laurear, quando dizia que, em especial um deles, havia de ter metido conversa com ela uns 50 anos antes... Maria até se benzera! Credo, Jesus! 
O Manel sempre achara a sogra uma beata metediça, mas agora piorara, pois então!, Apanhou-se viúva, deu em galdéria, nem queria saber dos netos e ainda puxava a filha para a doideirice. Esta ideia agora de ir com a velharia a jantarinhos comemorativos de serem gajas... Logo a sua Maria que sempre tivera tanto juízo, ia dar noutra como a mãe, era o que era! Mas quem discutia com a senhora sua sogra? 
Isto de terem perdido a casa para o banco e terem de ir viver para a vivenda do raio da velha, fora um rude golpe e agora não havia quem a calasse a dar palpites e a comandar a vida deles. A Maria só sabia dizer ámen à velha e ele sentia-se agarrado. Maldito ano de desemprego que o pôs na mó de baixo! Recuperar não estava fácil, já ter este emprego temporário na fábrica tinha sido uma sorte. 
A Maria comprara uma fatiota nova, toda brilhante, bem baratinha na loja dos chineses, parecida com uma que andava a namorar na loja das senhoras ricas. Não era a mesma coisa, mas com o barulho das luzes, passava, a diferença de preço, então... Sapatos, ia levar os dos casamentos, claro que num saquinho de plástico, levava as chancas para trocar, quem aguenta aqueles saltos uma noite inteira, depois de trabalhar todo o santo dia, agora que era ela quem pegara a dianteira e arcava com as despesas da família? Isso é para as tias das revistas! A mãe é que dizia saber por uma colega que, para além dos dias de não fazerem mais nada, senão cuidar de si mesmas ou simplesmente ficarem demasiado exaustas de ver tanto povo nas lojas (coitadas, nem compras podiam fazer em paz!), ao saírem das festas, ao carro patrocinado por uma qualquer marca, levavam a previamente combinada caixa plástica dos croquetes, entradas e afins e aí sim, discretamente, já sem o paparazzi em cima, trocavam o salto altíssimo para a chinelinha de dedo. 
O Manel ia para casa com a ideia no futebol, dia de Benfica! Agora nem pensava em arranjar uma coisa fixa, ia andando aos biscates e parava mais tempo no snack-bar. A Maria ainda passou no cabeleireiro e pediu à maricure para tentar dar um jeito nos trambolhos que costumava chamar de mãos. Sentiu-se bonita aos ver-se de cabelo armado ao espelho. Há quanto tempo não gostava de se ver no espelho? Pondo de outro modo, há quanto tempo não se olhava ao espelho? 
O Benfica fez um jogo miserável... seria possível tanto azar? Cambada de coxos! Deitou-se no sofá a ver televisão. Praguejou quando foi buscar a última cerveja, a Maria não tinha deixado o frigorífico prevenido como ele gostaria naquela noite! 
Já a Maria também bebeu mais que a conta e dançou todo o serão com outras Marias igualmente eufóricas. Gritavam histericamente à chegada dos empregados, do animador do restaurante, de todos os espécimes, género masculino, que simplesmente passavam naquela zona para meramente irem ao WC. Sentiam-se livres por uma noite: “Toca a aproveitar que, depois, só pr’ó ano!” Gritava, completamente embriagada, a Glórinha. 
Manel passava os canais com ar enfastiado. Se tivesse a Maria em casa já estaria a roncar no sofá, não hoje!, ia ficar bem alerta para a hora que ela necessitasse de ajuda. Ai não que não ia...! 

“Algum homem ressabiado!” Dissera a Glórinha, “... Ainda bem que não ando com o volante nas mãos, havia de ser bonito! Estou bêbeda que nem um cacho!” 
A Maria pensara por um momento e não quis acreditar, mas ao constatar a quantidade de carros mandados encostar à berma, de mulheres a apresentar documentação e a fazerem testes de alcoolemia... pensara no Tóino, o amigo polícia do Manel, havia de as safar à multa. Tanto homem bêbado todos os dias ao volante, e fazerem um auto-stop, logo neste dia, só para mandar parar mulheres, era uma vergonha!, uma verdadeira caça às senhoras de família que só podem sair nessa noite... a família, está sempre em primeiro lugar, e só nesse dia - até no trabalho - tiveram direito a uma flor que o chefe trouxe para todas lá na repartição e esta novidade de poder sair à noite… Tirando este dia da Mulher, há quantos anos o seu Manel não a levava a sair, sabendo ele o que ela se desunhava para dar um pezinho de dança? Um carinho, um abraço… nada! Desde que ficara desempregado e sem a casa, o seu Manel andava descorçoado e até o entendia e tentava dar apoio, mas e quem lhe dava o apoio que tanto necessitava a ela, quando a cabeça lhe estoirava com enxaqueca?, quando pensava nas seus serviços todos encaixotados?, nas suas roupas de casa ensacados num recanto na garagem da mãe? Quem lhe dava apoio? A Mãe? Ela preferia que tivesse sido sempre o seu Manel e ele onde? No snack-bar, pois está claro! 
Ele perdera o emprego, mas a Maria também ficou sem a sua casa e estava como uma menina sob o olhar vigilante da mãe de novo, como se fosse catraia. 
O seu olhar ficou ofuscado com a luz fortíssima nos olhos, abismada, com um microfone na frente da cara, sim!, era um carro de reportagem de televisão! Não era nada combinado, não senhor... sentiu-se tonta sem saber o que dizer, só imaginava todos quanto as conheciam a vê-las na reportagem, com os copos, a apanharem multa por excesso de álcool no sangue. Estes gajos fizeram de propósito só para nos deixarem passar vergonha! Depois peço ao Manel que fale com o Tóino. 
Manel desligou o telemóvel e endireitou-se no sofá. Mudou de canal a tempo de ver a triste figura da sua Maria em directo. Sinceramente! Ainda tinha sido melhor que poderia ter imaginado. Televisão e tudo! Quando chegasse apetecia-lhe mesmo deixá-la bazanada. 
Maria entrou cabisbaixa. 
“Linda figura para a mãe dos meus filhos aparecer na televisão!” Rugiu. “Sempre quero ver o que te dizem amanhã no teu emprego, o que vai dizer a tua mãezinha, incluído a vizinhança inteira e na escola dos teus filhos!”
Maria tirou o casaco e suspirou profundamente soerguendo as costas. A Glórinha tinha razão. Ali havia coisa. Custou-lhe a acreditar quando reparou quem estava a falar com o repórter, o bom do Tóino, que de Tóino não tinha nada, não senhor… bem dizia a Glórinha: essa, mesmo pinguça era esperta que nem um alho! Agora, chegada a casa confirmara!, com um Manel tão acordado a essa hora tardia e pelo canal desabitual na sua televisão. O Manel vira. O Tóino avisara-o. A Glórinha tinha razão... se não fosse o Manel o ressabiado que tinha magicado semelhante plano, ia pagar por qualquer outro filho da mãe. Sorriu. Apeteceu-lhe surpreendê-lo como nos filmes da televisão. Com o seu melhor ar contristado, entrou na sala cabisbaixa. As seis garrafas vazias estavam em linha e caídas pela mesa da sala. O Manel fizera menção de continuar a insultar a sua inteligência, mas hoje, apesar de tecnicamente já ter acabado o dia, ainda estava sob a bênção do dia em que as mulheres celebram a sua libertação. 
Libertação. 
Era a sua cartada. 
Aproximou-se das garrafas vazias de cerveja e, agarrando uma pelo gargalo, partiu-a na esquina da mesa de vidro. Antes que o Manel pudesse reagir, já tinha o gargalo aguçado junto do pescoço dele e com a outra mão agarrava-o pelas abas do pijama riscado. 
“Piadinha linda, não foi? Pedires ao teu amigo para se prestar ao papelinho de chibo... Pois bem meu caro, o teu reinado acabou aqui e agora. Manuel Fernando, ainda esta noite sem apelo nem agravo, vais enfiar as tuas coisinhas num saco de plástico, daqueles bem grandes do lixo, bem podes ir bater à porta do teu amiguinho para ficares no sofá dele. Debaixo das telhas que a minha mãe paga, não ficas nem só mais um momento! Ouviste bem?, Manuel Fernando? Hoje, agora, sem um pio, juro-te que se abres essa bocarra te enfio este gargalo boca abaixo! Juro-te!, pela saúde dos nossos filhos, que hoje foi o último dia da tua vida que achaste que és uma pessoa superior a mim!”




sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Luto em vida

Apeteceu-me revisitar este conto do meu livro MAL ME QUERO após ter prestado declarações na esquadra [de violência doméstica] e ter de dolorosamente recordar 9 anos (sim, nove) de situações delicadas (chamemos-lhe assim para não dizer vida/morte) com o meu filho Pedro.
Ter de relembrar e relatar alguns episódios, foi duro. A alma humana é tão generosa ao colocar num cantinho escuro o que não quer voltar a pensar. Recordei este meu livro, escrito antes de toda esta fase acontecer, e que já pronto, resolvi acrescentar esta história. Não é segredo para ninguém que neste conto me inspirei em momentos limite que vivi ao volante do meu pobre carro com o meu filho ao lado a tentar que nos acidentássemos. A realidade superou o que decidi (com)partilhar para as personagens. Já o sentir, esse é muito meu. Pensei que o cantinho escuro me tinha protegido de recordar esses momentos. Mas estão cá.

Mais uma vez apelo, a quem de direito, para que olhe para estas realidades caladas e haja ajuda a estas famílias, muitas vezes contrariamente a mim silenciadas no seu pedido de socorro.




LUTO EM VIDA 


onde se conseguiam contar os 5 pontos sob o penso transparente. Andava a pensar usar franja depois da ferida sarar, ia ficar feio, apesar de todos os amigos a tentarem animar que ia ficar com muito charme.

Quem não estava nada satisfeita era a sua avó Rosalinda, todos os dias lhe pedia para largar aquele emprego, que podia ganhar a vida sem se expor a ser maltratada daquela forma, mas a avó não podia entender que aquele trabalho era muito mais do que ganhar dinheiro para pagar as propinas, o carinho que ganhara a Miguel não tinha fim: era o seu amigo das manhãs! Muito encorpado, com os movimentos tolhidos pela forte medicação que tomava, por vezes não sustinha um fio de baba que vagarosamente escorria para a roupa, sempre alinhada. Fugia frequentemente ao contacto físico e, com o olhar ausente, ficava sentado perto da janela parecendo ver as pessoas na avenida movimentada.



A tarefa de Mónica consistia em ajudá-lo nas tarefas básicas e diárias desde o levantar, a higiene pessoal, preparação do pequeno-almoço e acompanhamento durante a manhã. Era substituída pelo João ao meio-dia. À tarde entrava o Paulo. Eram, ao todo, três estudantes que acompanhavam os dias de Miguel enquanto os pais trabalhavam.
Zé Miguel e Marta adiaram, durante muitos anos, a hora de se tornarem pais, sendo os dois sócios num escritório de advogados, quando finalmente decidiram ficar grávidos, foi uma alegria. Os médicos nunca souberam diagnosticar o que acontecera, Miguelinho era um lindo bebé, simplesmente diferente, mas, aqueles pais, amaram-no incondicionalmente. Refizeram a sua vida em torno do menino e, à vez, iam ficando em casa com Miguel para o acompanharem. Nunca consideraram a hipótese de o internar, adoravam o seu bebé. Com o passar dos anos, foi-se tornando mais complicado e a integração do Miguel na escola foi um drama, ainda assim, lutaram pelo direito que o filho tinha de pertencer a uma escola que se dizia inclusiva e por serem bastante influentes, articulados e, sobretudo, determinados, foram sustentando uma situação com contornos insustentáveis.
Miguel cresceu, era um bebé grande com corpo de homem, muito pesado e descoordenado, mas estes pais continuavam a tratá-lo, a mimá-lo e a conduzi-lo a todas as terapias que poderiam ajudar aquele filho querido. No último ano, foi particularmente difícil quando a escola o resolveu excluir por faltas. Foi uma grande partida da direcção da escola, no sentido em que Miguel estava ao abrigo do artigo 319 * e ainda estava na idade adequada para a frequentar. Realmente faltou um mês em que esteve mais agitado, mas havia um atestado médico e, principalmente porque essa expulsão aconteceu no exacto dia em que, em conversa com a professora de ensino especial, a mãe perguntou como seria no ano seguinte, tendo em conta que a lei tinha mudado e a obrigatoriedade passara dos 16 para os 18 anos. Solícita, a professora imediatamente se encarregou de ir perguntar à direcção da escola... nesse mesmo dia receberam o telefonema com o cortante recado que Miguel estava, a partir desse dia, excluído por faltas.
Sendo os pais juristas sabiam exactamente como levantar o dedo contra o sistema abusivo, mas estando genuinamente cansados desta luta inglória, primeiramente pensaram no Miguel e no seu bem-estar.
Apesar de naturalmente envelhecidos, apesar dos rompantes violentos do Miguel sobre ambos, com especial incidência sobre a mãe, tomaram a decisão de não o internar, ao invés, criaram infra-estruturas em casa, em torno da família, como que uma rede de ajudas que tinham capacidade financeira para pagar, para que Miguel não perdesse as suas referências: Distribuídos por turnos, tinham sempre jovens em casa, geralmente estudantes, para aliviar os pais das tarefas cada vez mais difíceis – dar o banho da noite ou ajudar a vestir e na alimentação – devido ao torpor, ao peso, à descoordenação e à rigidez na locomoção, natural da forte medicação. Ao fim de algum tempo e evidenciado o total desprendimento por Miguel, Marta e Zé Miguel trocavam com frequência a equipa sem que o filho demonstrasse o menor sinal de perturbação.
Até Mónica entrar.
Não se limitava a vesti-lo e dar-lhe de comida. Insistia em falar-lhe sobre todos os assuntos como se Miguel fosse um grande amigo e em algum momento mágico pudesse entender e responder-lhe.
Sem grande espanto, Miguel afeiçoou-se a Mónica como a mais nenhum membro da equipa e os pais reconhecendo esse sinal de esperança, pediram um esforço aos outros elementos, que, de alguma forma, comunicassem com o Miguel, tentando assim encontrar uma luz. Com a chegada do final da adolescência, Miguel estava muito tempo desocupado, sem interesse em qualquer actividade, foi ficando sistematicamente mais inacessível e agressivo.
O único elemento que persistiu, em nunca abandonar aqueles pais dedicados, foi Mónica. Pequena e franzina, foram muitas as vezes que foi até ao hospital – costela partida com um encontrão, um dedo partido e outra vez ainda teve um sério traumatismo craniano.
Claro que batia à Mónica!, e a sua avó Rosalinda reclamava com toda a propriedade. Exasperada, Mónica justificava que era tão pouco o que a atingia, comparando com o que fazia à própria mãe, que inclusive a doutora já tinha tido problemas com a assistente social do hospital que, veladamente, a julgava, pensando ser o marido que espancava a senhora daquela forma. Mónica tentava explicar para que a avó Rosalinda entendesse a mentalidade das pessoas: Em lugar nenhum se acreditava que pudesse ser logo um filho deficiente, um coitadinho, a ser o agressor, que disparatado!, era a senhora a desculpabilizar o marido, só podia ser! Pois claro!, ainda por cima, ambos advogados!, pensam sempre que estão acima da lei!... É uma realidade: no geral, as pessoas apenas viam esta população portadora de deficiência como passíveis de serem vítimas de abuso dos familiares por serem uns alvos fáceis, jamais os agressores! Também é uma realidade que estas famílias abusadas protegem os seus bebés grandes e não contam o que se passa dentro de portas, seja por vergonha ou pela mentalidade do «coitadinho» que ainda grassa por aí; talvez, por isso, não constem das estatísticas de violência doméstica, nem tão pouco as autoridades tenham essa noção.

Sendo a violência doméstica agora um crime público, se um vizinho ligar para as autoridades, perturbado porque ouve reboliço no andar de cima, certamente vai achar que a família está a maltratar a pessoa deficiente e, uma vez com a autoridade à porta, a família encobre com receio do que possa acontecer ao seu ente tão querido. Não é fácil!
Querida avó Rosalinda, para si, as cifras poderão ser nulas ou pouco significativas... mas é como a história das bruxas, nós não acreditamos nelas, mas que as há... há!!!
Mónica continuava a contar que à doutora sim, Miguel atingia forte e feio, sem que se pudesse compreender o porquê, já que era, de todas as pessoas, a que ele mais venerava. Bastava a voz da mãe para Miguel ficar atento e quando entrava na mesma sala parecia esboçar algo parecido com um sorriso. Não era compreensível, mas era mais frequente demonstrar a sua agressividade com a mãe ou com Mónica, exactamente as duas pessoas com quem conseguia alguma débil forma de interacção. Ao longo dos anos Mónica tornou-se confidente da mãe do Miguel, portanto podia descrever à avó exactamente o que aqueles pais sentiam e sofriam por este filho. A avó Rosalinda não conseguia entender como era possível à neta amar uma pessoa que não respondia a um simples sorriso, não podia perceber a alegria de Mónica quando conseguiu que segurasse uma colher – e só o fazia quando comia iogurte de ananás – ou a forma irreflectida como chegava a casa com nódoas negras e dizia que não era nada, apenas porque a mãe tinha apanhado mais.
No mês de Janeiro do ano que Miguel faria 18 anos era necessário deslocarem-se até à Câmara Municipal para dar o nome dele para a tropa. O pai, mais racional, manteve-se na postura de que era uma simples formalidade, mas não era nada simples e transtornou muito a mãe. Então estes pais não podiam ser poupados a um procedimento despropositado que, a haver uma boa comunicação entre entidades, seria desnecessário?
Foi um dia complicado. Marta tinha de levar o Miguel para fazer análises e exames, o que se previa ser uma tarefa fácil, já que o filho gostava do ambiente movimentado do hospital, gostava genuinamente de lá estar. Perto das 9 horas, quando já iam para casa, indignada, ainda pensava na simples formalidade. Deu a volta à praceta e rumou em direcção à Câmara Municipal. Insistia em levar Miguel com ela para dar o nome para a tropa, para poder reclamar junto da instituição, tamanha cretinice.
Nunca lhe tinha acontecido guiar naquelas circunstâncias.
Mais tarde quando pensou, não sabia se teria sido por ter mudado o percurso que perturbou Miguel, se teria simplesmente visto algo que o aborrecera, se teria uma natural dor que não sabia exprimir: era sempre uma angústia tentar perceber o que acontecia ao filho com as súbitas mudanças de humores. Por uma questão de segurança, Marta trancava sempre a porta do Miguel à chave pela parte de fora, ele não suportava o cinto e Marta colocava-o no seu braço direito como se fosse uma alça de uma malinha de mão, porque tinha medo que pudesse saltar em andamento. Não costumava reagir muito, gostava de ser conduzido e apreciava o sol quente na cara, mas nesse dia, fosse porque razão fosse, começou a ficar muito agitado. Absolutamente diferente do comportamento habitual, mexia nos botões todos dos comandos, tentava atingir a manípulo e retirar a mudança ou atingir a chave, pensou Marta com algum espanto, seria para atirá-la pela janela...?, sim o seu dedo indicador esquerdo viajava em cima do botão de controle da janela dele, se assim fosse não a conseguiria abrir. Contudo, a Marta, faltava-lhe mãos para tanta coisa, porque dava jeito conseguir segurar o volante. Claro que ia mais devagar e com todos os sentidos bem alerta, coisa fácil quando se tem a adrenalina a disparar. Ligou os quatro piscas e foi a buzinar furando o trânsito, na medida do possível, mas apenas pôs Miguel mais violento. Naquele momento, só queria que algum diligente polícia a mandasse parar para lhe poder explicar a sua aflição e pedir escolta policial, mas só conseguiu uns olhares contrafeitos ou mordazes de outros condutores que não poderiam imaginar o drama que estava a atormentá-la. Marta encostou o carro o tempo suficiente para pôr o auricular e ligar para Zé Miguel, apesar de saber que àquela hora estaria no tribunal de telemóvel desligado. Arrancou e ligou de seguida para a Mónica. Por essa altura, Miguel já estava bastante colérico e estava a agredi-la. Mónica, ao telefone, perguntava onde estava, para permanecer parada, sair do carro deixá-lo trancado lá dentro... mas Marta só queria chegar a casa e acabar aquele pesadelo. Claro que parar não ia resolver a situação, Marta só queria chegar e acabar a viagem antes que ficasse pior, Mónica concordou. Ficou em linha a dar o apoio moral possível, sentia-se tão impotente!, todo o percurso com ele sempre a ficar mais agressivo, a cada movimento mais brusco, Marta neutralizava com o cotovelo ou com um ombro. A um Aiiii!, ou um NÃO!, de Marta, Mónica perguntava logo o que acontecera, mas Marta respondia apenas: superado. Houve uma altura que se riram porque ouviu-se estridentemente a buzina e Mónica, aflita, pensou que tivesse sido o Miguel, mas Marta confessou que era só um automobilista que queria passar-lhe e estava apenas a ser má ao volante, afinal até lhe estava tanto a apetecer descarregar em alguém!!! A certa altura estava a torcer os dedos de Miguel porque era a única forma de neutralizar as duas mãos e era uma luta renhida pela posse do poder de controlar a situação e se ele tem duas mãos grandes com muita força! Como Marta lhe estava a puxar os dedos para trás, de alguma forma estava a desarmá-lo, Ah!, sim!, era com essas três mãos enclavinhadas, a sua nas dele, que conseguia pôr as mudanças... As pessoas nos outros carros olhavam incrédulos a cena de quase pugilato, mas mais rápido que ajudá-la, julgavam-na: olhavam complacentemente para o pobre deficiente, coitadinho, que estava a ser agredido por aquela senhora má.
A chegada a casa foi já com contornos dramáticos, saiu logo do carro à procura de reforços – só Mónica, que estava à porta, de telemóvel, a reservar um lugar, não ia resultar – teve de vir um jovem vizinho retirá-lo do carro (isso então agora era prática corrente, todos os dias que tinham de sair com Miguel, na sua avenida, já perdera toda a vergonha e olhava em volta a ver a que vizinho solícito iria pedir ajuda).
Depois de o terem conseguido pôr no quarto a dormir, Marta, a quem Mónica dera um calmante, ainda demorou um bocado a descomprimir. Mónica lembrou-se de fazer um chá e convidar o simpático vizinho que não parecia estar com vontade de sair. Havia uma razão. Estiveram à conversa, o que se revelou bom porque a mãe de Miguel, mais relaxada com o efeito da medicação, pôde desabafar um bocado, afinal o vizinho era técnico especializado num Centro com jovens portadores de deficiência e, por conhecer bem demais esta realidade, estava a sugerir o melhor que tinham a fazer (interná-lo). Foi a primeira vez que Mónica viu Marta escutar o que o vizinho contava: talvez pela ressaca da descida da adrenalina, porque o comprimido e o chá a estavam a ajudar a relaxar ou, mais provavelmente, porque falava dos utentes do seu Centro com tanto carinho e dedicação. Deixou-lhes os contactos, disse que poderia explicar o teor do relacionamento com Mónica, que estavam na altura de entrar estagiários, poderiam ir juntos e, caso estivessem interessados, que fossem visitar as instalações. Depois, já mais calma, Marta saiu para ir trabalhar, sem conseguir deixar recado ao Zé Miguel. Parecendo adivinhar, no intervalo, Zé Miguel telefonou para saber como tinham corrido as coisas, parecia que tinham um chip não electrónico, mas sensorial instalado. Internar o Miguel? O desabafo foi brutal. Nunca! Era desistir dele enquanto filho, era fazer o luto em vida!!!
Zé Miguel e Marta sabiam que o curso de Mónica estava a terminar, a vida dela não seria só o Miguel, apesar de afirmar nunca o deixar, Marta bem vira como os olhos lhe brilharam com a possibilidade de estágio, ainda para mais se estivesse com Miguel. Com ou sem Miguel, aquela miúda doce estava a crescer, ia seguir o seu caminho, podiam perder o único elo de confiança que, à partida, poderiam ter numa instituição. Como incessantemente se enfadavam de ouvir de todas as pessoas que os rodeavam – porque não queriam ouvir –, eles não iam para novos, não iam cá estar para sempre com o seu bebé grande... que seria de Miguel se não fossem eles, os seus pais, a delinear, a acautelar atempadamente o seu futuro?

A avó Rosalinda ficou muito esperançada com o entusiasmo da neta. Percebeu que, ainda assim, só iria tentar aquele estágio se os senhores doutores lá colocassem o Miguel, mas já era um passo! A sua neta poderia continuar aquele estranho vínculo que, com os anos, aprendera a respeitar sem nunca ter conseguido compreender e adivinhava que aqueles pais tão extremosos deviam estar de coração partido para conseguirem tomar aquela decisão.


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* -Decreto Lei 319/91, 23 de Agosto. Define medidas de regime educativo especial a aplicar a alunos com Necessidades Educativas Especiais (N.E.E.), dos alunos do ensino básico e secundário.


sábado, 21 de setembro de 2013

Faço 50

Faço cinquenta anos e a pergunta que me apetece fazer é:
Qual seria a tua idade se não soubesses quantos anos tens?

A facilidade que seria responder que todo o mundo diz que não aparento a minha idade... nas tenho-a, e sinto-a bem real nos achaques que não vão embora com a facilidade que tinha aquando dos vintes. 

Faço cinquenta, e não os vejo como o cliché do marcante passar meio século, nem me revejo na imagem difusa de criança que visualizava esta idade já envolta em entorpecidas rendas e olências cânforadas. Será um dia como os outros? Não. Eu adoro fazer anos. É sempre um dia especial.
Acontece que desta vez é estranho. Eu sou uma pessoa intensa - só sei pintar da cor que enche tudo - não passei pela vida incólume e esta entrada numa nova década que deveria ser marcante, que não me diz nada por antecipação, mesmo sendo arredia a qualquer lugar-comum, arrasta-me para um amargo sabor de desenxabido guião inacabado.
Penso que vou deixar-me ir.

Certamente que se em 50 anos não fui nunca de me preocupar com o futuro, não será agora que terei essa filosofia de vida.
Com os quarenta, a maturidade aterrou, mas não foi ao soprar velas, nem pela passagem de um dia no calendário setembrino. Foi chegando, enroscando-se sem avisar e chega-te para lá que me instalei. Eu cresci. Sem pressas, sem tumultos. Um dia dei-me conta que a tal criança interior de que tantos falam em reter, já não era mais pirralha. Foi um processo tão natural como bonito.
Com os cinquenta, e já que expectante não estou, presumo que seja a época de aproveitar a vida. Definitivamente esse seria o desejo, caso soprasse velinhas.
Paz. É um desejo interior e antiguinho. A sugestão de estar descalça no corpo todo, agrada à pirralha que cresceu.
Porque mesmo sabendo que faço cinquenta, se não o soubesse, possivelmente situaria a minha idade noutra faixa etária. Talvez porque a Ana-Mãe prevalece à Ana-Mulher, até à Ana-Profissional e essa preponderância faz com que haja ainda muita estrada para caminhar, desafios a concretizar, vida a ser vivida.
É o que anseio. Tempo com qualidade para o poder, por fim, fazer.




terça-feira, 2 de abril de 2013

Posso falar?

Recordo sempre com carinho um leitor que me escreveu a contar que a filha de 11 anos quis ler o meu livro “Autista… quem? Eu?”. Ele permitiu, e como no final a menina dizia coisas que nos escapam a nós adultos (nessa família não há pessoas com autismo é apenas a reflexão da menina de 11 anos).
Dizia ela: “o Xico tem a minha idade e não consigo parar de pensar no que não pode fazer e eu posso.”
Aquilo que damos como garantido,  aos olhos de uma leitora que se identificou pela faixa etária com a personagem, fascinou-me e comoveu-me tal a sensibilidade da pequena. E contava o pai que durante vários dias o Xico esteve bastante presente no pensamento, discurso e acções da menina que enumerava com frequência momentos que eu, autora, jamais esqueci: dizia à mesa – “o Xico não comeria assim”. dizia a andar de bicicleta - “o Xico gostaria do vento na cara, de certeza!, mas se calhar não saberia pedalar”. Estava demasiado siderada com o que a diferença faz na vida de uma pessoa. 
Isso é consciencialização.


Continuo a afirmar que a consciencialização é necessária, deveria ser obrigatória (por exemplo) nas forças de autoridade. A cada momento acontece alguma situação que nos deixa desconcertados e o que faz a polícia, os bombeiros, a protecção civil? Pois. Explicamos (sim, nós, os pais!) primeiro o que é autismo, para depois nos poderem responder - lamento, não podemos ajudar. Como se não o soubéssemos. E que tal formação para esta gente que pode efectivamente ajudar? Que deveria fazê-lo (e fá-lo-ia) se soubesse como? 
Falar de temas - seja qual for - a datas precisas irrita-me profundamente, é sabido. Porque quem precisa, precisa sempre. Acredito que a consciencialização se faz o ano todo, 365 dias ao ano. Porque o autismo vive connosco 365 dias ao ano. Não apenas a 2 de Abril.

Luiz Caracol - Samba do Bairro

As datas são importantes para dar um empurrão e fazer lembrar que algo existe, que precisa ser valorizado. O que me irrita nas datas comemorativas é o facto de as pessoas só se lembrarem nesse dia. 
No caso de dia 2 de Abril, não é data comemorativa, é o dia mundial para a consciencialização do autismo. Caramba ainda estamos na guerra do básico, do pão com manteiga da coisa - é absolutamente necessário que se saiba, aquele saber que está debaixo da pele, entranhado pelas pessoas que nos rodeiam, para que de uma vez parem de olhar para a nossa população com autismo como uma coisa do outro mundo, não são excêntricos, nem malcriados, são autistas! São diferentes, são especiais? Chamem como quiserem, mas - utilizando uma expressão popular - dêem o nome certo aos bois, chamem-lhe AUTISMO!
Cansa-me profundamente explicar o meu filho a cada situação embaraçosa. Cansa-me justificar comportamentos e acções em torno da ideia do meu filho necessitar do ter um tubo de mm's mini na mão (sim, dá-lhe segurança, paz, faz com que "a cabeça não fique maluca" e se essa tranquilidade é um tubo, porque não compreender o que nos pede sem nos olhar?), cansa-me de explicar ad nauseaum que lhe é tão essencial como um pulmão e agradeço mil vezes aos meus amigos de S. Paulo, Brasil que me enviam caixas de tubos m&m's mini, uma vez que o produto foi descontinuado e só se encontra à venda em S. Paulo. Pergunto: têm noção do tamanho da ternura contida em cada uma dessas caixas que me chega pelos correios? Porque eu encaro isso como um acto de amor incondicional pelo meu filho e por mim um acto de Amizade que não esquecerei nunca! 
Ahhhh sim, e isso, também é consciencialização.
Cansa-me o olhar cansado de pais mais novos ao desabafarem comigo como foi uma consulta de um médico afamado e que sai de lá com um rol de improváveis patologias, mas que garante uns bons dois a três anos de terapias bem dispendiosas que se vêm a revelar inúteis, cansa-me a desunião que o autismo provoca no seio de uma família apenas porque está lá, cansa-me o olhar de comiseração do coitadinho. Cansa-me tanto que ensinei ao meu filho - como ensinei cada frase correcta como resposta adequada a cada momento e situação da vida (chamo a isso ter-lhe fornecido "um banco frases" - dados que ele usa como respostas para as mais diversas situações na vida, e na grande maioria das vezes usa adequadamente, apesar de baixinho me perguntar para validar: "disse bem?") Então, como me cansa o olhar comiserativo e todo o conceito pejorativo do  "coitadinho" também ensinei ao meu filho ter respostas prontas (a roçar o malcriadas, sim), e adequadas a ataques desses, na realidade a saber defender-se na mesma linguagem e ele, lindo menino diz com um ar bem pispineta: "Coitadinho...? Coitadinho é corno!"






Vem aí outro dia 2 de Abril. Este ano não me apetece apenas lutar para conseguir o Cristo-Rei de Azul no dia 2. Ficou lindo nos anos passados, tenho o maior orgulho de me ter empenhado e de ter conseguido, mas este ano, sei lá, quero mais! Quero 250 grs. de PAZ.

(já o peço há vários anos, mas não me canso e continuarei 
até conseguir... isso mesmo - consciencializar)
Dístico de lugar de estacionamento obrigatório à porta de casa de cada família onde habite uma pessoa com autismo - bem sei, não me calo com um detalhe que é tão simples de ser votado na Assembleia da República e ou pelos governantes deste nosso país - porque as rotinas são importantes para estas pessoas e saber que o familiar que os conduz estaciona sempre o carro no mesmo sítio, lhes dá paz.
Bem sei que o pedi directamente ao antigo primeiro ministro Sócrates que me respondeu - a ser como eu dizia, haveria muito a fazer. Pois. Continua a haver muito a fazer, lamentavelmente o sr eng José Sócrates nada fez. Agora tenho um novo pedido. Posso?

Encontro Presencial LX Factory 20 Bloguers com o Secretário Geral do P.S. José Sócrates
Moderador jornalista e bloguer Paulo Querido Uma ideia original do Deputado Jorge Seguro

Formação obrigatória para as nossas forças de autoridade. É necessário e premente que saibam o que é Autismo. Não são mongolóides, não são como o tonto lá da aldeia, não são malucos - e sim!, oiço isto das nossas forças de autoridade a cada vez que me confronto com estas situações. As famílias precisam deste tipo de ajuda? Por favor.... FORMAÇÃO e OBRIGATÓRIA. Vão-me ouvir enquanto não o conseguir!!!
Nem que seja só as 250 grs. de paz para esta população e suas famílias... para mim já chega, já me faria sorrir, nesta minha luta 365 dias ao ano de mostrar que o autismo existe e temos de lidar com ela a cada um dos dias e noites das nossas vidas. 


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