Mostrar mensagens com a etiqueta Mesinha de Cabeceira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mesinha de Cabeceira. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 31 de maio de 2011

Mesinha de Cabeceira #14

de 31 maio 2011





Hoje trago: o meu próximo livro

JV – Esta “temporada” do Mesinha de Cabeceira termina hoje. A nossa Ana Martins vai-se "retirar" - os escritores precisam de tempo e espaço para escrever outros livros.
Assim, pensamos dar a conhecer aos nossos ouvintes, nesta nossa última crónica desta temporada um pouco do making of, do que se passa na cabeça de um escritor, antes de um livro sair nas livrarias e ir parar às nossas mesinhas de cabeceira. É um momento que os leitores têm uma natural curiosidade – como se processa a execução de um livro?
AM – Não há uma norma para todos os escritores. Cada um terá seus rituais e hábitos, há autores muito regrados e focados na rigidez de número de horas de trabalho e outros não. No meu caso, quando me sento a escrever, faço-o com alguma celeridade, uma vez que o livro já está todo na minha cabeça, penso-o, alinhavo-o, pesquiso-o e sei o que vou escrever. Se tenho alguma ideia nova no decorrer da escrita, seja para personagem seja para o enredo, aceito-a, deixo fluir, mas se sair muito do meu projecto inicial, acabo por cortar, a não ser que seja uma boa ideia que me faça pensar em abandonar aquele caminho que inicialmente elaborei. De todas as formas, todos essas maneiras de escrever, da mais regrada à mais livre são viáveis e exequíveis quando se fala de processo criativo. Para o leitor conta o todo, a obra, não o que o autor fez para a tirar dentro de si. Há aquele mito urbano que o escrever é um processo muito solitário, mas eu prefiro chamar-lhe apaixonante e criativo.
JV – Já tem título, o teu próximo livro? Podemos saber ou ainda não revelas?
AM – Não vou revelar, apesar de o projecto já ter nome, aliás, a título de curiosidade, devo dizer que ainda quando estou a delinear o esqueleto de um projecto, em algum momento nasce a ideia de título e em nenhum dos meus livros, mesmo que durante todo o processo pense eventualmente em lhe dar outros títulos, a escolha recaiu sempre sobre a primeira opção. Ou seja, posso dizer que começo um livro pelo título.
JV – Ao que sei, este novo projecto já te acompanha há algum tempo uma vez  que é o segundo romance da triologia sobre autismo, que novidades podes revelar sobre as mesmas personagens?
AM – Neste livro vou mudar o narrador e com isso a forma de olhar sobre as mesmas personagens. Se no 1º livro era o Xavier o narrador, desta vez é o Zé João que nos toma pela mão, nos guia pela casinha do 24 para sabermos como está esta família que os leitores já sentem como sua. Passaram 5 anos. O Xico terá 18 anos e toda a problemática inerente a esta idade. Haverá novas personagens e não vou contar como estão os relacionamentos amorosos entre as personagens, nem o que lhes vai acontecer nesta nova fase. Posso dizer que haverá no ar um grande conflito emocional. Todas as personagens principais neste livro terão um segredo inconfesso (que não sabem ser o mesmo entre si) mas é visto com um diferente olhar e forma de agir por cada uma das personagens.
JV – Se comparamos o teu livro “Autista, quem...? Eu?” com o romance que estás a escrever é só uma continuidade cronológica ou também uma evolução na escrita?
AM – Penso que a cada livro que escrevo há evolução, a mão muda, apuro um estilo muito próprio. E embrenho-me mais nas personagens (não consigo conceber a ideia de uma personagem só para encher) e todas têm o seu espaço e razão de ser. No caso, as mesmas personagens do 1º livro aparecem-nos 5 anos depois no 2º e não é só o tempo cronológico que avança, as personagens tal como as pessoas evoluem, amadurecem, crescem. Daí a mudança do narrador faz com que a visão que darei a este livro seja necessariamente diferente. Gosto disso – de ousar, inovar, criar!
JV – Sendo uma trilogia, já pensaste o 3º livro também?
AM – Sim, é claro. Foram pensados os 3 livros logo de início. Se no 1º o Xico tem 13 anos e falo do tempo da puberdade, neste com 18 anos vou abordar o final da adolescência, quando a escola para estes jovens acaba e as repercussões no seio familiar da entrada na idade adulta. Já no 3º livro o Xico terá 30 e tal anos, a narradora será outra personagem – a mãe – que finalmente escreverá o seu livro, as memórias do tempo de gravidez e primeiros anos do seu filho Xico. Este 3º romance será um brincar com o making of do livro da personagem. Usei esta fórmula para não ser um romance de uma mãe que conta sobre o filho autista. Esta personagem já o público conhece e está já com o distanciamento necessário (30 anos) para não o escrever de forma lamecha. Isso seria de crucial importância para mim, uma vez que estas personagens vivem o autismo do Xico de uma forma natural e saudável.
JV – E poderemos ler cada livro em separado sem precisarmos de ler todos?
AM – Sim, são obras independentes. As mesmas personagens, mas em diferentes momentos de suas vidas. 


terça-feira, 24 de maio de 2011

Mesinha de Cabeceira #13

de 24 maio 2011



Hoje trago: «Ilusão Perfeita» de Jodi Picoult
«Caminhos do Coração» de Helena Sacadura Cabral
e «Vento Suão» de Rosa Lobato de Faria





Nesta altura que estou de volta às páginas do meu próprio livro, não tenho tempo de ler o que se tem publicado, mas não deixei de dar uma espreitadela à montra da livraria do costume [Livraria Dharma] para dar a conhecer aos nossos ouvintes o que podem levar para a mesinha de cabeceira.
Assim, como sugestão, hoje trago 3 livros:

De uma autora que já falei nestas crónicas, JodiPicoult escolhi “Ilusão Perfeita”. Desta vez fala-nos de uma mulher, de um actor de um famoso actor de Hollywood, que acorda amnésica e ferida num cemitério, sem se lembrar quem é ou o que se passou. Quando muito mais tarde começa a lembrar o passado e o que sucedeu, vai levantar o véu de um segredo que vai ter uma enorme dificuldade em lidar. É assim lançado o plot de mais um livro desta autora que promete intensidade e um dilema inteligentemente delineado - dá vontade de devorar só de ler a sinopse.




Depois trago autoras em língua portuguesa.
De Helena Sacadura Cabral, escolhi “Caminhos do Coração”, um livro que nos fala de viagens da sua vida e, com a mestria que lhe conhecemos, de caminho vai contando as histórias que as acompanham.





Por fim, não quero deixar de falar da saudosa Rosa Lobato Faria, um ano após a sua partida, surge “O Vento Suão” este romance conta com um posfácio de Eugénio Lisboa que tem como título “Um prazer interrompido” e não posso deixar de ler este pequeno excerto.




«Quando faleceu, a 2 de fevereiro de 2010, Rosa Lobato de Faria deixou inacabado este Vento Suão. Pôs-se então a hipótese de pedir a um(a) autor(a) das suas relações que imaginasse um desenvolvimento para a história que a morte não deixara chegar ao fim e terminasse o livro inacabado. Depressa se concluiu, no entanto, que tal não era a melhor solução – primeiro, porque não se tinha a certeza de que a autora aprovasse essa inclusão de uma voz alheia no interior do seu próprio fluir narrativo; depois, porque, apesar de inacabado, o romance tinha o desenvolvimento suficiente para se deixar ler como um todo com sentido. Aqui fica, pois, este Vento Suão tal e qual como Rosa Lobato de Faria o deixou. E como derradeira homenagem a uma escritora cuja obra teve como eixos fundamentais “a força da vida, o conhecimento profundo da realidade e do meio em que se agitam os seus fantoches ficcionais, o domínio das minúcias, o fôlego narrativo, a irrupção imparável de um vento negro de violência que impõe uma aura de tragédia intemporal ao que parece quase inócuo”. [Eugénio Lisboa]»


sexta-feira, 13 de maio de 2011

Mesinha de Cabeceira #12

de 10 maio 2011





Hoje trago: «O Bom Inverno» de João Tordo


Nesta altura que decorre a Feira do Livro de Lisboa, curiosamente a minha escolha desta semana recai sobre uma obra do autor João Tordo, publicado pela Dom Quixote já no ano passado – O Bom Inverno – mas pronta a ser descoberto (e lido ou relido, conforme o caso) com uma roupagem nova na página de Facebook de cada um de nós. E como? Muito fácil: Sendo “amigo” do narrador e das personagens deste livro.
Podemos acompanhar esta original edição à medida que for sendo publicado, a do narrador e das suas admiráveis 17 personagens, através do link http://www.facebook.com/obominverno - nesta página, não paramos por aí a nossa leitura, mas sim somos convidados a adicionar a página de cada personagem e iremos saltitar de perfil em perfil para acompanhar o enredo do livro. Pode parecer estranho ou confuso, mas não é. O autor de forma engenhosa apenas utiliza as ferramentas ao dispor de qualquer utilitário do FB para assim fazer história: a primeira publicação Face Books – um livro no “face”.
Tem obviamente os seus leitores (seguidores, se quiserem em linguagem FB) que vão crescendo à medida que este novo projecto, a arrancar agora, está a ser divulgado, com direito a promo oficial da editora no Youtube.
Para acabar quero ainda acrescentar que João Tordo, é um ainda jovem autor – mas já premiado, há pouco tempo ganhou o Prémio José Saramago 2009, com a obra “As Três Vidas” – gostaria de salientar a excelência na escrita, no rigor técnico, sem nunca perder de vista o seu toque apimentado no seu habitual tom zombeteiro. Aqui ele desconstrói o seu próprio narrador (também ele um escritor)


Numa entrevista que podem ler na íntegra no site Ave Rara, o autor João Tordo afirma: «FI-LO PORQUE ACHO QUE É UMA MANEIRA DE O LIVRO CHEGAR A PESSOAS QUE, NORMALMENTE, NÃO LÊEM» 
«O conceito FBooks foi criado pela Leo Burnett Lisboa (espécie de papa-prémios Nobel da Literatura da área da Publicidade) para a Leya e adapta livros de ficção em papel para o Facebook. O conceito, admita-se, é inovador e revolucionário e adoptado a um mundo cada vez mais digital.» in Ave Rara
Video Promo da Editora


terça-feira, 3 de maio de 2011

Mesinha de Cabeceira #11

de 3 maio 2011




Hoje trago: «No Seu Mundo» de Jodi Picoult






Devo começar por confessar que estou neste momento a ler este livro. E gostava de explicar aos nossos ouvintes porque escolho um livro que ainda não li, não conheço na sua totalidade.
Ao saberem da intenção de falar de autismo todo o Abril, muitos dos meus leitores em especial mães e familiares de meninos com autismo me foram dando sugestões de livros que haviam lido e me recomendavam para este mês, e apesar de a minha escolha estar feita, não pude deixar de juntar este livro que trago hoje da brilhante autora Jodi Picoult. Tinha respondido com a condicionante de ainda não o ter lido, mas não só me mimaram com opiniões marcantes, como uma leitora me trouxe, um exemplar na língua original, de Bruxelas!! Por isso, nesta última crónica de Abril sobre a consciencialização para o autismo, estou ainda a ler não a tradução «No Seu Mundo», mas o meu «House Rules» no original e não o consegui ler na íntegra porque para além de ser um generoso volume, em Abril também acontecem as férias da Páscoa e tendo o meu filho comigo, ler é uma actividade que não acontece!
Esta escritora é conhecida por se documentar exaustivamente para cada um de seus livros. E convenhamos, escrever 600 páginas sobre Asperger… devo dizer aos nossos ouvintes que S.A. é a forma mais leve dentro do diagnóstico do autismo. E a personagem Jacob Hunter é terrivelmente literal e autística. Jacob apesar de extremamente inteligente, não percebe nem acompanha as subtilezas da comunicação verbal ou física. Se a mãe disser que demora 10 minutos, aos 11' ele acha que ela morreu e aos 12' está a ter uma crise.
Claro que a Jodi Picoult captou a minha atenção no primeiro parágrafo do primeiro capítulo numa só expressão: “O corpo morto do meu filho Jacob”. Wow!! – Pensei. Como pode esta escritora contar a história, se logo no primeiro parágrafo mata o narrador? Bem sei que é pura técnica e fácil para nós escritores, mas eu também me permito empolgar enquanto leitora!! E depois, um pouco mais adiante, este pequeno e belo excerto que destaquei especialmente para os nossos leitores:


Eu mesma como mãe e autora não o diria ou escreveria melhor.
E a partir daqui toda a leitura se desenrola naturalmente por vezes de forma desenfreada, não quero parar!, mesmo quando não é possível continuar a ler. Está a ser um bom livro.
Jacob, como todos os miúdos dentro do espectro do autismo, tem uma fascinação específica. No caso é a análise forense sistemática de cenas de crime. No decorrer da acção do livro, Jacob é suspeito de ter cometido assassinato e contra ele pesa as características que reconhecemos com facilidade, claro para quem conhece autismo e Asperger. O não olhar as pessoas directamente nos olhos, a postura rígida e/ou a descoordenação nos movimentos, são todas estas acções ditas “inconvenientes” que são identificados pela Polícia como sinais de culpa. A pergunta importante que este livro levanta é – será que somos analisados pela forma correcta de comunicarmos com “o outro”? O que acontece com alguém com autismo/Asperger que têm uma clara inabilidade de seguir as regras sociais?
E para Emma, a mãe de Jacob fica a parte mais dura: (vou ler esta frase do livro) “E Emma Hunt, a mãe, já não sabe no que acreditar quando vê a manta com as cores do arco-íris de Jacob envolvendo o corpo sem vida da tutora.” – Ora… Emma terá de formular, para si mesma, a pergunta mais difícil do mundo: acreditar em quê?, em quem?, e… será o seu filho capaz de matar?



terça-feira, 19 de abril de 2011

Mesinha de Cabeceira #10

de 19 abril 2011




Hoje trago: «Son-rise» de Barry Neil Kaufman






De um relato inicial de 1976, surge este livro de Barry Neil Kaufman, que nos conta na primeira pessoa o caso de seu filho Raun, um menino com autismo severo e como o casal decide começar uma metodologia muito própria (a que chamam SON-RISE) para o resgatar do mundo em que vive e trazê-lo para o “nosso” – com as devidas aspas, uma vez que de alguma forma vivemos todos no mesmíssimo mundo.
É um relato intenso dos avassaladores três primeiros anos desta família, quantas vezes assaltada de dúvidas e incertezas, mas sempre com a tónica na perene luta no resgate do pequeno Raun das mãos do autismo. E, efectivamente, neste caso acontece, pese embora que até à data desta crónica, não seja conhecida a causa ou a cura do autismo. Na tradução do título para Português fica-nos o segredo deste sucesso – MILAGRE DE AMOR – e se analisarmos este relato de uma forma honesta, vemos que a jornada deste casal em torno de seu filho é baseada no bom-senso de pais que querem o melhor para o seu filho. Que o milagre se vá dar a cada caso? Pois aí pessoalmente tenho as minhas sinceras dúvidas, mas acredito que é possível melhorar as condições e qualidade de vida nesta forma de resgatar um filho do autismo. E sei, porque de uma forma absolutamente autodidacta o fiz com meu filho Pedro nos seus primeiros anos de vida. Tinha visto o filme inspirado neste livro na televisão ainda em adolescente, é um filme marcante, não passa despercebido e mais tarde sendo já mãe, eu sabia ainda antes da comunidade médica acertar no diagnóstico do meu filho que era como o menino daquele filme e que eu iria fazer o meu próprio milagre de amor.
J V – E Ana… aconteceu com o teu filho a remição como com o Raun Kaufman?
A M – Não, João Victor, no caso do Pedro há muita patologia associada e dificilmente poderia acontecer… Sabes que nenhum caso é igual quando se trata de autismo, contudo, até no caso severo do Pedro posso dizer que é hoje um adulto bastante funcional. Esta filosofia deste casal Kaufman foi fundamental na abordagem que eu como mãe escolhi fazer e que é sabido, ao longo destas últimas décadas tem sido seguida por muitas famílias. Devo acrescentar, logo agora neste mês de Abril que escrevo estas crónicas de livros sobre autismo, sabendo que finalmente chegou a Portugal o programa Son-rise pela mão da associação Vencer Autismo, não poderia deixar de incluir esta válida sugestão: leiam o livro Son-rise ou procurem o filme “Milagre de Amor” ou com o título na versão brasileira “Meu filho, meu mundo”, porque está disponível na net.
Eu aconselho-o aos pais que, depois de um diagnóstico de autismo, buscam por uma resposta, eu aconselho este livro ou filme – pelo menos àqueles pais que têm vontade de se mexer e não ficam apenas à espera que os médicos e técnicos façam tudo…



terça-feira, 12 de abril de 2011

Mesinha de Cabeceira #9

de 12 abril 2011



Hoje trago: «O Estranho Caso de um Cão Morto» de Mark Haddon






Ora… estamos perante o melhor livro alguma vez escrito sobre autismo! O autor consegue a genialidade de entrar, de proporcionar o desmontar de uma cabeça autista a nossos olhos, os ditos “normais”, vista de dentro – jamais nos poderia descrever de forma tão lúcida se não fizesse do jovem autista Christopher de 15 anos o narrador! Esta é, do meu ponto de vista, a chave de sucesso deste livro. Brilhante Mark Haddon! A própria concepção e apresentação do livro é original: os capítulos não estão numerados naturalmente são todos números primos, ou seja começa no dois (2, 3, 5, 7,11,13…) e acabem no 233. Tem desenhos, esquemas, algoritmos - como se fosse um livro de apontamentos do Christopher. Deixar-nos embalar pelo raciocínio vertiginoso de um autista, como vê a vida, como sente cada momento, os medos e as fobias, as preferências e as incoerências que ligam o nosso interruptor da compreensão do que é afinal simples, e nos explica o porquê de nos desconcertar com uma naturalidade arrevesada. Esta leitura dos factos na cabeça do Christopher, a personagem/narrador autista é cativante.
O "Estranho Caso do Cão Morto" é um livro premiado, é um best-seller, um dos mais vendidos da década - vendeu mais de 2 milhões de cópias e é o único livro que faz frente ao estrondoso sucesso do escritor Dan Brown. E... é simplesmente um livro de apontamentos de um miúdo autista!!


J V – Ana, também tu escreveste um livro que abordas o mesmo tema no teu romance: “Autista, quem…? Eu?” Se na tua opinião, como acabaste de dizer, colocar na pele do narrador o jovem autista é a solução perfeita, então qual foi a tua solução no teu livro?
A M – Eu coloquei na pele do narrador o Xavier, o baby-sitter do menino autista. A fórmula que usei é simples – o Xavier um bom rapaz, estudante de música, queria ganhar uns trocados e aceitou ser o baby-sitter do sobrinho de um amigo. Não sabia o que era autismo, mas dispôs-se aprender. Ora nessa caminhada da personagem/narrador da estranheza à procura pela compreensão do Xico, aquele menino ao mesmo tempo encantador e bizarro, faz com que o Xavier como que dê a mão ao leitor e o leve na descoberta do que realmente vem a ser o autismo. À justa medida que o Xavier vai entendendo e se apaixonando pelo mundo do Xico, o leitor vai-se entusiasmado e sem se dar conta entende o autismo.
J V – Então podemos dizer que esse é o segredo do sucesso deste teu livro? Ser um romance que além de lúdico é educativo? Porque já é um livro com algum tempo e sei que continua a ser falado e comprado…
A M – É verdade, João Vítor, este romance já vai para 5 anos que foi lançado e continua a ser procurado, comentado e usado como base para diversos trabalhos de estudantes deste país. Deixa-me muito orgulhosa, este percurso que este meu livro tem feito. Sabes que há dias um escritor meu amigo me disse a propósito que tirando os grandes nomes, um livro tem vida curta em Portugal. Primeira edição e desaparece das bancas, quanto muito existe uma segunda edição. Mas um livro que subsiste 5 anos, com o historial bonito que este tem feito e vai ter agora a 3ª edição, ainda para mais requisitado por uma nova editora uma vez que a que o editou faliu e deveria ter ditado também a morte do livro, é um feito de que me devo honrar muito! E é real, tenho mesmo muito orgulho a cada leitor que me procura para me contar há quanto tempo leu o livro e o que aprendeu com as minhas palavras. Isto sim tem para mim um valor que não há palavras!!
J V – E deve ser compensatório este trabalho em prol do autismo! Nós vamos continuar a consciencializar aqui na Marinhais FM ao longo de todo o mês de Abril!



terça-feira, 5 de abril de 2011

Mesinha de Cabeceira #8

de 5 abril 2011




Hoje trago: «Uma outra maneira de ser» de Elisabeth Moon



Esta autora de ficção científica escreve sobre autismo com muita propriedade. Sabe o que faz numa arrojada visão de um (im)provável futuro onde a ética e o avanço surpreendente da medicina se cruzam e enleiam. Tendo como ponto de partida um futuro mais ou menos próximo (em que já existe cura para o autismo), escreve sobre um tratamento experimental que faz as pessoas com esta condição ficarem “normais”. Ora, a partir daqui abre-se a discussão na cabeça de cada leitor. Desperta-os para questões sociais, morais e principalmente éticas: Então um indivíduo com autismo é menor? Ao submeter-se ao tratamento, será uma pessoa melhor? Será a mesma pessoa? A quem serve esta homogeneidade? Num naipe de personagens bem pensadas, Elisabeth Moon escreve um livro sublime, tocante e forte, que consegue ajudar a perceber algo tão intrincado como é o autismo. Mesmo para quem não conheça, este é um livro enternecedor.
O trecho que vou ler hoje é um eloquente pensamento da personagem Lou Arrendale, adulto, independente e autista:



terça-feira, 29 de março de 2011

Mesinha de Cabeceira #7

de 29 março 2011




Hoje trago: 
«O Nosso Tesouro Escondido - Amor Sentido» 
de Mina Viana


No próximo sábado, dia 2 de Abril, comemora-se o Dia Internacional para a Consciencialização do Autismo. Não é um vulgar dia de comemoração. Destina-se a consciencializar a comunidade em que vivemos que esta perturbação de comportamento existe, aliás, só assim faria sentido. Existem várias comemorações a decorrer no dia 2, sendo as com maior visibilidade os edifícios públicos que acendem as luzes em tons de azul. Empire State Building já o faz há 4 anos, as Cataratas de Niagara, o Cristo Redentor no Rio e por cá conseguimos dois pontos de destaque: A Torre dos Clérigos e o Cristo Rei.
E porque é tão importante consciencializar a comunidade? Porque é uma perturbação que passa despercebida a um primeiro olhar e porque as acções e reacções dos portadores dentro do espectro do autismo não serem facilmente entendidos.
Este livro que vos trago hoje é um bonito e sentido relato na primeira pessoa de uma Mãe de um jovem adulto com Síndrome de Asperger. Da sua vivência, como a sua vida se transformou com o nascimento deste filho querido e do tanto que tem feito para lhe dar o melhor. O mesmo que cada mãe deseja para um filho, é certo. Com as famílias com um elemento com autismo ou Asperger as experiências são vivenciadas ao limite das forças e da coragem. E ainda assim estas famílias conseguem superar todas as adversidades.
A forma de um autista ou Asperger entender o mundo é peculiar, por isso desconcertante, e torna os portadores do espectro pessoas “estranhas”. A meu ver não o são. Porque os observo, os conheço, me deixo embrenhar na sua diferente forma de ver este mundo e quantas vezes chego à conclusão que não só o vêem com mais cores do que nós – os ditos normais – como me deixo encantar com uma descrição de uma realidade que nunca parei para pensar e ver com essa clareza.
Ao ler estas palavras do Bruno, o filho da autora, este raciocínio tão brutalmente literal, ajudou-me a entender todo a elaboração mental que naturalmente fazem para explicar algo de tão simples, e de tão simples, conseguimos chegar ao entendimento do que parece apenas irracional, esquivo e tonto.


«Lá diz o ditado "mais vale tarde que nunca", é muito difícil chegar a horas ao emprego porque há muito trânsito, mesmo saindo de casa para ir para o trabalho cerca de duas horas antes da hora de entrada no emprego com o trânsito completamente parado se chega atrasado.
Na cidade do Porto, a ponte do Freixo é sempre uma boa opção para quem quer sair da cidade do Porto em direcção a Sul, raramente tem muito trânsito. Quem utiliza os transportes públicos para ir para o emprego também muitas vezes chega atrasado porque perde o transporte e tem de esperar por outro alguns minutos... Mas como o provérbio diz "mais vale tarde que nunca", podemos chegar atrasados ao emprego. Se quem chegasse atrasado ao emprego fosse despedido, então quase toda a gente tinha ido para o olho da rua. Mas como o provérbio diz: "mais vale tarde que nunca". É melhor chegarmos tarde ao emprego.
Não é engano é melhor todos chegarmos atrasados ao emprego. É que se formos a horas para o emprego, os terroristas como sabem que as pessoas entram no emprego aquelas horas locais, foi o que aconteceu em Nova Iorque no dia 11 de Setembro de 2001 e em Madrid no dia 11 de Março de 2004 e em Londres no dia 7 de Julho de 2005, onde eles atacaram essas cidades àquelas horas e se chegássemos atrasados estávamos salvos porque a essa hora as bombas já rebentaram e continuávamos vivos que é o mais importante de tudo.
Conclusão: Se chegarmos a horas nunca chegaremos, porque antes de lá chegarmos somos mortos por terroristas. Por isso "mais vale tarde que nunca".»

por Bruno Viana in "O Nosso Tesouro Escondido - Amor Sentido" de Mina Viana



terça-feira, 15 de março de 2011

Mesinha de Cabeceira #6

de 15 março 2011



Hoje trago:
«O Trompete de Miles Davis»
de Francisco Duarte Azevedo





Vou estar hoje ao final da tarde no lançamento do primeiro romance editado do meu amigo Francisco Duarte Azevedo, será pelas 18h no Instituto Camões e vai ser apresentado pela escritora Lídia Jorge. É com muito gosto em vos trago este livro em primeiríssima mão publicado pela Editora Planeta.
Numa leitura impregnada de jazz, chega-nos num tom policial a notícia que o trompete verde de Miles Davis, que estava exposto na biblioteca da universidade de Rutgers, em Newark é roubado. O reitor põe de imediato um seu amigo na pista do trompete, um detective português emigrado nos EUA que curiosamente desmaia quando vê cadáveres e se tranquiliza quando entra nas livrarias para olhar lombadas de livros. É esta personagem, que conduz o leitor pelos meandros da comunidade portuguesa de Newark enquanto investiga o desaparecimento do trompete. O autor dá-nos a provar da realidade social de Newark e de Nova Iorque, leva-nos pelo intenso campo de batalha entre gangues e polícias, mostra-nos com perícia a problemática da emigração ilegal sempre com um especial enfoque na vivência da comunidade portuguesa. E tudo isto no contínuo ritmo compassado da batida de jazz.




terça-feira, 1 de março de 2011

Mesinha de Cabeceira #5

de 1 março 2010

Hoje trago:
«O homem que plantava árvores» de Jean Giono








Este não é um livro novo, é um aclamado conto publicado em 1953, saiu em filme em 1987 (está disponível no Youtube e aconselho vivamente) e vou falar agora que sai uma nova edição, é um livro pequeno com bonitas ilustrações, mas com um conteúdo imenso.
Muito se falou deste conto de Giono cuja mensagem esteve muito adiante do seu tempo, na sua intenção de um mundo melhor – reflorestar para rejuvenescer o planeta. A sua personagem, Elzéard Bouffier, um pastor que chamou a si uma missão e todos os dias plantava árvores, tendo o especial cuidado de escolher previamente as melhores sementes. Como o local que plantava era longe de sua casa, veio a construir outra casa mais perto para não deixar de cuidar das suas ainda pequenas árvores, deixou a pastorícia com receio que as ovelhas estragassem a sua obra e dedicou-se à apicultura. Sabia de uma nascente e construiu diques, irrigou o terreno, transformou em poucos anos um vale árido e desolado numa floresta magnificente, o que valeu ao local tal fama que milhares de pessoas foram viver para lá sem saberem que aquele pastor lhes proporcionou essa felicidade.
Durante décadas o autor permitiu que fosse alimentado o mito que a personagem seria homenagem a uma pessoa real e que o narrador do conto o alter-ego do autor, mas só cerca de uma década depois de publicado, Jean Giono confessou, numa carta, que a sua personagem Elzéard Bouffier era ficcional e que a sua intenção era que os seus leitores gostassem de árvores, melhor ainda, que gostassem da ideia de plantar árvores. Dizia ainda como este seu conto havia sido traduzido em tantas línguas e os livros distribuídos pelo mundo gratuitamente, que não tinha ganho nada com o livro e contudo, era o texto de que mais se orgulhava de ter escrito.
Para terminar, quero realçar que este livro pequeno é impresso em papel reciclado e dá a garantia que por cada livro vendido, uma árvore é plantada.

Depois, gostava só de salientar estes livros que vêm em embalagem de dois e na compra de um exemplar, a editora 7 dias e 6 noites e o autor oferecem outro às crianças de Moçambique ou Cabo-Verde. E ainda incitam o comprador/leitor a fazer uma dedicatória no exemplar de oferta!
«O rei e a estrela» de Vanda Furtado Marques com ilustrações de Lurdes Silva
«Aliane e Zaneah» de Francisco Fernandes com ilustrações de Sílvia Neto Gonçalves
«Uma lágrima chamada Sal» de Hélder Reis com ilustrações de José Nelson Pestana Henriques


O Filme de 1987 - vale a pena ver




terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Mesinha de Cabeceira #4

de 22 fevereiro 2010



Hoje trago:
«Um Livro» de Hervé Tullet





Perguntaram-me como faço a minha selecção a cada semana e gostaria de explicar aos nossos ouvintes: Há uma loja de que gosto muito, a Livraria Dharma, onde vou sempre procurar as novidades para fazer esta crónica e a dona, a Carla, permite que traga para casa os novos livros da semana para que analise e faça a minha escolha. Ter os livros comigo em casa é uma pesquisa completamente diferente e gostaria de publicamente aproveitar o ensejo para agradecer à Carla da Livraria Dharma.
Para hoje quedei-me na secção dos livros infantis, particularmente num tão visual que pensei ser um desafio engraçado explicá-lo aqui na rádio, sem o suporte da imagem.
Conseguem imaginar um livro simples que se chama UM LIVRO e que por ilustrações tenha apenas bolas? Vou tentar que o imaginem: começa com uma bola amarela e um pedido – carrega neste círculo amarelo – o que qualquer criança responde com a ingenuidade que nós adultos já perdemos e cinicamente pensamos que nada acontece se carregarmos numa bola amarela numa folha de papel. Mas estamos enganados. A criança carrega e ao virar a página acredita nas duas bolas amarelas que estão previamente impressas. E ao novo pedido na página seguinte estarão três e a criança sorri. Depois há outro pedido que esfregue o círculo amarelo da esquerda. De notar que o adulto compreende que se está a introduzir a noção de lateralização com a brincadeira e ao virar a página, a cor dessa bola mudou. É a noção das cores que aparece com um sorriso e nesse momento a criança tira-nos o livro da mão e acha-o mágico, mas o adulto já se deixou encantar pela brincadeira e não deixa que a criança descubra a etapa seguinte e já estão ambos sentados no chão e este livro, que é apenas um livro com bolas, já conquistou o seu público.
O meu filho já não tem idade para este livro, poderia pensar, mas eu quis brincar com ele e ver a reacção às sucessivas etapas. Carregou, esfregou e sacudiu a cada pedido. Quando tirou o livro das minhas mãos encantou-me e de repente tinha o meu filho pequenino de volta num simples jogo e aquele livro com bolas voltou a fazer magia por uns segundos.
O pedido que mais gostei, é que o livro seja inclinado e todas as bolinhas descaem para o lado esquerdo e depois ao contrário e parecem rebolar para o lado direito. Brincam com o leitor pedindo que toque, esfregue, incline, abane e sopre, com mais força, mais devagar e as luzes apagam-se e acendem e quando se pede palmas e mais força nas palmas as bolas crescem e crescem até quer toda a página seja amarela! E no fim, tal como no princípio, o livro acaba com uma bolinha amarela incitando a que se jogue outra vez.
Eu? Já não o fiz com o meu filho. Perderia a magia de o ter visto bebezinho de novo, mas para quem tenha filhos pequenos, aconselho O LIVRO.
Como nota de rodapé, gostaria de terminar com uma nova editora de livros infantis que apareceu, a Bags of Books Edições, com uma mestria nas ilustrações que me encantou feitas com pedaços de tecidos e botões alinhavados ou papéis recortados fazendo um apelo simpático à reciclagem mas com um grafismo dos nossos dias.




terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Mesinha de cabeceira #3


de 15 fevereiro 2011

Hoje trago:
«Cartas de Amor» de Pablo Neruda


Há um livro que sai esta semana pela D. Quixote que quero destacar: As cartas de amor de Pablo Neruda para a sua Matilde Urrutia, a publicação de postais, cartas e bilhetes furtivos do período de amor proibido, até ao final de suas vidas, já casados e com um amor maduro, dos anos ‘50 até à morte do poeta em Setembro de ’73.
Na mesma altura que vem a lume haver provas de um outro amor proibido no final da sua vida, um segredo bem guardado pelos amigos de Neruda, em que a amante furtiva seria Alicia Urrutia, uma sobrinha de Matilde que descobriu tudo e expulso-a de casa, é a mesma altura que sai este cartas de amor e percebemos a força desse sentir que pulsa nesta obra.
É um livro que apetece ler, descobrir, saborear. Esta colectânea tem um grafismo apetitoso. Dispõe os bilhetinhos, postais e cartas reproduzidos a cores, e sentimos como Neruda os escrevia. Escondido, enquanto viajava com Delia, a legítima antes de Matilde, ou enquanto assistia a congressos ou até quando dava um salto de fugida aos correios. A forma como datava as missivas é igualmente original. Poderia ser o dia, o mês, com ou sem ano, ou como mais gostei: “Hoje sábado”. Percebemos pormenores como quando uma caneta falha e ele a substitui, os erros ortográficos, os desenhos engraçados que acompanham os bilhetes, as gralhas quando estreia uma máquina de escrever que confessa não ter muito jeito, sempre com um sentido de humor e ternura que nos comove e dá vontade de mais.
Para terminar, são várias as passagens que eu poderia escolher como a melhor para vos ler, mas prendi-me com esta despedida que achei francamente original. Não diz de que ano, datou apenas “Paris 28”, mas presume-se que seja do inicio do relacionamento, 1950.





Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...